quarta-feira, fevereiro 04, 2009

O equivoco mata porque as inocências continuam




Obama, a «questão racial» e o esplendor do equívoco, Inocência Mata, Angolense 24 a 31 de Janeiro


Tentando mostrar porventura que os exercícios intelectuais não são para todos , isto é , tentando demonstrar que não podem ter a opinião livre dos habituais situacio nistas que , consoante os tempos vão mudando , eles e elas mudam logo de ideias em nome do actualismo , nomeadamente quando passam a ter alguma visibilidade , Inocência Mata lembrou-se de retirar da "gaveta " do seu pensamento o mais " puro " e felizmente curto , discurso estruturalmente racista . Que , como é bom de des de logo ver , tem o seu caminho bloqueado pela história , devido ao simples facto de , após a análise científica se impôr , certamente que todo o situacionista , dependen do logicamente da perspectiva dominante do lugar geográfico que pretende sobrevalorizar , admitirá que o facciosismo é , por vezes bem menos temerário , bem mais performativo na sua ideologia , e bem menos idealista quanto ao processo histórico concreto . Diz a Catedrática num texto sobre a eleição de Baraka Obama que"a realidade concreta , histórica , é que as pessoas são discriminadas pelas suas diferenças fenotípicas " . Começa mal o texto e começa mal o seu mal -estar por causa disso mesmo porventura , pois não se sente bem certamente quem pretende , ainda hoje , encobrir uma ideologia que defende o anti-racismo teórico . Senão vejamos .

1º A professora doutora sabe que não pode afirmar " realidade concreta , histórica " , porque está a confundir o dia de hoje com o dia de ontem e os dias dos séculos anteriores . Se tal é propositado ou não só a sua própria prática o poderá demonstrar. E está a confundir os dias porque sabe muito bem que nem a realidade moçambi cana é igual à realidade angolana , nem tão pouco a realidade estadunidense é equivalente à realidade japonesa , a um plano ; tão pouco a história do apartheid pode ser idêntica à história das relações entre africanos e europeus de origem em São Tomé , por um lado , no Princípe , por outro , a outro plano . É certamente motivo de mal -estar falar em " realidade africana " e logo confundir Angola e Moçambique , colocando à moda do nacionalismo do MPLA e da Frelimo , ambos os países no "mesmo sa co" . Mesmo na literatura , tivesse estudado a realidade de ambos os espaços sociais em profundidade , e tinha chegado á conclusão , simples , de que não eram só os vários componentes de naturalidade angolana e moçambivana que eram diferentes entre si , eram os próprios colonos e era a própria minoria branca que era completa mente diferente no seu modo de ser e lidar com a "questão rácica " . Não o admitir , é sintomático de quem é pelo menos ignorante do processo histórico de ambos os países .

2º Barak Hussein Obama é mulato , palavra " feia " na origem mas nem por isso historicamente verdadeira . E porquê ? Porque é filho de um homem negro e de uma mulher branca . Como muito bem é sabido a relação entre os iniciais elementos do comércio longínquo - que se transformou em comércio escravista históriamente - levou a que o nacionalismo " rácico " e de cor da pele se andasse a defender pelo mundo em nome da "Mãe África " . Essa foi a justificação emepelista para em vez de lutar contra o colonialismo em 1975 tivesse incentivado a luta contra os Colonizadores em Angola , contra aqueles , milhares, que" fabricaram " mulatos " e nem sequer os perfilharam , etc. Ou seja , mesmo não se aceitando , compreende - se o juizo de valor contra o Pai " Europeu " . Ora , como muito bem se sabe , não é bem a mesma coisa ser colonialista e ser colono , filho de colono ou até...descendente de filho de colono . Nem academica , nem socialmente . Se se insiste em que Barak Obama é negro e não mulato , é porque não se entende de todo que , no caso concreto , é a "Mãe América " ( ou Mãe Europa ?) que deve ser sobrevalorizada e não o Pai "Africa no " . Ou então há manipulação de dados . Num rasgo individualista , no entanto com a pretensão legítima de conhecer a realidade objectiva gostaria de compreender qual a razão pela qual o meu filho é conhecido nas ruas periféricas da casa familiar em Luanda como Pula ou como Branco e Barak Obama é Negro ? Será por causa daque
la impossibilidade da ciência em "atingir " o facto de as " pessoas " e as " coisas " serem aquilo que os outros pensam ou entendem que elas são ? Ou será que nos dias que correm os Catedrátciso se andam a guiar cientificamente por critérios desses ou por categorias dessas ?

3º Certamente porque haverá muitas formas de pensar e muitas formas de julgar , a ciência , a prática científica , não deve ir atrás de noções sistematicamente situacio nistas , do género ser "fascista " no tempo do fascismo , ser democrata no tempo dos democratas , ser racista no tempo do racismo , nem tão pouco ir atrás de hábitos regionalizados neste mundo que é só um . Por isso , do sopé da minha não academicidade , venho implorar a quem de direito ...ou de mérito , que me dê umas explica ções , pagas é claro pois certamente por divida histórica o merecerá , sobre a questão " racial " dado haver quem , no seu afâ de defender até aos limites os " seus" , ao mesmo tempo que os " outros " ainda não sairam de uma fase de atacar os "seus" deles , confunde no pequeno texto , simultaneamente política , discriminação social , e história .

Finalmente , porque acredito que " o grande perigo de uma ideia repetida até à exaustão é ela começar a acreditar-se verdadeira " há que defintivamente não preten der igualdade naquilo que só a partir de agora , historicamente , vai ser possível : o paralelismo entre África e Europa . E porquê ? Porque as " memórias de tempos de discriminação biológica , interdição cultural e proscrição política " são mesmo apagáveis . Sejam eles de longo termo ou de pequeno e médio termo . Por exemplo , em Angola , um dirigente do MPLA , dizia há tempos atrás que os angolanos tinham feito mais em 4 anos do que os portugueses (ou os colonos ?) durante o colonialismo . Será que não conta a afectação de recursos respectivos para se comparar o trabalho dos "colonos" , dos " naturais da terra " , dos " angolenses " e dos " indigenas" se comparados com o parasitismo da classe dominante actual ...de mãos dadas com o estrangeiro eficaz (quando havia uma administração competentissima de gente da terra antes da independência ) , e em cadeia , de todo o tipo de produção sequente por parte dos trabalhadores actuais ? O racismo estrutural de quem considera Barak Obama como negro é da parte ´de quem , catedrático inclusivé , não consegue ultrapassar a diferença artificial entre " brancos " e " não brancos " , construida pelos apartheids deste mundo , utilizando a nacionalidade portuguesa e porventura tendo ajudado , historicamente , a que , ao nível dos poderes de decisão política directa , um país multirracial como Angola se transformasse num pais de negros como muitos brancos lá dentro ; e Portugal se transforme , a custo , num país multirracial ...À revelia , inclusivé da história catedrática , pois , felizmente , foi a competência e o mérito que acabaram sempre , até hoje , por vir ao de cima na aventura que é a história da Humanidade .

Eugénio Monteiro Ferreira /4 de Fevereiro de 2009

2 comentários:

mariKota disse...

É sempre agradável, para mim, visitar este espaço e encontrar registos que me fazem relembrar sempre que "é inútil chorar, se choramos aceitamos e é preciso não aceitar", como escreveu um poeta angolano!
Roque Santeiro, uma referencia sem dúvida pra todos os que caminham atentos ao Mundo e trazem Angola no coração!

CÁ FICO disse...

interessante....como penso do mesmo modo...ou diferentemente?