sábado, março 29, 2008

Anda aqui Água a mais para certas cisternas?




De: Sousa Jamba
Em Semanario Angolense

Em recente entrevista concedida em Angola, o escritor e jornalista José Eduardo Agualusa que diz, nomeadamente, que «uma pessoa que ache que Agostinho Neto, por exemplo, foi extraordinário poeta é porque não conhece rigorosamente nada de poesia. Agostinho Neto foi um poeta medíocre. O mesmo se pode dizer de António Cardoso ou de António Jacinto . . .»
Um tal Artur Queiroz, que assina textos de opinião no Jornal de Angola, atacou o Agualusa de uma forma tão grosseira que reduz o que deveria ser um debate sério sobre a nossa herança cultural a uma briga de bêbados num botequim.
Tenho profunda admiração pelo Agualusa que é, sem dúvida, o escritor mais sério da nossa geração. A sua capacidade de trabalho e determinação de sobreviver como escritor são impressionantes.
Na entrevista, Agualusa afirma que só quem lê seriamente é que consegue escrever livros sérios.
Esta é a perspectiva de alguém que acredita numa análise rigorosa de obras literárias.
Avancemos, porém, para a questão que tanto incomodou algumas mentes: Agostinho Neto foi ou não um poeta medíocre?
No que me diz respeito e para ser franco devo dizer que não tenho uma resposta à mão porque nunca me sentei seriamente para analisar minuciosamente a poesia dele. Posso, porém, afirmar que os poemas do moçambicano José Craveirinha me comoveram bastante quando os descobri, há alguns anos. Neste momento estou a tentar ler, em português (e não uma tradução, já que leio o inglês com mais facilidade) a obra de Luis de Camões "Os Lusíadas". Cheguei a Camões depois de ter lido a sua biografia da autoria de um escritor americano publicado nos anos 30.
Há dias li obras de poetas como Phillip Larkin, Ted Hughes e Seamus Heaney, que també me comoveram bastante. Ted Hughes, por exemplo, foi exposo da poetisa Sylvia Plath. Ele é detestado por muitas feministas do Reino Unido e nos Estados Unidos que o responsabilizam pela morte da sua mulher. A esposa de Hughes suicidou-se porque o marido seria um mulherengo. Esta é claramente uma apreciação errada: deve fazer-se uma clara distnção entre o poeta e o homem. Não há dúvida que as obras de Ted Hughes, que tratam minuciosamente da natureza, tem uma qualidade literária inegável. Quanto a Ted Hughes gostar muito de mulheres isto é outra conversa.
Na Grã- Bretanha muita gente fala agora do poeta Phillip Larkin.
Descobriu-se, recentemente, que Larkin tinha um fraco pela pornografia. Por causa desse lado da personalidade de larekin há, agora, quem defenda que a sua poesia não deveria ser ensinada nas escolas. Em meio a polémica, uma escola defendeu a sua distinção entre a vida do autor e a sua obra.
As considerações em torno de Hughes e Larkin levam-me àstrês figuras cujo mérito literário foi questionado pelo Agualusa, o que deu lugar à fúria do senhor Artur Queiroz. Quando o Agualusa diz que o Agostinho Neto foi um poeta medíocre não está, nem de longe, a questionar as suas credenciais como nacionalista angolano. Isto está fora de questão. A fusão do Neto-politico, muitas das vezes feita, é que resulta em afirmações intelectuais pouco firmes. Um bom politico não é necessáriamente um bom poeta e vice versa.
O sr. Artur Queiroz afirma que Agostinho Neto é universalmente reconhecido como grande poeta. Tenho dado aulas e feito conferências de e sobre literatura africana em várias partes do mundo. Muitos dos meus alunos e participantes dessas conferências nunca ouviram falar de Agostinho Neto. Isto é a verdade! Da África lusófuna só há dois escritores de que se fala muito: o moçambicano Mia Couto e o angolano... José Eduardo Agualusa. SAerá que isto é justo? Mia Couto e Agualusa chegaram «lá» por mérito prório ou, como muitos escritores negros dizem em privado, ambos são promovidos por fundações portuguesas porque é neles que muito lusos se revêem? Será que o Agualusa é mesmo um bom escritor (eu acho que sim) ou será, apenas,fruto de um bom marketing?
Pergunto: Agualusa e Mia Couto serão apenas escrivães que relatam à metrolpole( dos salões de Cascais) os últimos desenvolvimentos queocorrem na terra dos pretos? Sei do que estou a falar.Sei que estou a pisar os terrenos das ideias preconcebidas. As respostas a estas questões só podem ser encontradas num engajamento sério com as obras de Agualusa e Mia Couto. E se formos honestos desse engajamento podem, até, surgir factos que iluminariam de forma profunda a nossa existência com africanos.
O Sr. Artur Queiroz defende Agostinho Neto, António Cardoso e António Jacinto sem aludir às suas obras poéticas. Segundo o Sr. Queiroz « a vida de António Cardoso é o mais belo poema que alguma vez se escreveu» Mas que é isso? Como todos os outros çleitores, quero saber a razão que faz com que o Sr Queiroz pense que António Cardoso não é poeta medíocre - como o Agualusa afirma. É esta a questão. Alguém tem de mostrar-nos que o Agualusa está equivocado.
Em Angola impõe e já elevar o debate sobre a nossa vida cultural. O texto de Artur Queiroz está cheio de elogios a figuras que já não precisam disso - sobretudo de alguém que, bem vistas as coisas, não é mais do que um bem dotado lambe-botas, com um dicionário de sinónimos ao lado.
Temos de agradecer a Agualusa por ter levantado a questão. Agora cabe-nos ler ou reler as obras dos autores que ele menciona para tirarmos as nossas conclusões.



A propósito de «Em defesa de Jóse Eduardo Agualusa»
Direito de Resposta de Artur Queiroz
Sousa Jamba quer que eu discuta a herança cultural dos angolanos com quem não tem nada a verAos responsáveis do Semanário AngolenseOs meus melhores cumprimentos. Lamento não poder dirigir-me ao senhor director do jornal, mas o seu nome não consta na primeira página e em nenhum local das páginas interiores encontrei o genérico da edição nº 257 de 22 a 29 de Março. Num primeiro momento pensei que tinha comprado uma cópia falsa. Comprei uma segunda e era igual à anterior. Por isso peço desculpa por não me dirigir pessoalmente ao director do Semanário Angolense. Presumo que não necessito de invocar o instituto do Direito de Resposta para defender a minha honra e o meu bom-nome, mais uma vez violados nas páginas do Semanário Angolense. Na primeira página da edição de hoje, numa chamada titulada «Em Defesa de Agualusa», o meu nome é citado num lead onde se afirma que eu reduzi aquilo que deveria ser um debate sério a «uma briga de bêbados num botequim». Esta afirmação é, no mínimo, desprimorosa. Percebi depois que foi extraída de um arrazoado assinado por um tal Sousa Jamba. Lamento que o jornal tenha assumido a baixeza. Li as garatujas de Sousa Jamba e fiquei a perceber o porquê do insulto da primeira página. Quem não sabe escrever também não sabe ler e o autor da defesa de Agualusa é um dos milhões de seres humanos no mundo, que tiveram a grande desgraça de não terem aprendido a ler. No texto que publiquei no Jornal de Angola eu insurgi-me contra o facto de Agualusa ter afirmado que há angolanos torturadores que em Portugal são tratados como grandes escritores. Mas não nomeou ninguém e por isso todos são suspeitos de praticantes da tortura. Uns tempos depois foi mais arrogante e mais cobarde. Disse que as pessoas que consideram Agostinho Neto, António Jacinto e António Cardoso grandes poetas não percebem nada de poesia. E remata colocando aos três o rótulo de medíocres. Qualquer idiota tem direito à palavra e à opinião. Mas nenhum indigente mental pode impor a sua opinião e muito menos passar um atestado de ignorância a quem não pensa como ele. E foi só isso que me levou a reagir contra o biltre. Sousa Jamba quer que eu discuta a herança cultural dos angolanos com quem não tem nada a ver com a cultura ou as culturas de Angola. E Agualusa não tem. Falta-lhe lastro e memória. Vivência. Estudo. Sentimento. Afinal falta-lhe tudo. É muito grave não é? Os colonialistas usaram sempre a arma da memória para imporem os seus valores e apagarem os nossos. Agualusa aprendeu a lição. Para ele, a Literatura Angolana começou no dia em que foi publicado o seu primeiro livro. Quando muito, o primeiro livro de Sousa Jamba. É uma táctica que os nazis adoptaram e dela abusaram. A Alemanha começou no dia em Hitler subiu ao Poder. O salazarismo fez o mesmo. Angola sem os portugueses nunca existiu. Eu afirmei no meu artigo publicado no Jornal de Angola que Agostinho Neto é um poeta universalmente reconhecido. E Sousa Jamba contesta afirmando que já deu muitas aulas e fez muitas conferências sobre Literatura Africana em várias partes do mundo e os participantes nunca ouviram falar de Agostinho Neto. Se foi falar de literatura à Universidade da Jamba é natural que os alunos nada soubessem do poeta Agostinho Neto. Ou se foi conferenciar com os guardas dos paióis de armas da Unita em vários países africanos. Ou mesmo numa qualquer escola dos karkamanos. Portanto depende dos alunos, depende das escolas e depende de quem lhe fez os convites para dar aulas e conferenciar. Mesmo correndo o risco de dar demasiada confiança a um semi-analfabeto pretensioso, vou responder a um desafio que ele me faz nas suas garatujas alinhadas por alturas e perfiladas pela extrema-direita. Quer saber porque razão considero António Cardoso um grande poeta? Porque ele nunca tratou a arte poética ou a arte literária como uma mercadoria. Para mim, essa circunstância deixa-o a anos-luz de distância de biltres como Agualusa. Finalmente, Sousa Jamba diz que sou um lambe botas de Agostinho Neto, António Jacinto e António Cardoso. Se por uma distracção do acaso Jamba soubesse o que significa essa expressão, eu considerava-me insultado. Mas um pobre ignorante sabe lá o que significa lambe botas? Agostinho Neto, António Jacinto e António Cardoso não precisam de mim para defendê-los de um canalha sem nome ou de um analfabeto da Jamba. No artigo que publiquei no Jornal de Angola apenas me defendi a mim. Então o professor do sinaleiro da Jamba vem a terreiro defender o parceiro de lobby da Unita e eu é que lambo botas? O Savimbi deixou estes maganos de cabeça avariada! Luanda, Março de 2008-03-22Artur Queiroz










A poesia de Agostinho Neto, António Cardoso e António Jacinto é medíocre?
A formação do cânone literário e a errância argumentativa de um «leitor»Luís Kandjimbo
1. Está em curso em Angola uma reforma curricular que deverá ser capaz de «responder à exigência da aplicação dos fundamentos de um Novo Sistema Educativo», segundo a Estratégia Integrada para a Melhoria do Sistema de Educação (2001-2015) do governo angolano. No âmbito do referido processo de reforma, o Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento da Educação (Inide) preparou o Programa de uma disciplina que se designa por Literatura. Apesar de o título do documento referir apenas «Programa de Literatura», os seus objectivos gerais mencionam expressamente a Literatura Angolana. Na sua introdução geral, lê-se o seguinte: «O Ensino da Literatura como disciplina autónoma para 11ª e 12ª classes do Ensino Secundário justifica-se por várias razões embora não entendendo uma autonomia como factor de afastamento de estudo sistemático da língua (...)» Atendendo aos imperativos da realidade cultural do país e ao tipo de necessidades formativas das crianças e jovens angolanos faz sentido propor a introdução da disciplina de Literatura Angolana no currículo do sub-sistema do ensino secundário. É uma disciplina que corresponderá a alguns objectivos propostos pela referida Estratégia, nomeadamente, «promover uma nova consciência nacional baseada na tolerância, no respeito por si próprio e pelos outros, na identidade cultural, e na cultura da paz.»; «revalorização do património cultural nacional, (...) promoção de vectores que veiculem o património cultural e em particular as línguas nacionais». Neste capítulo devemos ter em conta as disposições da Carta do Renascimento Cultural de África que recomenda expressamente «a adaptação dos currículos das escolas às necessidades de desenvolvimento e realidades nacionais, culturais e sociais» e a «introdução da Cultura Africana em todos os sistemas de ensino nacionais.» A disciplina de Literatura Angolana pode com a sua dimensão cultural e humanística contribuir decisivamente para a formação integral do cidadão Angolano, criança, jovem ou adulto. Entendo que a Literatura Angolana deve fazer parte das matrizes curriculares de todas as classes do ensino secundário, contrariamente ao que aconteceu, por exemplo, na revisão curricular em Portugal, onde a Literatura Portuguesa passou a ser ministrada em dois anos apenas e como disciplina específica do curso científico-humanístico de Línguas e Literaturas, nos 10º e 11º ou 11º e 12º anos. A partir do 1º ciclo do ensino secundário o aluno entraria em contacto com a disciplina de Literatura Angolana que teria como base a História da Literatura Angolana. Ensino da Literatura Angolana e Reforma Curricular são enunciados que gravitam em torno do conceito de currículo. Na abundante produção dos estudos curriculares não é consensual uma definição de currículo. Mas vou socorrer-me da definição daquela que na bibliografia especializada é a mais recorrente. O currículo pode ser definido como «projecto selectivo de cultura, cultural, social, política e administrativamente condicionado, que preenche a actividade escolar e que se torna realidade dentro das condições da escola tal como se acha configurada». O que esta acepção de currículo nos sugere é que o planeamento curricular se inscreve simultaneamente no campo das políticas educativas e das políticas culturais. O segmento cultural do planeamento curricular detecta-se na elaboração dos conteúdos das aprendizagens, especialmente em matérias e disciplinas científico-humanísticas e artísticas. Por isso, pode dizer-se que o currículo prescrito de que a Literatura Angolana fizer parte (com a disciplina de História de Arte Angolana) veiculará valores de uma cultura comum cuja expressão máxima é representada pela categoria de Angolanidade. Na esteira do sociólogo francês Pierre Bordieu, diremos que «todo o acto de transmissão cultural implica necessariamente a afirmação do valor da cultura transmitida (e paralelamente, a desvalorização implícita ou explícita das outras culturas possíveis)». Por outras palavras, isto significa que «todo o ensino deve produzir, em grande parte, a necessidade de seu próprio produto e, assim, constituir enquanto valor ou como valor dos valores, a própria cultura cuja transmissão lhe cabe». Estabelecidas as prescrições e regulações do currículo e a partir daí o programa da disciplina de Literatura Angolana, colocar-se-á a questão da selecção de textos que suportarão o processo de ensino-aprendizagem. Isto é, levanta-se o problema do cânone literário. Tanto mais pertinente é a sua abordagem quanto se sabe que há cerca de três anos se desencadeou em Luanda um debate a propósito de um conjunto de autores e textos seleccionados para constituir aquilo a que se chamou «Biblioteca da Literatura Angolana». Desenvolve-se agora uma outra polémica sobre a qualidade estética da obra de três poetas angolanos, nomeadamente, Agostinho Neto, António Jacinto e António Cardoso. Lendo as diversas peças da polémica, não posso limitar-me a manifestar a minha simpatia por qualquer uma das posições. Trata-se de uma questão que diz respeito à representatividade de autores e textos no quadro da Literatura Angolana enquanto instituição. O problema merece outro tipo de reflexão porque o cânone literário institucional entendido como uma selecção de textos e autores desempenha várias funções de que se destacam as seguintes: fornecer modelos de referência às comunidades interpretativas; transmitir às gerações jovens instrumentos para interpretar textos; servir como base de legitimação das grelhas teóricas e críticas. O debate sobre o cânone literário em Angola emerge pela primeira vez e ganha visibilidade pública a partir de 1997, por ocasião do Encontro Internacional sobre Literatura Angolana, realizado em Luanda, quando perante os argumentos de Pires Laranjeira, que identificava a coexistência em Angola de duas lutas por um novo cânone, rotulando-me como «fundamentalista negro» devido à minha leitura fundamentada do romance Yaka de Pepetela – no qual o autor esvazia o valor de determinada categoria de personagens referenciais – apresentei uma comunicação denunciando a existência de uma ideologia oculta na «escola de estudos literários africanos em Portugal» que faz a apologia da crioulidade e de um cânone literário de «escritores mestiços» de que dependeria o prestígio da Literatura Angolana. Os leitores que tiverem interesse em conhecer a fonte de tal informação podem ler os livros de José Carlos Venâncio. Este autor, Francisco Soares e alguns epígonos renovam uma tal teoria sociológica das «ilhas crioulas» (teoria da criolulidade) elaborada pelo ensaísta Mário António Fernandes de Oliveira em 1968, no livro «Luanda, Ilha Crioula», e aplicam-na especialmente à sociedade e literatura angolanas. Para o efeito socorrem-se muitas vezes do Éloge de la Créolité, manifesto publicado em 1989 de que são autores os escritores antilhanos Patrick Chamoiseau, Jean Barnabé e Raphael Confiant, como se Angola fosse um espaço insular habitado exclusivamente por pessoas enviadas para o território em vagas sucessivas de imigrações organizadas. No entanto, Angola não se assemelha em nada àquilo a que os luso-tropicalistas consideravam como sendo «o mundo que o português criou» de que resultariam as sobreditas «ilhas crioulas». De resto, estas não existem em Angola. As polémicas desencadeadas em torno da selecção de obras constitutivas de um conjunto a que se deu o nome de «Biblioteca da Literatura Angolana» e acerca da apreciação estética da obra poética de Agostinho Neto, António Jacinto e António Cardoso traduzem bem a existência de conflitualidade de teorias, estéticas e interpretações, revelando uma certa geopolítica do conhecimento, o lugar a partir do qual cada um produz o seu discurso. 2. Distinguindo o essencial do acessório, é importante saber se o argumento proposto para qualificar Agostinho Neto como poeta medíocre pode ser considerado válido, susceptível de aceitação, e se o discurso em que ocorre é coerente. Em primeiro lugar, devemos reconhecer que a literatura angolana tem uma dimensão institucional, subjacente ao ensino da literatura e à atribuição de funções representativas e identitárias de autores e obras literárias. Com ela se institui a legitimação da literatura como parte do património cultural angolano. Em segundo lugar, podendo qualquer leitor dar preferência a este ou aquele autor e respectiva obra, tal não significa que se torna imune de ser responsável pelas escolhas que faz, a partir do momento em que enuncia o seu juízo de valor. Ao invés, em homenagem a uma ética da leitura, ele está vinculado à obrigação de fundamentar e clarificar, de relativisar o seu ponto de vista e de saber que na origem da sua escolha está a sua idiossincrasia, o seu universo de experiências e a sua enciclopédia de leitor. Neste sentido, cada leitor pode formar o seu cânone literário pessoal que reflectirá os seus gostos e inclinações estéticas. A polémica em curso dá um outro aviso à navegação: os leitores pertencem sempre a alguma comunidade interpretativa. Por isso, o leitor que pertencer à comunidade interpretativa angolana, independentemente das suas preferências, não terá dificuldade em concluir que quer em Angola quer em outras partes deste nosso mundo, Agostinho Neto e sua obra integram cânones literários críticos, pedagógicos e diacrónicos para usar parte de uma classificação de Alastair Fowler. Sagrada Esperança é um clássico da literatura angolana. A sua leitura causou arrepios a muitos poetas das gerações seguintes, sendo o modelo a partir do qual se produziram rupturas de natureza estética, como efectiva demonstração de «desleituras» e «desescritas». Com maior ou menor sucesso, os poetas angolanos que emergem na década de 70, por exemplo, reescrevem a gramática da geração literária de Agostinho Neto. Ora, desejando conhecer as boas razões para negar esse facto, vou em seguida exercitar uma avaliação do referido argumento: a) Quem goste realmente de ler vai indicar escritores de outros países com obra feita; b) Há pessoas que acham Agostinho Neto um extraordinário poeta; c) Essas pessoas não conhecem rigorosamente nada de poesia; d) Agostinho Neto foi um poeta medíocre. Do ponto de vista da lógica da comunicação argumentativa estamos perante um evento implausível. Na verdade, para ser um argumento válido faltam-lhe premissas fidedignas. Ou seja, as quatro frases são premissas fracas. Mas caberá ao seu proponente provar a qualidade das suas premissas e da sua conclusão. O argumento é falacioso e inválido, desde logo devido à diversa informação omissa. Falacioso porque faz apelo à ignorância (ad ignorantiam, diriam os latinos), o proponente parte do pressuposto de que afirmação é verdadeira, pois ninguém provará que é falsa. Inválido porque apresenta defeitos lógicos. Este género de argumentos é usado por cabotinos, indivíduos que geralmente pretendem exibir uma capacidade de provocar a opinião pública. Um conhecedor da literatura angolana, hipoteticamente menos incauto, teria formulado o seguinte argumento: a) e a obra poética de escritores da geração literária angolana de 40; b) Alguns poetas da geração literária angolana de 40 são medíocres; c) Logo, Agostinho Neto, escritor da geração literária angolana de 40, é um poeta medíocre. Este argumento configura uma mera hipótese exemplificativa. Mesmo assim a sua conclusão não poderia suscitar aceitação. As premissas são válidas. Por exemplo, Geraldo Bessa Victor é um poeta angolano medíocre que pertence a essa geração. Porém, a conclusão é falsa. O proponente evitaria com certeza cair nas malhas da teoria que desvaloriza a referencialidade e defende o texto absoluto. Não ignoraria o facto de a literatura angolana constituir um sistema que convoca necessariamente o autor, a sua biografia, o universo cultural que modela a sua linguagem. Tendo em conta o princípio do ónus da prova, esse «conhecedor menos incauto» forneceria certamente as suas razões para justificar as premissas e a relação que elas estabelecem com a conclusão. Ainda que não pertencesse à comunidade interpretativa que reconhece a canonicidade de Agostinho Neto, António Jacinto e António Cardoso, teria a necessidade de reformular a conclusão do argumento.



O GOSTO ÚNICO

28/03/2008

José Eduardo Agualusa | Capital | Luanda

Não posso dizer que tenha ficado surpreendido com algumas das reacções a uma entrevista que concedi recentemente ao Semanário Angolense. Atravessamos um tempo um pouco estranho, de transição de um regime de pensamento único para aquilo que, espero, venha a ser uma verdadeira democracia. O que diferencia uma ditadura de uma democracia é a pluralidade de ideias e de opiniões sobre qualquer assunto, e a forma como essas ideias são recebidas não apenas pelos governantes, mas pela generalidade da população.

Os ditadores esforçam-se por estabelecer primeiro uma determinada ideologia política, mas raramente se detêm aqui – tentam a seguir impor a toda a gente os seus próprios gostos sobre música, literatura, artes plásticas, desporto, sexo, ou mesmo moda. Hitler, que foi um medíocre pintor de paisagens, embirrava com o cubismo e o expressionismo, classificados como “arte degenerada”. As obras de grandes pintores, como Chagall, Mondrian ou Max Ernst, foram então consideradas produtos de mentes doentias. "De agora em diante iremos empreender uma guerra implacável contra os últimos remanescentes da desintegração cultural”, assegurou Hitler num famoso discurso sobre arte moderna, em 1937: “Por tudo que nós apreciamos, esses bárbaros pré-históricos da Idade da Pedra podem retornar às cavernas de seus ancestrais e lá realizar os seus rabiscos primitivos internacionais”. Os seguidores de Hitler, evidentemente, elogiavam os dotes artísticos do fuher. Mas, claro, quem acabou triunfando não foi Hitler, e sim os artistas ditos degenerados.

Mobutu não gostava de calças à boca de sino. Mugabe odeia (e persegue) os homossexuais. No Chile de Pinochet, e em Moçambique, no tempo de Samora Machel, jovens com cabelo comprido não eram muito apreciados pelo regime.

No seio do partido no poder confrontam-se hoje em dia democratas autênticos, democratas de fantasia – que ainda há poucos anos defendiam o sistema de partido único –, e uma mão cheia de órfãos da ditadura, mortos-vivos que não conseguem adaptar-se aos novos tempos e insistem em classificar como traidores à pátria todos os que se atrevam a contestá-los. Partido e pátria são para estas pessoas exactamente o mesmo, ou, ao menos, o partido constitui uma extensão da pátria.
Estes zombies são hoje, dentro do MPLA, um arcaísmo deselegante. Tenho a certeza de que incomodam, com a sua brutalidade, os próprios companheiros de partido. Julgo que têm os dias contados. Já não é possível, como se fez em 1975, acusar adversários políticos de se alimentarem de carne humana (recuperando desta forma, e talvez não por acaso, uma das mais racistas e abjectas fantasias coloniais). Felizmente esse tempo passou.

quarta-feira, março 19, 2008

No Jornal de Angola/16 Março/Artigo do Artur Queiroz


18 de Março de 2008
in Jornal de Angola, um artigo do Artur Queiroz...

O comerciante desalmado

Artur Queiroz|

José Eduardo Agualusa deu uma entrevista a um blogue português e disse que há torturadores angolanos que são tratados em Portugal como grandes escritores. Como não nomeou ninguém, quem ler a entrevista (ainda está na Internet) vai presumir que todos os grandes escritores angolanos se dedicam à tortura. Ou quando algum leitor estiver na presença de um desses escritores vai pensar que está a ver e ouvir um torturador. O senhor José Agualusa lançou um manto de calúnia sobre todos os seus confrades o que é muito grave. Mas mais grave foi ter dado a bofetada e escondido a mão. Como não nomeou os torturadores, ninguém pode defender-se de tão grave acusação. No tempo em que os animais não falavam, isto era cobardia. E um cobarde vale tanto como os seus gestos repugnantes.
A entrevista do blogue não é um caso isolado, longe disso. E no passado fim-de-semana, o presumível escritor voltou a atacar, desta vez três poetas que estão mortos e por isso nem sequer podem fazer a sua defesa. A cobardia aqui assume a dimensão de um assassinato de carácter o que faz de Agualusa uma figura com todos os predicados para entrar na minha lista pessoal dos leprosos morais. Para já não entra porque tenho pena dos outros. Passa sem reparo a falta grave de se apresentar como jornalista, mas já não passa esta frase que retiro da entrevista: “uma pessoa que ache que o Agostinho Neto, por exemplo, foi um extraordinário poeta é porque não conhece rigorosamente nada de poesia. Agostinho Neto foi um poeta medíocre. O mesmo se pode dizer de António Cardoso ou de António Jacinto”.
António Cardoso era pequenino mas tinha uma fibra que ainda hoje faz os esbirros do colonial fascismo espirrarem canivetes. Já António Jacinto e Luandino Vieira tinham sido libertados do Tarrafal mas como residência vigiada em Portugal, ainda António Cardoso penava na frigideira. Foi o último preso político a ser libertado. Regressado a Luanda foi para a Redacção da Emissora Oficial onde coordenou o turno da noite. Mas também fazia o programa cultural Resistência, um trabalho extraordinário. Meteu tanto medo aos esbirros que um dia foram buscá-lo à emissora, levaram-no para um cárcere privado e torturaram-no. Os seus colegas da rádio entraram em greve e conseguiram salvá-lo da morte certa. Acumulou com o seu trabalho na rádio um suplemento literário no Diário de Luanda, ajudado na escrita pelo Luciano Rocha e pelos gráficos Domingos Alves e Airosa (onde andam vocês, velhos companheiros?). A vida do António Cardoso é o mais belo poema que alguma vez se escreveu. Vem agora um rebento de ximba abocanhar-lhe os calcanhares. Mesmo depois de morto, António Cardoso ainda faz tremer a canalha. Que grandeza!
Eu viajei no comboio malandro entre o Zenza e o Golungo. Só um capataz despeitado não vê poesia na resistência passiva de um povo escravizado que finge que empurra o comboio mas não empurra. Eu conheci milhares de contratados, os pobres “bailundos”, nas roças Pumbassai, Alto Dande, Pingano, Poço e Irmãos, Muzekano e muitas outras. António Jacinto pegou na mão de um deles e escreveu uma carta de amor que voou do Kazengo para o mundo como um pombo verde de papel. E com as melhores sementes da liberdade, o poeta ainda relatou o grande desafio que nos levou onde estamos. Vem agora um capataz despojado do chicote e armado de uma pena venal, cuspir no túmulo do mestre.
Agostinho Neto guiou o seu povo pelo caminho das estrelas. Que outro poeta na História Universal libertou a sua pátria com poemas e fuzis? A grandeza da obra literária de Agostinho Neto foi reconhecida em todo o mundo por académicos, professores, críticos literários e confrades. Vem agora uma flatulência retardada do colonial fascismo sujar a sua memória com uma tentativa de assassinato de carácter. O senhor José Agualusa tem o direito de dar a sua opinião. Mas não pode dizer que quem considera Agostinho Neto um grande poeta “não percebe rigorosamente nada de poesia”. Quando a arrogância se associa à ignorância e ao despeito, só pode dar Agualusa. Mas por muito que lhe custe, o império colonial caiu mesmo e já não volta a ressurgir dos escombros. E nem o facto de ser um angolano tardio ou um balbuciante empregado de balcão no difícil comércio das palavras lhe desculpam o atrevimento e a cobardia de bater em quem não pode defender-se.
O que me deixou mais preocupado na entrevista de Agualusa foi ter-se refugiado na amizade de Mena Abrantes e João Melo. O moço agrediu, cuspiu e depois foi avisando que tem amigos no campo das letras. João Melo é um camarada, um amigo e sobretudo um homem honrado. Quanto a Mena Abrantes partilhei com ele a minha casa quando chegou do exílio em 1974 e foi pela minha mão para a Redacção da Emissora Oficial de Angola, hoje RNA. É um homem impoluto. Presumo que ambos perderam o sentido do olfacto. Caso contrário, quando recebem a visita de Agualusa, devem contorcer-se com vómitos. Cuidem da saúde, queridos companheiros! Quanto a José Agualusa quero dizer-lhe que os angolanos não têm culpa que tenha crescido tão pouco e que o seu estrabismo o impeça de ver para além da tampa da sarjeta. Quem nasce e cresce pequenino fica mesmo assim até ao fim. Nem todos podem ser grandes e só são dignos os que sabem viver entre as fronteiras da honra e da dignidade. É pena que não tenha aprendido esta lição.


PS: Conheço todos os volvidos, envolvidos, devolvidos e por aí fora!

Fernando Pereira

sábado, março 15, 2008

Impostos ou imposturices???




Alberto Pimenta
1948:o meu pai foi às finanças fazer um requerimento, e como de costume fez questão de que eu o acompanhasse:Para "aprender a vida".
Em casa explicou-me minuciosamente a fórmula e o motivo do requerimento.No fim meteu dentro da folha uma nota de 50 escudos e disse-me---Esta é a parte mágica da fórmula.Qd tiveres um pedido a fazer, já sabes, o segredo é este.
Passados uns meses enviei a minha primeira declaração de amor e, como 50 escudos era muito para as minhas posses, juntei uma moedinha de 2$50
Nunca tive resposta, decerto foi por ser pouco.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Faleceu o Luiz Pacheco!




LUIZ PACHECO, O LIBERTINO




Em 1997, Luiz Pacheco, que fez da mendicidade um modo de vida, estava principescamente instalado na Vila Máryah, uma luxuosa estância de repouso para idosos, em Palmela. Eu visitava-o de vez em quando por causa da edição de "Carbonários: Operação Salamandra - Chioglossa lusitanica Bocage, 1865", que saiu na Contraponto, a sua conhecida editora, afecta ao Surrealismo. Raramente o encontrei sozinho, ele tem sempre muitas visitas, de modo que se cruzavam amigos, conversas e destinos. De uma vez deixámos passar a hora de saída e a porta foi fechada, encarcerando os forasteiros. Em vão se procurou o porteiro, nada, um táxi lá fora esperava, a palaciana residencial aninha-se num pinhal isolado, longe da povoação. Caía a noite, e se o taxista desistisse da espera lá teríamos de dormir com o Libertino que passeou por Braga, a idolátrica, o seu esplendor. De modo que, para aflitivos cárceres, fugas airosas, e foi mesmo pela janela, estilo Zé do Telhado, mas com aterragem de corpo inteiro, mais o saco dos livros desfolhados, no canteiro dos lírios, como convém nestes lances da nossa árdua vida literária.


A situação é suspeita, viola algumas normas sociais, morais até, mas os intervenientes sabem da sua intrínseca inocência, e só isso é fundamental: a moral é um colete de forças que o grupo dominante aplica ao dominado para salvaguardar a sua prepotência, mas o Bem e o Mal são completamente distintos e independentes disso - pode o Mal estar de mão dada com a moral e o Bem contra ela, como foi o caso.

Refiro-me a essa emblemática edição cujo 33º aniversário o TriploV comemora, no âmbito das suas actividades em torno do Surrealismo - O Libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor (Contraponto, 1970). No caso, a imoralidade reduz-se a uns palavrões, que são palavras que todos conhecemos e figuram nos bons dicionários, ao pecado dos maus pensamentos e a um acto sexual. Porém, a moralidade sexual que o livro violou em 1970 hoje já não vigora. Esse acto sexual cometido, único, pois todos os outros são apenas delírios da imaginação, é aquele que neste preciso instante o governo de Inglaterra tenta que as escolas ensinem ou promovam junto dos alunos, num desesperado esforço para que baixe a altíssima taxa de gravidez em menores - a masturbação.

E aqui estou eu a falar destas coisas, como se fossem importantes, e são. A moral muda consoante o grupo dominante e as necessidades do grupo social, o que não muda é a ética. Ora o livro não viola nenhuma ética, pelo contrário: as conversas no quarto da pensão, com o sargento, por exemplo, giram em torno da PIDE, do que se passava em "Angola-é-Nossa", e o texto que o Libertino lhe passa para as mãos não é a "Filosofia da Alcova", sim o "Depoimento de uma angolana", sobre as atrocidades cometidas contra os negros, que tem vindo a ser reeditado juntamente com "O Libertino...". À parte os devaneios de imaginação de um homem cuja libertinagem é quase só mental - e nas Bragas daquele tempo os pensamentos eram tão pecaminosos como os actos -, o espírito ocupa-se de livros, os livros que os portugueses não lêem, a vida acanhada em tempos de opressão, e até a tentativa de sedução das Super-Gèninhas se faz de forma letrada, com os bilhetinhos escondidos na cápsula das castanhas.



A libertinagem, nesse sentido de liberdade sexual sem mais, deixou de ser importante numa época - a nossa - em que as raparigas saem à noite e são industriadas pelos pais no uso de preservativos. O texto, agora, torna-se cómico nesse lado, rimos com gosto de certas situações. Não que tenha perdido a força, mas porque de facto a função do libertino foi a de mostrar quão ridículo era aquele puritanismo, simplesmente esse ridículo só é perceptível quando já não estamos sob o domínio da "idolátrica" - Braga, como símbolo da repressão que a Igreja sempre exerceu sobre o corpo, e desse labéu lançado sobre o prazer. Quanto ao regime, a propaganda salazarista reprimia a mente, a liberdade de pensar e desejar também, enquanto a sua élite se entretinha com os ballets rose. Sob a tirania, ninguém teria vontade de rir, o riso vem agora, em que há liberdade para ele. É claro que num país tacanho, de gente ferozmente agredida no corpo e na alma, não há espaço para D. Juan, Sade nem Casanova, apenas para um pobre diabo que deseja e não alcança - tudo lhe corre mal, e de fracasso em fracasso só lhe resta a solução onanista. É um libertino à escala do país que éramos, por isso tão perfeito retrato nosso que Júlio Moreira, posfaciador da primeira edição, considera que o texto nos dá uma imagem muito mais exacta da realidade portuguesa do que toda uma literatura que se pretende interferente.

Mudados os tempos, o que sobra de "O Libertino..." e de Luiz Pacheco? Sobra tudo, que eu saiba ele ainda não foi estudado como a sua obra merece, perdidos que temos andado nos meandros das querelas pessoais e sexuais. Luiz Pacheco é um escritor absolutamente singular, não só na nossa literatura como em termos gerais. Ele não é um Sade, um Casanova, e isso é importante: pelo contrário, é totalmente diverso. O papel tradicional do macho está subvertido, ele não é um representante do falocentrismo, e nesse sentido não é um agressor, é um agredido. Não é um conquistador, é um conquistado; não é um amante, é um amador. A personagem carrega toda a humilhação e frustração do país.

Tradição fescenina e maledicente encontramo-la entre nós e e noutras literaturas desde as cantigas de escárnio, e não esqueçamos Bocage, mas Luiz Pacheco é muito diferente de Bocage, a sua veia quezilenta e debochada não se acomoda com nenhum parentesco. Surrealismo? Ele nega ter sido surrealista e é num texto surrealista que o afirma e mais: Deus o livrasse de tal - isto logo à entrada de "Pacheco versus Cesariny". Pois sim. Acontece porém que "O Libertino", como todos os outros textos de Luiz Pacheco, só teria sido possível na mundividência surrealista, à sombra da bandeira "poesia e liberdade": vida e obra são a mesma coisa, o anti-herói de "O Libertino" é o próprio Luiz Pacheco, que à data, em 1965, andava nas carrinhas da biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian a distribuir livros pelas aldeias para alfabetização geral. O desprendimento, a coragem com que se fala daquilo que em nós é mais íntimo e privado, sem a máscara da personagem, a espontaneidade de um relato que não foi decerto fruto de escrita automática, mas aceitemos que foi redigido no dia a seguir ao dos eventos, isso também pertence à esfera de procedimentos do Surrealismo. Ou abjeccionismo, termo aliás usado no texto. E tudo o que se relata aconteceu? É bem possível que sim, por obra e graça de acasos objectivos que juntaram Braga, o Libertino e Angola-é-Nossa num mesmo texto que, só por isso, ganha um volume simbólico não alcançado realmente por obras de esquerda, muito mais direccionadas politicamente.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Publicado no África 21 por João de Melo/Outubro/07

Diáspora

João Melo

APHAEL EKLU-NATEY, um biólogo togolês radicado na Suíça, teve uma ideia: promover a criação de um fundo para financiar projectos da diáspora africana residente na Europa, a realizar em qualquer país de África. O fundo — cujo capital inicial, segundo a proposta de Eklu-Natey, será de 500 mil euros — será financiado com as contribuições voluntárias d05 membros da diáspora africana, Os próprios contribuintes decidirão se as cotizações que decidirem fazer serão mensais ou trimestrais, Os mesmos — assegura o cientista togolês — poderão recuperar o dinheiro investido a qualquer momento, a juros superiores aos praticados pelos bancos internacionais.
O principal objectivo do fundo será financiar projectos considerados «emblemáticos» em África. Certamente por «deformação profissional», Raphael Eldu-Natey mencionou como exemplo de um desses projectos a criação de uma fábrica de medicamentos à base de plantas africanas. «Um projecto desses — que não interessa aos grandes grupos farmacêuticos de origem ocidental — será extremamente rentável e terá um forte valor social acrescentado, disse ele.
O biólogo assegurou que todas as disposições serão tomadas para que o fundo seja transparente e funcione de acordo com as normas internacionais. Segundo afirmou, o mesmo será gerido por um Conselho de Administração, alargado aos doadores do fundo e também a personalidades externas de reputação mundial. Os promotores do fundo que poderá ser instalado em Paris, Genebra ou Joanesburgo — vão pedir igualmente o apoio da União Africana.
A notícia correu mundo, tendo sido retomada, em especial, por numerosos meios de comunicação social africanos.
Compreende-se porquê. Do período da escravatura aos nossos dias — e por razões que, naturalmente, acompanharam todas as metamorfoses ocorridas ao longo dos tempos, modificando-se com elas —, a chamada diáspora africana espalhou-se praticamente por metade do mundo. Entretanto, se aqueles que foram levados como cativos não pensam hoje num regresso efectivo ao continente africano, pois, para todos os efeitos, transformaram-se em americanos, haitianos, colombianos, brasileiros e outros, os que, em especial depois das independências africanas, foram deliberadamente para o exterior, sobretudo a Europa, ainda mantêm um pé em cada continente. A excepção serão os jovens, filhos desses primeiros emigrantes, mas o drama deles é maior do que o do seus pais: embora nascendo europeus, a Europa recusa-se a aceitá-los, preferindo tornar-se cada vez mais velha e carcomida.
Não são de todo inusitadas, portanto, ideias e propostas como a da criação de um fundo da diáspora africana na Europa pata a realização de projectos no seu continente-mãe. Aliás, existem exemplos de algumas diásporas nacionais nacionais africanas que contribuem grandemente para o desenvolvimento dos seus países, como é o caso paradigmático da comunidade cabo-verdiana no exterior.
Angola não tem, por enquanto, nenhuma política em relação à sua diáspora. Mas ela existe. A rigor, trata-se de várias diásporas, reflectindo a própria diversidade da naçáo angolana. Essas várias diásporas foram sendo formadas em períodos históricos igualmente diferentes e hoje estão radicadas um pouco por todo o mundo, dos países vizinhos a paragens remotas, como Macau ou até mesmo a Austrália, passando pela antiga metrópole colonial, Portugal, e pelo Brasil.
Será que um país com o potencial do nosso, mas extremamente limitado em termos de gente, quer quantitativa quer qualitativamente, pode prescindir da(s) sua(s) diáspora(s)?
Eis a pergunta que deixo à reflexão dos leitores.

sexta-feira, maio 11, 2007

A Igreja que ama a ditadura -do Blog SemQuorum




A Igreja que ama a ditadura
De vez em quando, mas sem perder a impertinente regularidade, a máscara da Igreja Católica cai e desvela o verdadeiro rosto de ignomínia em que se erige muita da sua doutrinária idiossincrasia (tão antagónica dos valores cristãos originais), através de clericais vozes (ir)responsáveis debitando os mais diversos dislates e asserções irreflectidas. O que vale é que «vozes de burro não chegam ao céu» e as correntes humanistas liquidaram a Inquisição, o poder hegemónico e a influência do prelado sediado no Vaticano. Mas há que ter cuidado, pois esta instituição não dorme de todo e o menor descuido pode ser fatal ao progresso civilizacional.

Desta vez, a autoria do disparate dá pelo nome de Fernando Sebastian Aguilar, o arcebispo de Pamplona, que considera que os partidos políticos de extrema-direita podem ser "dignos de consideração e apoiados", porque são "fiéis à doutrina social da Igreja". E remata com o exemplo da Falange, o partido fascista de Primo de Rivera, o mentor do ditador Francisco Franco.

Está tudo num documento datado de 17 de Março, agora divulgado e no qual o arcebispo espanhol chega mesmo a instigar ao voto nesses partidos, afirmando que os mesmos "têm um valor testemunhal que pode justificar um voto". Da minha parte, entendo que estes são exemplos inequívocos - e já os há de sobra! - do etnocentrismo, racismo, homofobia e xenofobia que contamina e polui a «doutrina social» desta profana e secular igreja. Sendo eu ateu - assumo o risco de o assumir! -, aqui deixo a promessa de que me converterei ao catolicismo quando o próximo arcebispo de Pamplona, para não dizer o Papa, for um preto estrangeiro (para não dizer gay ou mulher!)...

Para Fernando Aguilar, como para outras vaticanas eminências pardas, afinal nem todos somos iguais, pois uns serão filhos de Deus, mas outros são filhos da meretriz!

posted by SemQuorum

Ponham pára-raios nas torres sineiras


"Senhores priores, eu sei como vossas mercês, com o venerando Bispo de Roma à cabeça, trovejaram tão ferinamente contra o sufrágio universal, contra a liberdade de expressão, contra a liberdade de imprensa, contra a liberdade de ensino, contra a liberdade de manifestação, contra a igualdade perante a lei, contra a liberdade de culto, contra a República, contra o 25 de Abril, contra o divórcio, contra a pílula, contra o preservativo. Trovejar até seria o menos, porque lamentavelmente chego a pressentir em alguns dos vossos colegas um ressentimentozinho por já não ser permitido queimar gente ou denunciar gente para ser queimada. Se a divindade que vossas senhorias reverenciam existisse, existência que nunca foi provada e de que me permito, discreta mas firmemente, duvidar, decerto que o perfil da personagem, como vem às vezes relatada, não se compaginaria com certos comportamentos e certas vozearias dos seus subordinados."

- escritor Mário de Carvalho, in «Jornal de Letras», nº 951

quarta-feira, maio 09, 2007

Na Irlanda como no Céu..Texto do blog Sem Quorum


Opressão cristã: na Irlanda como no Céu!
A recente vitória do «sim» no referendo à IVG é uma conquista civilizacional que vai certamente contribuir para, entre outros aspectos, a diminuição de graves injustiças sociais e desigualdades no nosso país. Neste caso, Portugal serve de exemplo positivo a outros países onde a irracionalidade atávica do obscurantismo religioso faz do aborto um assunto tabu e um dogmático preconceito.

Senão, veja-se o triste caso que se passou há dias na Irlanda, um dos países mais católicos da Europa. Uma irlandesa de 17 anos, decidiu interromper a gravidez, de quatro meses, depois de lhe ter sido dito pelos médicos que o bebé, após o nascimento, não irá sobreviver mais do que alguns escassos dias, em virtude de o feto sofrer de anencefalia, isto é, ausência de parte do crânio e do encéfalo (graças a Deus?). Como a lei irlandesa é muito restritiva (o aborto só é legal se a gravidez colocar a mãe em risco de vida ou suicídio), a jovem manifestou o desejo legítimo e racional de recorrer a uma clínica de abortos em Inglaterra (tal como as portuguesas se habituaram a ir a Badajoz), país onde a IVG foi legalizada há 40 anos.

Porém, o serviço de saúde irlandês impede-a de sair do país, exigindo-lhe uma autorização judicial para se deslocar à terra de Sua Majestade. Neste impasse, a gravidez da adolescente vai decorrendo...

Não configurará esta situação uma desumana e opressiva imposição de vontade alheia, correspondendo a uma forma ignóbil de tortura física e psicológica? Não justificará a impossível viabilidade do nascituro uma excepção lícita à proibição tirânica da IVG? Nem agora que a ideia estúpida do «limbo» foi posta de lado?

A igreja papal italiana tem boas razões, não só as históricas e as de erradas teologias e absurdas doutrinas, para se manter alojada na opulência da margem do romano rio Tibre. Mas, se a vaticana eminência quisesse, razões outras e acrescidas teria para sentar o santo rabo num trono algures em Dublin ou Varsóvia!

Pai Nosso que estais na Irlanda e no Céu, quando nos livrarás do mal?

Este texto sobre a guerra colonial é muito bom!


Era fácil morrer

Enterrámos-lhe a faca de mato, o revólver e a farda. Tinha estado no Niassa com autorização para matar pretos, e tudo aquilo cheirava a sangue, e cheirou durante muitos anos, mesmo enterrado no chão fértil, incerto da Matola, até se oferecer um tiro nos miolos, já em Xabregas, após ter queimado todas as veias, assaltado ourivesarias na Almirante Reis e assassinado negros a tiro, pelas costas, na Damaia.
Foi meu padrinho.

Nas ex-colónias era fácil morrer. Estava-se vivo, morria-se. Havia acidentes de caça, acidentes no mato, acidentes de trabalho, acidentes rodoviários, acidentes. Cortavam-se dedos e saravam-se a seguir, lavados com água fria. Se não saravam, amputava-se o braço ou morria-se de septicemia. Era fácil.
A vida de um preto valia o preço da sua utilidade. A vida de um branco valia mais, muito mais, não que valesse grande coisa. A vida de um bife da África do Sul, dos que vinham com chapéu de mexicano apanhar sol na Polana, isso sim, era vida. Esses, sim, sabiam lidar com pretos, mantê-los com rédea bem curta.
Matar um preto, no Marcelismo, já era chato; a polícia, se descobrisse, vinha fazer umas perguntas. “Então, ó Rebelo, não viu o peão, e matou-o?” “Não, agente Pacheco, era noite, não havia luzes na picada, o gajo ia bêbado, caiu-me para cima da carrinha, o que é que queria que eu fizesse?!” “Que parasse, homem, que prestasse assistência ao preto!” “Eu pensei que lhe tivesse dado só uma pancada, que o gajo acordasse dali a umas horas, que pensasse que era da bebedeira... é pretalhada... seguia caminho prá palhota e nunca mais se lembrava disso. A culpa é deles, e depois lixam-nos a vida.” “Vou fechar os olhos desta vez, mas veja se não se repete, ó Rebelo, que agora temos ordens da metrópole para investigar estes acidentes.”
Matar um preto, a partir de certa altura, começou a dar chatice.



Calou-se para sempre


No Maputo, após a independência, e mesmo antes, os militares desmobilizados do exército português, que não regressaram à pátria, por serem moçambicanos, negros ou brancos, foram perseguidos e assassinados. Dizia-se, entre brancos, que era a FRELIMO em vingança de guerra. Os primeiros a cair foram os negros; depois, procuraram-se os brancos; havia comités de bairro; formavam-se comissões. Ia-se a casa. Revistava-se. Tudo era possível. Morrer sempre foi fácil, antes ou depois.

O meu padrinho pediu que lhe dessem sumiço às recordações da tropa. A minha mãe enterrou-as. Tinha sido educado no mais profundo desprezo pelo negro. Quando fez 19 anos, e o mandaram para o Niassa, partiu contente. Ia lutar pela sua califórnia portuguesa.
Descia a Lourenço Marques de nove em nove meses, mas já não era o mesmo. Deixou crescer a barba. Era a guerra, e o meu padrinho nunca falou da guerra. Ninguém falava da guerra. Suponho que não se fale da guerra, nunca.
“Então, são tesos, os gajos, lá no Norte?” O meu padrinho sorria, não respondia. “Mas vocês limpam-lhes o sebo, hein? Eles ainda vão ver quem é quem vai mandar nisto” O meu padrinho falava pouco e permanecia pouco tempo em roda social. Fechava-se no quarto a fumar, e calou-se para sempre. Mesmo que tenha dito uma ou outra coisa depois, “sim, não, talvez, não sei”, nunca mais falou. Tinha vergonha, o meu padrinho. Olhava-me com uns olhos vivos, e tinha vergonha de mim. E eu amava-o. Era um homem moreno e bonito. Eu tinha 10 anos em fogo, e embora não soubesse o que era o sexo, sonhava viver com ele intensas aventuras eróticas. Tinha sempre o quarto a meia-luz e fumava muito. Não sabia o que dizer-me. Tinha vergonha de mim. Eu fechava os olhos, e fantasiava que nos amarravam, abraçados um ao outro, e nos atiravam a uma piscina incendiada, e que a intensidade do que era realizado, essa violência, nos queimava de prazer. O meu padrinho acordou o meu desejo, e, uns anos mais tarde, matou-se.




Nomes pretos e nomes brancos

O meu padrinho nasceu em Lourenço Marques; nunca pronunciou as três sílabas muito difíceis de Maputo. Ma-pu-to. As cinco de Lourenço Marques fluíam líquidas. Muito brancas.
Maputo era nome de preto. Um preto, uma zona selvagem, um rio podiam chamar-se Maputo, Incomati, Limpopo, Zambeze. Uma vila de pretos podia chamar-se Marracuene, Inhaca, Infulene, Xipamanine. Uma cidade de brancos, não. Tinha de ser Lourenço Marques, Beira, Mocímboa da Praia.
Xai-Xai era de preto. Ponta do Ouro era de branco.
Nenhum branco que tenha saído de Lourenço Marques se habituou a chamar-lhe... outro nome qualquer. Como geleira. Um branco pensa geleira, e emenda, em milésimos de segundo, para frigorífico. Pensa galinha, corrige para frango. Pensa Lourenço Marques e diz, com gozo, com desforra, como se manter um nome fosse manter o que designa, Lourenço Marques. Diz muito longamente e saboreia as sílabas todas. Lou-ren-ço-Mar-ques.
A vida, em Lourenço Marques, era serena, morna, sibilada, muito fluida como o seu nome.
O meu padrinho quando conseguiu sair em segurança do Maputo, olhou para trás, na estrada do aeroporto, e disse, “nunca mais regressarei a Lourenço Marques”. Cumpriu-se.




O Norte era muito longe

No Marcelismo, os navios acostavam cheios, todas as semanas. Os colonos do marcelismo chegavam misturados com as tropas e ficavam por ali, alugavam casa, instalavam-se, punham os filhos no liceu, na escola industrial, arranjavam um mainato recomendado, ou arriscavam um que lhe fosse bater à porta; alguns compravam uma cantina perto, a quinhentos ou seiscentos quilómetros da capital, e vendiam carvão, petróleo, farinha, peixe seco e cerveja aos pretos que saíam do mato e não falavam português. Aprendiam a falar todos os dialectos, eram intermediários em negócios, safavam-se bem. As tropas iam para o Norte e arranjavam, através dos programas de rádio, madrinhas de guerra a quem enviar aerogramas. O meu sonho era ser madrinha de guerra, mas era muito nova. Se tivesse 15 anos... As madrinhas de guerra eram uma espécie de namoradas pelo correio e eu gostava de ouvir os programas em que se enviavam mensagens, “Maria Teresa dos Santos, madrinha do furriel Diamantino Simões, colocado em Nova Viseu, na companhia 3470, envia cumprimentos seus e da família, e faz votos pelo seu breve regresso com saúde e boa disposição”.
Sabíamos tanto sobre o que faziam os tropas como sobre a política do país. Nada. Sabíamos nada.
Não descrevo uma terra ignorando que nela existia uma guerra. Havia uma guerra, mas não era visível a Sul; não sabíamos como tinha começado, ou para que servia exactamente. Pelo menos, até ao 25 de Abril, não se falou disso na minha presença. Nem se evitou falar.
Havia guerra porque havia turras. A guerra era no Norte, mas não tomávamos consciência da sua gravidade, não se falava em soldados dos nossos que tivessem sido mortos, não existia para nós esse vocabulário que agora conhecemos, emboscadas, guerrilha, mina disto e daquilo. Achávamos que estavam lá pelos quartéis a cumprir a tropa, a fazer umas acções de propaganda. A dar uns encostos nos negros que não se portassem bem, o que era normal. A limpar-lhes o sebo, se fossem teimosos e não obedecessem. Era isso que o meu padrinho devia andar a fazer; dar uns encostos nos negros.
Disseram-me que, sim, pois, havia uma guerra, mas era no Norte, e o Norte era muito longe. Era lá em cima na terra dos macuas e dos macondes. Os turras queriam roubar a terra aos portugueses. Vinham da Tanzânia, e eram pretos e maus. Era preciso defender a nossa terra, por isso é que vinham os soldados de Portugal. Também havia soldados pretos. Esses, faziam-nos comandos, para irem à frente e morrer primeiro.




Uma África de brancos

Após o 25 de Abril já ouvia falar livremente sobre o assunto. Até porque os turras entraram pela cidade dentro e foi necessário explicar de onde vinham, quem eram esses invasores cheios de poder.
Percebi que os colonos desejavam independência de Portugal, mas sob poder branco. Eventualmente, partilha de funções administrativas com um ou outro mulato educado, maleável. Que alimentaram a ideia de que arrasar a FRELIMO seria como matar dois coelhos com uma só cajadada. Aquela terra não seria para os negros nem para a metrópole, mas para os brancos que ali viviam. Seria uma independência branca; pretendiam erguer, ali, uma África do Sul-califórnia-portuguesa. Ainda hoje é essa a nostalgia. Quando dizem, “aquilo da independência foi mal feito, e os culpados foram o Soares e o Almeida Santos, que entregaram aquilo aos pretos”, eu traduzo, “aquilo que entregaram aos pretos deviam tê-lo entregue a nós, que, depois, logo tratávamos da negralhada”. Quando revelam, com lágrimas sinceras, "deixei o meu coração em África", eu traduzo, "deixei lá tudo, e tinha uma vida tão boa".
O meu pai, na véspera de morrer, sonhou que andava a fazer uma instalação no Sommershield, e que eu tinha ido com ele na carrinha; depois fomos petiscar ao Sabié, uns pregos; coca-cola, eu; ele, um tricofaite. Estou a ver o meu pai a sorrir. "Gostas?" Sorrio. "Gosto".
Precisamos de tempo para compreender. Para matar. Para poder olhá-los de novo na cara. Com amor. Com o mesmo amor.
Para perdoar.


Publicada por Isabela

Bandalho!




O Portas da direita, resolveu na Madeira citar o que estava à entrada de um campo de extremínio nazi: "O trabalho liberta"
Libertem-se dele e doutros enquanto eles não vos venham a dar trabalho em locais purificadores de raças...

Profundamente nauseado
Fernando Pereira

terça-feira, maio 08, 2007

Marxista, tendencia Groucho


"Entre uma mulher e um charuto, escolherei sempre o charuto."

Groucho Marx



DIEU EST UN FUMEUR DE HAVANES - SERGE GAINSBOURG
Dieu est un fumeur de havanes

Dieu est un fumeur de havanes
Je vois ses nuages gris
Je sais qu'il fume même la nuit
Comme moi ma chérie
Tu n'es qu'un fumeur de gitanes
Je vois tes volutes bleues
Me faire parfois venir les larmes aux yeux
Tu es mon maître après Dieu
Dieu est un fumeur de havanes
C'est lui-même qui me l'a dit
Que la fumée envoie au paradis
Je le sais ma chérie
Tu n'es qu'un fumeur de gitanes
Sans elles tu es malheureux
Au clair de la lune ouvre les yeux
Pour l'amour de Dieu
Dieu est un fumeur de havanes
Tout près de toi loin de lui
J'aimerais te garder toute ma vie
Comprends-moi ma chérie
Tu n'es qu'un fumeur de gitanes
Et la dernière je veux
La voir briller au fond de mes yeux
Aime-moi nom de Dieu
Dieu est un fumeur de havanes
Tout près de toi loin de lui
J'aimerais te garder toute ma vie
Comprends-moi ma chérie
Tu n'es qu'un fumeur de gitanes
Et la dernière je veux
La voir briller au fond de mes yeux
Aime-moi nom de Dieu

Serge Gainsbourg

CONSERVAÇÃO DE CHARUTOS
A pedido de um Amigo, umas pequenas indicações sobre como conservar charutos:

CONSERVAÇÃO DE CHARUTOS

Os charutos, como produto "vivo", necessitam absolutamente de envelhecer em boas condições
É um produto que gosta da escuridão, temperatura constante (entre 15 e 20 º) e sobretudo de humidade.
Reunidas estas duas últimas condições, um charuto pode conservar-se mais de 10 anos sem problema, mesmo que, ao contrário de alguns vinhos, nada ganhe com isso.

UM CLIMA PARECIDO COM O DAS CARAÍBAS

A escuridão e o calor são dois parâmetros fáceis de respeitar. Agora uma taxa de humidade entre 70 e 75% requer a compra de uma caixa humidificadora.
Uma dessas caixas, com o seu sistema de humidificação (e um higrómetro para verificar o nível de humidade) é o único meio para conservar correctamente charutos.
A venda de humidificadores têm-se expandido, havendo muitos modelos à venda, por exemplo em tabacarias. Infelizmente os preços não são geralmente muito razoáveis.
Para estar na sua plenitude, um charuto necessita de um clima semelhante ao das Caraíbas (durante todo o seu crescimento uma planta de tabaco vive num meio com uma taxa de humidade a oscilar entre os 70 e 80%), senão as folhas secam, estalam e perdem todo o seu aroma.

ERROS A NÃO COMETER:

• Guardar os charutos no frigorífico: o frio seca o charuto e acaba por o destruir.
• Fechar os charutos num saco com pedaços de cenoura ou batata: não garante a humidade (legumes secam depressa) e vai captar o cheiro. (Que desperdício um charuto com cheiro ou sabor a cenoura!)

Hoje resolvi espernear-( me ), so de ver determinada gelataria, com algum leite... mas em pó. Pois eh... só me apetece espernear porque, mesmo sem trocar o "n" pelo "m", tenho a certeza que o leite passava a vir liquefeito...Liquefeito ao bife, vou andando por aqui eu nesta sanzala de grandes mutações de humor, e de trocas de palavras azedas ao som dos sabores mais incríveis...Uns dão gelados de sabores diversos e nalguns casos enjoativos, outros dão caracóis que antes de serem cozinhados espalham baba e ranho, outros falam da vida alheia, como por exemplo da Madre Teresa e correlativos, outros poem artigos denunciando mais uns milhões no José Eduardo dos Santos, talvez com interesses em Gondomar e no Marco, outros falam do que perderam qd sairam de Angola, outros do que se perdeu com a saida dos atrás citados, outros do que ganharam os angolanos com a saída dos atrás dos atrás citados, outros cantam, outros contam histórias de caça, aumentando óbviamente o peso da suposta presa, outros falam de estradas abertas onde dois camiões não se cruzavam em condições, outros falam de moderações e imoderações, outros não se importariam de dar umas imordadelas, outros falam de moral, enfim a sanzala transformou-se num espaço de enorme efervescencia...Há dias que me faz lembrar uma colher de Eno num copo de água...é o que se pode chamar um verdadeiro Eno á tolerancia, pois mesmo as intolerancias tem problemas gástricos e de facto cumpre-me questionar se todos os espaços aqui abertos tem alvará, inspecção sanitária feita, pessoal na SS, e folha de férias e de turnos afixado...
Bem, o ke me faz levar a recuperar a tabacaria, é fundamentalmente para ser mais um lugar para dizer mal das casas comerciais dos outros, e tb de alguma clientela que por lá vai andando...Como há uma guerra ao tabaco, assumindo mesmo algum fundamentalismo, quase igual ao que foi vítima o azeite nos anos 60, 70 e 80, qd os rapazes dos States precisavam de impor os óleos "vegetais" de vegetativos patrões que gostavam de ver os lucros das suas companhias crescer, mas dizia eu, resolvi fazer uma reconversão e transformá-la numa loja de conveniencia...Gosto da incoveniencia de possuir uma loja de conveniencia, pq sei que vai ser local de peregrinação de muita gente, pois vai estar aberta, quer dizer de porta aberta durante24h, sobre 24h. Vamos ter à vosa disposição máquinas de moedas que fazem maravilhas, pois temos máquinas para quase tudo, desde o vulgar tabaco, aos perservativos, tão combatidos pela Igreja Apostólica Romana, mas bem aceite por todas as outras...Vamos ter brioches e croissants frescos a determinadas horas, gelados da Haagen-Dass, mas que aqui tem de ser pagos, vamos ter bebidas de todo o género, desde o vulgar Pisang ao Absinto.Vamos ter azeitonas de Elvas, sem caroço e com linguetas de amendoa no meio, que em determinadas posições do frasco podem sugerir coisas notáveis, qd duas ou muitas mais azeitonas se entrelaçam...
Enfim um espaço acolhedor, onde por acaso temos dois "aKulhedores" espaços sanitários para sexos diferentes.Creio que serei visitado muitas vezes e posso dizer-vos em primeira mão que somos a primeira loja de conveniencia que tem sabonete sublimado e lápis hemostático, para ajudar a cicatrizar pequenos golpes...

Sinais dos tempos!


Por acaso quem militava por aqui na altura era PACHECO PEREIRA!





COM TODA A MEMÓRIA DO MUNDO!

Soldados Portugueses recusam-se a combater em Angola

quarta-feira, abril 25, 2007

"O maior Português de sempre"...enfim!






"O maior Português de sempre"- é bom que não se esqueça!
A sociedade precisa de Ordem, pela Educação e pela aprendizagem do respeito pelos outros. Não precisa de assassinos!


"O maior Português de sempre":

1931

O estudante V. Branco morto pela PSP, durante uma manifestação no Porto;

1932

Armando Ramos, jovem, morto em consequência de espancamentos;

Aurélio Dias, fragateiro, é morto após 30 dias de tortura;

Alfredo Ruas, é assassinado a tiro durante uma manifestação em Lisboa;

1934, 18 de Janeiro

Américo Gomes, operário, morre em Peniche após dois meses de tortura;

Manuel Vieira Tomé, sindicalista ferroviário morre durante a tortura em consequência da repressão da greve;

Júlio Pinto, operário vidreiro, morto à pancada; a PSP mata um operário conserveiro durante a repressão de uma greve em Setúbal;

1935

Ferreira de Abreu, dirigente da organização juvenil do PCP, morre no hospital após ter sido espancado na sede da PIDE (PVDE);

1936

Francisco Cruz, operário da Marinha Grande, morre na Fortaleza de Angra do Heroísmo, vítima de maus-tratos, é deportado do 18 de Janeiro de 1934;

Manuel Pestana Garcez, trabalhador, é morto durante a tortura;

1937

Ernesto Faustino, operário;

José Lopes, operário anarquista, morre durante a tortura, sendo um dos presos da onda de repressão que se seguiu ao atentado a Salaza;

Manuel Salgueiro Valente, tenente-coronel, morre em condições suspeitas no forte de Caxias;

Augusto Costa, operário da Marinha Grande, Rafael Tobias Pinto da Silva, de Lisboa, Francisco Domingues Quintas, de Gaia, Francisco Manuel Pereira, marinheiro de Lisboa, Pedro Matos Filipe, de Almada e Cândido Alves Barja, marinheiro, de Castro Verde, morrem no espaço de quatro dias no Tarrafal, vítimas das febres e dos maus tratos;

Augusto Almeida Martins, operário, é assassinado na sede da PIDE (PVDE) durante a tortura;

Abílio Augusto Belchior, operário do Porto, morre no Tarrafal, vítima das febres e dos maus-tratos;

1938

António Mano Fernandes, estudante de Coimbra, morre no Forte de Peniche, por lhe ter sido recusada assistência médica, sofria de doença cardíaca;

Rui Ricardo da Silva, operário do Arsenal, morre no Aljube, devido a tuberculose contraída em consequência de espancamento perpetrado por seis agentes da PIDE durante oito horas;

Arnaldo Simões Januário, dirigente anarco-sindicalista, morre no campo do Tarrafal, vítima de maus-tratos;

Francisco Esteves, operário torneiro de Lisboa, morre na tortura na sede da PIDE;

Alfredo Caldeira, pintor, dirigente do PCP, morre no Tarrafal após lenta agonia sem assistência médica;

1939

Fernando Alcobia, morre no Tarrafal, vítima de doença e de maus-tratos;

1940

Jaime Fonseca de Sousa, morre no Tarrafal, vítima de maus-tratos;

Albino Coelho, morre também no Tarrafal;

Mário Castelhano, dirigente anarco-sindicalista, morre sem assistência médica no Tarrafal;

1941

Jacinto Faria Vilaça, Casimiro Ferreira, Albino de Carvalho, António Guedes Oliveira e Silva, Ernesto José Ribeiro, operário e José Lopes Dinis morrem no Tarrafal;

1942

Henrique Domingues Fernandes morre no Tarrafal;

Carlos Ferreira Soares, médico, é assassinado no seu consultório com rajadas de metralhadora, os agentes assassinos alegam legítima defesa (?!);

Bento António Gonçalves, secretário-geral do P. C. P. morre no Tarrafal;

Damásio Martins Pereira, fragateiro, morre no Tarrafal;

Fernando Óscar Gaspar, morre tuberculoso no regresso da deportação;

António de Jesus Branco morre no Tarrafal;

1943

Rosa Morgado, camponesa do Ameal (Águeda), e os seus filhos, António, Júlio e Constantina, mortos a tiro pela GNR;

Paulo José Dias morre tuberculoso no Tarrafal;

Joaquim Montes morre no Tarrafal com febre biliosa;

José Manuel Alves dos Reis morre no Tarrafal;

Américo Lourenço Nunes, operário, morre em consequência de espancamento perpetrado durante a repressão da greve de Agosto na região de Lisboa;

Francisco do Nascimento Gomes, do Porto, morre no Tarrafal;

Francisco dos Reis Gomes, operário da Carris do Porto, é morto durante a tortura;

1944

General José Garcia Godinho morre no Forte da Trafaria, por lhe ser recusado internamento hospitalar;

Francisco Ferreira Marques, de Lisboa, militante do PCP, em consequência de espancamento e após mês e meio de incomunicabilidade;

Edmundo Gonçalves morre tuberculoso no Tarrafal;

Assassinados a tiro de metralhadora uma mulher e uma criança, durante a repressão da GNR sobre os camponeses rendeiros da herdade da Goucha (Benavente), mais 40 camponeses feridos a tiro



1945

Manuel Augusto da Costa morre no Tarrafal;

Germano Vidigal, operário, assassinado com esmagamento dos testículos, depois de três dias de tortura no posto da GNR de Montemor-o-Novo;

Alfredo Dinis (Alex), operário e dirigente do PCP, é assassinado a tiro na estrada de Bucelas;

José António Companheiro, operário, de Borba, morre de tuberculose em consequência dos maus-tratos na prisão;

1946

Manuel Simões Júnior, operário corticeiro, morre de tuberculose após doze anos de prisão e de deportação;

Joaquim Correia, operário litografo do Porto, é morto por espancamento após quinze meses de prisão;

1947

José Patuleia, assalariado rural de Vila Viçosa, morre durante a tortura na sede da PIDE;

1948

António Lopes de Almeida, operário da Marinha Grande, é morto durante a tortura;

Artur de Oliveira morre no Tarrafal;

Joaquim Barreiros, marinheiro da Armada, morre no Tarrafal após doze anos de deportação;

António Guerra, operário da Marinha Grande, preso desde 18 de Janeiro de 1934, morre quase cego e após doença prolongada;

1950

Militão Bessa Ribeiro, operário e dirigente do PCP, morre na Penitenciaria de Lisboa, durante uma greve de fome e após nove meses de incomunicabilidade;

José Moreira, operário, assassinado na tortura na sede da PIDE, dois dias após a prisão, o corpo largado por uma janela do quarto andar para simular suicídio;

Venceslau Ferreira morre em Lisboa após tortura;

Alfredo Dias Lima, assalariado rural, é assassinado a tiro pela GNR durante uma manifestação em Alpiarça;

1951

Gervásio da Costa, operário de Fafe, morre vítima de maus-tratos na prisão;

1954

Catarina Eufémia, assalariada rural, assassinada a tiro em Baleizão, durante uma greve, grávida e com uma filha nos braços;

1957

Joaquim Lemos Oliveira, barbeiro de Fafe, morre na sede da PIDE no Porto após quinze dias de tortura;

Manuel da Silva Júnior, de Viana do Castelo, é morto durante a tortura na sede da PIDE no Porto, sendo o corpo, irreconhecível, enterrado ás escondidas num cemitério do Porto;

José Centeio, assalariado rural de Alpiarça, e assassinado pela PIDE;

1958

José Adelino dos Santos, assalariado rural, é assassinado a tiro pela GNR, durante uma manifestação em Montemor-o-Novo, vários outros trabalhadores feridos a tiro;

Raul Alves, operário da Póvoa de Santa Iria, após quinze dias de tortura, é largado por uma janela do quarto andar da sede da PIDE, a esposa do embaixador do Brasil assiste à sua morte;

1961

Cândido Martins Capilé, operário corticeiro, é assassinado a tiro pela GNR durante uma manifestação em Almada;

José Dias Coelho, escultor e militante do PCP, é assassinado á queima-roupa numa rua de Lisboa;

1962

António Graciano Adágio e Francisco Madeira, mineiros em Aljustrel, assassinados a tiro pela GNR;

Estêvão Giro, operário de Alcochete, é assassinado a tiro pela PSP durante a manifestação do 1: de Maio em Lisboa;

1963

Agostinho Fineza, operário tipógrafo do Funchal, é assassinado pela PSP, sob a indicação da PIDE, durante uma manifestação em Lisboa;

1964

Francisco Brito, desertor da guerra colonial, é assassinado em Loulé pela GNR;

David Almeida Reis, trabalhador, assassinado por agentes da PIDE durante uma manifestação em Lisboa;

1965

General Humberto Delgado e a sua secretaria Arajaryr Campos assassinados a tiro em Vila Nueva del Fresno (Espanha), os assassinos o inspector da PIDE Rosa Casaco e o sub-inspector Agostinho Tienza e o agente Casimiro Monteiro;

1967

Manuel Agostinho Góis, trabalhador agrícola de Cuba, morre vítima de tortura na PIDE ;

1968

Luís António Firmino, trabalhador de Montemor, morre em Caxias, vítima de maus-tratos;

Herculano Augusto, trabalhador rural, é morto espancado no posto da PSP de Lamego por condenar publicamente a guerra colonial;

Daniel Teixeira, estudante, morre no Forte de Caxias, em situação de incomunicabilidade, depois de agonizar durante uma noite sem assistência;

1969

Eduardo Mondlane, dirigente da Frelimo, assassinado através de um atentado organizado pela PIDE;



1972

José António Leitão Ribeiro Santos, estudante de Direito em Lisboa e militante do MRPP, assassinado a tiro durante uma reunião de apoio à luta do povo vietnamita e contra a repressão, o seu assassino, o agente da PIDE Coelha da Rocha, viria a escapar-se na "fuga-libertação" de Alcoentre, em Junho de 1975;

1973

Amílcar Cabral, dirigente da luta de libertação da Guiné e Cabo Verde, é assassinado por um bando mercenário a soldo da PIDE, chefiado por Alpoim Galvão;

1974, 25 de Abril

Fernando Carvalho Gesteira, de Montalegre, José Barreto, de Vendas Novas, Fernando Barreiros dos Reis, soldado de Lisboa, e José Guilherme Rego Arruda, estudante dos Açores, assassinados a tiro pelos pides acoitados na sua sede na Rua António Maria Cardoso, ainda feridas duas dezenas de pessoas.

A PIDE acaba como começou, assassinando. Aqui ficam contabilizadas as inúmeras vítimas anónimas da PIDE, GNR e PSP em outros locais de repressão.

Mais ainda

Podemos referir, duas centenas de homens, mulheres e crianças massacradas a tiro de canhão durante o bombardeamento da cidade do Porto, ordenada pelo coronel Passos e Sousa, na repressão da revolta de 3 de Fevereiro de 1927. Dezenas de mortos na repressão da revolta de 7 de Fevereiro de 1927 em Lisboa, vários deles assassinados por um pelotão de fuzilamento, ás ordens do capitão Jorge Botelho Moniz, no Jardim Zoológico.

Dezenas de mortos na repressão da revolta da Madeira, em Abril de 1931, ou outras tantas dezenas na repressão da revolta de 26 de Agosto de 1931. Um número indeterminado de mortos na deportação na Guiné, Timor, Angra e no Cunene. Um número indeterminado de mortos devido à intervenção da força fascista dos "Viriatos" na guerra civil de Espanha e a entrega de fugitivos aos pelotões de fuzilamento franquista, as Dezenas de mortos em São Tomé, na repressão ordenada pelo governador Carlos Gorgulho sobre os trabalhadores que recusaram o trabalho forçado, em Fevereiro de 1953. Muitos milhares de mortos durante as guerras coloniais, vítimas do Exército, da PIDE, da OPVDC, dos "Flechas", etc.

segunda-feira, março 19, 2007

Luis Pacheco em entrevista


Luíz Pacheco outra vez


São raras as vezes que se fala do Luíz Pacheco mais raras ainda as entrevistas. Dia 9 de Janeiro coloquei um post que alertava para uma entrevista por ele dada ao DN, hoje fiquei a saber pelo blog Ene Coisas de outra que saiu na Pública dia 28 de Março. Vale a pena ler e conhecer alguns pontos de vista de alguém que não tem medo de dizer o que realmente pensa (por mais inconveniente que seja).

Apesar de extensa leiam a entrevista.

"Isto de estar vivo
Ainda um dia acaba mal. É uma frase do Manuel da Fonseca. Para o Manuel acabou, coitado. Ele caiu de uma escada abaixo, os amigos estavam à espera dele no café, ele não aparecia, foram lá a casa dele, e deram com ele inanimado. Depois ficou em coma profundo e morreu daí a uns 8 dias, talvez.

Isto [o lar] não é uma casa alegre. Não pode ser. É o terceiro lar onde estou e já sei que não há hipótese de arranjar melhor. Agora, para pagar isto é que me vejo um bocado aflito, porque eu não tenho dinheiro que chegue para isto. Como é que faço? Olhe, faço os possíveis. Isto custa para cima de mil euros por mês. O que eu recebo não dá para estar descansado. Tenho uma situação muito incerta.

Tenho um subsídio vitalício de 120 contos por mérito cultural. Há muita gente que tem. Agradeço isso ao Alçada Baptista. E ao Balsemão. Foi o Balsemão que inventou um decreto, que era o do mérito cultural, para legalizar estas pensões. O meu subsídio em princípio é vitalício, é um subsídio pelo passado. Mas com essa maluca das Finanças - por acaso até é gira, é muito feia mas é gira, é uma mulher a sério, não é o Peixoto, aliás o Barroso! - nunca se sabe. Mas não, porque se uma pessoa tem mérito cultural não o perde por causa da Ministra das Finanças.

Eu até estou um bocado resguardado. Enfim, estou bem aqui. Este quarto é um bom quarto, apetece trabalhar. Eu é que já não estou muito capaz de trabalhar, porque a memória, a vista, tudo isso inibe um tipo. Já não leio os jornais, não consigo. A minha ligação com o mundo é a rádio.

As minhas doenças, sei que está tudo mais ou menos controlado. São coisas antigas, tenho a minha medicação. Moralmente depende muito dos dias. Sou muito influenciável por qualquer coisa, por qualquer dia de sol. Se é bom? Ó faxavor! Você nem faz ideia!

Ai fulano de tal está cheio de papel? Quero lá saber! Qualquer dia morre!

O Antigo Regime

Devia ter ido falar com o Vasco Gonçalves! Não o ouviu hoje de manhã a falar? [numa sessão de comemoração dos 30 anos do 25 de Abril] E ele tem razão, porque, de facto, o Mário Soares foi um agente terrível da contra-revolução. O Vasco não lhe perdoa. Eu não sabia que ele ainda estava vivo. Ele já deve estar muito velhote, coitado.

O fascismo era péssimo. Mas agora, por parte da malta nova, não há a noção do que era. Nada. Noção nenhuma. E há esses rapazinhos, que são uns remanescentes - como o Pereira Coutinho, esse tipo que escrevia no Independente e que agora parece que escreve no Expresso, enfim, gente de más famílias. A reacção está aí com toda a força. Talvez ainda não com a força que eles queriam. Nova direita? Extrema direita!

Antigamente não era fácil. Havia um pavor, que era justificado, mas esse pavor, essa perseguição, insidia mais sobre certas classes. Certas classes... trabalhadoras. Eu recordo-me que uma noite fui ao Barreiro, e fiquei lá. Fiquei lá numa pensão manhosa, barata, e de noite fui atacado, não pela Pide mas por percevejos. Ó faxavor! Seja como for, havia então patrulhas da guarda republicana a cavalo toda a noite. Isto foi talvez por volta de 1955 ou 56. Os intelectuais eram de uma classe média, não havia muitos que fossem da classe operária.

Fui para o liceu em 1936, foi o primeiro ano da Mocidade Portuguesa. No Camões, eu tinha professores idosos, gente formada pelo regime republicano. Tal como depois do 25 de Abril houve muita gente que entrou para as universidades, gente que eles foram buscar - o Piteira Santos, o Mário Dionísio, etc. -, também na altura eu tive como professores no Camões tipos de um radicalismo republicano terrível. Havia um tipo que era professor de matemática. Quando chegava o contínuo com uma circular da Mocidade Portuguesa para ler, qualquer coisa desportiva ou assim, ele dizia que era ele que lia, e lia aquilo com um tom importante. Não deixava o contínuo ler, e lia aquilo com uma entoação e com um ar extraordinários. Já professores como o Câmara Reis, que era professor de literatura portuguesa, era um tipo nitidamente do contra. Ou o João de Brito, que ensinava latim. Esses escolhiam os textos e davam aulas do contra.

Em casa eu não tive ambiente familiar do contra, não havia ninguém que me informasse. O meu pai não ligava nenhuma a isso. Mas eu fui abrindo os olhos, também graças a esses professores que indicavam leituras. Os professores eram muito importantes. Eu, de professores fascistas só tive um, e era um fascista um bocadinho moderado. Ensinava latim mas não sabia latim. E havia os professores padres. Tive um professor que era um espanto, era o Monsenhor Damasceno Fiadeiro, que tinha sido confessor da rainha Dona Amélia, era cónego da Sé, e era um tipo impecável. Não fazia propaganda católica nenhuma. Outro foi o Costa Nunes, que era professor de canto coral. Esse também era um tipo engraçado.

A Mocidade Portuguesa era uma coisa extremamente idiota, era uma imitação, uma coisa inspirada no fascismo italiano. Mas aquilo era muito reduzido. Quem quisesse as benesses que eles davam - cavalos para treinar, passeatas no rio - até podia ser uma coisa boa. Para os outros era uma grande palhaçada. Nós éramos voluntários mas aquilo era obrigatório. Os liceus não eram mistos, como agora. E mais: não se podia chegar a um liceu de raparigas. Depois houve uma fase um bocadinho diferente. O país acordou com o Norton de Matos. Agora há por aí uns gajos que se gabam muito de prisões e torturas. Que as houve, claro. Ai o Pacheco Pereira diz que a Pide não torturava? A ele não!

Escrever

A diferença de gerações não perdoa. Você, por exemplo, você não escreve para mim. Os autores de hoje têm uma visão do mundo muito diferente de nós. As viagens, que agora são muito facilitadas, transformam as pessoas. É outro mundo, este agora.

A primeira coisa que escrevi para um jornal foi em forma de silogismo e cortaram-me a premissa. Eu fiz aquilo com muito cuidado mas devia ter feito com mais cuidado ainda. Tu antigamente nunca sabias se aquilo que tu escrevias seria publicado ou não. Geralmente faziam os cortes com o lápis azul. Eu conhecia aquela malta toda da comissão de censura à imprensa, eram coronéis, eram capitães, gente sem qualquer formação política, acho eu, gente muito pacata embora uns grandes filhos da puta. Depois desses apareceram uns intelectuaizinhos de direita, muito mais exigentes e muito mais sabedores. Era gente que vinha da Católica, uns formados, outros não. O embate foi o encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores, que era uma coisa nitidamente do fascismo mas muito minada, muito minada pelo Partido Comunista. Aquilo foi encerrado por causa de uma filha-da-putice muito grande de um gajo que já morreu que era o Alexandre Pinheiro Torres. Era um tipo que como tinha ido para Inglaterra se permitia aqui um certo à vontade, tinha lá um emprego numa universidade inglesa. Esse tipo pertenceu a um júri da SPE em que deram o prémio ao Luandino Vieira, que eles não sabiam que estava no Tarrafal. Quando investigaram onde estava o autor, descobriram que estava no Tarrafal. A que mais se dedicava essa Sociedade de Escritores? Essa é boa! Ao de sempre: a dar uns dinheiros.

Os gajos que viviam da literatura não se atreviam a escrever romances muito rebarbativos. Porque uma edição ainda custa dinheiro. Havia gajos que se governavam de escrever: o Alves Redol, o Namora. O Alves Redol era um escritor profissional, que vivia do que escrevia. Ora, não ia arriscar o seu modo de vida com um romance muito directo, não é? Nem o editor publicava. Embora, de vez em quando, dessem uns prémios a uns tipos do contra. Havia era uns gajos que negavam os prémios, que se recusavam a receber os prémios. E também havia aqueles que recebiam prémios e que gostavam de se gabar. O meio era muito pequeno, e ainda é.

Você acredita naquelas pessoas que agora dizem que não passam sem escrever? Pois é claro que é um lugar-comum! E é uma aldrabice! Desde quando é que uma pessoa não vive sem escrever? Essa está muito boa! Ouça, eu não tenho obra escrita de grande fôlego, o que eu tenho é sobretudo uma experiência de editor. Acontecia que um gajo me pedia para publicar qualquer coisa, e eu forjava um livro. São textos pequenos, eu nunca consegui fazer um romance. Nunca tive um tempo livre, seguido, sem chatices, sem interrupções. Um romance requer uma certa estabilidade. Mas não estou muito preocupado com a imortalidade.

O Lobo Antunes é hoje o escritor mais internacional de Portugal. E o Saramago, embora diferentemente. São autores que já não escrevem para cá, escrevem para lá, para os leitores dos outros países. Se um tipo escreve para Portugal, em português, geralmente cai naquilo que é o bonito estilo, o aprimorado. O Aquilino Ribeiro, por exemplo, tinha um estilo muitíssimo rebarbativo, com palavrões provincianos, palavras vernáculas, arcaicas, o que dava àquela prosa um certo encanto. E daí, talvez por isso, tanto o Saramago como o Lobo Antunes têm de ter uma prosa muito corriqueira.

Para escrever bem, para estar atento - por desejar está-lo - é preciso um tipo ler muita coisa.

Sim, o trabalho do Lobo Antunes interessa-me. Tem muitas qualidades. Tem métier, já escreveu alguns 15 romances, são anos de escrita. Esse também diz que não pode estar sem escrever, mas esse é verdade. Mas também é maluqueira. Ele tem muita pancadinha. Há livros do Lobo Antunes de que eu gostei porque me tocavam. Gostei deles por bairrismo, porque ele falava de Benfica, e da Avenida Grão Vasco, da palmeira ao pé dos correios. O Lobo Antunes é um tipo um bocado sentimental, é um tipo um bocado arrapazado.

A certa altura, eu estava um bocado isolado, porque quem não andasse muito metido - não era bem ser militante, era ser próximo - com o PCP não tinha saída. Eu percebi que isolado não ia lá. Então inventei uma editora, para ter um espaço meu, embora eu não publicasse logo na Contraponto. Isso foi mais tarde. A Contraponto começou por ser uma revista. Era uma revista gira. Você nunca a viu? Também só saíram duas. E aquilo era uma coisa minha, ali era eu que mandava. Em relação aos autores que editei, isso é muito contingência, porque a gente edita o que está próximo de nós, o que vem ter connosco. O grande critério, o político, o estético, era um: os gajos do Estado Novo não entravam. Quando eu comecei a editar, que foi em 1950, tinham já aparecido os surrealistas, que era uma linguagem muito mais revolucionária do que a que era cá usada. Era a linguagem do Paul Éluard, do Aragon, dessa gente toda de lá fora. O surrealismo em França teve sempre uma espécie de luta com o PC. Entravam, saíam, eram expulsos, voltavam a entrar. A determinada altura eles tinham uma frase que era: o Surrealismo ao serviço da revolução. Mas a revolução para eles era mais o Trosky, era a revolução permanente.

O que apareceu aqui era uma coisa de cafés. Depois, os cafés da Baixa passaram a ser bancos, e a actividade deslocou-se para o Saldanha. Mas os cafés não eram igrejas surrealistas. As pessoas reuniam-se ali como podiam reunir-se noutro sítio qualquer. Criam-se hábitos, um gajo em vez de ir a vários cafés, vai sempre ao mesmo. E há outros que fazem o mesmo. Ora, criou-se uma lenda em volta da cultura dos cafés, mas aquilo não era nada organizado. Era uma coisa espontânea. O café Gelo, por exemplo, transformou-se num mito. A malta do Gelo, dizia-se que era uma malta terrível, uma malta iconoclasta. Era o Cesarini, o Herberto, o Couto Viana, o Raúl Leal. Defronte do Gelo havia o café Restauração. Aí iam os tipos mais velhos. E eu, de repente chateava-me com os mais novos e ia para os velhos.

Eu fazia edições muito pequenas, não dava para mais. Edições que hoje são raríssimas e muito valorizadas. Por acaso isso dá-me um certo gozo. Eu vendia muitos livros a gajos que nunca tinham comprado um livro na vida. Eu cheguei a vender um livro a um tipo que tinha um talho, e esse gajo guardou o livro e agora fez um negócio maluco. Não lia? Pois claro que o gajo nunca tinha lido nada na vida!

Despojos de gente

Lares, com este é o terceiro. São casas onde não se compra um jornal. E agora, como há a televisão, a malta acha que anda toda muito informada. O convívio com as pessoas que estão aqui? Não há, não existe. Uma conversa? Deixe-me rir! Não abrem a boca! Isto já não são pessoas. Isto são restos de pessoas. Havia aqui um tipo a quem eu salvei a vida - enfim, salvei a vida por mais uns tempos. Eu de noite como não durmo, ouvi o homem chamar. E eu fui lá e ele pediu-me para chamar alguém. Eu toquei na campainha e ele foi logo para o Hospital de S. José. Estava muito aflito. Bom, depois de estar no hospital o tipo voltou e foi com ele que aprendi a jogar à bisca dos 9. Mas isso é um caso único! Em Palmela, na altura em que eu lá estava, havia uma gente muito viva. Dançavam, namoravam e havia um grupinho de jogo.

Como diz? Que estou deslocado aqui? O que eu estou é enterrado! Ouça, eu já não saio daqui. Eu já vi que os defeitos destes gajos dos lares não são defeitos: são atributos. O que se passa aqui não é pior do que aquilo que se passa em Palmela ou no Montijo. Mas ouça: você não venha para aqui nunca! Aliás, não vá para lado nenhum. Aí é que está o problema: perdeu-se o hábito das casas de família. Pai, mãe, filhos, avós, tias velhas. As casas agora não permitem isso. Eu nasci numa casa com 11 divisões, e cabia lá muita gente. Agora num T1, isso não dá nem para um casal e dois filhos.

Este abandono não é bem abandono. É antes o chamado descartável. Hoje em dia, um casal normal que tem dois filhos, vai-se concentrar nesses dois filhos. Nem ele nem ela querem lá a velhada. E mesmo que quisessem, onde é que eles a punham? É claro que antigamente nem toda a gente tinha casarões. Como é que faziam os mais pobres? Viviam juntos! Esta coisa dos lares, isto é uma coisa americana. Por que é que chamam lar? É um eufemismo! O lar não é substituível.

Ouça, faz mais falta os jornais e a leitura do que a visita. Mas a visita é sempre uma alegria. Só que depois uma pessoa fica muito cansada. Eles dizem que eu sou a pessoa que tem mais visitas e mais correio. Quando cheguei a esta casa, assim que comia ia para a rua. Ia para o jardim, ou andava a passear nos carros da Carris. Não, não sinto falta. Ouça: uma pessoa tem de que mentalizar. É outra coisa, é outra vida. A cada dia que passa vejo menos. Qualquer dia fico cego de todo. Acho que primeiro se vêem umas sombras.

Se há uma diferença entre as mulheres e os homens, aqui dentro? Não! Está tudo badalhoco! Está tudo taralhoco! Há aqui uma criatura, uma mulher alta, grande, que fazia o corredor de andarilho durante toda a manhã. Ela deve ter tido uma congestão, porque há uma perna que não mexe, há uma perna que puxa a outra. Eu ouvia o arrastar do andarilho, para lá e depois para cá. E depois ela aparecia e desaparecia. E depois aparecia outra vez. Eu lembro-me de quando ela foi ao casamento de uma neta, toda aprimorada. E ela agora passa o tempo deitada na cama, de lado. Isto dos lares é terrível porque uma pessoa não só está a morrer aos bocadinhos como está a ver morrer aos bocadinhos. Quem tenha um bocadinho de atenção começa a notar que há muitos que se vão afastando, cada vez mais, que se vão ausentando.

Eu estive para ir para um lar que tinha velhos e crianças também. Talvez fosse um lar com uma escola anexa, não sei bem. Isso é uma coisa que dá muita vitalidade. Aqui, por exemplo, são proibidos os animais. Mas os animais dão muita alegria aos velhos. Eu já cheguei a ter aqui no quarto 4 pombos! E tive aqui uma espécie de pardalito que era um bichinho diferente, que vinha aqui todas as manhãs. Eu já desisti da vida muitas vezes, mas o instinto de conservação é muito forte. Havia uma coisa que me animava que era o comer. Mas agora nem o comer. Agora há aí umas sopas reforçadas, umas sopas óptimas. Mas houve um estupor qualquer que se queixou que a sopa tinha sal a mais, e agora não põem sal na sopa. Bem, eu tenho aí sal. Mas é diferente. Esse gajo das cartas, o da bisca dos 9, era um gajo que tinha mau perder. E eu, que me estou marimbando se perco ou se ganho, acabei por conhecer melhor o gajo. E eu já não podia ver o gajo. Depois foi-se embora, parece que voltou para casa, mas vem cá todos os dias, não tem capacidade para estar sozinho.

As entradas e as saídas aqui? Nem se dá por isso! As saídas é para o cemitério. Não nos dizem, mas sabe-se logo. Nestas casas, o facto de uma pessoa morrer, requer um certo recato. É claro que as pessoas não ficam indiferentes, porque quando vêem partir alguém pensam que qualquer dia vão elas. Houve aqui alguém que se atirou de uma janela abaixo, e eu só soube muitos dias depois. Já vi morrer muita gente. E quando entram também não se dá por isso. Apresentar os recém-chegados? Não, isso não se faz! Há uns quartos grandes onde há 4 ou 5 camas. Quando morre alguém os outros não reparam. Foi a pessoa e foi a cama, e ninguém repara. Arrumam o quarto de maneira a não reparar. Isto é gente que já está ausente. Há um tipo que anda por aí nos quartos das senhoras. Ele senta-se, como se estivesse a ver televisão, mas não está a ver nada, está a dormir. É aquilo a que se chama a modorra. E eu, às vezes estou aqui e de repente estou a dormir. Nada aqui excita a atenção.

A estopa ao pé do lume

Politicamente, economicamente, podemos estar numa má altura. Mas há coisas que não voltam para trás. Uma coisa que eu tenho reparado é numas figuras de raparigas que nós nesse tempo não apanhávamos. Há agora um novo tipo de mulher. Mulheres formadas, algumas com dois cursos, com empregos, com uma ginástica de se desenrascarem formidável. São mulheres muito diferentes das do meu tempo. Sabe o que é? Começam a funcionar muito mais cedo. Não haja dúvida nenhuma que a repressão aí era tenebrosa. Fui parar à cadeia 5 vezes por causa disso. Não era bem puritanismo. Era estupidez e a Igreja católica. Eram valores como a virgindade, o pudor... Havia muita hipocrisia. Mas a gente também se governava. Eu fui parar à cadeia porque arrisquei. Se eram virgens? Bem, eu não fui lá ver se elas eram virgens.

Quando uma rapariga é menstruada, a Natureza já lhe dá o estatuto de mulher. Pode ser mãe! Já não é uma miúda, enquanto que um puto de 14 anos pode ser um pateta alegre. Não viveu nada, uma mulher com 14 anos? Essa é boa! Não viveu mas começa a viver! Com a minha primeira mulher, ainda uma menina, eu ia para o pinhal ler e ela fazia uma gracinha que era mandar uma pedrada no livro. Era um assédio sexual! Era a estopa ao pé do lume. Eu disse isso numa entrevista que dei. Sabe o que é que saiu? A sopa ao pé do lume! Agora publicaram isso em livro e já foi emendado. Estas entrevistas gravadas é uma chatice. Às vezes não é nada inteligível. E depois é também uma questão de linguagem. No meu tempo já não havia estopa, isso era uma frase que o meu pai usava. É um português que não é arcaico mas é antigo. Uma rapariga de 30 anos não entende essa linguagem. Ora, a estopa é uma coisa inflamável.

Bom. A vítima, a infeliz donzela, essa nunca se denunciava. Antigamente fazia-se uma coisa que era 'a prova da coelha'. Injectava-se numa coelha urina da presumível grávida e a coelha tinha uma alteração de temperatura ou coisa que o valha. Antigamente, rapazes e raparigas entendiam-se como se entendem hoje. Não tinham era o à vontade que há hoje. Você não faz ideia do pavor que era namorar! Vocês hoje não têm a mínima noção disso. Vocês vivem no paraíso! Mas a grande revolução foi a pílula. Não estou a falar por mim que eu nunca tomei essa porcaria. Detesto isso. Eu sou contra o aborto.

Tudo se cria

Eu não acho bem que se prendam as pessoas, mas sou contra o aborto. Eu sou a favor da Natureza. A Natureza não é a favor do aborto. Há pessoas que não podem criar os filhos? Isso é conversa! Sim, tudo se cria. Tem em mim o exemplo. Eu, sem dinheiro nenhum, sem emprego nenhum, tenho 8 filhos. Isso é conversa, isso é uma cobardia que esses gajos instigam. Não, não misture as coisas. O referendo não é a favor do aborto. Eu desisti um bocadinho da política porque fui lá de propósito para votar a favor da despenalização do aborto e foi o que se viu. Com certeza que sou a favor da despenalização. Andarem aí a prender as raparigas, isso é um disparate.

O Estado é que não quer dar o apoio à mãe solteira. Haviam de ter apoio, tudo de borla, para elas e para os filhos. Filhos indesejados? Vamos lá a ver: uma rapariga que vai para a cama com um rapaz sabe que se arrisca.

Há aqui no lar 5 ou 6 raparigas que têm vinte e poucos anos, já com dois três filhos. São miúdas? São umas mulheraças! E desenrascam-se, é o que eu sei. Como é que os meus filhos cresceram? Ora essa! Se vocês os visse, crescidos como estão! É preciso coragem. Minha e deles. As mães? As mães não foram abandonadas. Os filhos estão todos vivos, menos os que as mães mataram. Enquanto eu podia, andaram no Charles Lepierre, que era muito caro. Eu na altura era funcionário público. Não fui sempre desempregado. Depois saíram, porque eu deixei de pagar e eles tiveram que sair. Eu tive muita sorte, porque de facto não era fácil, um tipo como eu, desde 58 (que foi quando pedi a demissão) sem emprego certo. Quando me vêem dizer: estou desempregado. Eu dou logo os parabéns! Há a mania do emprego sabe? E depois metem-se em despesas e ficam agarrados. Eu nunca pensei em comprar carro, casa, essas coisas. E esta coisa das mulheres serem muito influentes é muito mau para o marido, porque exigem dos maridos um certo trem de vida. Antigamente as mulheres sujeitavam-se um bocadinho às condições que havia. E se não se sujeitavam, eu despachava-as! Agora estes gajos, querem assumir certas coisas perante as mulheres, e depois é a vaidade também, estes gajos de agora são uns vaidosos.

Porrada por encomenda não

Sim, às vezes sou um bocado duro, mas a dureza não é só franqueza, é uma exigência própria. Mas isso hoje não interessa a ninguém, hoje tudo se resume ao deve e ao haver. O que vejo por exemplo nos meus filhos, é uma retracção. Eles não se abrem. Há uma predisposição para a pessoa gostar de si própria e, em consequência disso, fecha-se, cria uma barreira. Se você ler certos textos meus vai encontrar coisas que não são fáceis de serem ditas. Tenho em mim um gosto de estar atento. Estar atento é vermo-nos, a nós próprios como aos outros, da maneira certa. O que é muito difícil.

As pessoas mudam de uma maneira total. Às vezes é até muito rápido, não é ao longo da vida. Ninguém muda? Bem, talvez. Eu acho é que ninguém, quase ninguém, se revela. Houve uma altura em que eu tinha a noção de que conhecia tudo. E hoje tenho a noção contrária. A pessoa mais boçal, mais primária, de repente tem gavetas fechadas. É muito difícil conhecer os outros. Há um texto meu que é o Teodolito, que é o homem e a sua circunstância. A pessoa que conhece a sua circunstância - se você estivesse aqui neste sítio onde eu estou, rodeada de canibais, você ficava de repente muito atenta, por uma questão de autodefesa - fica atenta. Não, não é preciso conversar muito para conhecer o outro. Há aqui uma coisa que é a gorjeta, que é um caso sério. Porque não se sabe a quem se há-de dar, se se há-de dar igual a todos, é uma chatice. Depois descobri que elas gostam é do "pourboir" discreto. Ai nos cabeleireiros também é assim? Ai não sabia. Eu sou um tipo atento. É uma maneira de estar na vida. Quando comecei a publicar no Público alguém anunciou: o escritor e polemista Luiz Pacheco. Queriam que eu fosse para o jornal dar porrada. E eu, só para chatear, para contrariar, estive quase um ano a retrair as unhas. Porrada por encomenda não."