Um local de alguma cultura, mas também alguma estupidificação, como é revelador ter chegado aos quase 50 anos sem ler o D.Quixote do Cervantes, o próprio, depois de ter perdido tanto tempo a ler tanta treta...Já agora, fale-se aqui muito de Angola...E do resto,desde que não pessoalizem quem não é figura publica como é o meu caso e o meu ocaso!
quinta-feira, outubro 25, 2018
quarta-feira, fevereiro 14, 2018
CAMILO NOS “ECOS HUMORÍSTICOS DO MINHO” EM 1880(EXCERTO)
CAMILO NOS “ECOS HUMORÍSTICOS DO MINHO” EM 1880(EXCERTO)
«Padres, cheios de ideias e bifes de cebolada, fazem discursos com largos gestos, aquecendo as imagens com os cigarros que sorvem engolindo o fumo e a gramática num grande desprezo da moral e da sintaxe. São os futuros abades e cónegos. Braga tem exportado alguns oradores excelentes para estes comícios rurais. O povo das feiras escuta-os com atenção palerma, e parece que os acredita tanto nas estalagens como nos púlpitos. A religião e a política deste povo, pelo que respeita à consciência, é tudo o mesmo. O cristianismo é uma exterioridade de símbolos, sem ideia, sem convicção, com todos os prejuízos da Idade Média, e nenhum dos preceitos sociais da religião depurada pela joeira da filosofia. Aqui, de dez em dez anos, aparecem uns missionários que são uns Dantes extemporâneos na descrição miúda do inferno. Não ensinam, rugem horrores sempiternos, que perdem na fé dos ouvintes o que lucram na intensidade descritiva dos tormentos. Ora, “pregar não há-de ser praguejar”, dizia Gil Vicente a D. João III dos frades de Santarém. Algumas mulheres, durante a missão, rapam as cabeças, emagrecem, abandonam a lavoura, desprendem-se das obrigações domésticas, e ficam para toda a vida inúteis, em uma pasmaceira estúpida. Outras, não se rapam, nem se convertem; pelo contrário, depois dum grande misticismo sem orientação inteligente, despapam-se na languidez da carne ociosa, e fazem asneiras como quase todas as ascéticas dos modernos romances – as Albinas e as Amélias de Zola e Queirós. Mas as ladras ficam ladras; e as que tinham razão de macerar o corpo dão os próprios ossos ao diabo».
sábado, dezembro 09, 2017
OPERAÇÃO VICTORIA OU MORTE: SUA EXPLICAÇÃO
OPERAÇÃO VICTORIA OU MORTE: SUA EXPLICAÇÃO
Há 47 anos, teve lugar a operação Victoria ou Morte, que foi realizada a 4 de Junho de 1969. Muito tem sido já falado, em Angola, no tempo em que existia um conflito latente entre o Povo Angolano e o colonialismo português.
Desde a data da acção no 4 de Fevereiro de 1961, o Comité Director do MPLA não cessava de chamar a atenção das condições que existiam entre os beligerantes. Foram lançadas palavras de ordem, no sentido de se realizarem "acções e mais acções", constituindo bases seguras para se alcançar o fim da presença colonial na nossa terra.
Deve ter sido uma das acções de maior vulto realizada, porque a organização das células estava em consonância com as directrizes que o MPLA havia determinadas, no contexto de se levar a todo o espaço do território angolano, a chama da Liberdade e a vontade de vermos a nossa terra Independente, ao lado de outros países, para se irradicarem todas as formas de colonialismo em África, e prosseguir o seu caminho (como dizia o Presidente Agostinho Neto).
Aliás, este facto foi um dos pressupostos que mais tarde, em 1963, esteve na origem da fundação da OUA (Organização de Unidade Africana).
O Mundo já estava em evolução. Muitos territórios tornavam-se independentes. Com a aparição dos dois blocos que criaram a Guerra Fria, logo a seguir a Segunda Guerra Mundial, o fenómeno da evolução passou a constituir a principal preocupação dos povos colonizados.
Surgiram os ideais do Pan-Africanismo; ouve a mudança da Sociedade de Nações para a Organização das Nações Unidas; as Independências do Terceiro Mundo estavam a vista; muitas conferências se realizaram; as lutas de Libertação chegaram as regiões vizinhas de Angola. Os Portugueses, em face da opressão causada nos territórios coloniais, eram denunciados nos mais diversos areópagos internacionais.
Em contrapartida, os colonialistas portugueses diziam que em Angola ninguém queria a Independência, e que todas as ideias vinham de fora, principalmente dos Congos e dos Comunistas. Os Portugueses ignoravam as prisões e as deportações dos Angolanos.
AS VISITAS DE MARCELLO CAETANO
A 17 de Abril de 1969, O Professor Doutor Marcello Caetano, pisava talvez pela segunda vez a cidade de Luanda. Creio que, quando ele era Ministro das Colónias, veio a Angola para inaugurar o Porto Comercial de Luanda, em 1947.
Em 1969, já como Primeiro Ministro de Portugal, realizou mais uma visita oficial, que servia para demonstrar que "Angola era Portugal", e que as Populações Angolanas não queriam a Independência.
Os Portugueses tiveram reações de contentamento em terem aqui o sucessor de Salazar. Por sua vez, algumas das reações dos Angolanos naquele tempo, oscilavam entre a continuidade da presença lusitana, e por outro lado, a opinião daqueles que já estavam enquadrados em grupos envolvidos em acções clandestinas de apoio às lutas de Libertação Nacional que na altura estavam associados ao MPLA e a UPA. E bom aqui referir que naquele tempo só estes dois movimentos, lutavam NACIONALMENTE, contra os desígnios do colonialismo português.
As pessoas podem perguntar o seguinte: E a UNITA? A UNITA não existia. Alguns dos chefes que mais tarde iriam fazer parte da UNITA estavam na UPA, que já vinha da UPNA. A designação de UPNA significava União dos Povos do Norte de Angola. Dois Presidentes (Kwame Nkrumah e Amed Sekou Touré), chamaram o Presidente Holden Roberto e procuraram saber se ele só pretendia libertar o Norte de Angola. Foi por isso que os dois presidentes mandaram retirar o "N", ficando só o termo UPA (União dos Povos de Angola).
Mais tarde, dadas as divergências entre Holden Roberto e Jonas Savimbi, foi criada a UNITA, em 1966. A partir daí, a UNITA, em princípio, só estava conotada com alguns membros da SWAPO e da SWANU. Só dois anos mais tarde, por causa do Caminho de Ferro de Benguela, é que a UNITA entregou-se de mãos dadas a tropa portuguesa, a mando de Costa Gomes e da PIDE.
Em face dos demais, condicionamentos de traição, a UNITA ligou-se a política de Mwangai, ao Apartheid, e aos interesses relacionados com as desavenças regionais. Foi assim o percurso que a UNITA teve, quando se aliou ao inimigo número um de África, no então regime racista da África do Sul.
Como seguíamos as directrizes que eram provenientes do então Comité Director do MPLA, de que eram necessárias realizarem "acções e mais acções" para expulsão do Colonialismo Português em Angola, decidimos também juntar esforços neste sentido.
FOI NESSA PERSPECTIVA QUE SE REALIZOU A OPERAÇÃO "VICTORIA OU MORTE"
Esta missão teve como principais objectivos o seguinte:
1- Demostrar a África e o Mundo e ao colonialismo português, que a luta de Libertação levada a cabo pelo MPLA era para obtenção da Independência de Angola, e para terminar com o colonialismo português na nossa terra.
2- Libertar as senhoras da Igreja Metodista Unida de Angola, detidas pela PIDE/DGS, desde 25 de Outubro de 1968, na prisão de São Paulo em Luanda. O nosso grupo levou um avião para Ponta Negra, afim de pressionar o Governo fascista português a libertar as vinte(20) senhoras que estavam encarceradas.
3- Foi a resposta concreta à propaganda colonial portuguesa que se havia servido da viagem do então Chefe do Governo Português, Professor Doutor Marcello Caetano a Angola em 17 de Abril de 1969, que dizia que os Angolanos não queriam a Independência, e que eram pessoas estrangeiras que alimentavam tal pretensão.
4- A Operação foi de encontro às palavras de Ordem da Direção do MPLA, acima citadas.
5- A Operação "Victoria ou Morte", foi igualmente para homenagear os patriotas Angolanos que já haviam derramado o seu sangue pela libertação da Pátria e para pressionar o Mundo para a libertação de todos os presos políticos.
1- Demostrar a África e o Mundo e ao colonialismo português, que a luta de Libertação levada a cabo pelo MPLA era para obtenção da Independência de Angola, e para terminar com o colonialismo português na nossa terra.
2- Libertar as senhoras da Igreja Metodista Unida de Angola, detidas pela PIDE/DGS, desde 25 de Outubro de 1968, na prisão de São Paulo em Luanda. O nosso grupo levou um avião para Ponta Negra, afim de pressionar o Governo fascista português a libertar as vinte(20) senhoras que estavam encarceradas.
3- Foi a resposta concreta à propaganda colonial portuguesa que se havia servido da viagem do então Chefe do Governo Português, Professor Doutor Marcello Caetano a Angola em 17 de Abril de 1969, que dizia que os Angolanos não queriam a Independência, e que eram pessoas estrangeiras que alimentavam tal pretensão.
4- A Operação foi de encontro às palavras de Ordem da Direção do MPLA, acima citadas.
5- A Operação "Victoria ou Morte", foi igualmente para homenagear os patriotas Angolanos que já haviam derramado o seu sangue pela libertação da Pátria e para pressionar o Mundo para a libertação de todos os presos políticos.
Quando surge o 4 de Junho de 1969, tudo mudou e a 10 de mesmo mês, as senhoras da Igreja Protestante eram postas em liberdade, por causa da Operação de resgate. Elas sofreram muitos interrogatórios; muitas delas às altas horas da noite. Continuo a dizer que a PIDE não tem perdão. As senhoras já tinham sido condenadas e deveriam ir para o Namibe, na Baía dos Tigres, quando realizamos a Operação.
A PARTICIPAÇÃO DA IGREJA PROTESTANTE
A minha família ajudou a libertar o nosso País. Nem há nenhuma dúvida quanto a isso! Muitas famílias também fizeram o mesmo. Desconhecem-se muitos aspectos da participação efectiva, na Luta de Libertação, de muitos outros cidadãos!
Assim da Torre do Tombo extraímos os seguintes Processos da PIDE/DGS, assinados pelo Inspector Adjunto Reis Teixeira, e dirigido ao Encarregado do Governo Português, Mario Governo Montez, em 19 de Agosto de 1972.
ALBERTO ANTONIO NETO
Em Março de 1960, encontrava-se já referenciado como elemento politicamente suspeito, por tomar parte em reuniões clandestinas no Musseque do Cemitério Novo, utilizando para o seu transporte e de outros uma carrinha que então possuía.
Em Março de 1960, encontrava-se já referenciado como elemento politicamente suspeito, por tomar parte em reuniões clandestinas no Musseque do Cemitério Novo, utilizando para o seu transporte e de outros uma carrinha que então possuía.
É pai de Luís António Neto Kiambata e de António Alberto Neto, sendo o primeiro, um dos assaltantes do avião DC-3 da D.T.A. que em Junho de 1969 foi obrigado a mudar de rumo e seguir para Ponta Negra; o segundo irmão ausentou-se ilegalmente da Metrópole em 1963, seguindo para França onde se formou em Direito, sendo um fervoroso adepto da Independência de Angola, de tendências acentuadamente comunistas e representante do MPLA em Grenoble.
JOSEFA LUÍS ANTÓNIO NETO
É casada com Alberto António Neto, anteriormente mencionado.
Foi detida em 1968, para averiguações, por ser membro activo da OMA, Organização da Mulher Angolana. Por despacho do Exmo Secretário-Geral, de 23 de Maio de 1969, foi-lhe fixada residência em Luanda por três anos.
É casada com Alberto António Neto, anteriormente mencionado.
Foi detida em 1968, para averiguações, por ser membro activo da OMA, Organização da Mulher Angolana. Por despacho do Exmo Secretário-Geral, de 23 de Maio de 1969, foi-lhe fixada residência em Luanda por três anos.
TEODORO ERNESTO WEBBA
Em Março de 1958 enviou uma carta a COSTA N'KODO, elemento preponderante da UPA, para ser entregue por este ao Administrador de Matadi, no qual solicitava autorização para fixar residência naquela localidade, com toda a sua família, e fazia acusações contra as autoridades portuguesas.
Em Maio de 1960 foi indicado pela Aliança Evangélica de Luanda, como um dos seus delegados à Conferência Central que se realizou na Rodésia do Sul, não lhe tendo sido concedida autorização para ali se deslocar por motivo dos antecedentes que contra si existiam.
Em Março de 1961, foi preso pelas autoridades administrativas de Cambambe, por estar implicado numa tentativa de rebelião, de carácter terrorista, que deveria eclodir em 15 de Abril seguinte, na referida região. Considerado elemento perigoso, foi-lhe aplicada a pena de seis anos de fixação de residência, conforme despacho do Exmo. Secretário-Geral de 1 de Agosto de 1961. Por despacho da Sua Excia o Governador-Geral, de 13 de Agosto 63, foi-lhe dado por finda a pena.
Em Abril de 1964, solicitou a transferência da sua residência para o Quessua-Malange, tendo-lhe sido indeferida por despacho do Exmo Secretário -Geral.
Em Dezembro de 1969, segundo informação digna de crédito, Teodoro Webba, a uma interpelação de uma Irmã sobre a sua mudança de credo religioso, teria respondido, "A esperança dos negros está numa fé forte e no ódio ao branco e suas aldrabices".
Em Março de 1958 enviou uma carta a COSTA N'KODO, elemento preponderante da UPA, para ser entregue por este ao Administrador de Matadi, no qual solicitava autorização para fixar residência naquela localidade, com toda a sua família, e fazia acusações contra as autoridades portuguesas.
Em Maio de 1960 foi indicado pela Aliança Evangélica de Luanda, como um dos seus delegados à Conferência Central que se realizou na Rodésia do Sul, não lhe tendo sido concedida autorização para ali se deslocar por motivo dos antecedentes que contra si existiam.
Em Março de 1961, foi preso pelas autoridades administrativas de Cambambe, por estar implicado numa tentativa de rebelião, de carácter terrorista, que deveria eclodir em 15 de Abril seguinte, na referida região. Considerado elemento perigoso, foi-lhe aplicada a pena de seis anos de fixação de residência, conforme despacho do Exmo. Secretário-Geral de 1 de Agosto de 1961. Por despacho da Sua Excia o Governador-Geral, de 13 de Agosto 63, foi-lhe dado por finda a pena.
Em Abril de 1964, solicitou a transferência da sua residência para o Quessua-Malange, tendo-lhe sido indeferida por despacho do Exmo Secretário -Geral.
Em Dezembro de 1969, segundo informação digna de crédito, Teodoro Webba, a uma interpelação de uma Irmã sobre a sua mudança de credo religioso, teria respondido, "A esperança dos negros está numa fé forte e no ódio ao branco e suas aldrabices".
SIMÃO JOÃO CARDOSO
Esteve detido desde 8 de Junho a 13 de Agosto, por ter contribuído com dinheiro para as famílias dos presos políticos.
Em Outubro de 1970, esteve, juntamente com outros, no palácio do Governador Geral a solicitar explicações sobre a detenção de alguns estudantes universitários que haviam seguido para Cabo-Verde. É considerado no meio estudantil universitário como elemento político perigoso.
Esteve detido desde 8 de Junho a 13 de Agosto, por ter contribuído com dinheiro para as famílias dos presos políticos.
Em Outubro de 1970, esteve, juntamente com outros, no palácio do Governador Geral a solicitar explicações sobre a detenção de alguns estudantes universitários que haviam seguido para Cabo-Verde. É considerado no meio estudantil universitário como elemento político perigoso.
GASPAR ADÃO DE ALMEIDA
Foi preso em 7 de novembro de 61 por actividades subversivas, tendo-lhe sido aplicado a pena de dois anos de fixação de residência, por despacho do Exmo Secretário Geral, de 26 de Dezembro 61.
Continuou sempre referenciado como elemento muito suspeito politicamente.
Foi preso em 7 de novembro de 61 por actividades subversivas, tendo-lhe sido aplicado a pena de dois anos de fixação de residência, por despacho do Exmo Secretário Geral, de 26 de Dezembro 61.
Continuou sempre referenciado como elemento muito suspeito politicamente.
EMILIO JÚLIO MIGUEL DE CARVALHO
É arguido no processo-crime no. 617/61, por actividades contra a segurança do Estado, tendo confessado nos autos as suas actividades que consistiram em:
Ter feito parte de reuniões de carácter político-subversivo atinentes à Independência de Angola.
Ter recolhido fundos para a "UPA", a qual pertenceu posteriormente;
Ter remetido para o estrangeiro propaganda, pedindo o auxílio dos países africanos para luta de que fazia parte.
Pelos crimes praticados foi punido, por despacho do Exmo Secretário Geral de 31-01-62, com uma medida de segurança administrativa de fixação de resistência por 3 anos, que cumpriu.
É arguido no processo-crime no. 617/61, por actividades contra a segurança do Estado, tendo confessado nos autos as suas actividades que consistiram em:
Ter feito parte de reuniões de carácter político-subversivo atinentes à Independência de Angola.
Ter recolhido fundos para a "UPA", a qual pertenceu posteriormente;
Ter remetido para o estrangeiro propaganda, pedindo o auxílio dos países africanos para luta de que fazia parte.
Pelos crimes praticados foi punido, por despacho do Exmo Secretário Geral de 31-01-62, com uma medida de segurança administrativa de fixação de resistência por 3 anos, que cumpriu.
ZACARIAS JOÃO CARDOSO
Em 1963, segundo noticia inserida no boletim semanal "Victoria ou Morte ", no 12 de 10 de Nov 62, do MPLA Fazia parte do Comité de Estudantes nos EUA, os quais manifestavam a sua simpatia e apoio a unificação dos movimentos terroristas numa Frente de Libertação Nacional.
Existe contra ele, pedido de captura (US no. 208/63 da Direcção- Geral)
É irmão de Simão João Cardoso.
Existe contra ele, pedido de captura (US no. 208/63 da Direcção- Geral)
É irmão de Simão João Cardoso.
MANUEL ANTÓNIO MONIZ
Tem criticado o Bispo Andreassen por este ter, por diversas vezes, defendido a política de Portugal no Ultramar.
Tem criticado o Bispo Andreassen por este ter, por diversas vezes, defendido a política de Portugal no Ultramar.
RITA AMARO WEBBA
Referenciada como membro activo da "OMA", tendo sido detida em 1969 para averiguações.
Por despacho do Exmo. Secretário Geral, no 23.5.969, foi-lhe fixada residência em Luanda por três anos.
Referenciada como membro activo da "OMA", tendo sido detida em 1969 para averiguações.
Por despacho do Exmo. Secretário Geral, no 23.5.969, foi-lhe fixada residência em Luanda por três anos.
JULIO JOÃO MIGUEL
Em 1959 pretendeu passaporte para se deslocar ao estrangeiro.
Elaborado a respectiva informação que foi presente ao Exmo. Secretário Provincial, a mesma mereceu o seguinte despacho: "Informa-se que, dado os antecedentes do Miguel, não é de conceder o passaporte pedido nem de permitir a sua saída da Província.
Tem interdição de saída (O. S. No. 331/59, de 27 de Nov 59, da Delegação).
É pai de Emilio João Miguel de Carvalho, já mencionado como candidato a Bispo.
Em 1959 pretendeu passaporte para se deslocar ao estrangeiro.
Elaborado a respectiva informação que foi presente ao Exmo. Secretário Provincial, a mesma mereceu o seguinte despacho: "Informa-se que, dado os antecedentes do Miguel, não é de conceder o passaporte pedido nem de permitir a sua saída da Província.
Tem interdição de saída (O. S. No. 331/59, de 27 de Nov 59, da Delegação).
É pai de Emilio João Miguel de Carvalho, já mencionado como candidato a Bispo.
Há a tendência muitas vezes propositadas para se esquecerem algumas participações da luta pela independência do nosso País. Este facto do esquecimento, chega hoje em dia, a desmotivar e a desmoralizar muitos que merecem ser recordados enquanto estiverem em vida.
Pior ainda, é que existem indivíduos sem escrúpulos que não fizeram mesmo nada, nem mexeram nenhuma palha mas beneficiaram e continuam a receber algumas benesses que deveriam ser atribuídas aos verdadeiros Antigos Combatentes.
Na nossa África podem haver casos particulares que não se inserem nesta minha opinião, mas é uma grande verdade, que muitos só se lembram dos patriotas quando morrem. Este é um mau princípio. Lembrem-se deles enquanto estiverem em vida.
Portanto, quando forem solicitado por Antigos Combatentes, por favor, deiam-lhes uma melhor atenção. Não se esqueçam que foram eles que libertaram o nosso País.
Nesta hora em que recordamos os nossos camaradas, rendo homenagem ao Diogo de Jesus e ao Nelito Soares, pelo contributo que prestaram a causa da nossa Libertação. Recordo igualmente, todos que também participaram para que a nossa Missão se realizasse:
Luís Benedito Guimarães
Manuel Acácio Simões
Juca Valentim
Carlos Jorge
Flávio Fernandes
Luís Benedito Guimarães
Manuel Acácio Simões
Juca Valentim
Carlos Jorge
Flávio Fernandes
Os nomes das Senhoras que foram libertadas a 10 de Junho de 1969:
Leocádia de Figueiredo
Antónia Brandão Gaspar Martins
Mariana Pedro Neto
Rita Amaro Webba
Josefa Luís António Neto
Domingas Felix
Lucrécia Verissimo e Costa
Rebeca da Silva Cardoso
Eva Sebastião Felix
Maria da Conceição Gaspar Martins
Antónia Mendes
Conçeição Martins (Avó Ximinha)
Sra. Josefa, lavadeira da D. Lucrécia
Beatriz José da Silva Cassule
Teresa da Silva Pimenta Cajocolo
Eva Francisco Silvestre
Eva Gaspar Martins
Ruth, da Igreja do Redentor
Uma Sra que tinha ido visitar a D. Lucrécia, acabou também por ser presa.
Leocádia de Figueiredo
Antónia Brandão Gaspar Martins
Mariana Pedro Neto
Rita Amaro Webba
Josefa Luís António Neto
Domingas Felix
Lucrécia Verissimo e Costa
Rebeca da Silva Cardoso
Eva Sebastião Felix
Maria da Conceição Gaspar Martins
Antónia Mendes
Conçeição Martins (Avó Ximinha)
Sra. Josefa, lavadeira da D. Lucrécia
Beatriz José da Silva Cassule
Teresa da Silva Pimenta Cajocolo
Eva Francisco Silvestre
Eva Gaspar Martins
Ruth, da Igreja do Redentor
Uma Sra que tinha ido visitar a D. Lucrécia, acabou também por ser presa.
Estas senhoras, a maior parte delas já não pertence ao mundos dos vivos, nunca foram nem homenageadas, nem condecoradas, nem patenteadas. Aliás, é um direito que as assiste, assim como de muitos mais Antigos Combatentes que todos os dias calcorreiam, muitos sem sucesso, as ruas das nossas cidades, para saberem se já saíram as listas, quer de promoções, de patenteamentos, quer de pensões, num vai e vem em que as dificuldades sociais estão nitidamente à vista de todos.
Também, muitos Antigos Combatentes confrontam-se com a animosidade, sobretudo em Gabinetes onde vão saber algo a que têm direito, e não poucas vezes são mal atendidos, esquecendo certas pessoas que os fazem passar vexames, de que esses é que deram o melhor de si para libertarem Angola.
A minha mãe e as outras senhoras sofreram as sevícias da PIDE. Neste momento, ela tem 95 anos. A PIDE introduzia entre os dedos e as unhas uma agulha, para as presas falarem. Esses são alguns dos crimes que os fascistas e colonialistas protagonizaram.
O mais velho Francisco José Fortunato, falecido a já algum tempo, falou comigo e disse o seguinte: "Que tinha sido projectado da Delegação do Huambo do segundo andar, em 1968, pelo agente da PIDE, o Investigador Reis. Até o velho Fortunato falecer, tinha problemas de coluna.
De igual modo, o também mais velho Kandumba Hoji, do seu nome Daniel da Silva Neto, presenciou o seguinte: "A PIDE amachucou o falecido Paiva Domingos da Silva com paus, chicote, e sem camisa. Eu estava na cela em face do Paiva da Silva"- afirmou o antigo combatente Kandumba Hoji. Os carcereiros que massacraram o Paiva da Silva, eram o Lontrão, o António Rodrigues e o seu cunhado David, comandados por São José Lopes. Kandumba Hoji ainda disse: "Que comemos carne humana, em São Pedro da Barra, na altura em que o grupo de Angelino Alberto se entregou às Autoridades Portuguesas". Daí Kandumba foi transferido para a cadeia da PIDE em São Nicolau, no Namibe, e de lá, "observou pessoas que foram queimadas nos fornos que estão dentro das cadeias".
É por isso que volto a dizer que a PIDE não tem perdão.
De igual modo, a PIDE esteve também relacionada, por exemplo com Carlos Pacheco, o tal que sonhou com Salazar....
O que escreve o dito angolano português, Carlos Pacheco, demostra uma grande falta de patriotismo. Não há dúvidas que ele, por não ter participado na luta do povo angolano pela Independência, teve a meu ver, estreitas ligações com a PIDE, do qual depois de ter sido um Comando Português, desvalorizou-se porque muitos daqueles citados, já não podem defender-se e como agente e informador da PIDE, Carlos Pacheco simplesmente tem em vista o exercício de agradar os seus verdadeiros mentores.
É possível que um fraldiqueiro, um cão acostumado ao regaço de homens e mulheres, se comporte como um animal canino que esteve ao serviço da PIDE? Ele é um soberbo que está a procura de poiso, isto é, da PIDE para se aquartelar.
São esses os duplos de nacionalidade que tenho insistido em desmascarar. Aconselho que se resolva a questão presente da Dupla Nacionalidade. Há alguns que usufruem disso:
Alguns Membros dos principais partidos políticos, a saber, do MPLA, da UNITA, da CASA-CE, etc....
Alguns Ministros
Muitos que têm casas , sobretudo em Portugal, África do Sul, etc.
Alguns membros do Oposição. Cheguei a perguntar recentemente ao Sr. Ministro das Relações Exteriores, o Dr. Chicoti, na Reunião dos Embaixadores, se é legítimo, se é normal, se é ético um agente diplomático, beneficiar do Estatuto de Dupla Nacionalidade. Não tive resposta.
Alguns Jornalistas, muitos deles em conflito com certas franjas do povo angolano, agridem-no vergonhosamente, sem respeito para com a mãe África. Alguns desses são os continuadores dos Bufos da PIDE, e desvalorizam a própria Independência Nacional. Quem quiser ter outras nacionalidades, não sou eu que lhes vou proibir. A única coisa a fazer é abdicarem da nacionalidade angolana. Todo angolano só deve ter como estatuto, uma só Pátria, a Pátria Angolana. Quem for Angolano deve, em primeiro lugar ser Angolano.
Alguns Membros dos principais partidos políticos, a saber, do MPLA, da UNITA, da CASA-CE, etc....
Alguns Ministros
Muitos que têm casas , sobretudo em Portugal, África do Sul, etc.
Alguns membros do Oposição. Cheguei a perguntar recentemente ao Sr. Ministro das Relações Exteriores, o Dr. Chicoti, na Reunião dos Embaixadores, se é legítimo, se é normal, se é ético um agente diplomático, beneficiar do Estatuto de Dupla Nacionalidade. Não tive resposta.
Alguns Jornalistas, muitos deles em conflito com certas franjas do povo angolano, agridem-no vergonhosamente, sem respeito para com a mãe África. Alguns desses são os continuadores dos Bufos da PIDE, e desvalorizam a própria Independência Nacional. Quem quiser ter outras nacionalidades, não sou eu que lhes vou proibir. A única coisa a fazer é abdicarem da nacionalidade angolana. Todo angolano só deve ter como estatuto, uma só Pátria, a Pátria Angolana. Quem for Angolano deve, em primeiro lugar ser Angolano.
E porquê que digo isso? Digo porque se não fosse assim, não teria sentido a nossa luta de libertação. A luta de libertação foi para quê? Todo o jornalista que tiver uma outra nacionalidade, além de ser anti-patriota, é um Imbangala doutros tempos, um descendente dos indivíduos que foram agentes da PIDE.
Os nossos mortos, feridos, mutilados, etc, merecem mais respeito, senhores políticos, de todas as matrizes. Os jornalistas Angolanos não podem ser estrangeiros também.
Quando houve a reunião do Alvor, devem lembrar-se do que disse o Presidente Agostinho Neto a dado passo: "Aqui as pretensões dos colonialistas ficaram enterradas para sempre". Nós saudamos os teus filhos que tombaram pela nossa Independência, porque a Pátria nunca mais esqueceremos!!!
Está é a minha opinião!!!
Mesmos os portugueses têm cláusulas que determinam em que condições um indivíduo perde a sua nacionalidade. Aqui, até o João Soares, o Zé dos Anzóis...e a Cabra Cega da Ana Gomes que são portugueses, vêm a Angola para nos insultar.... Eles ainda pensam que Angola é da mãe Joana!!!
AS CÉLULAS.... E O NOSSO PROJECTO DE LUTA PARA A INDEPENDÊNCIA
O nosso projecto foi para contradizer o espírito da portugalidade que o regime fascista tinha imposto. Foi também para valorizar a nossa terra, dando dignidade a todo povo angolano, que soube enfrentar com abnegação e espírito de sacrifício contra a escravatura, a humilhação, os vexames, e eu tenho sempre dito, a portugalização dos espíritos, por causa da nossa mãe África.
Triunfou a razão, porque a causa do povo angolano enquadrou-se no domínio das guerras justas, e foi para defesa dos valores da Liberdade e para o resgate da identidade, pela construção de um mundo melhor, rumo a amizade é a solidariedade entre povos, pela paz, pela victoria e progresso da Humanidade. Foi por isso que se lutou.
Diogo de Jesus foi um dos principais organizadores das redes que operavam na Ilha de Luanda, no Comité Regional de Luanda (CRL) da rede do MPLA. Ele participou no FUJA. O FUJA era a Frente Unida da Juventude de Angola, um agrupamento de estudantes do Liceu Nacional Salvador Correia, fundado por Alberto Neto, em 1961. Faziam parte do FUJA, além de Alberto Neto, Diogo Fernandes Jacinto Lourenço de Jesus, João Arnaldo Saraiva de Carvalho (o Tetembua), Eduardo Santana Valentim (Juca Valentim). O FUJA tinha por fim enquadrar os estudantes angolanos e mentalizá-los sobre a Independência de Angola.
Com a ida para estudos em Portugal, de Alberto Neto, o FUJA ficou a ser dirigida em Angola, por Juca Valentim. Mais tarde, e ainda nos anos 60, alargaram-se as redes do MPLA, e os seguintes elementos faziam parte das células:
Juca Valentim, Vicente Pinto de Andrade, Diogo Lourenço de Jesus, Luís Neto Kiambata, Manuel Domingos Jorge, o companheiro Sousa- do ASMA, Gilberto Saraiva de Carvalho, André Mateus Neto, António José Ferreira Neto, Álvaro José de Melo Cerqueira Santos, Rui Filipe Martins Ramos, António Garcia Neto.
Juca Valentim, Vicente Pinto de Andrade, Diogo Lourenço de Jesus, Luís Neto Kiambata, Manuel Domingos Jorge, o companheiro Sousa- do ASMA, Gilberto Saraiva de Carvalho, André Mateus Neto, António José Ferreira Neto, Álvaro José de Melo Cerqueira Santos, Rui Filipe Martins Ramos, António Garcia Neto.
Por outro lado, Diogo de Jesus animava em simultâneo a rede do MPLA na Ilha de Luanda. Faziam parte:
Aldemiro Vaz da Conçeiçao, Luís aceita "Luís XV", Francisco Caetano "Kiriata", Vicente Pinto de Andrade "Ndembu", Joaquim Vanga, Makiala, Vasco de Jesus, Domingos Mário Simão "O Boa", Manuel Bernardo, Eusébio Dias dos Santos, Calhandro "Mvula".
Aldemiro Vaz da Conçeiçao, Luís aceita "Luís XV", Francisco Caetano "Kiriata", Vicente Pinto de Andrade "Ndembu", Joaquim Vanga, Makiala, Vasco de Jesus, Domingos Mário Simão "O Boa", Manuel Bernardo, Eusébio Dias dos Santos, Calhandro "Mvula".
Formou-se depois o Comité de Acção Nzají, dirigido por Luís Benedito Guimarães "O Kalaff". Faziam ainda parte:
Manuel Acacio Simões, Chico Romão, Manuel Caetano Soares da Silva "Nelito Soares", Luís Neto Kiambata, Juca Valentim.
Manuel Acacio Simões, Chico Romão, Manuel Caetano Soares da Silva "Nelito Soares", Luís Neto Kiambata, Juca Valentim.
A partir deste grupo, é coptado Juca Valentim, para o Comité Nzaji, para questões técnicas de apoio à Operação "Victoria ou Morte", que na altura estava em curso.
De igual modo, Kiambata foi transferido do CRL para o Comité Nzaji, para acompanhar mais de perto os propósitos da Operacão.
QUANDO ADERIU AO MPLA? UMA BOA PERGUNTA!!!
Não é fácil, nem tão pouco cómodo falar de si próprio. Aderi ao MPLA em 1963, através do meu irmão mais velho, Dr. Alberto Neto. A partir daí, foram criadas células em algumas cidades de Angola. Foi através do meu irmão que algumas células tomaram contacto com a Direção do MPLA, isto na fase do Comité Director. Através de contactos, recebíamos informações, alguma documentação vinda quer de Brazzaville, da Argélia ou de Conakry.
Foi ainda em 1963 que tivemos conhecimento das primeiras dissidências no seio do MPLA, onde alguns camaradas se sentiam desmoralizados por causa do que se passava no então Congo Léopoldville, em que o desaparecimento de Patrice Lumumba iria criar uma grande tragédia que se arrastou até aos nossos dias.
Foi também nessa altura que a OUA foi fundada, por trinta (30) Chefes de Estado, que se propuseram levar avante os propósitos da Libertação de África, a nossa mãe África como tenho sempre dito. Nas nossas redes clandestinas, ouvíamos nomes como Kwame Nkrumah, Sekou Touré, Ben Bella, e possivelmente de outros, que mais tarde viríamos a conhecer.
Quando aconteceu o 4 de Fevereiro de 1961, e a repressão que se seguiu, surgiu um nome que não posso deixar de mencionar. Trata-se do Comandante Paiva Domingos da Silva. Já na Angola Independente, ele participou na ODP, (Organização de Defesa Popular).
Uma vez em Lisboa, o Dr. Arménio Ferreira disse-me que o Inspector Reis Teixeira, antigo Director da PIDE, frequentava a Torre do Tombo. Por portas e travessas, cheguei a falar com ele, lá mesmo na Torre do Tombo. O Inspector, já velho, chegou a dizer-me:
"Sr. Embaixador, as coisas passaram-se assim! Toda gente tem segurança, para defesa das Instituições. Eles tiveram a PIDE, vocês têm a DISA; os Americanos, Franceses, Ingleses, enfim, todos têm a sua segurança. Mas devo dizer-lhe um facto. Ouve um preso, de nome Paiva, que nós maltratamos. O agente que o maltratou foi o Lontrão. O Paiva desmaiou no interrogatório. E nós, chegamos a pensar que ele tinha morrido. Deitamos um balde de água, e mais tarde ele (o Paiva) recuperou. Ele disse então : "Sr. Agente, podem mesmo me matar, mas Angola vai ser Independente."
"Sr. Embaixador, as coisas passaram-se assim! Toda gente tem segurança, para defesa das Instituições. Eles tiveram a PIDE, vocês têm a DISA; os Americanos, Franceses, Ingleses, enfim, todos têm a sua segurança. Mas devo dizer-lhe um facto. Ouve um preso, de nome Paiva, que nós maltratamos. O agente que o maltratou foi o Lontrão. O Paiva desmaiou no interrogatório. E nós, chegamos a pensar que ele tinha morrido. Deitamos um balde de água, e mais tarde ele (o Paiva) recuperou. Ele disse então : "Sr. Agente, podem mesmo me matar, mas Angola vai ser Independente."
Isso disse-me o Reis Teixeira. Ele morreu a cerca de 10 anos. São factos que Paiva da Silva viveu.
O 4 DE FEVEREIRO DE 1961
O 4 de Fevereiro marca para sempre, o início da luta armada de Libertação do povo angolano. Houve muitas lutas no passado. Em muitas delas houve confrontos entre Angolanos e os colonos Portugueses, através dos tempos.
Quando no século XV, em 1482, os colonialistas Portugueses sedentos de terras e de identidades, eram acusados pelos infiéis, encontraram como alternativa (ao que dizem), "mares nunca dantes navegados", o que os levou a terras desconhecidas onde enfrentaram as mais diversas calamidades, cujos percursos causaram também os maiores massacres que a História registou.
Foi nesta senda que se completaram os cerca de 500 anos no processo, até que os patriotas Angolanos e outros, ousaram terminar com o status quo da colonização. Também os nossos povos passaram por isso, e é ali que se enquadram as "guerras do Kwata Kwata", "as guerras sem quartel", "as lutas tribais", cada uma com a sua etnografia (ciência que estuda os povos, suas origens, suas línguas, religiões, costumes, em suma a sua etnogenia.
Mas durante algum tempo, muita gente queria explicar alguns aspectos da luta de libertação. No nosso processo histórico, temos que honrar os feitos protagonizados por aqueles patriotas que estavam na base do desencadeamento da luta de libertação, porque foram eles que lançaram as âncoras de tudo quanto veio a seguir.
Restam poucos, mas deveríamos recordar aquele punhado de patriotas que enfrentou o carácter injusto da dominação colonial, abandonando tudo, para levar avante o processo de luta que se circunscrevia na mudança do Estatuo político, nos territórios, até então dominados por Portugal.
Hoje, todos beneficiam do bem estar, porque a Independência foi conseguida, inclusive por aqueles que sempre tiveram dúvidas quanto ao nosso sucesso. Mas não devemos esquecer os enormes sacrifícios vividos, quer nas prisões, quer nos campos de concentração, quer pelas vidas que se perderam, quer ainda pela luta heróica levada a cabo pelos guerrilheiros que em muitas frentes de combate, estiveram à altura dos objectivos que se propuseram atingir, nomeadamente, a Independência.
Nomes como José Cristino Pinto de Andrade devem ser lembramos, assim como de Gervásio Ferreira Viana, Manuel Inácio Torres Vieira Dias, Sebastião José da Costa, e Teodoro Lima da Paixão Franco, Anibal de Melo, Eduardo Correa Mendes, António Macedo, o Padre Franklin da Costa, Rosário Neto.
Não foi fácil para aqueles que na altura eram jovens, mas que já sentiam a necessidade de verem terminadas as humilhações a que estiveram submetidos os povos de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé, e mesmo do próprio Portugal, cujo fascismo também levou vidas.
Assim temos: José Eduardo dos Santos, Pedro de Castro Vandúnem, Balduíno Bwanga, Mário Santiago, Julião Mateus Paulo, "Dino Matrosse", Rita André Tomás, Mona, João Filipe Martins, José Agostinho Neto, Roberto Victor de Almeida, José Mendes de Carvalho (Hoji a Henda), Daniel Júlio Chipenda, Maria Mambo Café, Afonso Vandúnem Mbinda, Francisco Paiva "Nvunda", Ana Wilson, Brito António Sozinho, Carlos Belo "Belli Bello", Mário Afonso de Almeida "Cassessa", João Vieira Lopes, Manuel Videira, Gentil Viana "Afrique", Tico Monteiro, Costa Andrade "Ndunduma", Monimambo, Fernando Assis, Fernando Paiva.
A PARTIR DE 1945, O QUE VEIO?
Foram criados os Blocos, depois de 1945, e logo a seguir, estabeceram zonas de influência, que iriam mudar o mundo como mudaram, a correlação de forças que transformaram todas as decisões tomadas nos últimos 60 e 70 anos. Os dois blocos assim criados, embora antagônicos, primaram no princípio pela liberdade dos Povos colonizados; prova disso, vamos encontrar nas Conferências de Yalta e de Potsdam em que foi aprovado o direito dos Povos à autodeterminação, seguido das suas Independências. Era o período da Descolonização que se abria.
De notar que as duas grandes potências nunca se degladiaram, e não vão fazê-lo (Rússia e USA). Ainda há dias, numa publicação num jornal, eu disse e reafirmo, que a única coisa que se sabe, foi quando as duas potências estiveram de acordo sobre o direito dos povos coloniais atingirem as autodeterminações e Independências. Fora disso, não houve mais nada em relação à paz!!! Foram as grandes potências que criaram a subserviência dos Povos Africanos e não só. Uns foram para as Esquerdas, outros para as Direitas, o que me levou a definir isso como "um bailado equivalente ao maquiavelismo de aldeia".
Nós temos os nossos heróis. Nunca é demais recordar aqui os grandes vultos do nacionalismo, tanto africanos como os partícipes nacionais. É aqui que os grupos dos 50 e dos 36 estão de parabéns, porque souberam vingar bem alto, o facho da luta anti-colonial.
Lembramos nomes como Agostino Neto, Viriato da Cruz, Mário Pinto de Andrade, Simao Gonçalves Toco, Hugo de Menezes, Lúcio Lara, Amilcar Cabral, o médico Eduardo dos Santos, Matias Miguéis, Kapicua, Ndalu, André Franco de Sousa, Padre Joaquim Pinto de Andrade, Ilídio Machado, Higino Aires, Marcelino dos Santos, Gabriel Leitão, Sebastião Gaspar Domingos, Pascoal Veríssimo e Costa, Carlos Aniceto Vieira Dias, António de Assis Júnior, Carlos Alberto Vandunem, Amadeu Amorim, João Lopes Teixeira, Luís Rafael, Candido Fernandes da Costa, Alberto António Neto, Manuel de Oliveira Fernandes, Francisco Africano, Hermínio Joaquim Escorcio, Belarmino Vandúnem, Mário António, António Pedro Benge, Joaquim de Figueiredo, Salvador Sebastião, Afonso Dias da Silva, André Rodrigues Mingas, Joffre Vandúnem, Agostinho André Mendes de Carvalho, Lourenço Vaz Contreiras, José Bernardo Domingos Kiosa, Florençio Gamaliel Gaspar Martins, Alvaro Lutukuta, Loth Malheiro Savimbi, Manuel Bernardo de Sousa, José Diogo Ventura, Adão Domingos Martins, Armando Ferreira da Conceição, Nobre Pereira Dias, Noé da Silva Saúde, João Luís Cardoso, Horacio Brás da Silva, João da Costa, Jorge Miguel, José Lisboa, Job Baltazar Diogo, Mário Alcântara Monteiro, Armando Guinapo, Manuel Quarta Punza, André Petrof, Pascoal Luvualu, Rui Filomeno de Sá "Dibala", Jerónimo Sinedima, Manuel Lopes Maria "Ximutu", Domingos Moséis "Victoria Certa", João Evangelista Hailonda, Lanvu Emanuel Norman, Armando Campos Major "Chicota", Jose Domingos Francisco Tuta "Ouro de Angola", Armando Bezerra Grande, Jovita Nunes, Samuel Magalhães "Dudu", Adolfo Nsikalangu, Fernando Brica, Isaac Moséis, Elias Augusto, Manuel Vandúnem, Almeida Kamundanga "Kamu d'Almeida", Desidério Verissimo e Costa, Ismael Gaspar Martins, António Domingos Amaro, Manuel Augusto Borges Bamba, Jordão Aguiar, Sebastião Vicente, José Miguel "Pau Preto", Domingos Sebastião dos Santos "Manomingo", José Carlos Mouzinho, Bau-bau "Zola", Camarada Capitão Capitão, Nossa Verdade, Samsumina, Prof. Ndifuila, Canhela Mpotwe, Zito Vandúnem, "Jújú de Almeida" Comandante Jújú, M'beto Traça, Fantomas, André Miranda, Ngakumona, Ambrósio Lukoki, Puegas, Mário Leonel, Spiel , Portugal, Ramos e Madame Faty, Viking, Vencedor, Noé Gil, Zorca, Valodia, Ruth Neto, Luisa Quarta, Inga Inglês, Luísa Filipe, Pedro Mavunza, Siona Casimiro, Sam Luvualu.
Consta-se o Engenheiro António Calanzaje Duarte, Dra. Julieta Gandra, José Meireles, António Veloso, Helder Neto, e Contreiras da Costa. Realçamos ainda alguns exilados no estrangeiro, mas que estiveram incluídos em processos judiciais: Cónego Manuel das Neves, António Barros Nekaka. Rui Ventura (também conhecido com o nome de Holden Roberto), António Jacinto, Deolinda Rodrigues, Inocêncio Martins, Jorge Mingas, Pedro Vandúnem.
Os que pertenciam ao MINA: Manuel Pedro Pacavira, Bernardo Silas, David Bernardo Eça de Queirós (Kinjinge), Fernando Coelho da Cruz, assim como outros que participaram no MINA: Adolfo João Pedro, Semião Adão Manuel (Kafuxi) Simão João Cardoso, Francisco Webba, Mário António, Joaquim Bernardo Manuel, Herbet Inglês, Adriano Sebastião e Rodolfo da Ressurreição Bernardo. Sei que estou esquecendo muitos nomes de camaradas as eles que me perdoem....
É bom recordar os nossos valores, para não estarem esquecidos nos tempos actuais e vindouros. É por isso bom recordar os nossos heróis. É bom manter viva a chama da luta pela Independência. Cada um de nós cumpriu o seu dever. Uma coisa que ainda não cumprimos, foi a homenagem ao Diogo de Jesus e ao Nelito Soares , a título póstumo. Merecem pelo facto de também terem contribuído para libertação do País.
As eleições estão a chegar. O número é o 4.
O 4 foi a data do massacre da Baixa de Kassange.
O 4 foi a data do início da Luta Armada.
O 4 é o dia em que se realizou a missão "Victoria ou Morte".
O 4 é o dia da Paz.
O 4 é também o dia do meu aniversário.
Vote por isso no número 4.
O 4 foi a data do massacre da Baixa de Kassange.
O 4 foi a data do início da Luta Armada.
O 4 é o dia em que se realizou a missão "Victoria ou Morte".
O 4 é o dia da Paz.
O 4 é também o dia do meu aniversário.
Vote por isso no número 4.
Luís Neto Kiambata
26/06/17
26/06/17
sexta-feira, agosto 11, 2017
terça-feira, maio 24, 2016
«CARTA A MEUS FILHOS Sobre os fuzilamentos de Goya»
«CARTA A MEUS FILHOS Sobre os fuzilamentos de Goya»
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
Jorge de Sena
quinta-feira, setembro 10, 2015
SEGUNDO NASCIMENTO
SEGUNDO NASCIMENTO
Depois que se romperam os sapatos, e deixei a gravata pior que uma rodilha no caixote do lixo, é que vi bem o céu. Um homem levantou a vista dos torrões e olhou para cima. Mil cadeias inúteis se quebraram. Mil caras, mil sorrisos, mil atitudes passaram. Mil crenças se apagaram. E dentro de mim mesmo surgi eu. Enquanto se perdeu a última falripa da sola do sapato e se esgarçou o fio de seda da gravata, saltei a outro mundo. Já não entendo as velhas relações nem amo as minhas velhas amizades. Tudo o que é dantes me aparece inodoro, insípido, incolor, sem significação. Já não tenho a noção de caminhar no meio de maltrapilhos. Não há mais eu e eles porque passou a haver unicamente nós. Os doutores, as madames e as meninas em série nunca mais me viram porque passam por mim sem me reconhecerem e eu não consigo distingui-los bem na galeria imensa do friso dos fantoches. Tenho a alma repleta de alegria e os braços cheios de força e o coração a transbordar amor. Bendita a miséria que rompeu os sapatos e esgarçou a gravata que abandonei no lixo e me fez ver o céu. Livre. Agora que deitei fora as lentes emprestadas, e mandei ao diabo as crenças emprestadas, e cuspi no altar das coisas consagradas, agora, sim: sou eu. Mário Dionísio de Anunciação em Novo Cancioneiro
Depois que se romperam os sapatos, e deixei a gravata pior que uma rodilha no caixote do lixo, é que vi bem o céu. Um homem levantou a vista dos torrões e olhou para cima. Mil cadeias inúteis se quebraram. Mil caras, mil sorrisos, mil atitudes passaram. Mil crenças se apagaram. E dentro de mim mesmo surgi eu. Enquanto se perdeu a última falripa da sola do sapato e se esgarçou o fio de seda da gravata, saltei a outro mundo. Já não entendo as velhas relações nem amo as minhas velhas amizades. Tudo o que é dantes me aparece inodoro, insípido, incolor, sem significação. Já não tenho a noção de caminhar no meio de maltrapilhos. Não há mais eu e eles porque passou a haver unicamente nós. Os doutores, as madames e as meninas em série nunca mais me viram porque passam por mim sem me reconhecerem e eu não consigo distingui-los bem na galeria imensa do friso dos fantoches. Tenho a alma repleta de alegria e os braços cheios de força e o coração a transbordar amor. Bendita a miséria que rompeu os sapatos e esgarçou a gravata que abandonei no lixo e me fez ver o céu. Livre. Agora que deitei fora as lentes emprestadas, e mandei ao diabo as crenças emprestadas, e cuspi no altar das coisas consagradas, agora, sim: sou eu. Mário Dionísio de Anunciação em Novo Cancioneiro
segunda-feira, outubro 13, 2014
Os Segredos da Censura, livro de César Príncipe,
5/1/67. «Primeiro turista de 1967 — não dizer que é operário.»
31/3/67. «Achado um feto embrulhado em papéis, em Algés. Eliminar que os rapazes andavam a jogar a bola com ele. Coronel Pinheiro.»
30/4/67. «Pampilhosa. Actos de loucura de um sargento do Exército. Não dizer que é sargento do Exército. Senhora de Vila Maior, S. Pedro do Sul, morreu ao tomar conhecimento de que o filho embarcava para o Ultramar. Não falar em Ultramar. Coronel Saraiva.»
24/9/67. «Funeral do capitão Augusto Casimiro. Não referir o facto de não ter havido viatura militar disponível para o transporte do caixão. Pode ser noticiado o casamento dum soldado alemão na Base de Beja com uma portuguesa — mas sem especulações.»
30/7/68. «Em Soutelo uma rapariga suicidou-.se depois do namorado ter seguido para Angola, mobilizado. Não falar na ida para Angola. Tenente Teixeira.»
20/8/68. «Transferência dos moradores do Bairro Xangai. Não usar a expressão «bairro de lata» por causa dos estrangeiros. Coronel Saraiva.»
28/8/68. «Presos dois gatunos em Lisboa. Não dizer que os roubados eram turistas. Capitão Correia de Barros.»
29/8/68. «Ciganos vendiam chá por whisky. Não dizer que os polícias andavam vestidos de fato-macaco. Dr. Ornelas.»
25/10/68. «Telegrama 140, da Reuter. Não aludir, no título, ao Partido Comunista Português, pois é coisa que não existe. Major Tártaro.»
28/4/69. «Fotografia do Prof. Salazar com o Cardeal Cerejeira, em que ele está um bocadinho descomposto. Não se deve publicar. Coronel Roma Torres.»
12/12/69. «Aumento do preço do corte de cabelo. — CORTAR. Coronel Saraiva.»
29/1/70. «As montras dos estabelecimentos de Coimbra estão às escuras — CORTAR. Capitão Correia de Barros.»
26/4/70. «Queima das Fitas do Porto. Espectáculo no Teatro Sá da Bandeira com baladas — CORTAR o nome do abade Fanhais. Mas, para não se notar o CORTE, é melhor CORTAR os nomes de todos os intervenientes. Não pôr em título a palavra aborto. Coronel Saraiva.»
22/6/70. «Lata de tinta vermelha atirada contra Heath — CORTADA a gravura e a legenda. Penafiel: um jornal tinha um título: «O bispo do Porto destacou a vantagem de nos voltarmos para a Europa.» Só pode ser assim: «O bispo do Porto em Penafiel.» No texto é CORTADO tudo o que seja política, visto que um bispo não tem de falar em política. Coronel Garcia da Silva.»
23/7/70. «Sismo em Sines — CORTAR. Dr. Ornelas.»
2/8/70. «Quanto ao pedido de não publicação da notícia do desastre e morte do filho do almirante Henrique Jorge, na estrada de Santo Amaro — pedido do secretário de Estado da Informação e Turismo — ainda hoje não se pode falar do desastre. Sindicato Nacional de Metalúrgicos, que discordam de uma homologação feita pelo governo e que mandaram telegramas. Coisas assim — NADA. O caso de Beja, de dois cavalheiros que se suicidaram. Eram homossexuais. Não se pode dizer que pediram, nas cartas que deixaram, que os sepultassem lado a lado nem que veneno tomaram. Coronel Saraiva.»
18/9/70. «Descarrilamento em Chaves — NADA. Tenente Teixeira.»
1/10/70. «Foi fundado o Sindicato dos Técnicos de Desenho. Não dizer que tal fundação havia sido pedida há mais de 30 anos. Capitão Correia de Barros.»
2/10/70. «Assembleia Geral do Círculo de Cultura Teatral — MANDAR. Lisboa quer MUITO CUIDADO com as coisas do TEATRO. Coronel Saraiva.»
30/10/70. «Não dizer, em título, que Nixon saltou da janela em pijama. Coronel Garcia da Silva.»
20/12/70. «Gravura do actor Rogério Paulo na TV cubana. Não pode ser publicada. Coronel Garcia da Silva.»
21/1/71. «No Supremo Tribunal de Justiça foi julgado o recurso de um chefe de posto de Angola que bateu num preto e o preto veio a falecer. Foi julgado e condenado — CORTE TOTAL. Coronel Saraiva.»
1/4/71. «Gravura da casa de Salazar, dando a perceber que está a cair — CORTAR gravura e legenda. Não é verdade. Talvez ande em obras. Tenente Teixeira.»
6/6/72. «O editor de Afrodite, que há tempos apresentou um livro metido numa banheira, vai agora fazer uma conferência muda e itinerante numa camioneta. Toda a palhaçada se pode noticiar. Mas nãos e pode falar em textos inéditos de Manuel João Gomes, do bispo do Porto, do padre Felicidade Alves e do Dr. Fernando Luso Soares. Coronel Saraiva.»
12/8/72. «No Parque Eduardo VII, em Lisboa, numa rusga policial, foram presos 24 indivíduos — vadios, prostitutas e homossexuais. Pode falar-se nos vadios e nas prostitutas, mas não nos homossexuais. Tenente Teixeira.»
quinta-feira, fevereiro 13, 2014
Telegramas trocados entre o dramaturgo Bernard Shaw e Churchill, seu desafeto.
Telegramas trocados entre o dramaturgo Bernard Shaw e Churchill, seu
desafeto.
Convite de Bernard Shaw para Churchill:
"Tenho o prazer e a honra de convidar digno primeiro-ministro para
primeira apresentação de minha peça Pigmaleão. Venha e traga um amigo, se
tiver."
Bernard Shaw.
Resposta de Churchill:
"Agradeço ilustre escritor honroso convite... Infelizmente não poderei
comparecer primeira apresentação. Irei à segunda, se houver."
Winston Churchill.
quarta-feira, outubro 24, 2012
quinta-feira, julho 05, 2012
terça-feira, julho 03, 2012
ARTIGO DO MARIO DE CARVALHO PUBLICADO NO MONDE DIPLOMATIQUE MARÇO 2012
Um sublime texto MÁRIO DE CARVALHO
A SEMÂNTICA DAS ATITUDES
(In Monde Diplomatique –Março - 2012)
Parece-me assistir a um grande festim antropófago, com algazarras, batuques e guizalhadas. O poder patronal instalou-se, organiza a pilhagem, abate as resistências. Solta as ameaças, açula os medos. Esteve anos no cerco, à espera da ocasião. Chegou o total desenfreio. A crise rompeu a ...brecha em defesas já erodidas e abaladas. Organiza-se o saque dos rendidos. A direita venceu no terreno após ter avassalado os discursos. Ainda imita alguns rituais e maneiras. O futuro chanceler traz, por ora, chapéu alto e rabona. O objectivo final já esteve mais longe. Assoma no horizonte. Fechar o parêntesis aberto em 1974. Tudo pelo patrão, nada contra o patrão.
Como há duzentos anos, nega-se a diferença entre esquerda e direita. Passei toda a vida a ouvir notícias desta indistinção. Ouvi-as na escola primária quando, aos sábados um capitão nos ia edificar, a nós, miúdos. Ouvi-as no liceu, bradadas em vários cambiantes entre saudações nazis, manuais facciosos e aulas de religião ao gosto de quem mandava. Ouvi-as na faculdade e li-as em sebentas eruditas e túrgidas. Ouvi-as talvez aos pides que peroravam nas longas madrugadas da tortura do sono. Voltei a ouvi-las depois de o país ter sido entregue ao concurso de filhos-família, patos-bravos e videirinhos que já trazia a reserva mental de dar cabo da revolução logo que possível.
O terreno foi batido milímetro a milímetro por uma propaganda que cobriu todos os alcances. Desde o programinha de televisão fútil e alegrete ao comentário apessoado e arteiro. Desde o concurso integralmente copiado ao documentário abençoado por remotos serviços secretos. Desde a divulgação de frioleiras endinheiradas à selecção das vozes que opinam de alto. Desde a ablação da Ciência, da Literatura e da Arte, à promoção do obscurantismo e da irracionalidade. O iluminismo inventou a Crítica? Desacredite-se o Iluminismo. Pensar é chato.
Fale alguém com desassombro e é sempre acusado de «demagogia». Procure-se distinguir o Bem do Mal, salta logo a acusação de «maniqueísmo». Operem-se distinções, reservas, hierarquizações, e acode o «mesmismo», boçal e espesso, a nivelar as dunas. Interesse público? Todos querem o interesse público. O bem geral? Todos querem o bem geral. Generosidade? Tão distribuidinha como o bom senso cartesiano. Desinteresse? Há lá alguém mais benemérito que um banqueiro? Mais pundonoroso que um C.E.O? Mais honrado que um especulador?
A opinião imposta é previsível, vocábulo a vocábulo. Nem por isso menos eficaz. Desvaloriza e desmonta tudo o que seja diferente, generoso, elevado, desinteressado ou, até heróico. Mas a defesa contra o sectarismo semântico implica um mínimo de espírito crítico. Supõe familiaridade com a linguagem, distinção dos matizes, memória histórica, termos de comparação.
Os interesses reinantes têm beneficiado do colapso dos instrumentos críticos. Da miniaturização da linguagem. Da ablação da memória. Da unicidade de critérios. Da tirania das escolhas. Do condicionamento das atitudes. Do emparedamento do gosto.
Qualquer negociante de secos e molhados ou vendedor de electrodomésticos profere impunemente a sua galegada. Desde que seja riquíssimo. Os ricos não se contentam só com o acatamento. Querem servilismo. Exigem veneração. Chão lambido. Têm-no garantido. Meia dúzia de economistas oficiosos – sempre os mesmos – aprestam-se ao culto público de «os Mercados» com o fervor genuflectido duma adoração ao Espírito Santo.
Tenho gente que estimo na chamada «comunicação social». Uns são amigos. Outros, às vezes sem os conhecer, merecem-me respeito e, até, admiração. E nisto conta pouco a posição política. Creio que posso não apenas exceptuá-los, mas chamá-los a mim, ao dizer que uma boa parte da informação redesenha o anúncio da voz do dono. Tem vindo a preparar sistematicamente as consciências para o presente festival do patronato. As opiniões correntes nos jornais são cada vez mais as opiniões dos proprietários e administradores dos jornais. Instruções dadas pelo telefone? Em encontros misteriosos? Nem tanto. Antes o instinto de captação do comprimento de onda. Afinação dos registos. Querença. Qualquer desvio táctico é calculado, como a deriva dos navios ancorados no fundo. Os resultados da propaganda avaliam-se no médio prazo. As contas fazem-se no final do ano. Trata-se de manter o populacho resignado, ou orientar-lhe as efusões para os pontos em que se esfumem.
Tudo são apelos ao conformismo e à submissão, convites à obediência e ao redil. O povo, quando presente é constituído em populaça. A ralé sempre fez o jeito às contra-revoluções. Chegamos a esta maravilha paradoxal de serem os carneiros a eleger os lobos, os coelhos a eleger os furões, os pintos a eleger as raposas, as carpas a votar no lúcio, o melro a votar na cobra.
Com os da ralé pode a ganhuça bem. É travesti-los de consumidores. O consumidor por natureza é dócil. «Para ver já a seguir. Não saia daí». Já o cidadão tende a complicar. É antipático e incómodo. Toma distâncias e faz escolhas. Há que silenciá-lo, ridicularizá-lo ou desacreditá-lo. Como se fez, em tempos, aos «abolicionistas». Como pode uma economia colonial saudável funcionar sem escravos? Coisa de otários.
Propuseram-se cintilantes modelos sociais. Emergiram criaturas desenvoltas, de lábia expedita e olho para o negócio. Onzeneiros e agiotas, azes da tranquibérnia e chatinagem. Abocanharam recursos. Aviltaram as instituições. Tornaram o país inabitável. Foram aduladíssimos.
Alguns confiaram em excesso na protecção mediática, nas virtudes da desregulação, na negligência dos aparelhos democráticos. Uma vez processados, aplicaram narizes redondos de plástico vermelho em todos os magistrados da República Portuguesa e continuam nas mesmas vidas.
A desvalorização do confronto esquerda e direita continuará enquanto a direita tiver mais voz. Mas por pequenos sinais se mostra uma diferença indelével. Num debate, nunca ninguém de esquerda dirá: «vocês não têm o monopólio da generosidade (da sensibilidade, da humanidade, ou da cultura…». Está assente que não precisa de afirmar isso.
Outro sinal diferenciador do interveniente de esquerda é ser ele, por sistema, interrompido pelos locutores, com um «mas» malcriado ou zeloso. Pelos mesmos que nunca ousam interromper os comerciantes de secos e molhados ou outros patrões, por mais repulsivos que se mostrem.
segunda-feira, julho 02, 2012
A bem do progresso!!!!
Ayer, 6 de junio de 2012, mientras los banqueros y los especuladores de España y Europa se frotaban las manos ante el anuncio de mayores recortes sociales y laborales, la policía cargó contra los mineros asturianos, y una vez más el escritor se quedó fuera de mi cuerpo, como una piel molesta en la que el teclado o la simbólica pluma sobra, está de más, no sirve, no la quiero. Las manos se van solas hacia la recia piedra, y sirven para levantar la barricada cuya fortaleza es la mejor de las novelas, el más sentido poema que se pueda escribir.
Luis Sepùlveda
domingo, maio 20, 2012
JOÃO BAPTISTA DE CASTRO VIEIRA LOPES
Elaborado pela família de
JOÃO BAPTISTA DE CASTRO VIEIRA LOPES
Como assumiu em vida, JOÃO VIEIRA LOPES, viveu 80 anos. Nascido a 8 de Maio de 1932 faleceu a 10 de Maio de 2012. Filho de José Vieira Lopes e de Eugénia de Castro, concluiu os seus estudos secundários no então Liceu Salvador Correia, hoje, Mutu Ya Kevela, em 1951, ano em que segue para Portugal para ingressar na Faculdade de Medicina em Coimbra, em Setembro de 1952.
Joãozinho, como foi tratado desde a infância e nos tempos das lides futebolísticas, emergiu duma família de rigor e de princípios e transformou-se num vulto da nossa terra, transpirando humanidade em todos os campos em que se dedicou.
Sua vida se destaca como nacionalista, médico, intelectual, chefe de família, patriarca de família, activista cívico, parlamentar, democrata, futebolista e dirigente associativo.
Suas características impressionam pela coerência de princípios, pela modéstia, capacidade de harmonização, coragem e liderança.
Sua actividade esteve eivada de actos de profunda análise reflexiva e visionária, como de estoicismo e heroísmo, de capacidade de adaptação a várias circunstâncias e, sobretudo, de sobrevivência em situações difíceis, mas igualmente, ilustrada com profunda intuição.
Muito cedo construiu os alicerces de seu pensamento nacionalista e progressista. A situação colonial fascista entrava em choque com seus valores de liberdade e justiça social. Para dar expressão a sua inteligência e ao seu coração, no contexto do colonial fascismo português, participou orgânica e formalmente, a partir de 1954, em várias organizações cívicas e políticas. Assim, foi Tesoureiro da Direcção da Casa do Estudantes do Império, militante do MUD Juvenil (Movimento de unidade Democrática) e é co-fundador do Clube Marítimo Africano
Em consequência da sua ampla actividade política e social foi preso pela polícia política portuguesa em 1955, havendo permanecido nas masmorras da PIDE ao longo de 2 meses. Nesse mesmo ano, e apesar de já estar referenciado pela PIDE, não teme em ser testemunha de defesa de Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola, no Tribunal de Relação do Porto, acusado de actividades contra a segurança do estado. Convém realçar que é o único Angolano que se dispõe a fazê-lo, demonstrando sua coragem sempre que em jogo estivessem valores a defender e vidas humanas a preservar.
Sua actividade política, enquanto se formava superiormente, é intensa. Assume em 1958 a liderança da Casa dos Estudantes do Império. Na mesma altura integra as células clandestinas do MAC – Movimento Anti Colonial e no ano seguinte faz-se, na mesma base, militante do FRAIN – Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional.
Sua filiação ao MPLA - Movimento Popular pela Libertação de Angola - data desde 1960, também na clandestinidade.
João Vieira Lopes conceptualiza, organiza e realiza, sob bandeira das Organizações africanas em que militava, juntamente com outros nacionalistas, em 1961, a grande fuga de Portugal de cerca de 120 estudantes das Colónias. Tal acto, que envergonhou, por se sentirem ludibriadas, as polícias secretas portuguesa e francesa, mostra não só capacidade de organização, como o necessário espírito conspirativo, prenhe igualmente de coragem e determinação. Essa fuga de cérebros juntava-se ao movimento de massas que entretanto emergia com os acontecimentos libertadores de 4 de Fevereiro e 15 de Março em Angola e contribuía para completar o xadrez humano indispensável para o derradeiro progresso da causa nacionalista. Mostra ainda o espírito de desprendimento e de entrega a causa nacional de intelectuais que poderiam ter permanecido na Europa fazendo uma vida normal. É, na realidade, o corolário da dignidade e do dar sentido à vida, cujo ideal patriótico, era um rasgo indelével do seu carácter.
Rumo ao continente berço, João Vieira Lopes, agora, o nosso BAVI, passa por ACRA e CONACRY, fixando-se na então cidade de Leopoldeville, hoje, Kinshasa.
Na sua chegada a Leopoldeville assume vários cargos, funções e missões no contexto organizacional do MPLA.
Assim,
- Integra a partir de Agosto, a estrutura de direcção máxima do MPLA, denominada Comité Director
- É nessa qualidade indigitado responsável da Juventude, havendo recebido o actual Presidente da República de Angola no seio da respectiva organização juvenil;
- É membro da Direcção do CVAAR – Corpo de Voluntários Angolanos para Ajuda aos Refugiados – com funções no campo da saúde.
JOÃO Vieira Lopes enquanto representante da Juventude encabeça as negociações com a juventude da UPA (União das Populações de Angola) e com o PDA (Partido Democrático de Angola) para unificação da juventude angolana.
Em face de contradições internas no MPLA João Vieira Lopes sai em 1963 da sua Direcção. Dá a sua contribuição na então República da Argélia, integrando o seu Serviço Nacional de Saúde. Prossegue a sua formação médica iniciando a especialidade em Obstetricia-Genecologia na Faculdade de Medicina de Argel.
Ainda nesse ano é co-fundador do Centro de Estudos Angolanos em Argel, importante célula de reflexão para a luta libertadora.
Em 1964, entretanto, mantém a sua posição de não assumir cargos políticos de chefia e integra a guerrilha do MPLA, na Frente Norte, 2ª Região Político-Militar, como médico, e, durante 4 anos consecutivos, nessa qualidade, teve grande impacto a sua posição de organizador contribuindo, para;
- Construção do primeiro Hospital de Retaguarda do MPLA em Matsende
- Criação do primeiro Centro de Formação para Auxiliar de Enfermagem
- Edição da Primeira Cartilha para Enfermeiros Auxiliares
Em 1966 é Chefe dos SAMM – Serviços de Assistência Médica Militar – da 2ª Região e procede a reabertura de Postos Médicos.
Usando a sua capacidade clandestina e conspirativa participa, em 1967, no ingresso para as zonas da 1ª região do Mpla, juntamente com o comandante Benedito e outros, de dois esquadrões de guerrilha, bem como munições e armamento, que estavam na zona de Leopoldeville (para onde se deslocara clandestinamente). Missões espinhosas e de heroísmo, que contavam com a colaboração de camaradas seus que tombaram durante o seu percurso e desenvolvimento.
De 1969 a 1973 estagia em cirurgia no Hospital Geral de Brazzaville, montando a rede de assistência médica a todos os militantes evacuados das frentes de combate.
Em 1974 adere a facção do MPLA Revolta Activa, juntamente com Joaquim Pinto de Andrade, Gentil Viana, Adolfo Maria, Maria do Céu Carmo Reis, Amélia Mingas e outros e formula o Apelo dos uma base crítica a condução da luta com novas propostas para enfrentar os desafios de Angola.
No Congresso de união de tendências do MPLA, em Setembro de 1974, é eleito Presidente do evento por consenso entre as diversas alas (Ala da Direcção, da Revolta Activa e da Revolta do Leste o que traduz bem a sua capacidade de formular consensos e do respeito por parte dos seus camaradas.
João Vieira Lopes, pese embora a sua imensa actividade social, política e militar foi um exímio e exemplar pai de família.
Casado em 1958 com Gina Mendes de Carvalho, teve um casal de filhos. Sempre que estivesse a arrumar a caixa verde os filhos já sabiam que se ia ausentar para uma missão militar. Terno e disciplinador, mas com uma educação que permitiu sempre aos filhos escolherem as suas opções, soube conciliar a sua opção política, a sua exigente carreira profissional, com a dedicação e orientação que seus filhos precisavam. Lygia e Johnny nascendo em espaços diferentes devido as contingências da vida, já recordam com saudades a extrema dedicação e profunda amizade de seu pai a eles, seus conjugues e filhos. Têm-no como um exemplo. Érik, Karine, Stefane, Yane e Joãozinho bem como os restantes netos beneficiaram bastante do seu amor, da transmissão de afabilidade, da histórias da vida. Seus netos eram a sua grande alegria, o que ficava bem plasmado nas festas de família. Sua companheira das últimas décadas Hermínia Clinton não se conforma com sua partida.
Não há duvida que para a toda a família João Vieira Lopes - o irmão, o primo, o tio - sem nunca o demonstrar ou pretender sê-lo, acabou por se afirmar como o patriarca da família. O seu gesto mais sublime era a preocupação que nutria por todos, a forma como acompanhava a evolução da saúde, a instrução e o círculo de interesses de todos quanto o procuravam. Sua profunda amizade com o comandante Ingo Vieira Lopes é um referencial forte para todos nós: um modelo inspirador de relação familiar. Nunca utilizando um sentido discriminatório soube aqui dedicar uma atenção particular a diversas situações difíceis porque passaram muitos familiares. As estórias abundam.
João Vieira Lopes sabia conviver com tendências diferentes e jamais abandonou amigos de peito por divergências políticas. Apenas um caso entre vários, sua amizade com o colega Sílvio de Almeida.
Profissionalmente, temos um Dr João Vieira Lopes que assegurou os serviços de Ginecologia com dedicação ímpar, contribui para a organização dos serviços de forma engenhosa adaptando-o sempre as precárias condições, soube estabelecer laços humanos com todos os seus colegas e sobretudo reconhecia o mérito daqueles que mostravam qualidade e dedicação. Muitos colegas tinham-no como segundo pai.
Desde 1978 O Professor Doutor João Vieira Lopes passou a condição de Titular da universidade Agostinho Neto. A sua experiência médica foi um grande auxiliar de ensino para seus estudantes. Rigor científico coadjuvado com fina intuição, centrada no extremo respeito pelo doente e na responsabilidade da missão, permitiram-lhe ganhar a confiança docente dos seus estudantes. O carinho pela socialização do saber era tanto que mesmo enfermo seleccionava livros pessoais e fazia questão de pessoalmente ir oferecer a biblioteca da Universidade.
João Vieira Lopes tinha um espírito irreverente, mas calmo. Na medida das suas forças desejava corrigir o mundo para trilhar novos caminhos. Por isto, foi um homem de rupturas e nunca de status quo que não se reconhecia na sua consciência.
Por isto, mesmo depois de 1974 continuou a trilhar caminhos e rompendo com o ideário mono partidário assumiu com coragem uma das Vice-presidências da ACA (Associação Cívica Angolana) juntamente com Germano Gomes, Milá Melo e Godfrey Nangonya. Joaquim Pinto de Andrade era o Presidente. A ACA pugnava pela paz, pluralismo e intervenção da sociedade civil nos assuntos públicos.
Abriu caminho a democratização do país do ponto de vista político e aceitou ser deputado independente da FpD – Frente para a Democracia – eleito pela Coligação AD (Angola Democrática), nas primeiras eleições de Angola em 1992 (17 anos depois da proclamação da independência). Nessa qualidade integrou durante 16 anos a Assembleia Nacional, contribuindo para o debate legislativo. Integrou, como Secretário, a 1ª Comissão Parlamentar para a elaboração da Constituição Revista de Angola e participou em várias missões parlamentares.
Contribuiu com a sua assinatura para a legalização do BD - Bloco Democrático, cuja relação com seus dirigentes permitiu oferecer muitos conselhos a organização.
Soube, com outros concidadãos, protestar, há menos de dois meses, contra a vaga de repressão que se vem abatendo sobre manifestantes no país, opondo a sua assinatura num abaixo assinado dirigido ao Presidente da República. Um acto de elevada cidadania, de lucidez, de persistência democrática e humanistica, de apoio e orientação para a juventude, apesar do seu estado de saúde.
Ao morrer deixa vagas a Presidencia da Assembleia Geral da Liga Africana e do Clube “Vila”. Fundador da Liga Africana, legítima herdeira da Liga Nacional Africana, foi seu Presidente de Direcção até há dois anos. Soube assim honrar seus antepassados que se esforçaram por elevar a dignidade do povo angolano com acção cívica, percursora da luta de libertação nacional.
João Baptista de Castro Vieira Lopes não deu apenas a sua Juventude, deu toda a sua vida a causa da humanidade. Sabemos que o país não está ainda em condições objectivas de avaliar pessoas da sua magnitude. O tempo encarregar-se-á disso e estamos certos que este vazio que hoje sentimos, será preenchido por seus ensinamentos de vida, sua coerência e vontade de viver.
Paz a sua Alma!
Cemitério do Alto das Cruzes, em luanda, aos 12 de Maio de 2012
domingo, abril 08, 2012
Elogio póstumo da sobrinha Constança Gomes ao tio Maurício
Elogio póstumo da sobrinha Constança Gomes ao tio Maurício
Glória eterna a Maurício de Almeida Gomes (1920‐2012)
"Mas onde estão os filhos de Angola, se os não ouço cantar e exaltar tanta beleza e
tanta tristeza, tanta dor e tanta ânsia desta terra e desta gente?"
Por estes dias estamos todos muito tristes, o luto bateu‐nos à porta, morreu,
anteontem (dia 2), em Lisboa, aos 92 anos de idade, o nosso tio Maurício de Almeida
Gomes. Ele era o patriarca da família porque era o mais‐velho sobrevivo dos 8 filhos de
Mário José Gomes (dos quais 6 com Ema de Lemos Rodrigues de Almeida Gomes).
Agora ficam connosco apenas os tios Vicente (Portugal) e Abílio (Angola).
O ti "Mau", como carinhosamente o chamávamos, sempre foi um homem exemplar e
uma referência para todos nós. Inteligente, dedicado e trabalhador alcandorou‐se aos
níveis mais altos socio‐profissionais da Angola da sua época, numa sociedade onde a
discriminação social e racial eram prática quotidiana. Com serenidade, determinação e
sem revanchismo, soube ultrapassar todos os obstáculos e subiu, degrau a degrau, por
mérito próprio, em concurso público, em que normalmente era o primeiro classificado,
até ao escalão máximo dos Serviços das Alfândegas de Angola, tendo sido reformado
como Director Geral. Para ele os valores mais importantes eram resumidos por
"palavras basilares, edificantes: trabalho, instrução, educação", como ele próprio dizia
na sua poesia.
Maurício de Almeida Gomes (o tio Mau) foi também um grande poeta e articulista
interventivo. Desde cedo, ainda estudante, começou a publicar artigos temáticos, no
"Estandarte", o órgão literário do Liceu Salvador Correia, onde era estudante. Mais
tarde, escreveu para o Farolim e para as revistas "Cultura", da Associação Cultural de
Angola, encabeçada por Eugenio Ferreira, e "Angola", da Liga Nacional Africana,
associação de que foi membro dos seus órgãos directivos, ao lado de "sô Botelho", o
digníssimo mais‐velho Botelho de Vasconcelos.
Foi um poeta visionário, de tom messiânico que chamou, no início dos anos 1950, os
seus compatriotas a construir a sua identidade literária. Na sua escrita de ressonância
"estilística de tradição popular" (Manuel Ferreira) exalta a terra e as suas gentes,mas
denuncia também a dor e ânsia dos angolanos de serem eles próprios. Algumas das
suas inquietações são ainda, infelizmente, actuais. Senão vejamos os poemas Bandeira
e Exortação que escolhemos como exemplos.
(eb)
Glória eterna a Maurício de Almeida Gomes (1920‐2012)
"Mas onde estão os filhos de Angola, se os não ouço cantar e exaltar tanta beleza e
tanta tristeza, tanta dor e tanta ânsia desta terra e desta gente?"
Por estes dias estamos todos muito tristes, o luto bateu‐nos à porta, morreu,
anteontem (dia 2), em Lisboa, aos 92 anos de idade, o nosso tio Maurício de Almeida
Gomes. Ele era o patriarca da família porque era o mais‐velho sobrevivo dos 8 filhos de
Mário José Gomes (dos quais 6 com Ema de Lemos Rodrigues de Almeida Gomes).
Agora ficam connosco apenas os tios Vicente (Portugal) e Abílio (Angola).
O ti "Mau", como carinhosamente o chamávamos, sempre foi um homem exemplar e
uma referência para todos nós. Inteligente, dedicado e trabalhador alcandorou‐se aos
níveis mais altos socio‐profissionais da Angola da sua época, numa sociedade onde a
discriminação social e racial eram prática quotidiana. Com serenidade, determinação e
sem revanchismo, soube ultrapassar todos os obstáculos e subiu, degrau a degrau, por
mérito próprio, em concurso público, em que normalmente era o primeiro classificado,
até ao escalão máximo dos Serviços das Alfândegas de Angola, tendo sido reformado
como Director Geral. Para ele os valores mais importantes eram resumidos por
"palavras basilares, edificantes: trabalho, instrução, educação", como ele próprio dizia
na sua poesia.
Maurício de Almeida Gomes (o tio Mau) foi também um grande poeta e articulista
interventivo. Desde cedo, ainda estudante, começou a publicar artigos temáticos, no
"Estandarte", o órgão literário do Liceu Salvador Correia, onde era estudante. Mais
tarde, escreveu para o Farolim e para as revistas "Cultura", da Associação Cultural de
Angola, encabeçada por Eugenio Ferreira, e "Angola", da Liga Nacional Africana,
associação de que foi membro dos seus órgãos directivos, ao lado de "sô Botelho", o
digníssimo mais‐velho Botelho de Vasconcelos.
Foi um poeta visionário, de tom messiânico que chamou, no início dos anos 1950, os
seus compatriotas a construir a sua identidade literária. Na sua escrita de ressonância
"estilística de tradição popular" (Manuel Ferreira) exalta a terra e as suas gentes,mas
denuncia também a dor e ânsia dos angolanos de serem eles próprios. Algumas das
suas inquietações são ainda, infelizmente, actuais. Senão vejamos os poemas Bandeira
e Exortação que escolhemos como exemplos.
(eb)
quinta-feira, março 29, 2012
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