sábado, março 15, 2008

Impostos ou imposturices???




Alberto Pimenta
1948:o meu pai foi às finanças fazer um requerimento, e como de costume fez questão de que eu o acompanhasse:Para "aprender a vida".
Em casa explicou-me minuciosamente a fórmula e o motivo do requerimento.No fim meteu dentro da folha uma nota de 50 escudos e disse-me---Esta é a parte mágica da fórmula.Qd tiveres um pedido a fazer, já sabes, o segredo é este.
Passados uns meses enviei a minha primeira declaração de amor e, como 50 escudos era muito para as minhas posses, juntei uma moedinha de 2$50
Nunca tive resposta, decerto foi por ser pouco.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Faleceu o Luiz Pacheco!




LUIZ PACHECO, O LIBERTINO




Em 1997, Luiz Pacheco, que fez da mendicidade um modo de vida, estava principescamente instalado na Vila Máryah, uma luxuosa estância de repouso para idosos, em Palmela. Eu visitava-o de vez em quando por causa da edição de "Carbonários: Operação Salamandra - Chioglossa lusitanica Bocage, 1865", que saiu na Contraponto, a sua conhecida editora, afecta ao Surrealismo. Raramente o encontrei sozinho, ele tem sempre muitas visitas, de modo que se cruzavam amigos, conversas e destinos. De uma vez deixámos passar a hora de saída e a porta foi fechada, encarcerando os forasteiros. Em vão se procurou o porteiro, nada, um táxi lá fora esperava, a palaciana residencial aninha-se num pinhal isolado, longe da povoação. Caía a noite, e se o taxista desistisse da espera lá teríamos de dormir com o Libertino que passeou por Braga, a idolátrica, o seu esplendor. De modo que, para aflitivos cárceres, fugas airosas, e foi mesmo pela janela, estilo Zé do Telhado, mas com aterragem de corpo inteiro, mais o saco dos livros desfolhados, no canteiro dos lírios, como convém nestes lances da nossa árdua vida literária.


A situação é suspeita, viola algumas normas sociais, morais até, mas os intervenientes sabem da sua intrínseca inocência, e só isso é fundamental: a moral é um colete de forças que o grupo dominante aplica ao dominado para salvaguardar a sua prepotência, mas o Bem e o Mal são completamente distintos e independentes disso - pode o Mal estar de mão dada com a moral e o Bem contra ela, como foi o caso.

Refiro-me a essa emblemática edição cujo 33º aniversário o TriploV comemora, no âmbito das suas actividades em torno do Surrealismo - O Libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor (Contraponto, 1970). No caso, a imoralidade reduz-se a uns palavrões, que são palavras que todos conhecemos e figuram nos bons dicionários, ao pecado dos maus pensamentos e a um acto sexual. Porém, a moralidade sexual que o livro violou em 1970 hoje já não vigora. Esse acto sexual cometido, único, pois todos os outros são apenas delírios da imaginação, é aquele que neste preciso instante o governo de Inglaterra tenta que as escolas ensinem ou promovam junto dos alunos, num desesperado esforço para que baixe a altíssima taxa de gravidez em menores - a masturbação.

E aqui estou eu a falar destas coisas, como se fossem importantes, e são. A moral muda consoante o grupo dominante e as necessidades do grupo social, o que não muda é a ética. Ora o livro não viola nenhuma ética, pelo contrário: as conversas no quarto da pensão, com o sargento, por exemplo, giram em torno da PIDE, do que se passava em "Angola-é-Nossa", e o texto que o Libertino lhe passa para as mãos não é a "Filosofia da Alcova", sim o "Depoimento de uma angolana", sobre as atrocidades cometidas contra os negros, que tem vindo a ser reeditado juntamente com "O Libertino...". À parte os devaneios de imaginação de um homem cuja libertinagem é quase só mental - e nas Bragas daquele tempo os pensamentos eram tão pecaminosos como os actos -, o espírito ocupa-se de livros, os livros que os portugueses não lêem, a vida acanhada em tempos de opressão, e até a tentativa de sedução das Super-Gèninhas se faz de forma letrada, com os bilhetinhos escondidos na cápsula das castanhas.



A libertinagem, nesse sentido de liberdade sexual sem mais, deixou de ser importante numa época - a nossa - em que as raparigas saem à noite e são industriadas pelos pais no uso de preservativos. O texto, agora, torna-se cómico nesse lado, rimos com gosto de certas situações. Não que tenha perdido a força, mas porque de facto a função do libertino foi a de mostrar quão ridículo era aquele puritanismo, simplesmente esse ridículo só é perceptível quando já não estamos sob o domínio da "idolátrica" - Braga, como símbolo da repressão que a Igreja sempre exerceu sobre o corpo, e desse labéu lançado sobre o prazer. Quanto ao regime, a propaganda salazarista reprimia a mente, a liberdade de pensar e desejar também, enquanto a sua élite se entretinha com os ballets rose. Sob a tirania, ninguém teria vontade de rir, o riso vem agora, em que há liberdade para ele. É claro que num país tacanho, de gente ferozmente agredida no corpo e na alma, não há espaço para D. Juan, Sade nem Casanova, apenas para um pobre diabo que deseja e não alcança - tudo lhe corre mal, e de fracasso em fracasso só lhe resta a solução onanista. É um libertino à escala do país que éramos, por isso tão perfeito retrato nosso que Júlio Moreira, posfaciador da primeira edição, considera que o texto nos dá uma imagem muito mais exacta da realidade portuguesa do que toda uma literatura que se pretende interferente.

Mudados os tempos, o que sobra de "O Libertino..." e de Luiz Pacheco? Sobra tudo, que eu saiba ele ainda não foi estudado como a sua obra merece, perdidos que temos andado nos meandros das querelas pessoais e sexuais. Luiz Pacheco é um escritor absolutamente singular, não só na nossa literatura como em termos gerais. Ele não é um Sade, um Casanova, e isso é importante: pelo contrário, é totalmente diverso. O papel tradicional do macho está subvertido, ele não é um representante do falocentrismo, e nesse sentido não é um agressor, é um agredido. Não é um conquistador, é um conquistado; não é um amante, é um amador. A personagem carrega toda a humilhação e frustração do país.

Tradição fescenina e maledicente encontramo-la entre nós e e noutras literaturas desde as cantigas de escárnio, e não esqueçamos Bocage, mas Luiz Pacheco é muito diferente de Bocage, a sua veia quezilenta e debochada não se acomoda com nenhum parentesco. Surrealismo? Ele nega ter sido surrealista e é num texto surrealista que o afirma e mais: Deus o livrasse de tal - isto logo à entrada de "Pacheco versus Cesariny". Pois sim. Acontece porém que "O Libertino", como todos os outros textos de Luiz Pacheco, só teria sido possível na mundividência surrealista, à sombra da bandeira "poesia e liberdade": vida e obra são a mesma coisa, o anti-herói de "O Libertino" é o próprio Luiz Pacheco, que à data, em 1965, andava nas carrinhas da biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian a distribuir livros pelas aldeias para alfabetização geral. O desprendimento, a coragem com que se fala daquilo que em nós é mais íntimo e privado, sem a máscara da personagem, a espontaneidade de um relato que não foi decerto fruto de escrita automática, mas aceitemos que foi redigido no dia a seguir ao dos eventos, isso também pertence à esfera de procedimentos do Surrealismo. Ou abjeccionismo, termo aliás usado no texto. E tudo o que se relata aconteceu? É bem possível que sim, por obra e graça de acasos objectivos que juntaram Braga, o Libertino e Angola-é-Nossa num mesmo texto que, só por isso, ganha um volume simbólico não alcançado realmente por obras de esquerda, muito mais direccionadas politicamente.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Publicado no África 21 por João de Melo/Outubro/07

Diáspora

João Melo

APHAEL EKLU-NATEY, um biólogo togolês radicado na Suíça, teve uma ideia: promover a criação de um fundo para financiar projectos da diáspora africana residente na Europa, a realizar em qualquer país de África. O fundo — cujo capital inicial, segundo a proposta de Eklu-Natey, será de 500 mil euros — será financiado com as contribuições voluntárias d05 membros da diáspora africana, Os próprios contribuintes decidirão se as cotizações que decidirem fazer serão mensais ou trimestrais, Os mesmos — assegura o cientista togolês — poderão recuperar o dinheiro investido a qualquer momento, a juros superiores aos praticados pelos bancos internacionais.
O principal objectivo do fundo será financiar projectos considerados «emblemáticos» em África. Certamente por «deformação profissional», Raphael Eldu-Natey mencionou como exemplo de um desses projectos a criação de uma fábrica de medicamentos à base de plantas africanas. «Um projecto desses — que não interessa aos grandes grupos farmacêuticos de origem ocidental — será extremamente rentável e terá um forte valor social acrescentado, disse ele.
O biólogo assegurou que todas as disposições serão tomadas para que o fundo seja transparente e funcione de acordo com as normas internacionais. Segundo afirmou, o mesmo será gerido por um Conselho de Administração, alargado aos doadores do fundo e também a personalidades externas de reputação mundial. Os promotores do fundo que poderá ser instalado em Paris, Genebra ou Joanesburgo — vão pedir igualmente o apoio da União Africana.
A notícia correu mundo, tendo sido retomada, em especial, por numerosos meios de comunicação social africanos.
Compreende-se porquê. Do período da escravatura aos nossos dias — e por razões que, naturalmente, acompanharam todas as metamorfoses ocorridas ao longo dos tempos, modificando-se com elas —, a chamada diáspora africana espalhou-se praticamente por metade do mundo. Entretanto, se aqueles que foram levados como cativos não pensam hoje num regresso efectivo ao continente africano, pois, para todos os efeitos, transformaram-se em americanos, haitianos, colombianos, brasileiros e outros, os que, em especial depois das independências africanas, foram deliberadamente para o exterior, sobretudo a Europa, ainda mantêm um pé em cada continente. A excepção serão os jovens, filhos desses primeiros emigrantes, mas o drama deles é maior do que o do seus pais: embora nascendo europeus, a Europa recusa-se a aceitá-los, preferindo tornar-se cada vez mais velha e carcomida.
Não são de todo inusitadas, portanto, ideias e propostas como a da criação de um fundo da diáspora africana na Europa pata a realização de projectos no seu continente-mãe. Aliás, existem exemplos de algumas diásporas nacionais nacionais africanas que contribuem grandemente para o desenvolvimento dos seus países, como é o caso paradigmático da comunidade cabo-verdiana no exterior.
Angola não tem, por enquanto, nenhuma política em relação à sua diáspora. Mas ela existe. A rigor, trata-se de várias diásporas, reflectindo a própria diversidade da naçáo angolana. Essas várias diásporas foram sendo formadas em períodos históricos igualmente diferentes e hoje estão radicadas um pouco por todo o mundo, dos países vizinhos a paragens remotas, como Macau ou até mesmo a Austrália, passando pela antiga metrópole colonial, Portugal, e pelo Brasil.
Será que um país com o potencial do nosso, mas extremamente limitado em termos de gente, quer quantitativa quer qualitativamente, pode prescindir da(s) sua(s) diáspora(s)?
Eis a pergunta que deixo à reflexão dos leitores.

sexta-feira, maio 11, 2007

A Igreja que ama a ditadura -do Blog SemQuorum




A Igreja que ama a ditadura
De vez em quando, mas sem perder a impertinente regularidade, a máscara da Igreja Católica cai e desvela o verdadeiro rosto de ignomínia em que se erige muita da sua doutrinária idiossincrasia (tão antagónica dos valores cristãos originais), através de clericais vozes (ir)responsáveis debitando os mais diversos dislates e asserções irreflectidas. O que vale é que «vozes de burro não chegam ao céu» e as correntes humanistas liquidaram a Inquisição, o poder hegemónico e a influência do prelado sediado no Vaticano. Mas há que ter cuidado, pois esta instituição não dorme de todo e o menor descuido pode ser fatal ao progresso civilizacional.

Desta vez, a autoria do disparate dá pelo nome de Fernando Sebastian Aguilar, o arcebispo de Pamplona, que considera que os partidos políticos de extrema-direita podem ser "dignos de consideração e apoiados", porque são "fiéis à doutrina social da Igreja". E remata com o exemplo da Falange, o partido fascista de Primo de Rivera, o mentor do ditador Francisco Franco.

Está tudo num documento datado de 17 de Março, agora divulgado e no qual o arcebispo espanhol chega mesmo a instigar ao voto nesses partidos, afirmando que os mesmos "têm um valor testemunhal que pode justificar um voto". Da minha parte, entendo que estes são exemplos inequívocos - e já os há de sobra! - do etnocentrismo, racismo, homofobia e xenofobia que contamina e polui a «doutrina social» desta profana e secular igreja. Sendo eu ateu - assumo o risco de o assumir! -, aqui deixo a promessa de que me converterei ao catolicismo quando o próximo arcebispo de Pamplona, para não dizer o Papa, for um preto estrangeiro (para não dizer gay ou mulher!)...

Para Fernando Aguilar, como para outras vaticanas eminências pardas, afinal nem todos somos iguais, pois uns serão filhos de Deus, mas outros são filhos da meretriz!

posted by SemQuorum

Ponham pára-raios nas torres sineiras


"Senhores priores, eu sei como vossas mercês, com o venerando Bispo de Roma à cabeça, trovejaram tão ferinamente contra o sufrágio universal, contra a liberdade de expressão, contra a liberdade de imprensa, contra a liberdade de ensino, contra a liberdade de manifestação, contra a igualdade perante a lei, contra a liberdade de culto, contra a República, contra o 25 de Abril, contra o divórcio, contra a pílula, contra o preservativo. Trovejar até seria o menos, porque lamentavelmente chego a pressentir em alguns dos vossos colegas um ressentimentozinho por já não ser permitido queimar gente ou denunciar gente para ser queimada. Se a divindade que vossas senhorias reverenciam existisse, existência que nunca foi provada e de que me permito, discreta mas firmemente, duvidar, decerto que o perfil da personagem, como vem às vezes relatada, não se compaginaria com certos comportamentos e certas vozearias dos seus subordinados."

- escritor Mário de Carvalho, in «Jornal de Letras», nº 951

quarta-feira, maio 09, 2007

Na Irlanda como no Céu..Texto do blog Sem Quorum


Opressão cristã: na Irlanda como no Céu!
A recente vitória do «sim» no referendo à IVG é uma conquista civilizacional que vai certamente contribuir para, entre outros aspectos, a diminuição de graves injustiças sociais e desigualdades no nosso país. Neste caso, Portugal serve de exemplo positivo a outros países onde a irracionalidade atávica do obscurantismo religioso faz do aborto um assunto tabu e um dogmático preconceito.

Senão, veja-se o triste caso que se passou há dias na Irlanda, um dos países mais católicos da Europa. Uma irlandesa de 17 anos, decidiu interromper a gravidez, de quatro meses, depois de lhe ter sido dito pelos médicos que o bebé, após o nascimento, não irá sobreviver mais do que alguns escassos dias, em virtude de o feto sofrer de anencefalia, isto é, ausência de parte do crânio e do encéfalo (graças a Deus?). Como a lei irlandesa é muito restritiva (o aborto só é legal se a gravidez colocar a mãe em risco de vida ou suicídio), a jovem manifestou o desejo legítimo e racional de recorrer a uma clínica de abortos em Inglaterra (tal como as portuguesas se habituaram a ir a Badajoz), país onde a IVG foi legalizada há 40 anos.

Porém, o serviço de saúde irlandês impede-a de sair do país, exigindo-lhe uma autorização judicial para se deslocar à terra de Sua Majestade. Neste impasse, a gravidez da adolescente vai decorrendo...

Não configurará esta situação uma desumana e opressiva imposição de vontade alheia, correspondendo a uma forma ignóbil de tortura física e psicológica? Não justificará a impossível viabilidade do nascituro uma excepção lícita à proibição tirânica da IVG? Nem agora que a ideia estúpida do «limbo» foi posta de lado?

A igreja papal italiana tem boas razões, não só as históricas e as de erradas teologias e absurdas doutrinas, para se manter alojada na opulência da margem do romano rio Tibre. Mas, se a vaticana eminência quisesse, razões outras e acrescidas teria para sentar o santo rabo num trono algures em Dublin ou Varsóvia!

Pai Nosso que estais na Irlanda e no Céu, quando nos livrarás do mal?

Este texto sobre a guerra colonial é muito bom!


Era fácil morrer

Enterrámos-lhe a faca de mato, o revólver e a farda. Tinha estado no Niassa com autorização para matar pretos, e tudo aquilo cheirava a sangue, e cheirou durante muitos anos, mesmo enterrado no chão fértil, incerto da Matola, até se oferecer um tiro nos miolos, já em Xabregas, após ter queimado todas as veias, assaltado ourivesarias na Almirante Reis e assassinado negros a tiro, pelas costas, na Damaia.
Foi meu padrinho.

Nas ex-colónias era fácil morrer. Estava-se vivo, morria-se. Havia acidentes de caça, acidentes no mato, acidentes de trabalho, acidentes rodoviários, acidentes. Cortavam-se dedos e saravam-se a seguir, lavados com água fria. Se não saravam, amputava-se o braço ou morria-se de septicemia. Era fácil.
A vida de um preto valia o preço da sua utilidade. A vida de um branco valia mais, muito mais, não que valesse grande coisa. A vida de um bife da África do Sul, dos que vinham com chapéu de mexicano apanhar sol na Polana, isso sim, era vida. Esses, sim, sabiam lidar com pretos, mantê-los com rédea bem curta.
Matar um preto, no Marcelismo, já era chato; a polícia, se descobrisse, vinha fazer umas perguntas. “Então, ó Rebelo, não viu o peão, e matou-o?” “Não, agente Pacheco, era noite, não havia luzes na picada, o gajo ia bêbado, caiu-me para cima da carrinha, o que é que queria que eu fizesse?!” “Que parasse, homem, que prestasse assistência ao preto!” “Eu pensei que lhe tivesse dado só uma pancada, que o gajo acordasse dali a umas horas, que pensasse que era da bebedeira... é pretalhada... seguia caminho prá palhota e nunca mais se lembrava disso. A culpa é deles, e depois lixam-nos a vida.” “Vou fechar os olhos desta vez, mas veja se não se repete, ó Rebelo, que agora temos ordens da metrópole para investigar estes acidentes.”
Matar um preto, a partir de certa altura, começou a dar chatice.



Calou-se para sempre


No Maputo, após a independência, e mesmo antes, os militares desmobilizados do exército português, que não regressaram à pátria, por serem moçambicanos, negros ou brancos, foram perseguidos e assassinados. Dizia-se, entre brancos, que era a FRELIMO em vingança de guerra. Os primeiros a cair foram os negros; depois, procuraram-se os brancos; havia comités de bairro; formavam-se comissões. Ia-se a casa. Revistava-se. Tudo era possível. Morrer sempre foi fácil, antes ou depois.

O meu padrinho pediu que lhe dessem sumiço às recordações da tropa. A minha mãe enterrou-as. Tinha sido educado no mais profundo desprezo pelo negro. Quando fez 19 anos, e o mandaram para o Niassa, partiu contente. Ia lutar pela sua califórnia portuguesa.
Descia a Lourenço Marques de nove em nove meses, mas já não era o mesmo. Deixou crescer a barba. Era a guerra, e o meu padrinho nunca falou da guerra. Ninguém falava da guerra. Suponho que não se fale da guerra, nunca.
“Então, são tesos, os gajos, lá no Norte?” O meu padrinho sorria, não respondia. “Mas vocês limpam-lhes o sebo, hein? Eles ainda vão ver quem é quem vai mandar nisto” O meu padrinho falava pouco e permanecia pouco tempo em roda social. Fechava-se no quarto a fumar, e calou-se para sempre. Mesmo que tenha dito uma ou outra coisa depois, “sim, não, talvez, não sei”, nunca mais falou. Tinha vergonha, o meu padrinho. Olhava-me com uns olhos vivos, e tinha vergonha de mim. E eu amava-o. Era um homem moreno e bonito. Eu tinha 10 anos em fogo, e embora não soubesse o que era o sexo, sonhava viver com ele intensas aventuras eróticas. Tinha sempre o quarto a meia-luz e fumava muito. Não sabia o que dizer-me. Tinha vergonha de mim. Eu fechava os olhos, e fantasiava que nos amarravam, abraçados um ao outro, e nos atiravam a uma piscina incendiada, e que a intensidade do que era realizado, essa violência, nos queimava de prazer. O meu padrinho acordou o meu desejo, e, uns anos mais tarde, matou-se.




Nomes pretos e nomes brancos

O meu padrinho nasceu em Lourenço Marques; nunca pronunciou as três sílabas muito difíceis de Maputo. Ma-pu-to. As cinco de Lourenço Marques fluíam líquidas. Muito brancas.
Maputo era nome de preto. Um preto, uma zona selvagem, um rio podiam chamar-se Maputo, Incomati, Limpopo, Zambeze. Uma vila de pretos podia chamar-se Marracuene, Inhaca, Infulene, Xipamanine. Uma cidade de brancos, não. Tinha de ser Lourenço Marques, Beira, Mocímboa da Praia.
Xai-Xai era de preto. Ponta do Ouro era de branco.
Nenhum branco que tenha saído de Lourenço Marques se habituou a chamar-lhe... outro nome qualquer. Como geleira. Um branco pensa geleira, e emenda, em milésimos de segundo, para frigorífico. Pensa galinha, corrige para frango. Pensa Lourenço Marques e diz, com gozo, com desforra, como se manter um nome fosse manter o que designa, Lourenço Marques. Diz muito longamente e saboreia as sílabas todas. Lou-ren-ço-Mar-ques.
A vida, em Lourenço Marques, era serena, morna, sibilada, muito fluida como o seu nome.
O meu padrinho quando conseguiu sair em segurança do Maputo, olhou para trás, na estrada do aeroporto, e disse, “nunca mais regressarei a Lourenço Marques”. Cumpriu-se.




O Norte era muito longe

No Marcelismo, os navios acostavam cheios, todas as semanas. Os colonos do marcelismo chegavam misturados com as tropas e ficavam por ali, alugavam casa, instalavam-se, punham os filhos no liceu, na escola industrial, arranjavam um mainato recomendado, ou arriscavam um que lhe fosse bater à porta; alguns compravam uma cantina perto, a quinhentos ou seiscentos quilómetros da capital, e vendiam carvão, petróleo, farinha, peixe seco e cerveja aos pretos que saíam do mato e não falavam português. Aprendiam a falar todos os dialectos, eram intermediários em negócios, safavam-se bem. As tropas iam para o Norte e arranjavam, através dos programas de rádio, madrinhas de guerra a quem enviar aerogramas. O meu sonho era ser madrinha de guerra, mas era muito nova. Se tivesse 15 anos... As madrinhas de guerra eram uma espécie de namoradas pelo correio e eu gostava de ouvir os programas em que se enviavam mensagens, “Maria Teresa dos Santos, madrinha do furriel Diamantino Simões, colocado em Nova Viseu, na companhia 3470, envia cumprimentos seus e da família, e faz votos pelo seu breve regresso com saúde e boa disposição”.
Sabíamos tanto sobre o que faziam os tropas como sobre a política do país. Nada. Sabíamos nada.
Não descrevo uma terra ignorando que nela existia uma guerra. Havia uma guerra, mas não era visível a Sul; não sabíamos como tinha começado, ou para que servia exactamente. Pelo menos, até ao 25 de Abril, não se falou disso na minha presença. Nem se evitou falar.
Havia guerra porque havia turras. A guerra era no Norte, mas não tomávamos consciência da sua gravidade, não se falava em soldados dos nossos que tivessem sido mortos, não existia para nós esse vocabulário que agora conhecemos, emboscadas, guerrilha, mina disto e daquilo. Achávamos que estavam lá pelos quartéis a cumprir a tropa, a fazer umas acções de propaganda. A dar uns encostos nos negros que não se portassem bem, o que era normal. A limpar-lhes o sebo, se fossem teimosos e não obedecessem. Era isso que o meu padrinho devia andar a fazer; dar uns encostos nos negros.
Disseram-me que, sim, pois, havia uma guerra, mas era no Norte, e o Norte era muito longe. Era lá em cima na terra dos macuas e dos macondes. Os turras queriam roubar a terra aos portugueses. Vinham da Tanzânia, e eram pretos e maus. Era preciso defender a nossa terra, por isso é que vinham os soldados de Portugal. Também havia soldados pretos. Esses, faziam-nos comandos, para irem à frente e morrer primeiro.




Uma África de brancos

Após o 25 de Abril já ouvia falar livremente sobre o assunto. Até porque os turras entraram pela cidade dentro e foi necessário explicar de onde vinham, quem eram esses invasores cheios de poder.
Percebi que os colonos desejavam independência de Portugal, mas sob poder branco. Eventualmente, partilha de funções administrativas com um ou outro mulato educado, maleável. Que alimentaram a ideia de que arrasar a FRELIMO seria como matar dois coelhos com uma só cajadada. Aquela terra não seria para os negros nem para a metrópole, mas para os brancos que ali viviam. Seria uma independência branca; pretendiam erguer, ali, uma África do Sul-califórnia-portuguesa. Ainda hoje é essa a nostalgia. Quando dizem, “aquilo da independência foi mal feito, e os culpados foram o Soares e o Almeida Santos, que entregaram aquilo aos pretos”, eu traduzo, “aquilo que entregaram aos pretos deviam tê-lo entregue a nós, que, depois, logo tratávamos da negralhada”. Quando revelam, com lágrimas sinceras, "deixei o meu coração em África", eu traduzo, "deixei lá tudo, e tinha uma vida tão boa".
O meu pai, na véspera de morrer, sonhou que andava a fazer uma instalação no Sommershield, e que eu tinha ido com ele na carrinha; depois fomos petiscar ao Sabié, uns pregos; coca-cola, eu; ele, um tricofaite. Estou a ver o meu pai a sorrir. "Gostas?" Sorrio. "Gosto".
Precisamos de tempo para compreender. Para matar. Para poder olhá-los de novo na cara. Com amor. Com o mesmo amor.
Para perdoar.


Publicada por Isabela

Bandalho!




O Portas da direita, resolveu na Madeira citar o que estava à entrada de um campo de extremínio nazi: "O trabalho liberta"
Libertem-se dele e doutros enquanto eles não vos venham a dar trabalho em locais purificadores de raças...

Profundamente nauseado
Fernando Pereira

terça-feira, maio 08, 2007

Marxista, tendencia Groucho


"Entre uma mulher e um charuto, escolherei sempre o charuto."

Groucho Marx



DIEU EST UN FUMEUR DE HAVANES - SERGE GAINSBOURG
Dieu est un fumeur de havanes

Dieu est un fumeur de havanes
Je vois ses nuages gris
Je sais qu'il fume même la nuit
Comme moi ma chérie
Tu n'es qu'un fumeur de gitanes
Je vois tes volutes bleues
Me faire parfois venir les larmes aux yeux
Tu es mon maître après Dieu
Dieu est un fumeur de havanes
C'est lui-même qui me l'a dit
Que la fumée envoie au paradis
Je le sais ma chérie
Tu n'es qu'un fumeur de gitanes
Sans elles tu es malheureux
Au clair de la lune ouvre les yeux
Pour l'amour de Dieu
Dieu est un fumeur de havanes
Tout près de toi loin de lui
J'aimerais te garder toute ma vie
Comprends-moi ma chérie
Tu n'es qu'un fumeur de gitanes
Et la dernière je veux
La voir briller au fond de mes yeux
Aime-moi nom de Dieu
Dieu est un fumeur de havanes
Tout près de toi loin de lui
J'aimerais te garder toute ma vie
Comprends-moi ma chérie
Tu n'es qu'un fumeur de gitanes
Et la dernière je veux
La voir briller au fond de mes yeux
Aime-moi nom de Dieu

Serge Gainsbourg

CONSERVAÇÃO DE CHARUTOS
A pedido de um Amigo, umas pequenas indicações sobre como conservar charutos:

CONSERVAÇÃO DE CHARUTOS

Os charutos, como produto "vivo", necessitam absolutamente de envelhecer em boas condições
É um produto que gosta da escuridão, temperatura constante (entre 15 e 20 º) e sobretudo de humidade.
Reunidas estas duas últimas condições, um charuto pode conservar-se mais de 10 anos sem problema, mesmo que, ao contrário de alguns vinhos, nada ganhe com isso.

UM CLIMA PARECIDO COM O DAS CARAÍBAS

A escuridão e o calor são dois parâmetros fáceis de respeitar. Agora uma taxa de humidade entre 70 e 75% requer a compra de uma caixa humidificadora.
Uma dessas caixas, com o seu sistema de humidificação (e um higrómetro para verificar o nível de humidade) é o único meio para conservar correctamente charutos.
A venda de humidificadores têm-se expandido, havendo muitos modelos à venda, por exemplo em tabacarias. Infelizmente os preços não são geralmente muito razoáveis.
Para estar na sua plenitude, um charuto necessita de um clima semelhante ao das Caraíbas (durante todo o seu crescimento uma planta de tabaco vive num meio com uma taxa de humidade a oscilar entre os 70 e 80%), senão as folhas secam, estalam e perdem todo o seu aroma.

ERROS A NÃO COMETER:

• Guardar os charutos no frigorífico: o frio seca o charuto e acaba por o destruir.
• Fechar os charutos num saco com pedaços de cenoura ou batata: não garante a humidade (legumes secam depressa) e vai captar o cheiro. (Que desperdício um charuto com cheiro ou sabor a cenoura!)

Hoje resolvi espernear-( me ), so de ver determinada gelataria, com algum leite... mas em pó. Pois eh... só me apetece espernear porque, mesmo sem trocar o "n" pelo "m", tenho a certeza que o leite passava a vir liquefeito...Liquefeito ao bife, vou andando por aqui eu nesta sanzala de grandes mutações de humor, e de trocas de palavras azedas ao som dos sabores mais incríveis...Uns dão gelados de sabores diversos e nalguns casos enjoativos, outros dão caracóis que antes de serem cozinhados espalham baba e ranho, outros falam da vida alheia, como por exemplo da Madre Teresa e correlativos, outros poem artigos denunciando mais uns milhões no José Eduardo dos Santos, talvez com interesses em Gondomar e no Marco, outros falam do que perderam qd sairam de Angola, outros do que se perdeu com a saida dos atrás citados, outros do que ganharam os angolanos com a saída dos atrás dos atrás citados, outros cantam, outros contam histórias de caça, aumentando óbviamente o peso da suposta presa, outros falam de estradas abertas onde dois camiões não se cruzavam em condições, outros falam de moderações e imoderações, outros não se importariam de dar umas imordadelas, outros falam de moral, enfim a sanzala transformou-se num espaço de enorme efervescencia...Há dias que me faz lembrar uma colher de Eno num copo de água...é o que se pode chamar um verdadeiro Eno á tolerancia, pois mesmo as intolerancias tem problemas gástricos e de facto cumpre-me questionar se todos os espaços aqui abertos tem alvará, inspecção sanitária feita, pessoal na SS, e folha de férias e de turnos afixado...
Bem, o ke me faz levar a recuperar a tabacaria, é fundamentalmente para ser mais um lugar para dizer mal das casas comerciais dos outros, e tb de alguma clientela que por lá vai andando...Como há uma guerra ao tabaco, assumindo mesmo algum fundamentalismo, quase igual ao que foi vítima o azeite nos anos 60, 70 e 80, qd os rapazes dos States precisavam de impor os óleos "vegetais" de vegetativos patrões que gostavam de ver os lucros das suas companhias crescer, mas dizia eu, resolvi fazer uma reconversão e transformá-la numa loja de conveniencia...Gosto da incoveniencia de possuir uma loja de conveniencia, pq sei que vai ser local de peregrinação de muita gente, pois vai estar aberta, quer dizer de porta aberta durante24h, sobre 24h. Vamos ter à vosa disposição máquinas de moedas que fazem maravilhas, pois temos máquinas para quase tudo, desde o vulgar tabaco, aos perservativos, tão combatidos pela Igreja Apostólica Romana, mas bem aceite por todas as outras...Vamos ter brioches e croissants frescos a determinadas horas, gelados da Haagen-Dass, mas que aqui tem de ser pagos, vamos ter bebidas de todo o género, desde o vulgar Pisang ao Absinto.Vamos ter azeitonas de Elvas, sem caroço e com linguetas de amendoa no meio, que em determinadas posições do frasco podem sugerir coisas notáveis, qd duas ou muitas mais azeitonas se entrelaçam...
Enfim um espaço acolhedor, onde por acaso temos dois "aKulhedores" espaços sanitários para sexos diferentes.Creio que serei visitado muitas vezes e posso dizer-vos em primeira mão que somos a primeira loja de conveniencia que tem sabonete sublimado e lápis hemostático, para ajudar a cicatrizar pequenos golpes...

Sinais dos tempos!


Por acaso quem militava por aqui na altura era PACHECO PEREIRA!





COM TODA A MEMÓRIA DO MUNDO!

Soldados Portugueses recusam-se a combater em Angola

quarta-feira, abril 25, 2007

"O maior Português de sempre"...enfim!






"O maior Português de sempre"- é bom que não se esqueça!
A sociedade precisa de Ordem, pela Educação e pela aprendizagem do respeito pelos outros. Não precisa de assassinos!


"O maior Português de sempre":

1931

O estudante V. Branco morto pela PSP, durante uma manifestação no Porto;

1932

Armando Ramos, jovem, morto em consequência de espancamentos;

Aurélio Dias, fragateiro, é morto após 30 dias de tortura;

Alfredo Ruas, é assassinado a tiro durante uma manifestação em Lisboa;

1934, 18 de Janeiro

Américo Gomes, operário, morre em Peniche após dois meses de tortura;

Manuel Vieira Tomé, sindicalista ferroviário morre durante a tortura em consequência da repressão da greve;

Júlio Pinto, operário vidreiro, morto à pancada; a PSP mata um operário conserveiro durante a repressão de uma greve em Setúbal;

1935

Ferreira de Abreu, dirigente da organização juvenil do PCP, morre no hospital após ter sido espancado na sede da PIDE (PVDE);

1936

Francisco Cruz, operário da Marinha Grande, morre na Fortaleza de Angra do Heroísmo, vítima de maus-tratos, é deportado do 18 de Janeiro de 1934;

Manuel Pestana Garcez, trabalhador, é morto durante a tortura;

1937

Ernesto Faustino, operário;

José Lopes, operário anarquista, morre durante a tortura, sendo um dos presos da onda de repressão que se seguiu ao atentado a Salaza;

Manuel Salgueiro Valente, tenente-coronel, morre em condições suspeitas no forte de Caxias;

Augusto Costa, operário da Marinha Grande, Rafael Tobias Pinto da Silva, de Lisboa, Francisco Domingues Quintas, de Gaia, Francisco Manuel Pereira, marinheiro de Lisboa, Pedro Matos Filipe, de Almada e Cândido Alves Barja, marinheiro, de Castro Verde, morrem no espaço de quatro dias no Tarrafal, vítimas das febres e dos maus tratos;

Augusto Almeida Martins, operário, é assassinado na sede da PIDE (PVDE) durante a tortura;

Abílio Augusto Belchior, operário do Porto, morre no Tarrafal, vítima das febres e dos maus-tratos;

1938

António Mano Fernandes, estudante de Coimbra, morre no Forte de Peniche, por lhe ter sido recusada assistência médica, sofria de doença cardíaca;

Rui Ricardo da Silva, operário do Arsenal, morre no Aljube, devido a tuberculose contraída em consequência de espancamento perpetrado por seis agentes da PIDE durante oito horas;

Arnaldo Simões Januário, dirigente anarco-sindicalista, morre no campo do Tarrafal, vítima de maus-tratos;

Francisco Esteves, operário torneiro de Lisboa, morre na tortura na sede da PIDE;

Alfredo Caldeira, pintor, dirigente do PCP, morre no Tarrafal após lenta agonia sem assistência médica;

1939

Fernando Alcobia, morre no Tarrafal, vítima de doença e de maus-tratos;

1940

Jaime Fonseca de Sousa, morre no Tarrafal, vítima de maus-tratos;

Albino Coelho, morre também no Tarrafal;

Mário Castelhano, dirigente anarco-sindicalista, morre sem assistência médica no Tarrafal;

1941

Jacinto Faria Vilaça, Casimiro Ferreira, Albino de Carvalho, António Guedes Oliveira e Silva, Ernesto José Ribeiro, operário e José Lopes Dinis morrem no Tarrafal;

1942

Henrique Domingues Fernandes morre no Tarrafal;

Carlos Ferreira Soares, médico, é assassinado no seu consultório com rajadas de metralhadora, os agentes assassinos alegam legítima defesa (?!);

Bento António Gonçalves, secretário-geral do P. C. P. morre no Tarrafal;

Damásio Martins Pereira, fragateiro, morre no Tarrafal;

Fernando Óscar Gaspar, morre tuberculoso no regresso da deportação;

António de Jesus Branco morre no Tarrafal;

1943

Rosa Morgado, camponesa do Ameal (Águeda), e os seus filhos, António, Júlio e Constantina, mortos a tiro pela GNR;

Paulo José Dias morre tuberculoso no Tarrafal;

Joaquim Montes morre no Tarrafal com febre biliosa;

José Manuel Alves dos Reis morre no Tarrafal;

Américo Lourenço Nunes, operário, morre em consequência de espancamento perpetrado durante a repressão da greve de Agosto na região de Lisboa;

Francisco do Nascimento Gomes, do Porto, morre no Tarrafal;

Francisco dos Reis Gomes, operário da Carris do Porto, é morto durante a tortura;

1944

General José Garcia Godinho morre no Forte da Trafaria, por lhe ser recusado internamento hospitalar;

Francisco Ferreira Marques, de Lisboa, militante do PCP, em consequência de espancamento e após mês e meio de incomunicabilidade;

Edmundo Gonçalves morre tuberculoso no Tarrafal;

Assassinados a tiro de metralhadora uma mulher e uma criança, durante a repressão da GNR sobre os camponeses rendeiros da herdade da Goucha (Benavente), mais 40 camponeses feridos a tiro



1945

Manuel Augusto da Costa morre no Tarrafal;

Germano Vidigal, operário, assassinado com esmagamento dos testículos, depois de três dias de tortura no posto da GNR de Montemor-o-Novo;

Alfredo Dinis (Alex), operário e dirigente do PCP, é assassinado a tiro na estrada de Bucelas;

José António Companheiro, operário, de Borba, morre de tuberculose em consequência dos maus-tratos na prisão;

1946

Manuel Simões Júnior, operário corticeiro, morre de tuberculose após doze anos de prisão e de deportação;

Joaquim Correia, operário litografo do Porto, é morto por espancamento após quinze meses de prisão;

1947

José Patuleia, assalariado rural de Vila Viçosa, morre durante a tortura na sede da PIDE;

1948

António Lopes de Almeida, operário da Marinha Grande, é morto durante a tortura;

Artur de Oliveira morre no Tarrafal;

Joaquim Barreiros, marinheiro da Armada, morre no Tarrafal após doze anos de deportação;

António Guerra, operário da Marinha Grande, preso desde 18 de Janeiro de 1934, morre quase cego e após doença prolongada;

1950

Militão Bessa Ribeiro, operário e dirigente do PCP, morre na Penitenciaria de Lisboa, durante uma greve de fome e após nove meses de incomunicabilidade;

José Moreira, operário, assassinado na tortura na sede da PIDE, dois dias após a prisão, o corpo largado por uma janela do quarto andar para simular suicídio;

Venceslau Ferreira morre em Lisboa após tortura;

Alfredo Dias Lima, assalariado rural, é assassinado a tiro pela GNR durante uma manifestação em Alpiarça;

1951

Gervásio da Costa, operário de Fafe, morre vítima de maus-tratos na prisão;

1954

Catarina Eufémia, assalariada rural, assassinada a tiro em Baleizão, durante uma greve, grávida e com uma filha nos braços;

1957

Joaquim Lemos Oliveira, barbeiro de Fafe, morre na sede da PIDE no Porto após quinze dias de tortura;

Manuel da Silva Júnior, de Viana do Castelo, é morto durante a tortura na sede da PIDE no Porto, sendo o corpo, irreconhecível, enterrado ás escondidas num cemitério do Porto;

José Centeio, assalariado rural de Alpiarça, e assassinado pela PIDE;

1958

José Adelino dos Santos, assalariado rural, é assassinado a tiro pela GNR, durante uma manifestação em Montemor-o-Novo, vários outros trabalhadores feridos a tiro;

Raul Alves, operário da Póvoa de Santa Iria, após quinze dias de tortura, é largado por uma janela do quarto andar da sede da PIDE, a esposa do embaixador do Brasil assiste à sua morte;

1961

Cândido Martins Capilé, operário corticeiro, é assassinado a tiro pela GNR durante uma manifestação em Almada;

José Dias Coelho, escultor e militante do PCP, é assassinado á queima-roupa numa rua de Lisboa;

1962

António Graciano Adágio e Francisco Madeira, mineiros em Aljustrel, assassinados a tiro pela GNR;

Estêvão Giro, operário de Alcochete, é assassinado a tiro pela PSP durante a manifestação do 1: de Maio em Lisboa;

1963

Agostinho Fineza, operário tipógrafo do Funchal, é assassinado pela PSP, sob a indicação da PIDE, durante uma manifestação em Lisboa;

1964

Francisco Brito, desertor da guerra colonial, é assassinado em Loulé pela GNR;

David Almeida Reis, trabalhador, assassinado por agentes da PIDE durante uma manifestação em Lisboa;

1965

General Humberto Delgado e a sua secretaria Arajaryr Campos assassinados a tiro em Vila Nueva del Fresno (Espanha), os assassinos o inspector da PIDE Rosa Casaco e o sub-inspector Agostinho Tienza e o agente Casimiro Monteiro;

1967

Manuel Agostinho Góis, trabalhador agrícola de Cuba, morre vítima de tortura na PIDE ;

1968

Luís António Firmino, trabalhador de Montemor, morre em Caxias, vítima de maus-tratos;

Herculano Augusto, trabalhador rural, é morto espancado no posto da PSP de Lamego por condenar publicamente a guerra colonial;

Daniel Teixeira, estudante, morre no Forte de Caxias, em situação de incomunicabilidade, depois de agonizar durante uma noite sem assistência;

1969

Eduardo Mondlane, dirigente da Frelimo, assassinado através de um atentado organizado pela PIDE;



1972

José António Leitão Ribeiro Santos, estudante de Direito em Lisboa e militante do MRPP, assassinado a tiro durante uma reunião de apoio à luta do povo vietnamita e contra a repressão, o seu assassino, o agente da PIDE Coelha da Rocha, viria a escapar-se na "fuga-libertação" de Alcoentre, em Junho de 1975;

1973

Amílcar Cabral, dirigente da luta de libertação da Guiné e Cabo Verde, é assassinado por um bando mercenário a soldo da PIDE, chefiado por Alpoim Galvão;

1974, 25 de Abril

Fernando Carvalho Gesteira, de Montalegre, José Barreto, de Vendas Novas, Fernando Barreiros dos Reis, soldado de Lisboa, e José Guilherme Rego Arruda, estudante dos Açores, assassinados a tiro pelos pides acoitados na sua sede na Rua António Maria Cardoso, ainda feridas duas dezenas de pessoas.

A PIDE acaba como começou, assassinando. Aqui ficam contabilizadas as inúmeras vítimas anónimas da PIDE, GNR e PSP em outros locais de repressão.

Mais ainda

Podemos referir, duas centenas de homens, mulheres e crianças massacradas a tiro de canhão durante o bombardeamento da cidade do Porto, ordenada pelo coronel Passos e Sousa, na repressão da revolta de 3 de Fevereiro de 1927. Dezenas de mortos na repressão da revolta de 7 de Fevereiro de 1927 em Lisboa, vários deles assassinados por um pelotão de fuzilamento, ás ordens do capitão Jorge Botelho Moniz, no Jardim Zoológico.

Dezenas de mortos na repressão da revolta da Madeira, em Abril de 1931, ou outras tantas dezenas na repressão da revolta de 26 de Agosto de 1931. Um número indeterminado de mortos na deportação na Guiné, Timor, Angra e no Cunene. Um número indeterminado de mortos devido à intervenção da força fascista dos "Viriatos" na guerra civil de Espanha e a entrega de fugitivos aos pelotões de fuzilamento franquista, as Dezenas de mortos em São Tomé, na repressão ordenada pelo governador Carlos Gorgulho sobre os trabalhadores que recusaram o trabalho forçado, em Fevereiro de 1953. Muitos milhares de mortos durante as guerras coloniais, vítimas do Exército, da PIDE, da OPVDC, dos "Flechas", etc.

segunda-feira, março 19, 2007

Luis Pacheco em entrevista


Luíz Pacheco outra vez


São raras as vezes que se fala do Luíz Pacheco mais raras ainda as entrevistas. Dia 9 de Janeiro coloquei um post que alertava para uma entrevista por ele dada ao DN, hoje fiquei a saber pelo blog Ene Coisas de outra que saiu na Pública dia 28 de Março. Vale a pena ler e conhecer alguns pontos de vista de alguém que não tem medo de dizer o que realmente pensa (por mais inconveniente que seja).

Apesar de extensa leiam a entrevista.

"Isto de estar vivo
Ainda um dia acaba mal. É uma frase do Manuel da Fonseca. Para o Manuel acabou, coitado. Ele caiu de uma escada abaixo, os amigos estavam à espera dele no café, ele não aparecia, foram lá a casa dele, e deram com ele inanimado. Depois ficou em coma profundo e morreu daí a uns 8 dias, talvez.

Isto [o lar] não é uma casa alegre. Não pode ser. É o terceiro lar onde estou e já sei que não há hipótese de arranjar melhor. Agora, para pagar isto é que me vejo um bocado aflito, porque eu não tenho dinheiro que chegue para isto. Como é que faço? Olhe, faço os possíveis. Isto custa para cima de mil euros por mês. O que eu recebo não dá para estar descansado. Tenho uma situação muito incerta.

Tenho um subsídio vitalício de 120 contos por mérito cultural. Há muita gente que tem. Agradeço isso ao Alçada Baptista. E ao Balsemão. Foi o Balsemão que inventou um decreto, que era o do mérito cultural, para legalizar estas pensões. O meu subsídio em princípio é vitalício, é um subsídio pelo passado. Mas com essa maluca das Finanças - por acaso até é gira, é muito feia mas é gira, é uma mulher a sério, não é o Peixoto, aliás o Barroso! - nunca se sabe. Mas não, porque se uma pessoa tem mérito cultural não o perde por causa da Ministra das Finanças.

Eu até estou um bocado resguardado. Enfim, estou bem aqui. Este quarto é um bom quarto, apetece trabalhar. Eu é que já não estou muito capaz de trabalhar, porque a memória, a vista, tudo isso inibe um tipo. Já não leio os jornais, não consigo. A minha ligação com o mundo é a rádio.

As minhas doenças, sei que está tudo mais ou menos controlado. São coisas antigas, tenho a minha medicação. Moralmente depende muito dos dias. Sou muito influenciável por qualquer coisa, por qualquer dia de sol. Se é bom? Ó faxavor! Você nem faz ideia!

Ai fulano de tal está cheio de papel? Quero lá saber! Qualquer dia morre!

O Antigo Regime

Devia ter ido falar com o Vasco Gonçalves! Não o ouviu hoje de manhã a falar? [numa sessão de comemoração dos 30 anos do 25 de Abril] E ele tem razão, porque, de facto, o Mário Soares foi um agente terrível da contra-revolução. O Vasco não lhe perdoa. Eu não sabia que ele ainda estava vivo. Ele já deve estar muito velhote, coitado.

O fascismo era péssimo. Mas agora, por parte da malta nova, não há a noção do que era. Nada. Noção nenhuma. E há esses rapazinhos, que são uns remanescentes - como o Pereira Coutinho, esse tipo que escrevia no Independente e que agora parece que escreve no Expresso, enfim, gente de más famílias. A reacção está aí com toda a força. Talvez ainda não com a força que eles queriam. Nova direita? Extrema direita!

Antigamente não era fácil. Havia um pavor, que era justificado, mas esse pavor, essa perseguição, insidia mais sobre certas classes. Certas classes... trabalhadoras. Eu recordo-me que uma noite fui ao Barreiro, e fiquei lá. Fiquei lá numa pensão manhosa, barata, e de noite fui atacado, não pela Pide mas por percevejos. Ó faxavor! Seja como for, havia então patrulhas da guarda republicana a cavalo toda a noite. Isto foi talvez por volta de 1955 ou 56. Os intelectuais eram de uma classe média, não havia muitos que fossem da classe operária.

Fui para o liceu em 1936, foi o primeiro ano da Mocidade Portuguesa. No Camões, eu tinha professores idosos, gente formada pelo regime republicano. Tal como depois do 25 de Abril houve muita gente que entrou para as universidades, gente que eles foram buscar - o Piteira Santos, o Mário Dionísio, etc. -, também na altura eu tive como professores no Camões tipos de um radicalismo republicano terrível. Havia um tipo que era professor de matemática. Quando chegava o contínuo com uma circular da Mocidade Portuguesa para ler, qualquer coisa desportiva ou assim, ele dizia que era ele que lia, e lia aquilo com um tom importante. Não deixava o contínuo ler, e lia aquilo com uma entoação e com um ar extraordinários. Já professores como o Câmara Reis, que era professor de literatura portuguesa, era um tipo nitidamente do contra. Ou o João de Brito, que ensinava latim. Esses escolhiam os textos e davam aulas do contra.

Em casa eu não tive ambiente familiar do contra, não havia ninguém que me informasse. O meu pai não ligava nenhuma a isso. Mas eu fui abrindo os olhos, também graças a esses professores que indicavam leituras. Os professores eram muito importantes. Eu, de professores fascistas só tive um, e era um fascista um bocadinho moderado. Ensinava latim mas não sabia latim. E havia os professores padres. Tive um professor que era um espanto, era o Monsenhor Damasceno Fiadeiro, que tinha sido confessor da rainha Dona Amélia, era cónego da Sé, e era um tipo impecável. Não fazia propaganda católica nenhuma. Outro foi o Costa Nunes, que era professor de canto coral. Esse também era um tipo engraçado.

A Mocidade Portuguesa era uma coisa extremamente idiota, era uma imitação, uma coisa inspirada no fascismo italiano. Mas aquilo era muito reduzido. Quem quisesse as benesses que eles davam - cavalos para treinar, passeatas no rio - até podia ser uma coisa boa. Para os outros era uma grande palhaçada. Nós éramos voluntários mas aquilo era obrigatório. Os liceus não eram mistos, como agora. E mais: não se podia chegar a um liceu de raparigas. Depois houve uma fase um bocadinho diferente. O país acordou com o Norton de Matos. Agora há por aí uns gajos que se gabam muito de prisões e torturas. Que as houve, claro. Ai o Pacheco Pereira diz que a Pide não torturava? A ele não!

Escrever

A diferença de gerações não perdoa. Você, por exemplo, você não escreve para mim. Os autores de hoje têm uma visão do mundo muito diferente de nós. As viagens, que agora são muito facilitadas, transformam as pessoas. É outro mundo, este agora.

A primeira coisa que escrevi para um jornal foi em forma de silogismo e cortaram-me a premissa. Eu fiz aquilo com muito cuidado mas devia ter feito com mais cuidado ainda. Tu antigamente nunca sabias se aquilo que tu escrevias seria publicado ou não. Geralmente faziam os cortes com o lápis azul. Eu conhecia aquela malta toda da comissão de censura à imprensa, eram coronéis, eram capitães, gente sem qualquer formação política, acho eu, gente muito pacata embora uns grandes filhos da puta. Depois desses apareceram uns intelectuaizinhos de direita, muito mais exigentes e muito mais sabedores. Era gente que vinha da Católica, uns formados, outros não. O embate foi o encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores, que era uma coisa nitidamente do fascismo mas muito minada, muito minada pelo Partido Comunista. Aquilo foi encerrado por causa de uma filha-da-putice muito grande de um gajo que já morreu que era o Alexandre Pinheiro Torres. Era um tipo que como tinha ido para Inglaterra se permitia aqui um certo à vontade, tinha lá um emprego numa universidade inglesa. Esse tipo pertenceu a um júri da SPE em que deram o prémio ao Luandino Vieira, que eles não sabiam que estava no Tarrafal. Quando investigaram onde estava o autor, descobriram que estava no Tarrafal. A que mais se dedicava essa Sociedade de Escritores? Essa é boa! Ao de sempre: a dar uns dinheiros.

Os gajos que viviam da literatura não se atreviam a escrever romances muito rebarbativos. Porque uma edição ainda custa dinheiro. Havia gajos que se governavam de escrever: o Alves Redol, o Namora. O Alves Redol era um escritor profissional, que vivia do que escrevia. Ora, não ia arriscar o seu modo de vida com um romance muito directo, não é? Nem o editor publicava. Embora, de vez em quando, dessem uns prémios a uns tipos do contra. Havia era uns gajos que negavam os prémios, que se recusavam a receber os prémios. E também havia aqueles que recebiam prémios e que gostavam de se gabar. O meio era muito pequeno, e ainda é.

Você acredita naquelas pessoas que agora dizem que não passam sem escrever? Pois é claro que é um lugar-comum! E é uma aldrabice! Desde quando é que uma pessoa não vive sem escrever? Essa está muito boa! Ouça, eu não tenho obra escrita de grande fôlego, o que eu tenho é sobretudo uma experiência de editor. Acontecia que um gajo me pedia para publicar qualquer coisa, e eu forjava um livro. São textos pequenos, eu nunca consegui fazer um romance. Nunca tive um tempo livre, seguido, sem chatices, sem interrupções. Um romance requer uma certa estabilidade. Mas não estou muito preocupado com a imortalidade.

O Lobo Antunes é hoje o escritor mais internacional de Portugal. E o Saramago, embora diferentemente. São autores que já não escrevem para cá, escrevem para lá, para os leitores dos outros países. Se um tipo escreve para Portugal, em português, geralmente cai naquilo que é o bonito estilo, o aprimorado. O Aquilino Ribeiro, por exemplo, tinha um estilo muitíssimo rebarbativo, com palavrões provincianos, palavras vernáculas, arcaicas, o que dava àquela prosa um certo encanto. E daí, talvez por isso, tanto o Saramago como o Lobo Antunes têm de ter uma prosa muito corriqueira.

Para escrever bem, para estar atento - por desejar está-lo - é preciso um tipo ler muita coisa.

Sim, o trabalho do Lobo Antunes interessa-me. Tem muitas qualidades. Tem métier, já escreveu alguns 15 romances, são anos de escrita. Esse também diz que não pode estar sem escrever, mas esse é verdade. Mas também é maluqueira. Ele tem muita pancadinha. Há livros do Lobo Antunes de que eu gostei porque me tocavam. Gostei deles por bairrismo, porque ele falava de Benfica, e da Avenida Grão Vasco, da palmeira ao pé dos correios. O Lobo Antunes é um tipo um bocado sentimental, é um tipo um bocado arrapazado.

A certa altura, eu estava um bocado isolado, porque quem não andasse muito metido - não era bem ser militante, era ser próximo - com o PCP não tinha saída. Eu percebi que isolado não ia lá. Então inventei uma editora, para ter um espaço meu, embora eu não publicasse logo na Contraponto. Isso foi mais tarde. A Contraponto começou por ser uma revista. Era uma revista gira. Você nunca a viu? Também só saíram duas. E aquilo era uma coisa minha, ali era eu que mandava. Em relação aos autores que editei, isso é muito contingência, porque a gente edita o que está próximo de nós, o que vem ter connosco. O grande critério, o político, o estético, era um: os gajos do Estado Novo não entravam. Quando eu comecei a editar, que foi em 1950, tinham já aparecido os surrealistas, que era uma linguagem muito mais revolucionária do que a que era cá usada. Era a linguagem do Paul Éluard, do Aragon, dessa gente toda de lá fora. O surrealismo em França teve sempre uma espécie de luta com o PC. Entravam, saíam, eram expulsos, voltavam a entrar. A determinada altura eles tinham uma frase que era: o Surrealismo ao serviço da revolução. Mas a revolução para eles era mais o Trosky, era a revolução permanente.

O que apareceu aqui era uma coisa de cafés. Depois, os cafés da Baixa passaram a ser bancos, e a actividade deslocou-se para o Saldanha. Mas os cafés não eram igrejas surrealistas. As pessoas reuniam-se ali como podiam reunir-se noutro sítio qualquer. Criam-se hábitos, um gajo em vez de ir a vários cafés, vai sempre ao mesmo. E há outros que fazem o mesmo. Ora, criou-se uma lenda em volta da cultura dos cafés, mas aquilo não era nada organizado. Era uma coisa espontânea. O café Gelo, por exemplo, transformou-se num mito. A malta do Gelo, dizia-se que era uma malta terrível, uma malta iconoclasta. Era o Cesarini, o Herberto, o Couto Viana, o Raúl Leal. Defronte do Gelo havia o café Restauração. Aí iam os tipos mais velhos. E eu, de repente chateava-me com os mais novos e ia para os velhos.

Eu fazia edições muito pequenas, não dava para mais. Edições que hoje são raríssimas e muito valorizadas. Por acaso isso dá-me um certo gozo. Eu vendia muitos livros a gajos que nunca tinham comprado um livro na vida. Eu cheguei a vender um livro a um tipo que tinha um talho, e esse gajo guardou o livro e agora fez um negócio maluco. Não lia? Pois claro que o gajo nunca tinha lido nada na vida!

Despojos de gente

Lares, com este é o terceiro. São casas onde não se compra um jornal. E agora, como há a televisão, a malta acha que anda toda muito informada. O convívio com as pessoas que estão aqui? Não há, não existe. Uma conversa? Deixe-me rir! Não abrem a boca! Isto já não são pessoas. Isto são restos de pessoas. Havia aqui um tipo a quem eu salvei a vida - enfim, salvei a vida por mais uns tempos. Eu de noite como não durmo, ouvi o homem chamar. E eu fui lá e ele pediu-me para chamar alguém. Eu toquei na campainha e ele foi logo para o Hospital de S. José. Estava muito aflito. Bom, depois de estar no hospital o tipo voltou e foi com ele que aprendi a jogar à bisca dos 9. Mas isso é um caso único! Em Palmela, na altura em que eu lá estava, havia uma gente muito viva. Dançavam, namoravam e havia um grupinho de jogo.

Como diz? Que estou deslocado aqui? O que eu estou é enterrado! Ouça, eu já não saio daqui. Eu já vi que os defeitos destes gajos dos lares não são defeitos: são atributos. O que se passa aqui não é pior do que aquilo que se passa em Palmela ou no Montijo. Mas ouça: você não venha para aqui nunca! Aliás, não vá para lado nenhum. Aí é que está o problema: perdeu-se o hábito das casas de família. Pai, mãe, filhos, avós, tias velhas. As casas agora não permitem isso. Eu nasci numa casa com 11 divisões, e cabia lá muita gente. Agora num T1, isso não dá nem para um casal e dois filhos.

Este abandono não é bem abandono. É antes o chamado descartável. Hoje em dia, um casal normal que tem dois filhos, vai-se concentrar nesses dois filhos. Nem ele nem ela querem lá a velhada. E mesmo que quisessem, onde é que eles a punham? É claro que antigamente nem toda a gente tinha casarões. Como é que faziam os mais pobres? Viviam juntos! Esta coisa dos lares, isto é uma coisa americana. Por que é que chamam lar? É um eufemismo! O lar não é substituível.

Ouça, faz mais falta os jornais e a leitura do que a visita. Mas a visita é sempre uma alegria. Só que depois uma pessoa fica muito cansada. Eles dizem que eu sou a pessoa que tem mais visitas e mais correio. Quando cheguei a esta casa, assim que comia ia para a rua. Ia para o jardim, ou andava a passear nos carros da Carris. Não, não sinto falta. Ouça: uma pessoa tem de que mentalizar. É outra coisa, é outra vida. A cada dia que passa vejo menos. Qualquer dia fico cego de todo. Acho que primeiro se vêem umas sombras.

Se há uma diferença entre as mulheres e os homens, aqui dentro? Não! Está tudo badalhoco! Está tudo taralhoco! Há aqui uma criatura, uma mulher alta, grande, que fazia o corredor de andarilho durante toda a manhã. Ela deve ter tido uma congestão, porque há uma perna que não mexe, há uma perna que puxa a outra. Eu ouvia o arrastar do andarilho, para lá e depois para cá. E depois ela aparecia e desaparecia. E depois aparecia outra vez. Eu lembro-me de quando ela foi ao casamento de uma neta, toda aprimorada. E ela agora passa o tempo deitada na cama, de lado. Isto dos lares é terrível porque uma pessoa não só está a morrer aos bocadinhos como está a ver morrer aos bocadinhos. Quem tenha um bocadinho de atenção começa a notar que há muitos que se vão afastando, cada vez mais, que se vão ausentando.

Eu estive para ir para um lar que tinha velhos e crianças também. Talvez fosse um lar com uma escola anexa, não sei bem. Isso é uma coisa que dá muita vitalidade. Aqui, por exemplo, são proibidos os animais. Mas os animais dão muita alegria aos velhos. Eu já cheguei a ter aqui no quarto 4 pombos! E tive aqui uma espécie de pardalito que era um bichinho diferente, que vinha aqui todas as manhãs. Eu já desisti da vida muitas vezes, mas o instinto de conservação é muito forte. Havia uma coisa que me animava que era o comer. Mas agora nem o comer. Agora há aí umas sopas reforçadas, umas sopas óptimas. Mas houve um estupor qualquer que se queixou que a sopa tinha sal a mais, e agora não põem sal na sopa. Bem, eu tenho aí sal. Mas é diferente. Esse gajo das cartas, o da bisca dos 9, era um gajo que tinha mau perder. E eu, que me estou marimbando se perco ou se ganho, acabei por conhecer melhor o gajo. E eu já não podia ver o gajo. Depois foi-se embora, parece que voltou para casa, mas vem cá todos os dias, não tem capacidade para estar sozinho.

As entradas e as saídas aqui? Nem se dá por isso! As saídas é para o cemitério. Não nos dizem, mas sabe-se logo. Nestas casas, o facto de uma pessoa morrer, requer um certo recato. É claro que as pessoas não ficam indiferentes, porque quando vêem partir alguém pensam que qualquer dia vão elas. Houve aqui alguém que se atirou de uma janela abaixo, e eu só soube muitos dias depois. Já vi morrer muita gente. E quando entram também não se dá por isso. Apresentar os recém-chegados? Não, isso não se faz! Há uns quartos grandes onde há 4 ou 5 camas. Quando morre alguém os outros não reparam. Foi a pessoa e foi a cama, e ninguém repara. Arrumam o quarto de maneira a não reparar. Isto é gente que já está ausente. Há um tipo que anda por aí nos quartos das senhoras. Ele senta-se, como se estivesse a ver televisão, mas não está a ver nada, está a dormir. É aquilo a que se chama a modorra. E eu, às vezes estou aqui e de repente estou a dormir. Nada aqui excita a atenção.

A estopa ao pé do lume

Politicamente, economicamente, podemos estar numa má altura. Mas há coisas que não voltam para trás. Uma coisa que eu tenho reparado é numas figuras de raparigas que nós nesse tempo não apanhávamos. Há agora um novo tipo de mulher. Mulheres formadas, algumas com dois cursos, com empregos, com uma ginástica de se desenrascarem formidável. São mulheres muito diferentes das do meu tempo. Sabe o que é? Começam a funcionar muito mais cedo. Não haja dúvida nenhuma que a repressão aí era tenebrosa. Fui parar à cadeia 5 vezes por causa disso. Não era bem puritanismo. Era estupidez e a Igreja católica. Eram valores como a virgindade, o pudor... Havia muita hipocrisia. Mas a gente também se governava. Eu fui parar à cadeia porque arrisquei. Se eram virgens? Bem, eu não fui lá ver se elas eram virgens.

Quando uma rapariga é menstruada, a Natureza já lhe dá o estatuto de mulher. Pode ser mãe! Já não é uma miúda, enquanto que um puto de 14 anos pode ser um pateta alegre. Não viveu nada, uma mulher com 14 anos? Essa é boa! Não viveu mas começa a viver! Com a minha primeira mulher, ainda uma menina, eu ia para o pinhal ler e ela fazia uma gracinha que era mandar uma pedrada no livro. Era um assédio sexual! Era a estopa ao pé do lume. Eu disse isso numa entrevista que dei. Sabe o que é que saiu? A sopa ao pé do lume! Agora publicaram isso em livro e já foi emendado. Estas entrevistas gravadas é uma chatice. Às vezes não é nada inteligível. E depois é também uma questão de linguagem. No meu tempo já não havia estopa, isso era uma frase que o meu pai usava. É um português que não é arcaico mas é antigo. Uma rapariga de 30 anos não entende essa linguagem. Ora, a estopa é uma coisa inflamável.

Bom. A vítima, a infeliz donzela, essa nunca se denunciava. Antigamente fazia-se uma coisa que era 'a prova da coelha'. Injectava-se numa coelha urina da presumível grávida e a coelha tinha uma alteração de temperatura ou coisa que o valha. Antigamente, rapazes e raparigas entendiam-se como se entendem hoje. Não tinham era o à vontade que há hoje. Você não faz ideia do pavor que era namorar! Vocês hoje não têm a mínima noção disso. Vocês vivem no paraíso! Mas a grande revolução foi a pílula. Não estou a falar por mim que eu nunca tomei essa porcaria. Detesto isso. Eu sou contra o aborto.

Tudo se cria

Eu não acho bem que se prendam as pessoas, mas sou contra o aborto. Eu sou a favor da Natureza. A Natureza não é a favor do aborto. Há pessoas que não podem criar os filhos? Isso é conversa! Sim, tudo se cria. Tem em mim o exemplo. Eu, sem dinheiro nenhum, sem emprego nenhum, tenho 8 filhos. Isso é conversa, isso é uma cobardia que esses gajos instigam. Não, não misture as coisas. O referendo não é a favor do aborto. Eu desisti um bocadinho da política porque fui lá de propósito para votar a favor da despenalização do aborto e foi o que se viu. Com certeza que sou a favor da despenalização. Andarem aí a prender as raparigas, isso é um disparate.

O Estado é que não quer dar o apoio à mãe solteira. Haviam de ter apoio, tudo de borla, para elas e para os filhos. Filhos indesejados? Vamos lá a ver: uma rapariga que vai para a cama com um rapaz sabe que se arrisca.

Há aqui no lar 5 ou 6 raparigas que têm vinte e poucos anos, já com dois três filhos. São miúdas? São umas mulheraças! E desenrascam-se, é o que eu sei. Como é que os meus filhos cresceram? Ora essa! Se vocês os visse, crescidos como estão! É preciso coragem. Minha e deles. As mães? As mães não foram abandonadas. Os filhos estão todos vivos, menos os que as mães mataram. Enquanto eu podia, andaram no Charles Lepierre, que era muito caro. Eu na altura era funcionário público. Não fui sempre desempregado. Depois saíram, porque eu deixei de pagar e eles tiveram que sair. Eu tive muita sorte, porque de facto não era fácil, um tipo como eu, desde 58 (que foi quando pedi a demissão) sem emprego certo. Quando me vêem dizer: estou desempregado. Eu dou logo os parabéns! Há a mania do emprego sabe? E depois metem-se em despesas e ficam agarrados. Eu nunca pensei em comprar carro, casa, essas coisas. E esta coisa das mulheres serem muito influentes é muito mau para o marido, porque exigem dos maridos um certo trem de vida. Antigamente as mulheres sujeitavam-se um bocadinho às condições que havia. E se não se sujeitavam, eu despachava-as! Agora estes gajos, querem assumir certas coisas perante as mulheres, e depois é a vaidade também, estes gajos de agora são uns vaidosos.

Porrada por encomenda não

Sim, às vezes sou um bocado duro, mas a dureza não é só franqueza, é uma exigência própria. Mas isso hoje não interessa a ninguém, hoje tudo se resume ao deve e ao haver. O que vejo por exemplo nos meus filhos, é uma retracção. Eles não se abrem. Há uma predisposição para a pessoa gostar de si própria e, em consequência disso, fecha-se, cria uma barreira. Se você ler certos textos meus vai encontrar coisas que não são fáceis de serem ditas. Tenho em mim um gosto de estar atento. Estar atento é vermo-nos, a nós próprios como aos outros, da maneira certa. O que é muito difícil.

As pessoas mudam de uma maneira total. Às vezes é até muito rápido, não é ao longo da vida. Ninguém muda? Bem, talvez. Eu acho é que ninguém, quase ninguém, se revela. Houve uma altura em que eu tinha a noção de que conhecia tudo. E hoje tenho a noção contrária. A pessoa mais boçal, mais primária, de repente tem gavetas fechadas. É muito difícil conhecer os outros. Há um texto meu que é o Teodolito, que é o homem e a sua circunstância. A pessoa que conhece a sua circunstância - se você estivesse aqui neste sítio onde eu estou, rodeada de canibais, você ficava de repente muito atenta, por uma questão de autodefesa - fica atenta. Não, não é preciso conversar muito para conhecer o outro. Há aqui uma coisa que é a gorjeta, que é um caso sério. Porque não se sabe a quem se há-de dar, se se há-de dar igual a todos, é uma chatice. Depois descobri que elas gostam é do "pourboir" discreto. Ai nos cabeleireiros também é assim? Ai não sabia. Eu sou um tipo atento. É uma maneira de estar na vida. Quando comecei a publicar no Público alguém anunciou: o escritor e polemista Luiz Pacheco. Queriam que eu fosse para o jornal dar porrada. E eu, só para chatear, para contrariar, estive quase um ano a retrair as unhas. Porrada por encomenda não."

sábado, outubro 14, 2006

Os dois mundos


Mapa 1-Produto Nacional Bruto



Mapa 2-População

Nas projecções de Tikunov, a dimensão de cada país é ajustada de acordo com o valor da variável representada.O mapa 2, que se refere à população, mostra uma apreciável concentração populacional no hemisfério sul, particularmente no continente asiático.O mapa 1, relativo ao Produto Nacional Bruto, põe a nu o contraste chocante entre a extrema pobreza do Terceiro Mundo e a elevada riqueza dos países desenvolvidos.

segunda-feira, março 06, 2006

A nave dos feridos mortos desaparecidos e enlouquecidos

A revolta do navio Orion, da Marinha portuguesa, no dia 2 de Junho de 1973 foi decisiva para salvar a vida de centenas de soldados e população que fugiram dos bombardeamentos do PAIGC na batalha de Gadamael. Este episódio de desobediência a ordens de Spínola, desconhecido até hoje, é indissociável da resistência travada por meia dúzia de soldados no interior do aquartelamento de Gadamael. As duas histórias são aqui contadas por alguns dos seus protagonistas, como o comandante da Marinha Pedro Lauret, o coronel dos comandos Manuel Ferreira da Silva e o grumete Ulisses Faria Pereira. Eles são, com outros, os heróis desconhecidos de Gadamael.Passaram 32 anos desse dia 1 de Junho de 1973 mas o comandante Pedro Lauret ainda se recorda do arroz de tomate com peixe que estava a comer e que era também o jantar da guarnição da fragata Orion em missão no rio Cumbijã. Ali estavam, estacionados nas águas de um dos muitos rios da Guiné, a comer a tomatada de peixe e a beber cerveja gelada enquanto a noite começava a deitar-se sobre a mata de Cantanhez, tão bela quanto sinistra para os milhares de soldados portugueses que a olhavam como um santuário dos guerrilheiros do PAIGC. Foi à hora do jantar que o comandante, então imediato da embarcação, Pedro Lauret recebeu a indicação de que estava a chegar uma mensagem de "alto grau de precedência", ou seja, de António Spínola, comandante-chefe do contingente militar português na Guiné.
O jantar acabou e começava uma inesperada e marcante aventura nas vidas de todos os homens embarcados no Orion. Pedro Lauret entra na cabine onde a mensagem estava a ser descodificada e percebe logo que têm de preparar-se para levantar ferro. A mensagem trazia ordens do Comando Geral a determinar que a Orion subisse o rio e embarcasse uma companhia de paraquedistas que deveria conduzir para o porto de Cacine.
"Não eram dadas explicações mas de imediato nos apercebemos que algo muito grave se passava. Embarcar de noite uma companhia de paraquedistas sem qualquer tipo de protecção, naquele local, era muito arriscado", afirma Pedro Lauret.
A missão secreta chegou à hora de jantar
As ordens destapavam uma outra face da moeda: tirar uma companhia de paraquedistas da região iria diminuir a capacidade militar num local problemático. As missões da Marinha no rio Cumbijã tinham recomeçado em 1972 quando Spínola decidira reactivar cinco aquartelamentos na região de Cantanhez mas a operação não estava a dar resultados. O dispositivo militar tinha sido reforçado com companhias de tropas especiais, paraquedistas e fuzileiros, bem como diversas unidades do Exército mas mal punham o pé for a do arame farpado dos quartéis eram de imediato atacados. "Nunca se percebeu muito bem o objectivo desta reocupação", declara Pedro Lauret que recorda os meios navais envolvidos nessas missões no Cumbijã: a Orion, duas lanchas de desembarque médias (LDM), oito botes zebro, uma companhia de "fuzos".
O jantar acabou de imediato para toda a tripulação. O soldado Ulisses Faria Pereira, grumete electricista e moço da botica, foi um dos que perdeu a refeição. "Ao entardecer já a tripulação comia arroz de tomate com peixe frito. Lembro-me que estava de "quarto" e, por isso, só iria jantar depois da rendição. Jantar é uma forma de dizer... O arroz já estava feito em cimento e comi, à boa maneira portuguesa, uns peixinhos fritos com pão e umas cervejas."Foram dadas instruções aos "patrões" das LDM para seguirem em direcção a Cacine pelo canal do Melo, um pequeno braço de rio que liga os Cumbijã e Cacine, curto e seguro mas não navegável pelas embarcações maiores.
A Orion seguiu rio acima e embarcou os "paras" no local combinado. Foi uma operação morosa pois não havia nenhum ponto para acostar. Os soldados foram transportados em botes depois de montada uma linha de segurança.
Seriam umas oito da manhã de 2 de Junho quando a Orion chegou ao largo de Cacine. Foi a essa hora que também chegaram as notícias dos acontecimentos que tinham estado na origem daquela missão.Spínola proíbe auxílio a "cobardes"
O major Pessoa, do batalhão de paraquedistas que se encontrava em Cacine, subiu a bordo da Orion e explicou o que se estava a passar: a guarnição de Guileje, um quartel situado numa zona próxima da fronteira com a Guiné-Conakri, tinha sido alvo de ataques fortíssimos e o comandante da unidade, coronel Coutinho e Lima, sem reforços, sem apoio de tropas especiais, sem meios de evacuação de feridos e mortos, decidira retirar do quartel e evacuar todo o pessoal para Gadamael. Foi imediatamente preso e enviado para Bissau às ordens de Spínola. Gadamael estava agora debaixo de fogo intenso e de alta precisão.
O retrato da situação em Gadamael feito pelo major Pessoa era caótico. "As últimas informações indicavam que de um conjunto de efectivos de quase três companhias, só se encontravam no quartel a defender aquela posição cerca de 30 homens. Os restantes e a população encontravam-se em fuga pelas margens do rio", recorda Pedro Lauret.
A reacção de Spínola à deserção anunciava-se tremenda. O major Pessoa informou então os comandantes do Orion que tinha estado de manhã em Cacine e Gadamael por brevíssimos instantes e tinha proibido o socorro a quaisquer militares em fuga, considerando-os "uns cobardes"."Vou buscá-los nem que seja de canoa"
Apesar das ordens de Spínola, a disposição do major Pessoa era outra. "Informou-nos da urgência de ir socorrer esse pessoal devido ao elevadíssimo risco em que se encontrava. Frisou-nos que se não estivéssemos dispostos a ir contra a determinação do general ele próprio tentaria recuperar os militares, nem que fosse em canoas", afirma Lauret.
A determinação do major Pessoa, que volvidos trinta e dois anos não quer falar sobre os acontecimentos de Gadamael, percorreu todo o navio. O Orion partiu de imediato em auxílio dos tropas fugitivos e nada comunicou ao Comando da Defesa Marítima. Avançaram as LDM porque havia muitos anos que as LFG não subiam o Cacine para lá da marca da Lira, um sinal com reflector instalado no rio e já próximo de Gadamael. A verdade é que não eram conhecidas as "condições de fundo" para lá dessa marca, mas o navio aproximou-se do quartel o mais possível, sem problemas.
Do ponto onde estava a Orion podia avistar-se uma antena de grandes dimensões e era um evidente sinal da proximidade do inimigo que punha também a Orion na linha de fogo. De imediato foram desembarcados os paraquedistas nos zebros e as LDM começaram a percorrer as margens a recuperar os soldados que andavam perdidos.
"À noite, a coberta das praças estava repleta de feridos"
Havia feridos e mortos. Desaparecidos e enlouquecidos. No convés foi instalado o mais improvisado dos hospitais para assistir aos feridos ligeiros. Os que tinham ferimentos mais graves foram colocados na coberta dos "praças". Dentro do possível foi servido pão acabado de cozer e cerveja gelada.
Lá fora, nas águas do rio, os zebros percorriam incessantemente as margens enquanto as LDM começavam a fazer uma "ponte marítima" em direcção a Cacine para levar os sobreviventes para um lugar mais seguro e os feridos para uma assistência mais eficaz.
"Penso que teremos recuperado cerca de 300 a 400 pessoas, entre militares e população", diz Pedro Lauret, evocando uma imagem que nunca mais o abandonou: "À noite, a coberta das praças estava completamente repleta de feridos, não havendo lugar para as praças se deitarem".O relato do grumete Ulisses Faria Pereira é feito de rajada, como se quisesse deitar qualquer coisa cá para fora. De resto, este foi um episódio silenciado ao longo de 32 anos. "Ao longo da manhã foi recebido a bordo um número elevado de feridos, a quem eram prestados os primeiros socorros, administrados pelo enfermeiro Abrantes, auxiliados pelo "moço da botica", que por sinal era eu... e que, posteriormente, eram enviados para terra, para terem uma assistência melhor e proceder à sua evacuação via aérea para o hospital de Bissau", diz.
G 3 ficaram abandonadas a bordo do Orion
Nessa noite de 2 de Junho de 1973 o cenário não podia ser pior. A maré baixa criou uma massa de lodo que dificultava o desembarque dos feridos. Dentro do barco estavam esgotadas todas as reservas de soro, compressas, desinfectantes. Foi então enviada uma mensagem para Bissau pedindo reabastecimento mas temendo o pior face ao conhecimento que havia das ordens de Spínola. Na manhã seguinte, porém, um avião da Marinha largava em Cacine tudo o que tinha sido pedido.
O trabalho da Orion continuou nos dias seguintes, fazendo evacuações e começando a retirar do teatro de guerra os paraquedistas feridos. A bordo jaziam a um canto dezenas de espingardas G3: o princípio de nunca abandonar a própria arma já não tinha qualquer sentido. O moral daquela tropa estava abaixo de zero.
Para a história fica o silêncio da hierarquia. Nunca o Comando da Defesa Marítima da Guiné se referiu à desobediência do Orion, do seu comando e tripulação, nem estes sofreram qualquer punição. Na memória ficaram imagens que os protagonistas ainda hoje retêm: em Cacine, por aqueles dias, vivia um Exército enlouquecido, desarticulado, abandonado pela hierarquia, a deambular por entre os seus mortos.
O diário que nunca existiu
O soldado Ulisses Faria Pereira, grumete electricista, moço da botica no navio Orion e ex-seminarista, tinha a "mania da escrita". Todos os dias escrevinhava umas notas sobre a sua comissão militar. Todavia, nunca organizou as suas notas num diário e acabou por perdê-las. Mas se o tivesse feito ele começaria por rezar assim:
"Maio de 1973
Já passaram 12 meses e a comissão decorre com toda a normalidade apesar de notar, conversa aqui, conversa ali, que a situação militar está a degradar-se. A nossa rotina é feita dos habituais "cruzeiros" pelo Cacheu. O Cacheu merece redobrada atenção. É muito estreito, tem muitas clareiras e o navio torna-se um alvo fácil. A navegação do nosso barco é feita com a guarnição em "bordadas", ou seja, através de equipas constituídas por metade do pessoal que cumpre um turno de seis horas comandada por um oficial e um sargento. A outra metade descansa.Frequentemente fazemos a navegação em posto de combate devido a informações sobre a actividade do inimigo. E varremos as margens a tiro. Seis homens são destinados às peças de artilharia antiaérea, duas "Bofors" de 40 mm, uma a ré e outra avante. Nas missões de patrulhamento, quer de dia quer de noite, são colocadas na ponte, tanto a bombordo como a estibordo duas MG42. Na ponte há ainda um morteiro manobrado por um fuzileiro. Pois foi num destes "cruzeiros", há dias, que já vimos como é má a situação.
A Norte, o PAIGC atacou Guidage e pela primeira vez se sussurrou entre as tropas que usaram mísseis. E também que foi abatido um avião a hélice num dia e um helicóptero no dia seguinte. Nós estávamos aí perto. A tensão foi enorme. Batíamos o rio a toda a hora, noite e dia. À noite em ocultação de luzes. Chegaram, depois, notícias do sul também muito más. Guidage, Guilege e Gadamael começaram a ser os nomes da morte entre a tropa. O que mais depressa chega aos ouvidos dos soldados é a dificuldade de evacuação de feridos. Recebemos então a missão de embarcar uma companhia de paraquedistas na zona de Bolama e deslocá-los para Gadamael com o objectivo de prestar auxílio às unidades que flageladas pelo inimigo.
Percebemos logo que aquela não iria ser mais uma missão de rotina quando soubemos da possibilidade de o massacre ser de tal ordem que havia militares a fugir para as bolanhas em redor de Gadamael. Após o embarque, as forças especiais foram-se acomodando no convés. Apagámos as luzes e fizemos rumo para Cacine.
Ao longo das primeiras horas da manhã foram recebidas a bordo dezenas de homens feridos. Nestes dias, o Orion funcionou não como lancha de fiscalização mas como um navio hospital, de primeira linha, mas sem médico e apenas com um enfermeiro e um "curioso" que era eu."
Trinta e um anos depois sobram as memórias de uns tempos de chumbo mas também de uma experiência decisiva na vida de Ulisses, natural de Alboritel, concelho de Ourém, há muito instalado em Almada onde é funcionário da inspecção tributária. Hoje até é capaz de se rir quando se lembra dos truques que a sua imaginação criou para não ser incorporado para a Guiné – como responder tudo mal nos testes do curso da Marinha – e de como o tiro lhe saiu pela culatra. Logo a ele que ficou com a especialidade de electricista sem que tivesse qualquer vocação para tratar de fusíveis e tomadas. Foi excluído do curso mas acabou incorporado no navio S. Roque, embarcação dos mergulhadores da Marinha. Daí até à Guiné foi o tempo de um fósforo a arder. Quando pôs o pé em Bissau era um recruta em prontidão para combater sem que alguma vez tivesse tido contacto sério com armas de fogo...
Jorge Amado e Gorki no navio que atacou Conakri
Quando Pedro Lauret, então um jovem guarda-marinha de 22 anos, chegou ao Orion, em Setembro de 1971, ainda por ali pairava a memória fresca de uma operação secreta. O navio tinha comandado a incursão militar contra a Guiné-Conakri sob a mão de ferro do comandante Alpoim Calvão, na mais polémica acção de guerra da campanha colonial portuguesa. Nos porões ainda havia umas boas caixas de champanhe francês e de whisky velho.
O ambiente a bordo era, por assim dizer, "agressivo", no sentido em que era profundamente marcado pela lógica pura da guerra. "Foi minha primeira preocupação modificar o ambiente e, dentro das limitações de quem vive em teatro de operações, criar dinâmicas antifascistas e anticoloniais", recorda aquele que em breve seria imediato.
Na bagagem Lauret levava uma formação política na linha das actividades conspirativas de sectores da Marinha contra o regime. Desde 1968 que se organizavam na Marinha movimentos com finalidades políticas e que estavam centrados nas actividades associativas, culturais e técnico-profissinais do Clube Militar Naval. Um desses movimentos foi o que pretendia instituir um curso de natureza associativa e sindical que acabou proibido por despacho governamental em 1972. Outro, mais importante, foi o que fomentou clandestinamente uma plataforma política contra o regime e a guerra. Havia debates sobre o marxismo e o estruturalismo com convidados como Maria Lamas e Augusto Abelaira.
Eram dinamizadas actividades culturais nas unidades, como jornais de bordo, bibliotecas e convívios desportivos. Foram ainda criadas "comissões de bem-estar", órgãos previstos na Ordenança do Serviço Naval e que juntavam na mesma unidade oficiais, sargentos e praças, servindo de conselho do comandante em vários domínios da vida nas embarcações.Uma das estratégias de aproximação entre oficiais e praças assentava em actividades lectivas para estes. Assim, foram criadas em algumas unidades pequenos núcleos escolares adquirindo maior importância os que se constituíram no próprio Ministério da Marinha e numa colectividade recreativa da Cova da Piedade.
Pedro Lauret, enquanto jovem cadete, relacionou-se mais com este mundo clandestino o que teve uma influência decisiva na sua formação política. Quando chega ao Orion leva já no espírito esta necessidade de trabalhar para tentar mudar alguma coisa no rumo que a presença militar portuguesa em África levava.
Numa curta passagem por Lisboa, em licença, recebe no aeroporto uma biblioteca de bordo. A entrega é feita pelo seu "filho da Escola", mais tarde comandante Cambraia Duarte, a quem pedira para que lhe comprasse os livros. Os títulos são sugestivos quanto aos objectivos: "Os subterrâneos da Liberdade", "A Mãe", de Gorki, e "Esteiros", de Soeiro Pereira Gomes.Começam, assim, as leituras a bordo do Orion e também as aulas a alguns praças, que terminaram com sucesso exames do 2ºano do liceu. "Aos poucos o ambiente foi-se tornando muito diferente do que encontrara. Era um equilíbrio difícil para quem tem de manter a sua unidade em muito elevada prontidão para combate mas contei com apoio total do meu comandante de então, Coelho Rita,", declara Pedro Lauret. Em sua opinião, aliás, a mudança de ambiente no navio acabou mesmo por ser um factor decisivo para a tripulação viesse a ter a capacidade moral para desobedecer às ordens do Comandante-chefe, Spínola, quando o que estava em causa era tão só a solidariedade com aquilo a que chama "o povo português fardado".
Histórias reais recordadas 32 anos depois
O soldado da Madeira que só morreu em Bissau
"Recordo um soldado da ilha da Madeira que foi recolhido na bolanha e o seu estado de saúde era tão grave, o seu corpo estava tão cravado de estilhaços, que eu só conseguia ir tirando um a um da cara com uma pinça. Estava sujo de lama e o enfermeiro teve a ideia de o meter debaixo do chuveiro. Quando lhe tirava as calças, porém, é que verificou que lhe faltava parte da perna e da anca devido à deflagração de uma granada. O pobre soldado estava completamente sem sentidos, talvez, quem sabe, em estado de pré-coma. O éter utilizado na sua lavagem criou uma atmosfera tão inflamável que um dos camaradas nossos ao entrar na coberta a fumar deixou cair um pouco de cinza no balde onde depositávamos as compressas e o algodão, provocando uma explosão na coberta. O gerador foi abaixo criando uma situação de pânico. Nesse momento o soldado da Madeira levantou-se e tentou procurar um abrigo. Mais tarde, saiu do navio vivo, foi transportado para Cacine, acabando por morrer em Bissau... por falta de assistência, dizia-se por lá."Uma bala por cima do coração
"Para a noite estava reservado um dos episódios mais dramáticos. Deu entrada a bordo um guineense, guia das nossas tropas, que tinha uma bala alojada acima do coração. Este homem pesaria entre 110 a 120 quilos. Foi-lhe administrado o último balão de soro e o seu estado de saúde era muito preocupante. O comando entendeu evacuar o homem para que este não morresse a bordo. Para o retirar da coberta – o acesso era feito através de uma escotilha – foram necessários oito homens que o colocaram numa das lanchas. Esta embarcação navegou o que pôde no sentido das luzes do quartel mas depois foi necessário voltar a colocá-lo num zebro por causa da maré baixa. O zebro dirigiu-se a terra mas a partir de certa altura já não era possível navegar. O homem foi então transportado em maca por quatro elementos da tripulação, o cozinheiro, um artilheiro, o escriturário e o electricista, ou seja eu. O enfermeiro segurava o balão de soro. Quando saltámos do bote ficámos com água pela cintura mas o fundo parecia não ser muito mole. Todavia, quando retirámos a maca do bote, com o peso do ferido, pura e simplesmente não nos conseguimos mexer dali. Por duas horas travámos uma luta com um campo de lodo, afundados quase até ao pescoço e com a maré a subir. Por fim, o enfermeiro, já exausto, larga o balão de soro em cima do ferido e nada para terra, junto ao quartel. O escriturário quase já não se via na água. Só ao fim de três horas foi possível passar um cabo a partir de terra e puxar a maca e os homens que a tinham transportado.
Quando chegámos já não havia lugar para depositar os mortos
"Quando chegámos a terra exaustos o cenário era de dor. Chorava-se, gritava-se, havia ataques de histerismo entre os soldados que ali se encontravam refugiados, aguardando a chegada dos companheiros que estavam perdidos nas bolanhas e que tinham sido recolhidos por nós. Chegados a terra o cheiro era nauseabundo uma vez que já não havia sítio para depositar os mortos. O destino era a capela e aí aguardavam urna. Os primeiros tinham sido ali colocados já havia cinco dias. Só regressámos ao Orion passadas umas horas. No convés do navio misturavam-se soldados e população também resgatada. A guarnição não se conseguia movimentar. Um verdadeiro inferno. Mais tarde, sei que quando embarquei no aeroporto de Bissalanca de regresso a Lisboa trazia na mala a convicção de que não mais iria regressar aquela terra. Que iria fazer como muitos outros e fugir para França. Passados trinta dias, não consegui."
Ninguém entregou a condecoração ao coronel
Eduardo Dâmaso
O coronel Ferreira da Silva resistiu com um punhado de homens ao avanço do PAIGC sobre Gadamael. Sem artilharia, sem apoio aéreo, sem oficiais, sem médico, sem posto de rádio e com poucas munições. Foram louvados e o coronel chegou mesmo a ser condecorado por Carlos Fabião. Mas nunca recebeu a Cruz de Guerra.
Foi ao pôr do sol do dia 1 de Junho de 1973 que os três ou quatro soldados que sobravam da tropa comandada pelo recém-chegado capitão dos comandos Ferreira da Silva ficaram sem artilharia, sem apoio aéreo, sem oficiais, sem médico, sem posto de rádio e sem munições de morteiro ali por perto. Foi nesse dia que o hoje coronel reformado e advogado Ferreira da Silva conquistou uma das suas mais vivas memórias da guerra colonial e também uma condecoração, a Cruz de Guerra, que nunca chegou a receber.
Ferreira da Silva, que antes tinha estado em Angola, acabara de poisar em Gadamael no dia 31 de Maio depois de uma nomeação relâmpago para a chefia do Comando Operacional 5 (COP5). Iniciara a comissão na Guiné em Dezembro de 1971, nos Comandos Africanos, e alguns meses depois foi ferido com gravidade. Evacuado para Lisboa, onde convalesceu, regressou à Guiné a seu pedido em Janeiro de 1973 e foi colocado em Bolama a comandar uma companhia de instrução.
A 31 de Maio, pelo meio-dia, chega ao quartel de Gadamael que vivia sob as brasas do episódio da retirada do capitão Coutinho e Lima do quartel de Guileje, situado a cerca de oito quilómetros do primeiro. Ferreira da Silva só teve tempo para um breve contacto com os dois comandantes de companhia ali presentes. Por volta das 15.00 começaram as flagelações com mísseis, morteiros e canhões sem recuo. Nesse dia houve um morto e um ferido.

Chuva de 18 granadas de três em três minutos
Pelo amanhecer do dia 1de Junho começou o mais crítico de todos os dias da batalha de Gadamael. As granadas dos morteiros 120 eram disparadas a um ritmo de 18 de três em três minutos. Logo pelas dez da manhã uma granada acabou com o pelotão de artilharia. Três mortos e 11 feridos deixaram o pelotão inoperacional. Gadamael fica reduzido ao morteiro 81 que não tinha alcance suficiente. Momentos antes tinha aterrado no quartel um helicóptero que transportava o general Spínola mas este teve de ser empurrado para dentro do aparelho, que levantou voo de imediato. O silvo das granadas a sair foi ouvido no quartel e os rebentamentos ocorreram no ponto de aterragem do helicóptero.
Num quartel com poucos abrigos e um elevado número de militares ali concentrados os mortos e feridos foram aumentando. Na contabilidade feita ao final do dia eram registados 8 mortos e 27 feridos.Aos poucos foram tentando fazer evacuações de feridos por barco mas o fogo intenso de cada vez que se dirigiam ao cais dificultava muito a acção. Ao princípio da tarde uma granada destruiu o posto de rádio e feriu os dois comandantes de companhia. "Após a evacuação dos capitães fiquei sem elementos de ligação pois não conhecia ninguém em virtude de ter chegado na véspera", afirma Ferreira da Silva.
Num cenário de desespero e com poucos abrigos os soldados começaram a andar junto às valas de defesa até à aldeia que ficava próxima e não estava a ser atacada. Ferreira da Silva, atarefado com as evacuações só quando o furriel Carvalho, do morteiro 81, lhe foi dizer que já não tinha granadas e que só se encontravam três ou quatro militares na zona crítica é que se apercebeu que a defesa do quartel estava a reduzida a um punhado de homens.
A bravura do cabo Raposo
Quem deu algum ânimo aos poucos que estavam foi desde logo o 1ºcabo escriturário Raposo, açoriano, que se voluntariou para fazer o arriscadíssimo trajecto até ao paiol. Enfiou-se numa Berliet e foi buscar munições debaixo de fogo intenso. Gadamael estava cercado, sem artilharia, sem apoio aéreo, sem capitães, sem médico, sem rádio, sem munições de morteiro 81, tinha por companhia apenas três ou quatro militares na linha da frente.
A bravura do cabo Raposo e do furriel Carvalho, porém, foi um encorajamento para todos. Com o morteiro 81 municiado pelas granadas trazidas na Berliet, com uma metralhadora que conseguiram montar e os tais três ou quatro militares passaram o resto da noite de 1 para 2 de Junho a lançar umas morteiradas e umas rajadas de metralhadora de tempos a tempos. Só no dia 2 de Junho é que se apercebeu que uma parte significativa dos militares que tinha fugido para a tabanca se tinha deslocado com a população para junto do rio Cacine.
Nos dias seguintes a situação melhorou mas só num dia houve seis mortos entre os paraquedistas que entretanto tinham chegado. O comando foi assumido pelo oficial Manuel Monge, antigo chefe da Casa Militar de Mário Soares e hoje governador civil de Beja. Ferreira da Silva passou a adjunto de Monge, oficial mais graduado. "A 31 anos de distância saliento a acção dos paraquedistas, do furriel Carvalho e do cabo Raposo, do major Monge com quem partilhei, durante meses, aqueles momentos difíceis, mas que conseguimos ultrapassar", recorda o coronel que nunca recebeu a Cruz de Guerra.