domingo, abril 20, 2008

Ortográficamente de acordo!






MEU CARO Dia síguinte
Mincontro nas férias de dós més aqui mesmo neste Portugal na primera ves que lhe consigui . Gostei mesmo daqueles senhor afarar bem mesmo , tinha lá o Dotor Maôra más a Dotora Sexo , que sabem bém dos assunto mas principal dos principalmente mesmo eu gostei foi de ver aquele troncudo que diz que ele aí num tem nada a ver com política e que o que ele sabe só é ciéncia . Pra rusumo , cumo aprendi mesmo naqueles tempos em quinda era analfabeto e só sabia qum dia os deuses do hemisfero norte tinham mesmo inteligenca pra inventar esta cosa dinternet , topei mesmo cá pessoas que andam nas tácticas e nas estratégias pra consiguir conséquéncias .Náo se bem o quisto é . Mas vamos no assunto que mi trás aqui : uma coisa sáo mesmo os analfabeto da minha terra di Luanda , outra coisa é esses da Universidade Agostinho Neto , uma coisa é os sinhores pegarem em professores portuguèses e mandarem em todos os bocados do espaco onde se deviam falar portugués , outra cosa é aqueles que lhe querem o portugués bem longe , lhe preferem o ingrés , outra cosa é dinheiro pra isso que devia sair do bolso dos Estados de lingua portuguesa , mais ainda do brasileiro que está cheio dele , embora cum muitoss pobres que a gente vê na tv . Cumo em todos lados . Uma cosa é mesmo Portugal , esse grande Portugal do Pessoa mundial da esquina e do Camões das esquindivas do mundo das garinas . Uma coisa é mesmo alguém tentar cafricar alguém , outra coisa é com gravata e tudo aprender bem escrever com ponto ,virgula , chapéus, tilis , e outras cosa. Uma cosa é eu mesmo que tenho mania que no meu bairro lhes falo bem do português falado , outra cosa é mesmo português de escrita que nunca lhe consegui , mas ainda o protuguês da origem perfeito com todos os tiques e todos os taques. Mas meus senhor , mi disculpem ainda estar falar como cidádáo das rua do meu bairro . O probléma é só este : Lhe discutam benzinho , num importa com cidilha ou sem , num importa com précisas palavras de português ou não . Num mimporta que os do pórto lhe digam Maora , us di sáo tomé lhi digam Atêmanhã , us de meu bairro lhi digam Che não é de Guevara , u otro dos algarves u de Luanda lhe digam ténho ou na terra daquele loco qui dis o grado azoigô i foi atupêido . O quimporta é só três cosa , pra mim e pros meus que mandam a xingar que tás a ver a gente vai mesmo é farar francés , ingrés u chinés . Isto assim num tem conserto ou concerto , de piano ou de sapato num sé . O que minteressa é tudo mesmo da política e de quem manda na política . O resto que esses cientistas lhe discutam tudo o que quizerem , elaborem já um manual daqueles cum kilómetros de esplicassóes , mas parem só de falar de ciência na nossa frente . Neste cáso é Ciência Política precisa ! Eu só quero saber é três medidas de política :

1º quem manda na lingua de origem em Portugal é os professores portugueses , brasileros ou de Timor ou Caboverdianos e de Goa ;

2º quem pode arranjar manéra de consiguir alterar ou continuar a manter o Poder Político atual no domínio da língua de origem em Portugal ;

3º quem manda nas coisas do sentido pra que a gente escolha mesmo se quer o protuguês com não sei quantos centenas de milhões a falar no mundo do mundo ; ou se quer , como a Isabel de Lima , caté era Ministra e tudo e que dizia , quer dizer , diz , que as diferenssa vão cada vez ser maiores nas lingua de todos o antigo espaço imperial .

Nas Universidades dos cientistas e na rua . Por favor , bem rápido escolham só essas cosa toda da ciência proque a nós mesmo , éu mais os do meu bairro que lhaprendemos o protuguês de Portugal e procausa dos professores e da política já vão falando cumo João Melo , naquela mania do hábito da identidade , daqui uns ános , se num fórem rápidos em acordar , quer dizer , em fazér acórdo:

1º vos váo dizer vocês que querem protugues perfeito nas universidades ortogràficas que afinal suniram todos em volta do brasileiro como nova lingua principal no mundo e principalmente na ONU e eu e os do meu bairro alinhamos nisso pôs estrutura portuguèsa na lingua é tudo política nas nossas terras, vámos só infrente e é só acordar ortograficamente ;

2º vos váo poder encontrar nesses paises , todos saudosamente falando , no antigamente na vida , estou a imitar o Graca , uma lingua bem parecida no caboverdiano , em luta forte com os doutores lá do sitio que lhe preferem o brasileiro . Um fichado e o óutro aberto .

Proqué tudo uma cuestáo que fichar u di abrir . E quem vai escolher ? Se for aqueles Latinos que querem desarcordo e vão dixar a política mandar que angolano , brasiléro , moçambicano, caboverdiano , sáotomense ou timorenssse , mais macaista, perdão isso é nome dum português , macaenssse , váo ser luso -descendentes , claro que o portugués deles vai mesmo ser dado nas Universidades de todos os países do espasso imperial antigo , como o Latim . Especialistas em ...portugués . Mi podem dizer que ortografia , linguagem , lingua , sintase , morfologia , ortikultura , e essas outras ciéncias tódas é tudo pra sinhores de gravata falar e queu nada tenho cuisso . Mas náo me podem dizér que épocas num fazem mudar as fase de ensinar portugués . Há vinte anos éra mésmo priciso na minha terra , travar , travar , travar . Quer dizér : egigir o portugués . Agóra , cum diferenssas outras que separam pessoas por classe sócial bem mais fortes , cuidado , vai ser preciso dichar abrir outra vés . Assim ? Che . Intáo méus filho num podem prender o queu num séi , o portugués de Portugal que pode ser mésmo , com alianças aqui e ali , politicando mésmo , tér força mésmo pra impór cada uma das suas razóes , num é milhor céder no acessório pra manter a conquista da estrutura ...estrutura , méus ! , quaver uns latinos quandam , no século vinte um a dizer que política num é cum eles . Possa pá . Discurpa só . Isto tá dimás . Se num quers mésmo , oh meu , aliançamos todos , déxa só o Brasil inda mandar na política qua gente se alianca também pra lhes responder contra as telenovelas que todos dias estáo sempre conosco , mas vámos só pro futuro e deixamos o respéto na perfecçáo ,che...perfeí-
iissão , num lhe conssigo dizér. Bem .Meu Caro Dia Siguinte : fas só incontro entre os descendentes e décha só os latinos cu latim .

Tinha dito , discurpa, lhi dissi .
assinado
Um Ángoláno em portugali.

Faleceu em ultimo um dos primeiros







Morreu Aimé Césaire, o poeta da “negritude”
Aimé Césaire, 1913-2008
Uma das principais vozes na luta contra o colonialismo francês
Morreu Aimé Césaire, poeta da “negritude”
Aimé Césare, uma das principais vozes do Movimento Negritude, morreu hoje aos 94 anos, num hospital em Fort-de-France. O escritor de Martinica encontrava-se hospitalizado há cerca de uma semana devido a problemas cardíacos.
Ao lado do senegalês Léopold Senghor e Léon-Gontran Damas da Guiana, Césaire participou na corrente da “negritude”, um movimento político e literário criado nos anos 30 para combater o colonialismo e racismo francês. O autor do “Diário de um Regresso ao País Natal” dedicou toda a sua vida à poesia e à política, tendo sido presidente da Câmara de Fort-de-France durante 56 anos (1945-2001) e deputado (1945-1993).
Na comemoração do 94º aniversário de Aimé Césaire em 2007, o presidente francês homenageou o poeta, apelidando-o de “homem de acção”, “portador de uma mensagem de paz, de tolerância e abertura”, numa carta tornada pública pelo Eliseu. Contudo, a relação entre o poeta e Nicolas Sarkozy nem sempre foi pacífica. Em 2005, Aimé Césaire recusou encontrar-se com o então ministro do Interior numa viagem de Sarkozy às Antilhas,que depois viria a ser anulada. Finalmente, em 2006, o poeta recebeu o actual Presidente francês.
Além de poesia, Aimé Césaire tem uma vasta obra publicada nas áreas do teatro, ensaio e história. Em Portugal estão publicadas, entre outras, as obras “Discurso Sobre o Colonialismo” (1978) e “E os Cães Deixaram de Ladrar” (1975).
Filipa Cardoso
Fonte: Público
Aimé Césaire homenageado em únissono em França
Paris, França (PANA) - O Presidente francês Nicolas Zarkozy declarou quinta-feira que “toda França está enlutada” pelo falecimento na manhã do mesmo dia em Fort-de-France (Martínica) do escritor, poeta e político martiniquês, Aimé Césaire, aos 94 anos de idade.
“Quero saudar a memória de um grande poeta que adquiriu a sua notoriedade pela qualidade da sua escrita. Ele foi, com Léopold Sédar Senghor (primeiro Presidente do Senegal), promotor do conceito de Negitude”, indicou Sarkozy, associando a sua voz à homenagem unânime ao intelectual martiniquês.
“Pelo seu apelo universal ao respeito pela dignidade humana, à tomada de consciência e responsabilidade, ele permanecerá um símbolo de esperança para todos os povos oprimidos. Continuará a ser para nós todos uma das figuras emblemáticas da classe política ultramarina”, sublinhou.
Por sua vez, o secretário-geral da Organização Internacional da Francofonia (OIF), Abdou Diouf, saudou “a memória de um homem que consagrou a sua vida aos múltiplos combates levados a cabo em todos os campos de batalhas onde estava em jogo o destino cultural e político dos seus irmãos de raça”
“Aimé Césaire manifestou admiravelmente nas suas escritas aquilo que uma ilustre figura do surrealismo qualificou de ‘talento de canto, a capacidade de recusa e o poder de transmutação’”, escreveu o ex-chefe do Estado senegalês, saudando “o homem que viveu a sua francofonia na abundância das suas obras”.
Para o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Bernard Kouchner, Aimé Césaire ficará “o poeta e dramaturgo inspirado na negritude que ilustrará a vocação da França para o universalismo e os seus laços profundos com os Caraíbas, as Antilhas e o continente africano”.
“Para todos os combates que levava pela humanidade, Aimé Césaire foi, como ele próprio o desejava, nas suas primeiras obras “Cahier d’un retour au pays natal” (caderno de um regresso ao país natal), um judeu, um cafre, um hindu de Calcutá, etc”, disse Kouchner.
“França não o esquecerá”, assegurou o chefe da diplomacia francesa, convidando os institutos e centros culturais franceses no mundo a renderem nos próximos dias homenagem “a esta grande figura humanista valorizando a riqueza e a diversidade da sua obra”.
Num comunicado publicado em Paris, a Associação Parlamentar da Francofonia (APF) afirmou que, “ao exemplo do seu irmão Léopold Sédar Senghor, Aimé Césaire contribuiu para a existência de uma francofonia de diversidade, que respeita o génio dos povos”.
“Os parlamentares francófonos lamentarão este homem de letras, um dos grandes poetas do mundo francófono, ilustrador incomparável da contribuição das línguas e das culturas para a história universal”, estimou a APF.
Por seu turno, o primeiro secretário do Partido Socialista Francês (PS), François Hollande, sublinhou que Aimé Césaire defendeu, enquanto político, durante toda a sua vida, os valores da Esquerda.
“Ao longo dos seus mandatos de governador, deputado de Port-de- France, actuou ao lado dos que lutam pelo reconhecimento dos seus direitos e da igualdade social”, insistiu Hollande.
O presidente da Assembleia Nacional francesa, Bernard Accouye, anunciou quinta-feira ao fim da manhã que “uma homenagem particular” será rendida a 29 de Abril a Aimé Césaire que representou sem discontinuar a Martínica no Parlamento francês de 1946 a 1993.
Dramaturgo, poeta, ensaista e romanceiro, Aimé Césaire foi, com o senegalês Léopold Sédar Senghor e o guianês Léon-Gontran Damas, o fundador do movimento da Negritude, o orgulho de ser negro.
Convicto de que o combate deveria começar onde tomou raízes a opressão, Aimé Césaire tinha convidado as diásporas africana e antilhana a voltarem à “terra natal” numa colectânea de poesias intitulada “Cahier d’un retour au pays natal” publicada em 1939.
Depois publicou “La tragédie du roi Christophe” (A Trágédia do rei Christóvão”, uma peça teatral que se tornará numa clássica dramaturgia negro-africana”.
Fiel às suas convicções políticas iniciais, Aimé Césaire recusou-se a receber em 2005 em Fort-de-France Nicolas Sarkozy, então ministro francês do Interior, a quem atribuia a culpa de uma disposição da lei francesa que realça “os benefícios da colinização”.
Quando foi abrogado o artigo da lei controversa, Sarkozy acabará por ser recebido por ele dois anos mais tarde enquanto candidato da União para um Movimento Popular (UMP, partido no poder na França) à presidência da República.
Fonte:Panapress

quarta-feira, abril 16, 2008

Luiz Pacheco também falou de Agualusa em 2007



Luiz Pacheco
- portal oficial não-oficial -

"O Luiz Pacheco é provavelmente o maior filho da puta, a pessoa mais corrosiva, mais intratável que há, mas eu gosto dele. Não sei porque mas gosto dele. O Luiz tem a capacidade de dizer o que pensa, de dizer mesmo tudo o que pensa, mesmo o que não poderia dizer(...)"
Publicado por amnésia

Correio Domingo


2007-04-08

Luiz Pacheco
Sócrates? Quem é? Não o conheço

Os óculos pesam nos olhos que cegaram. À cabeceira, o jornal ‘Avante’ e um livro de José Gomes Ferreira não são bibelôs, mas companhias. Luiz Pacheco, criatura de inteligência rigorosa, de lucidez sobrenatural, um livre pensador que disse e diz coisas que não são fáceis de serem ditas, está preso a um cadeirão, tem o robe vestido, o aquecedor ligado e uma manta para o frio não lhe magoar o esqueleto. Nasceu em Lisboa, na Rua da Estefânea, a 7 de Maio de 1925, pai de oito filhos – frutos de muitos amores, na vida escolhida, que foi dura por prazer, só fez o que bem entendeu.


O Estado Novo prendeu-o por politiquices e por ter amado menores. Frequentou o curso de Filologia Românica na Faculdade de Letras e a meio mandou o curso dar uma curva ao bilhar russo. Entretanto, a Inspecção de Espectáculos admitiu-o como agente fiscal, mas sedentarismo não combinava com o seu feitio. Preferiu a situação que considera invejável: desempregado. Depois, funda a editora Contraponto onde a corrente surrealista viu muitos dos seus autores publicados. Crítico literário e cultural, tradutor, colaborou em diversos jornais e revistas, ‘O Globo’, ‘Afinidades’, ‘Seara Nova’, ‘Diário Popular’. A sua escrita caracterizada de irreverência e de poesia esbofeteou a torpeza intelectual e desafiou o lápis azul da censura salazarista. Luiz Pacheco, que, em tempos, se fez sócio do Benfica para ir aos bailes e do Sporting para ir à natação, já não dança e não aprendeu a nadar. Apesar de ter andado perto do fundo, acaba por vir sempre à tona e ao seu ritmo.

Tinha dito que não saía do lar do Príncipe Real. Afinal, enganou-se. Vive com o seu filho.

Um gajo também se engana! A vida nos lares é uma espécie de regimento. Horários. E mais horários. E eu estive em três. O pior era a convivência com os moribundos e as moribundas. Deprimente. Os tipos iam buscar os velhos às camas e espetavam com eles num buraco a que chamavam sala do convívio. Qual convívio? Convívio nenhum! Velhotes com os olhos fechados e outros que estavam nas últimas. Ah... e havia um animador que se punha a contar de um até ao número dez. Quando a gente pensava que o tipo ia fechar a goela, desatava a dizer a numeração em forma decrescente. Ele fazia coisas incríveis! Mandava pôr a mão para cima, para trás, para os lados. Eu sei lá. O último lar era muito mau. Tinha lá uma mulata que era cleptomaníaca. Roubou uma velha muito afanada e eu também fui roubado.

O Luiz é que não está nada afanado...

Eu não estou afanado? A miúda deve estar a brincar! Eu não estou nada bem. Tenho muitas doenças, talvez umas vinte e três. Agora tenho uma m. chamada incontinência. Para um gajo é muito mau andar de fraldas. Mas a vista é a pior das mazelas.

Se fosse menos teimoso já tinha sido operado.

Não conte com isso! Tenho medo. E não é da anestesia. Medo das consequências. A merda da operação pode provocar um acidente cardiovascular e já viu o que era? Dizem que é coisa muito simples, mas isso são conversas. Nessa eu não caio!

Voltar a ler não é um estímulo?

Oh miúda, eu já li muito. Nem queira saber o que eu já li. Agora é a minha filha que me lê os artigos de jornais e algum livro que eu queira ler. Ocupo o raio do tempo a ver a RTP Memória. Estou a ver coisas que nunca tinha visto. Como por exemplo, o Júlio Isidro, o Zip-Zip. Gosto de ver velhadas. Entretenho-me com o humor fabuloso do Vasco Santana, do António Silva. O Solnado é uma merda. Uma invenção. Um disparate. O Herman José é diferente. Basta ser de origem alemã para saber o que está a fazer .

O melhor aluno do Liceu Camões gosta de velhadas...

Não me faça rir. Mas fui o melhor daquela malta toda. Entrei em 1936 e fiquei lá oito anos. Sentava-me sempre na carteira da frente, porque os meus olhos já eram dois sacanas. O avô desse tipo chamado Eduardo Prado Coelho foi meu professor. Nós cagávamo-nos no gajo.

Quem eram os seus colegas?

Lembro-me do José Manuel Serra, que foi director do Teatro Nacional de São Carlos, Lobo Saias, que chegou a ministro, e outros.

Os liceus não eram mistos, portanto, miúdas não eram peras doces...

Imagine que nem podíamos chegar ao pé de uma escola feminina. Quando chegou a altura da universidade, o convívio não foi fácil. Não estávamos habituados. Pedir um lápis emprestado era cá uma trabalheira. Só para não haver contacto, deixávamos cair o raio do lápis ao chão.

Entretanto, os contactos melhoram... esteve preso no Limoeiro devido a aventuras amorosas.

Prenderam-me por razões políticas e por ter desflorado umas garotas que eram menores. Mas atenção: eu também era menor! Uma ocasião foram duas irmãs ao mesmo tempo. Foi cá uma chatice... Antigamente, rapazes e raparigas faziam o que hoje fazem, mas com a diferença: não tinham o à-vontade que existe hoje. A pílula foi a estrondosa revolução. Ouvir dizer que, até, os homens já podem tomar essa m. Eu nunca tomei. E sou contra o aborto. Hoje em dia as garotas têm muitas facilidades...!

Um rol de contraceptivos e a pílula do dia seguinte

O que é isso? O comprimido do dia a seguir à cegada?

Sim. É contra o aborto e a favor da despenalização?

É claro! Prender moças é um autêntico disparate. Mas há malta que diz que aborta porque rejeita ter filhos indesejados. Ouça cá uma coisa: uma rapariga que se deita com um rapaz sabe do risco. E há outra malta que diz que não consegue criar filhos. Mentira. É só conversa. Eu sem cheta, desempregado, tenho oito filhos. Uma vez, fui deixar um filho à Casa Pia. Se os ‘gansos’ eram bem tratados? Coitados. Aquilo era uma miséria.

Voltando à prisão. Como era no Limoeiro?

Uma prisão para os gajos que esperavam julgamento. Havia batota que não era a feijões, mas a dinheiro. Estava lá um enfermeiro tarado que vendia penicilina misturada com água. O refeitório era umas mesas corridas e havia um tipo que distribuía a comida. Os acordos davam direito ao prato ficar mais cheio. Naquela merda havia estratos sociais. A Sala dos Menores, a Sala dos Primários, para os estreantes, a Sala Comum, que era para a maralha, e a Sala dos Bacanos, onde estavam aqueles que tinham conhecimentos fora da prisão. Como eu. Da segunda vez que estive dentro, o Artur Ramos telefonou ao pai, que era director-geral da Penitenciária e pôs-me cá fora.

Um homem que nunca gostou de regras nasceu no seio de uma família de militares...

Não venha com as perguntas feitas de casa. O meu avô materno era capitão-de-mar-guerra, engenheiro maquinista, e o meu avô paterno, coronel da artilharia, dirigiu o Arquivo histórico-militar. Eram militares, mas pareciam ser outras pessoas. Tinham boa cara. O pai do meu pai, aquando da primeira incursão monárquica, comandada pelo Paiva Couceiro, foi a Chaves dar umas bombadas nos canhões e teve de fugir. O meu pai estava a tirar o curso na Faculdade de Letras para ser diplomata, mas como aconteceu a Primeira Grande Guerra, a diplomacia foi para o galheiro. Não acabou o curso. Nem eu.

Por razões diferentes?

Sim. Os professores na Faculdade de Letras eram uns chatos. Excepto o Vitorino Nemésio (que me deu 18 valores) e o Delfim Santos. Nunca engraxei o Nemésio, eu não era igual ao Urbano e ao David. Mas espere aí, deixe-me falar do ano que antecedeu a faculdade. Em 1943, quando acabei o liceu, o meu pai disse que não tinha dinheiro para eu estudar na Faculdade. Falou com o professor João de Brito, que me deixou assistir às aulas. Eu era um aluno fantasma. Não me perguntavam nada, o que era maravilhoso. Nos intervalos ia para a biblioteca. Devorei Gil Vicente, Garcia de Resende, Fernão Lopes e outros. Por essa altura comecei a dar explicações. Portanto, aprendia e ensinava. Foi um ano em cheio! No final, fiquei muitíssimo bem classificado no exame de admissão à Faculdade de Letras de Lisboa, no Curso de Filologia Romântica, e consegui ficar isento das propinas.

Saiu da faculdade e, em 1946, foi admitido como agente fiscal da Inspecção de Espectáculos.

Aquilo era uma treta. Não inspeccionávamos nada.

Quando é que funda a editora Contraponto?

A editora começou a funcionar em 1951, logo depois do primeiro número da revista. Nasceu no ensaio de uma terceira via e só tinha um critério: os gajos do Estado Novo não podiam entrar. Vivia um bocado à mercê do facto de eu e o Jaime Salazar sermos amigos. Quando foi publicado o ‘Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano’, de Mário Cesariny, o Jaime ficou f. Pensava que a editora era só para ele. Mais tarde, o mesmo aconteceu com Cesariny, quando Herberto apareceu. Razão tinha o Gaspar Simões em chamar- -me ‘O sacristão do Surrealismo’, por publicar aquela gajada. Não faz muito tempo, vendi a editora à irmã do Manuel Alegre por um preço de m..

Era amigo de Cesariny?

Essa pergunta traz água no bico. Dizem que nós éramos amantes. Um disparate. O gajo não fazia o meu género. Eu nunca tive a mania de Paris. Ele tinha.

A sua colaboração nos jornais começou no ‘O Globo’, em 1945, e ainda há dez anos escrevia na imprensa

O Nicolau Santos, que na altura era director do jornal ‘O Público’, convidou-me para escrever uma crónica. Os gajos até pagavam bem. Mas tiveram o azar de anunciar Luiz Pacheco escritor polemista. Dava-lhes jeito que eu desse porrada. Mas durante meses não lhes fiz a vontade. Podem contar comigo para dar porrada, mas jamais por incumbência.

É verdade que, uma vez, enquanto traduzia um livro, esteve quase para ser publicado um palavrão?

Publicado não digo, mas aquilo fez-me correr. Eu estava a traduzir um livro para crianças e havia uma palavra cujo significado em Português eu não encontrava. Para não me esquecer escrevi a vermelho c. Quando me lembrei... falei à editora, que me disse que o livro já estava nas mãos do revisor. Corri para a casa do gajo. E lá estava o c. marcado a vermelho, mas fui a tempo. O c. foi substituído por penacho.

É autor de muitos livros, mas nunca escreveu romances.

Porque é preciso ter disciplina. Mas não é como escritor que posso ser importante. Se me perguntarem da minha importância é como editor. Editei muitos livros que eram muito baratos. Tinha bons autores, Raul Leal, Natália Correia, António Maria Lisboa, Herberto Hélder, Vergílio Ferreira, Mário Cesariny. Jamais editaria, por exemplo, o Fernando Namora. Ele era um aldrabão. Ou o José Agualusa, que não escreve nada. É um pateta alegre.


O que é preciso para escrever bem?

Ler muita coisa. Estar atento. E há gajos que escrevem sem nunca terem lido uma frase.

Gosta da escrita de António Lobo Antunes?

Muito. Gosto quando ele fala do bairro onde nasceu, Benfica. Tem muitas qualidades e anos de escrita. Mas é um bocado apanhado da pinha. Também tem a maluqueira de dizer que não consegue viver sem escrever. E tem razão. Ele é o escritor mais internacional de Portugal.

E José Saramago?

Também, embora de maneira diferente. Mereceu o Nobel. Saramago e o Lobo Antunes têm uma coisa em comum: são escritores que já só escrevem para o estrangeiro.

O que nos diz dos políticos?

São uns m. Comparados com eles próprios. Aquela que foi ministra das Finanças era uma tipa séria, mas era cá um camafeu.

Gosta do José Sócrates?

Quem é? Não o conheço.

Mas gosta de Pedro Santana Lopes?

É um ‘bom vivan’. Não deixou obra nenhuma, mas sabe viver. Andava nas discotecas e estes gajos – o pequeno, o gajo que é quase anão – fez-lhe a folha. O Santana é um senhor. Gosta das noites. E bebe o seu copinho. Eu deixei de beber há uma semana. Ao almoço bebia vinho – tinto, pois está claro. Quando se fala em vinho fala-se em tinto.

João Soares, quando era presidente da Câmara Municipal de Lisboa, fez-lhe uma visita e trouxe-lhe umas garrafas de tinto.

E que belo tintol! Apareceu no Natal, com um funcionário. Trouxe-me vinho, um belo presunto e livros. Vinha com a ideia maluca de eu fazer um artigo sobre o governador do Costa do Castelo.

O País reconhece as pessoas?

Não podemos falar de um só País. De Lisboa ao Porto existem dois países ou, talvez, existam quatro países em Portugal. Por exemplo, o Mário Soares, quando era Presidente da República, deu-me 650 contos. Uma vez, no Chiado pedi-lhe 20 paus emprestados. E ele deu-mos. Este presidente, o actual, que tem aquela cara, não me deu nada.

Vive de alguma pensão?

Tenho um subsídio de 120 contos, graças ao Alçada Batista. E também ao Balsemão, que teve a feliz ideia de inventar o decreto do mérito cultural. O Santana despachou um decreto que favorece pessoas que estão na minha situação. Mas não é por isso que gosto do rapaz. O tipo sabe o que é bom. O que é bom para mim são umas garotas, que vêm cá de manhã para me fazerem a higiene. Não é mau.

QUESTIONÁRIO

Um País... Montijo

Uma pessoa... D. Afonso Henriques

Um livro... ‘Gustavo, o Estroina’, de Paulo Koque

Uma música... ‘Variações’ de Golberg

Um lema... Não me lixem. Não me chatem

Um clube... Clube Jardinense, o clube do Montijo

(Entrevistado por)Miriam Assor

terça-feira, abril 15, 2008

a Fa(r)da do lar


A verdadeira e única história das três FADAS!!
Certo dia, a professora pediu a toda a turma para inventar uma história. Depois de todos os colegas lerem a sua composição, chega a vez do Carlinhos, que começa assim:

- "Vou contar a história das três fadas:
Era uma vez uma prinsusa..."
Nisto a professora interrompe e diz:
"É princesa que se diz e não prinsusa!"
- "Não Sra professora, nesta história é mesmo prinsusa."
E continua:
- "Era uma vez uma prinsusa, que vivia suzinha na turre do seu castalho e estava traste, muito traste por estar suzinha. Resolve então enviar um bilhuto a um prinsusu que também vivia suzinho na turre do seu castalho.

Escreveu muitos bilhutos até que um dia o prinsusu agarrou no seu cavalo e cavinhou, cavinhou, cavinhou pela florista até chegar ao castalho da prinsusa.

Quando chegou à purta do castalho da prinsusa dá-lhe um pintapu e a purta cai.
Sobe a correr até à turre da prinsusa, arrebenta com a purta do quarto da prinsusa, ele olha para ela..., ela olha para ele..., ele olha para ela e....

Dá-lhe três fadas!!!"

quinta-feira, abril 10, 2008

Os passos do Dragão...Luis Freitas Lobo







1978-2008: Os passos do Dragão Por Luís Freitas Lobo
A "revolução azul" ao longo de três décadas. A ideologia "pedrotiana". 30 anos como fossem a mesma época, o mesmo código genético. Como Duda, Oliveira ou Gomes jogassem no mesmo onze de Lucho, Lisandro ou Quaresma.
A bola, chutada por Ademir, saiu meia enrolada, mas parecia levar vida própria, conduzida por milhares de adeptos que a tentavam convencer para, ao chegar junto à baliza, fazer um pequeno desvio para as redes. Na baliza do Benfica, Fidalgo, que substituía o elástico Bento, tentou esticar-se mas o lado hipnótico enganou a bola e ela entrou mesmo. Um simples lance que terá mudado o curso da história do futebol português. Um golo decisivo que reconquistou para as Antas um título que fugia há 19 anos e marcou o início de uma nova era na correlação de forças nos relvados lusos. Já passaram trinta anos desde essa tarde histórica. Não é, no entanto, um mundo assim tão distante. Entre 1978 e 2008 existe um elo de ligação poderoso que faz a força, corpo e alma do FC Porto "produto regional", insubmisso ao poder central. Num ápice, o onze azul-e-branco deixou de jogar como quem moía um sentimento, para, de sobrolho carregado, erguer um exército futebolístico que no fervor revolucionário de meados dos anos 70 encontrou o habitat perfeito para colocar uma bola no centro do confronto com os velhos poderes macrocéfalos da capital. A "revolução azul" prolonga-se há três décadas. Todos os movimentos históricos são feitos por acção ou por reacção. O FC Porto foi, claramente, um movimento de reacção. Longe das sofisticações do Gambrinus ou do Maximes, mas cliente das opíparas tertúlias quase clandestinas do Orfeu e da Petúlia, hoje extintas mas cujo legado permanece ao ponto dos traços ideológicos do título do FC Porto 2007/08 serem, na essência, os mesmos de 77/78. É este o segredo do FC Porto e de qualquer clube para manter-se no topo durante décadas: decifrar o seu ADN.
Na génese, um homem, mestre em vários campos. Na arte da táctica e na arte do conflito, um estudioso do comportamento humano. José Maria Pedroto. Os traços do Porto "pedrotiano", o Porto da "inteligência e da esperteza", continuam vivos, das Antas para o Dragão, na mente e nos actos. Um forma de viver que se transformou numa forma de jogar. De Duda, Gomes e Ademir, até Lisandro, Lucho e Bruno Alves, passando por João Pinto, Baía e Jorge Costa. Parece que jogaram todos na mesma equipa. Como aqueles trinta anos fossem sempre a mesma época. O rosto mais "humano" do presente é apenas um "upgrade" estratégico, como a descoberta, em meados dos anos 80, do bicho mitológico no topo do emblema. Era o nascer do Dragão símbolo azul. Mesmo depois das grandes conquistas internacionais, a ideologia permanece intacta. Jesualdo gosta de definir as exibições da equipa como "sérias" e "inteligentes". Serão esses os melhores adjectivos, de facto, para definir o futebol portista a longo de três décadas, mas nesses percurso, também existiram os mágicos. Oliveira, Madjer, Futre, Deco, Quaresma. Toques ilusionistas suportes da visão táctica, como quando, no jogo de 78, Pedroto, a perder, tirou dois defesas (Freitas e Gabriel) e meteu dois avançado (Vital e Seninho) passando a jogar com três defesas. Hoje, os traços tácticos e técnicos têm sotaque argentino, os passos e os passes ritmados de Lucho, os remates guerreiros de Lisandro, e as diabruras de "gipsy king" Quaresma. Ao longo de três décadas, nenhum outro clube entendeu tão bem as diferentes faces da táctica futebolística dentro e fora do campo, quase como se fosse uma extensão desportiva da frase imortal de D. João II: "tempos há para usar de coruja e outros há para usar de Falcão". É a história e uma bola de futebol.
A marca de Jesualdo Dois campeonatos, o "Dragão de Ouro", a postura esfíngica no banco, o discurso destemido nas conferências. A marca do reciclado Jesualdo. Chegou no Verão de 2006 com a pré-época já terminada. Encontrou uma equipa feita mas com ideias diferentes. Reequilibrou-a tacticamente à sua imagem (do aventureiro 3x3x4 de Adriaanse para o equilíbrio racional do 4x3x3) e cavou um abismo para outros grandes. Na segunda época mais do que na primeira. Dois títulos sem sombra de pecado. Para o terceiro ano, o desafio da dimensão internacional. É o que falta para deixar uma assinatura própria incontornável no "casa do Dragão" onde muitos treinadores acabam com o tempo diluídos pelos méritos da "máquina azul". Onde, dizem, "qualquer um ganha". As exigências europeias são, porém, maiores. Saber defender mais à frente (memória de Pepe) e mais posse e controlo a meio-campo (saber jogar em 4x4x2). Mais qualidade individual para dar maior poder colectivo. No terceiro ano de Jesualdo, o supremo desafio europeu.
O jogador símbolo Em todas equipas existem os chamados jogadores-símbolo. Quase como alter-egos do colectivo. Lucho, na táctica, Lisandro, nos golos, Quaresma, na magia, serão três símbolos deste FC Porto altivo, mas nenhum deles nasceu na era-Jesualdo onde nunca surgiram reforços de primeira página. Por isso, teve de inventar, nas caves do laboratório interno, o seu jogador-simbolo. Aquele que possa ser apontado como obra do professor. Uma obra futebolistica com nome e duas pernas: Bruno Alves. Antes de Jesualdo, um jogador preso a uma imagem de excessiva dureza, suplente cativo, pouco utilizado e olhado com desconfiança. Depois de Jesualdo, um jogador de personalidade, chefe que manda e assusta, titular indiscutível, sucessor da herança dos centrais portistas que só de olhar intimidam avançados. Existem muito tipo de jogadores para elogiar na hora da vitória. Nessa altura, sinceramente, tenho tendência a elogiar aqueles com os quais iria a qualquer lado. Bruno Alves é esse jogador-simbolo, uma paixão antiga de Jesualdo.

Miguel Sousa Tavares/ Diga 23/ A Bola 8/04/08



MIGUEL SOUSA TAVARES
DIGA 23
1- E aí vão vinte e três campeonatos! Já só estamos a oito do Benfica e com cinco de avanço sobre o Sporting: para perceber o impensável que isto era no passado, é preciso ter vivido a infância de portista em Lisboa que eu vivi, sistematicamente a ver o FC Porto ser sovado em Alvalade ou na Luz (e, quando não era, quando aos 20 minutos ainda não estávamos a perder, lá aparecia o inevitável penalty para restabelecer a ordem natural das coisas.). Mas não hei-de morrer sem ver o FC Porto ultrapassar o Benfica em número de campeonatos nacionais - porque, no que respeita a títulos internacionais, há muito que os ultrapassámos, com seis contra dois.
Sábado à noite, no Dragão, viveu-se um daqueles momentos em que vale a pena ser portista, arrostar com a inveja dos medíocres, com a maledicência dos impotentes, com as calúnias dos incapazes. Estádio cheio, o mais bonito estádio do mundo, o equipamento mais bonito de todos, a alegria de um público habituado a reagir como uma grande família quando está debaixo de fogo, futebol, golos e espectáculo como só nós e, no fim, contra as contas dos pífios apitos dos invejosos, a festa, a nossa festa - digna, bonita, sentida como nenhuma outra.
Querem-nos tirar seis pontos? Tomem lá seis - seis golos - tomem lá a resposta, em campo, no terreno de todas as verdades. Não chega, querem mais? Venham mais - temos dezoito de avanço! Dezoito, ó tristes gentes que nem perder sabem e cujo treinador até assim se recusa a reconhecer o mérito dos vencedores!
Foi festejar até fartar e depois um jantar especial: vieiras recheadas com arroz Carolino de pinhões e morgados do Algarve à sobremesa. Repeti seis vezes!
2- Deixem-me falar do Benfica. Como, julgo, a grande maioria dos portistas da minha geração, eu cresci a temer e respeitar o Benfica. Temer, porque eles eram tremendamente melhores que nós e, apesar dos Porfírios Alves e Carlos Valentes (o Calabote já não é do meu tempo), eles ganhavam-nos quase sempre porque eram melhores. Respeito, porque o Benfica das décadas 60 e 70 era a casa do Eusébio e o orgulho dos portugueses. O meu pai, que era sportinguista, levou-me duas vezes à Luz, naquelas longínquas «noites europeias do inferno da Luz», e ambos torcemos e gritámos pelo Benfica. É verdade, e até levava o meu cachecol do FC Porto!
Agora, quando oiço Sílvio Cervan dizer que o Benfica é o maior clube do Porto e a maior referência internacional do nosso futebol, sinto um misto de pena deles e, simultaneamente, um reconforto: enquanto os adversários continuarem a guiar-se por ilusões ou propaganda para papalvos, nós continuaremos seguramente a ganhar. Há muitos locais do Porto onde eu encontro facilmente bandeiras do FC Porto penduradas nas janelas ou nas portadas das casas. Mas não me lembro de ver alguma do Benfica e, por favor, não me venham com a necessidade da clandestinidade: se são o maior clube, porque temeriam mostrá-lo? Também ando por aí no mundo e sou capaz de informar o Sílvio Cervan que, da Turquia a Angola e todos os Palop's, e do Brasil à Tailândia, o que vejo são camisolas do FC Porto e o que oiço falar, quando se fala do futebol português e o interlocutor não tem mais de 50 anos, é do FC Porto e não do Benfica.
De um lado ao outro do mundo, a gente do futebol sabe quem são o Bosingwa, o Lucho, o Quaresma, o Lisandro, e sabem quem foram o Deco, o Ricardo Carvalho, o Vítor Baía e o calcanhar do Madjer. Mas lamento informar que ninguém sabe quem sejam o Petit, o Di María, o Katsouranis ou o Maxi Pereira.
O que aconteceu ao meu antigo respeito pelo Sport Lisboa e Benfica - e julgo que aconteceu também com todos os outros adeptos portistas e sportinguistas - é que o fui perdendo aos poucos. O Benfica das últimas décadas - o Benfica de Jorge de Brito, Vale e Azevedo, Filipe Vieira, de gente como João Malheiro, José Veiga ou Carolina Salgado - é um Benfica que eu não vejo razões para admirar. Não porque percam, mas porque não sabem perder. São arrogantes por natureza, como se, por determinação divina, tivessem direito a ganhar sempre ou quase sempre; nunca, jamais, reconhecem o mérito de uma vitória alheia; vivem em busca do conflito, da calúnia, da suspeita não provada jogada aos quatro ventos. Gritam pela justiça do Apito Dourado mas foram eles que se aliaram ao major Valentim para controlar a Liga, no seu pior momento, porque, como explicou Vieira, isso era mais importante do que ter bons jogadores ou jogar bem; clamam que são as virgens virtuosas do futebol, mas esquecem-se de coisas como o caso Paulo Madeira, o jogo comprado ao Estoril para o Algarve ou a forma como foram campeões pela última vez, com todos os golos dos últimos jogos a resultarem de penalties ou livres à entrada da área.
Não sei se o Sílvio Cervan conseguirá acreditar na sinceridade do que vou dizer: o que o Benfica mais perdeu nas últimas décadas não foram campeonatos. Foi o respeito dos adversários, uma coisa que levara gerações a construir e que representava um imenso capital de prestígio e grandeza. Hoje, o Benfica é um clube que só os seus estimam. Dir-me-ão que o mesmo sucede com o FC Porto e eu respondo que acho que não é bem assim, mas, mesmo que o seja, ao contrário da história do Benfica, nós nunca gozámos de outro estatuto e estamos bem habituados a viver com isso.
3- No Bessa, o Benfica fez um belo jogo e o suficiente para ganhar folgadamente. Mas teve um grande guarda-redes pela frente, teve falhanços vários e azar muito. Mas também teve sorte, quando Jorge Ribeiro (já anunciado como reforço benfiquista para o ano que vem) não conseguiu acertar um passe lateral fácil para qualquer um de três colegas isolados frente a Quim e cobrou um penalty com a displicência de quem sacode uma mosca. Com toda a falta de sorte que desta vez teve, o Benfica até podia ter acabado a perder o jogo. Já se sabe e foi dito oficialmente, que só não o ganhou por culpa do árbitro. Eu, que sou suspeito, não vi qualquer um dos dois penalties tão reclamados, mas não deixo de sorrir quando vejo Vieira a acusar Lucílio Baptista de «viciar o resultado». É que este é o mesmo Lucílio Baptista a quem todos os portistas desejam ardentemente a reforma, depois de anos a fio a prejudicar sistematicamente o FC Porto, a benefício do Sporting e também do Benfica, que lhe deve uma valiosa colaboração na final da Taça de 2004. Sabendo-se que o homem sempre teve horror ao azul-e-branco e que o FCP, aliás, é parte agora desinteressada da batalha atrás de si, as suspeitas de Vieira, desta vez, só podem apontar para o vizinho do lado - o Sporting, pois claro!
É verdade, porém, que o V. Guimarães, segundo rezam as crónicas, foi beneficiado com a arbitragem em Paços de Ferreira, e que o Sporting, numa altura em que bem oscilava, viu o árbitro anular misteriosamente um golo ao Sp. Braga, em Alvalade. Mas isso ainda me dá mais vontade de sorrir. É que o arbitro - que é testemunha de acusação no Apito Dourado - é nem mais nem menos do que o célebre Bruno Paixão, do inesquecível Campomaiorense-FC Porto, a mais escandalosa arbitragem a que alguma vez assisti, em que até era preciso o Jorge Costa colar-se às costas do Jardel nos cantos para que ele não fosse sistematicamente agarrado nas barbas do árbitro por um rapaz que o Benfica tinha emprestado ao Campomaiorense (e, por acaso, o jogo viria a valer um campeonato perdido pelo FC Porto). Pelo que, se agora o mesmo árbitro - que, aliás, nunca mostrou categoria para a primeira Liga - descobriu em Alvalade uma falta que nem o Além conseguiria descortinar, e se com isso passou a ser suspeito de prejudicar o Benfica ao ponto de Luís Filipe Vieira pedir à PJ que entre em campo, a mim só me dá vontade de sorrir e pensar que belas testemunhas juntou o Ministério Público para o Apito Dourado!
Mas, para a semana, tão certo como dois e dois serem quatro, vai haver um erro de arbitragem a favor do Benfica e o Sporting vai achar-se com razões de queixa do árbitro e invertem-se os papéis: um grita e o outro fica muito bem caladinho. São tão previsíveis os nossos rivais!




segunda-feira, abril 07, 2008

Entrevista da Inocencia Mata ao Novo Jornal /4 de Abril 2008



Entrevista Inocência Mata

Viver a literatura com os olhos cheios de África

"Conhecer muitos mundos não significa apanhar o avião
e viajar dez horas, significa ler muito."



Nasceu em São Tomé e
Príncipe, fez os estudos
secundários em Angola
e vive em Portugal
desde o início dos anos
80. Doutorada em
Letras pela
Universidade de Lisboa
na área das Literaturas
Africanas de Língua
Portuguesa e autora de
várias obras aclamadas
pela comunidade
académica
internacional,
Inocência Mata é
actualmente um dos
nomes de referência na
área dos estudos
literários e culturais
lusófonos.



Entrevista de BRUNA PEREIRA Fotos de BRUNO BARATA



Sobre o que de melhor se escreve em Angola e quais as principais barreiras que impedem a
cultura angolana de chegar ao resto do mundo, esta ensaísta considera que o país
experimenta um período de grande diversidade e maturidade na escrita. No entanto, além-
fronteiras, Angola continua a ter "uma literatura periférica que se inscreve numa língua
periférica que é o português".







Quando é que se pode falar efectivamente do início de uma literatura angolana?

A literatura angolana, enquanto sistema, ou seja, enquanto representação do imaginário
geocul-tural de Angola, existe a partir de meados do século XIX, há aproximadamente 150
anos. Esta é uma ideia consensual mas não é uma ideia unânime, porque há quem julgue
que a literatura angolana tem os seus inícios no século XVII. Considerar que a literatura
angolana vem do século XVII é, quanto a mim, um equívoco, pois julgo que a literatura
angolana, enquanto sistema, apenas se estrutorou a partir de meados do século XIX, quando
se foi configurando uma comunidade imaginada marcada territorialmente. Somente a partir
de 1850 é que se começou a escrever em direcção a uma convergência temática e com uma
regularidade na escrita. Pode dizer-se que o marco dessa regularidade e dessa convergência
em Angola é José da Silva Maia Ferreira, autor do livro "Espontaneidades da minha alma -
Às senhoras africanas!.

Que fase atravessa actualmente a identidade da literatura angolana?

Durante o tempo colonial des-cortinavam-se basicamente duas modalidades de escrita: uma
que escrevia a "nação angolana" e outra que escrevia a "portugali-dade" e a ideia de que
Portugal ia do Minho a Timor, passando por Angola. Essa literatura colonial fazia a
apologia do colonialismo e de Angola como uma região de Portugal. A outra literatura era a
que dizia que Angola não era uma região de Portugal, mas sim uma nação, no sentido
simbólico do termo e no sentido de uma comunidade imaginada.Actualmente, estamos
numa fase não de consolidação, porque a literatura angolana, enquanto sistema, está
completamente consolidada, mas numa fase de grande produtividade divergente. Assiste-se
hoje, em Angola, a uma multiplicidade de géneros, de formas de escrever, de temáticas, de
preocupações e de construções simbólicas, o que demonstra a maturidade da literatura. Hoje
em dia cada escritor é uma corrente e são inclusivamente vários os escritores que se
debruçam sobre a temática do pós-guerra, sendo que o primeiro romance nitidamente sobre
o pós-guerra é "0 manequim e o piano", de Manuel Rui. Há ainda um outro escritor, João
Tala, que tem vindo a escrever contos sobre esse mesmo tema do pós-guerra angolano, a
partir de 2002. Podemos ainda citar "Predadores", de Pepete-la, que é um romance que
assenta num grande flash-back até ao tempo colonial, mas cuja acção nuclear se centra no
pós-2002.



PEPETELA, LUANDINO, BOAVENTURA CARDOS

Possui a literatura angolana características próprias que a distingam das suas
congéneres lusófonas africanas? Reivindicar a diferença na literatura angolana é hoje uma
questão ultrapassada, já que o escritor não precisa de continuar a gritar que é diferente,
porque ele já é diferente pela constituição política e ideológica e pela própria marcha da
história. A literatura angolana poderá distinguir-se da literatura moçambicana, por exemplo,
pelas preocupações evidentes na enunciação, pela linguagem política, pelos espaços (não
apenas os espaço físicos), pela geografia e pela forma como se perspectiva a relação entre
os vários agentes sociais em Angola. A diferença da literatura angolana é uma diferença
inata, em termos de horizontes e em termos de expectativas. Por exemplo, o último livro de
Pepetela que eu li, "0 terrorista de Berkeley, Califórnia", é um livro cuja cena se passa nos
EUA, um espaço que não é de todo angolano, mas qualquer pessoa que lê aquele livro diz
com toda a certeza que se trata de um livro escrito por um angolano, por causa da
linguagem, por causa da ironia tão caracteristicamente luanden-se e por causa da sua
ambiência linguística.




Quem são os maiores embaixadores da literatura angolana?

Pepetela é um embaixador da literatura angolana, por causa da sua qualidade e por causa da
representatividade da sua obra, que percorre vários nichos temáticos e várias segmentações
ideológicas e históricas. Luandino Vieira é também um embaixador, apesar de ser um
escritor que passou 30 anos sem escrever nada de novo, entre muitos outros. Boaventura
Cardoso deveria ser mais publicitado do que é, mas isso é outra história. Por variadas razões
há ainda outros que não são conhecidos - quando eu trabalho alguns escritores nas minhas
aulas, por exemplo, tenho de recorrer a fotocópias, porque não há outra forma de ter acesso
a esses autores.

Qual é então o grande desafio que a literatura angolana enfrenta para sair deste
impasse? Ou será que não depende tanto de Angola?

Sim, depende de Angola também. Primeiro, porque as barreiras alfandegárias e as taxas
sobre as matérias-primas são um empecilho, e depois porque, por causa disso, os livros em
Angola são caríssimos. Para além da pura especulação sobre todos os produtos: tudo é
caríssimo. Os livros são a minha matéria-prima mas se eu chego a Angola e se houver cinco
livros novos, não posso, literalmente, comprá-los porque não tenho dinheiro. Porque,
malgré tout, não vivo só de livros, vivo de outras coisas que precisam de ser
compradas.Claro que Angola é responsável por isto, porque tem de haver uma política
cultural que considere esses bens materiais quase como bens de primeira necessidade. Neste
aspecto, Angola tem a sua parte de responsabilidade. A não circulação de bens culturais nos
países de língua portuguesa faz com que os livros publicados em Portugal não cheguem a
Angola por causa dessas barreiras. Há igualmente belíssimos escritores como João
Maimona, José Luís Mendonça ou Adriano Botelho de Vasconcelos que não são
conhecidos em Portugal porque publicam as suas obras no país de origem. Se não forem
eles a oferecer os seus livros, ninguém os pode comprar, pois eles não chegam a parte ne-
nhuma. Por exemplo, não estão disponíveis no Amazon...

Sobre os novos talentos angolanos, como por exemplo Ondjaki. Há, de facto, uma
nova geração de escritores angolanos que começa a ser reconhecida?

Há uma nova geração de escritores que aparece com novas ideias e com sangue novo. Há,
porém, um handicap nesses escritores: lêem pouco e alguns são um pouco convencidos. E
se há uma coisa que eu aprendi ao conversar com velhos é que nós temos que ser humildes
em tudo o que fazemos. E quando digo humildade, não digo humildade perante o outro,
digo humildade perante aquilo que nós próprios fazemos, no caso, que eles próprios escre-
veram. Os escritores mais novos escrevem hoje e já querem publicar amanhã e eu penso
que isso é falta de humildade. 0 problema de muitos desses jovens é que não são humildes.
Têm potencial mas não possuem ainda o domínio da técnica. E isso ganha-se não apenas
com génio, mas com prática, com leitura, muita leitura e com experimentação. Há um livro
que eu aconselho aos jovens que querem ser escritores, que é um livro de um escritor
romântico do século XIX, Percy Bysshe Shelley, intitulado "Defesa da poesia". É um livro
de fácil compreensão para os jovens que querem ser escritores perceberem que, se querem
ser alguém, tém de ver para além daquilo que nós vemos e têm de conhecer muitos mundos,
e conhecer muitos mundos não significa apanhar o avião e viajar dez horas, significa ler
muito. Para se ser escritor também é preciso ter génio, porque como eu costumo dizer aos
meus alunos, se as leituras bastassem, os professores de literatura seriam todos escritores.
Não basta só ler. Mas a leitura é fundamental para a construção de um escritor.






INSTRUMENTO DA LUTA DE LIBERTAÇÃO

São vários os escritores angolanos que foram simultaneamente grandes intervenientes
no processo de reconstrução e desenvolvimento político, histórico e social do país. A
literatura angolana é uma ferramenta poderosa que extravasa o campo puramente
literário?

A literatura angolana foi fundamental para a libertação do país. Angola não se libertou ape-
nas com recurso à Kalashnikov. 0 país libertou-se também através do processo de
consciencialização e da construção da ideia de "nação angolana". Não é por acaso que
quando se dá o 25 de Abril de 1974 muitos poemas foram musicados. Esses poemas diziam
ao povo aquilo que possivelmente as palavras dos políticos não eram capazes de dizer. Uma
pessoa lê ou ouve um poema como o "Monangamba" (António Jacinto), ouve um poema
como o "Adeus à hora da largada" (Agostinho Neto) e sente que para além das palavras há
um universo, uma nação, uma comunidade. A literatura foi um instrumento subsidiário da
luta, da guerrilha, e ajudou na libertação e na reconstrução do país. A literatura angolana
antecipou inclusivamente algumas reflexões científicas e muitas das questões que hoje as
ciências sociais estão a abordar, como a questão da corrupção, do neoliberatlismo, do
capitalismo selvagem, do racismo e das diferenças étnicas e de classe. A literatura angolana
aborda algumas destas questões desde os anos 80, o que é extraordinário e deve ser dos
poucos países onde isto acontece.

Essa função da literatura não acontece apenas em períodos conturbados? É uma
função continuada?

Sim, é uma função contínua que é capaz de acontecer mais em países como Angola, em que
as instituições do saber, como as universidades, não estavam ainda consolidadas. Não sei se
é algo que vá voltar a acontecer mas o que é certo é que aconteceu. Em todos os países que
emergem de uma guerra há assuntos tabu e o 27 de Maio, em Angola, era um assunto tabu.
Hoje toda a gente fala do assunto. Ora o primeiro livro que trouxe para a cena literária a
questão do 27 de Maio, e interessantemente sem nunca nomear o 27 de Maio, foi
Boaventura Cardoso, com o livro "Maio, mês de Maria", uma obra que recorda todo esse
período de medo que se seguiu ao 27 de Maio. Seguiram-se, na poesia, Adriano Botelho de
Vaconcelos e Bonavena. Este é apenas um exemplo de como a literatura em Angola é ex-
traordinariamente multifacetada, "doce" e "útil", como deve ser toda a literatura.

Que autores angolanos é que lecciona em Portugal?

Pepetela, Luandino Vieira, Paula Tavares, Manuel Rui, Ruy Duarte de Carvalho,
Boaventura Cardoso, João Maimona, Adriano Botelho de Vasconcelos, José Luís
Mendonça, João Melo e tantos outros. Eu gosto de mudar o programa todos os anos.

“Agualusa é um perfeito ignorante sobre o que é a literatura"

Em entrevista a um órgão de comunicação angolano, José Eduardo Agualusa afirmou
que "a poesia de Agostinho Neto é medíocre" e que "uma pessoa que ache que
Agostinho Neto foi um extraordinário Poeta é porque não conhece rigorosamente
nada de poesia... o mesmo se podendo dizer de António Cardoso ou de Amónio
Jacinto". Que comentário lhe merecem estas afirmações?

Quem afirma que "uma pessoa que ache que Agostinho Neto foi um extraordinário Poeta é
porque não conhece rigorosamente nada de poesia... o mesmo se podendo dizer de António
Cardoso ou de António Jacinto", é um perfeito ignorante sobre o que é a literatura. Deve
achar que pode falar sobre tudo e que sabe de tudo. Na realidade, deveria era ler um pouco
mais para além de informação.

segunda-feira, março 31, 2008

A lusa quem quer ser de àgua!





Sobre a poesia de Agostinho Neto
Laurindo Vieira

Li recentemente as afirmações do escritor José Eduardo Agualusa sobre a mediocridade da poesia de Agostinho Neto. Li também as afirmações do escritor Sousa Jamba, em defesa de Agualusa, ou melhor em resposta ao Senhor Artur Queiroz.
Não sou crítico literário, nunca fui e acredito que não o serei por não dispor de formação nesta área. Leio poesia desde os 10 anos e fruto desse exercício criei uma visão sobre a “beleza da poesia” e o encanto que ela transporta. Acredito por isso, que a poesia ainda é a nata das artes.
Dos poetas angolanos, os que mais li foram Viriato da Cruz, António Jacinto, Aires de Almeida Santos e Agostinho Neto. Gostei de todos. Em relação a Agostinho Neto, o que mais me marcou na sua poesia foi a centralidade com que abordou a dimensão do Ser Humano, simbolizado na imagem do Africano vergastado pelo peso da escravatura.
A poesia de Agostinho Neto apresenta uma dimensão estética em que predomina o belo e o seu efeito sobre os sentidos é avassalador. Recordo-me do seu poema “Criar”, um verdadeiro Hino à Coragem. A poesia de Agostinho Neto retrata um tempo de sonhos desfeitos, de hetero-utopias constantes em que o sonho e a realidade do sujeito retratado se manifestavam no desejo da Liberdade. Acredito por isso, que o poeta é um construtor de esperanças e cada poeta, à sua maneira constrói o seu mundo e traça na trajectória do tempo, os sonhos daqueles que esperam que o presente não transporte para o futuro, os erros do passado.
A poesia de Agostinho Neto, em meu entender, não pode nem deve ser analisada numa entrevista de circunstância ou numa perspectiva nua e insípida. O escritor José Eduardo Agualusa pode emitir a opinião que entender sobre quem quiser. As opiniões valem o que valem, podem retratar visões distorcidas ou reais sobre as coisas e sobre os fenómenos. Podem também estar eivadas de simpatias, ódios, recalcamentos. Mas no mundo das ideias, das artes, da ciência, a crítica entre o que é mau e o que é bom deve ser feita com base em critérios científicos e honestos, com provas refutáveis ou irrefutáveis e livres de juízos de valor. Da forma como o escritor Agualusa expõe as suas teses, parece que o faz partindo de uma simbiose entre a avaliação afectiva (do tipo gostar / não gostar) e a avaliação instrumental (do tipo competente /incompetente). Daqui resulta a seguinte fórmula: “não gosto de Neto, logo a sua obra é medíocre”.
Julgo que a comparação entre Agostinho Neto com outros poetas, feita por Agualusa e retomada por Sousa Jamba é patológica. Patológica porque toda a comparação que visa denegrir uns e valorizar outros não é comparação. A comparação deve resultar de uma perspectiva diferencial, ou seja, compreender o que cada um tem de diferente em relação ao outro e de que forma estas diferenças podem ser construtoras de sentidos epistemológicos ou de outra natureza.
Gosto da poesia de Agostinho Neto, de Viriato da Cruz, tal como gosto da poesia de Manuel Alegre. São todas poesias lindas, mas diferentes, porque se os sonhos são diferentes, por que razão Agostinho Neto há-de ser igual a Philipp Larkin, Ted Hughes ou José Craveirinha? Quando Sousa Jamba afirma que os poemas de José Craveirinha o comoveram bastante, devo afirmar que também gostei de ler Craveirinha. Comoveu-me bastante o seu poema “Maria”. Mas será este o critério que Sousa Jamba utiliza para a tipificação dos poetas, em bons e medíocres? Será a emoção o critério para a mensurabilidade da qualidade literária? Acredito que não! Quanto ao facto de Agostinho Neto, enquanto poeta não ser referência obrigatória num curso de literaturas africanas, seja em Londres, Luanda, Maputo ou Bissau, acredito que é mau. Mas devo confessar que esta situação não o reduz à mediocridade, pelo contrário, reduz sim, o curso a insipiência, pois não estudar Agostinho Neto, Viriato da Cruz, António Jacinto, João Maymona é não conhecer os caminhos por onde brota seiva da poesia angolana.
Mas concordo com Sousa Jamba e com Eduardo Agualusa quando referem sobre a fraca divulgação de muitos dos nossos escritores. Talvez seja este o grande problema da universalização da nossa literatura, a ausência de uma política de marketing mais aguerrida, em matéria de divulgação, para que muitos dos nossos poetas, escritores, pensadores sociais, sejam mais lidos e conhecidos não apenas em Londres e Portugal, mas também em Angola.
Acredito pois, que é necessário aprofundarmos a investigação sobre nós próprios, compreender que as águias não voam por terem asas, pelo contrário é por terem asas que elas voam. Defendo que todos os que produzem debates sobre a nossa história, individual ou colectiva, sobre a nossa identidade saibam apresentar na arena do conhecimento os critérios de validação dos seus argumentos.

Vida Cultural
30/03/2008 Jornal de Angola

domingo, março 30, 2008

Talvez seja melhor dar relevo a quem merece!



Luandino Vieira e Ana Clara Guerra Marques (foto no Porto em 2004 na Cooperativa Árvore)


LUANDINO VIEIRA: ENGAJAMENTO E UTOPIA



Vima Lia Martin (USP)



Há coisas que se choram muito anteriormente.

Sabe-se então que a história vai mudar.

(Ruy Duarte de Carvalho)



Grande parte da história do angolano Luandino Vieira confunde- se com a história da luta pela independência política de seu país, o que o levou a sofrer profundamente as conseqüências da militância política. Nascido em Portugal, em 1935, José Mateus Vieira da Graça ainda criança mudou-se com os pais para Angola, país que assumiu como seu. Viveu a infância e a adolescência em bairros populares, conhecidos como musseques, como o Braga, o Makulusu e o Quinaxixe. Mais tarde, integrou-se à geração da revista angolana “Cultura” (II), publicada entre 59 e 61, e juntamente com Arnaldo Santos, Costa Andrade, Ernesto Lara Filho, Henrique Abranches, Mário Guerra, entre outros, contribuiu decisivamente para a consecução do projeto de nacionalização da literatura angolana. Preso em Lisboa em 1961, acusado de exercer “atividades anticolonialistas”, foi libertado somente em 1972, depois de ter cumprido os três primeiros anos de sua pena em Luanda e o tempo restante no campo de concentração de Tarrafal de Santiago, em Cabo Verde.



Luandino, nome que autor escolhe para assinalar sua identificação com a capital angolana, diz muito de sua dedicação à causa da libertação nacional. A maior parte da obra do escritor foi escrita na prisão e sua publicação, quase toda a posteriori, não corresponde necessariamente à ordem em que foi escrita. Seu primeiro livro, A cidade e a infância, é publicado em Lisboa, pela Casa dos Estudantes do Império, em 1960. Já Luuanda, livro-chave na trajetória literária do autor, como veremos mais adiante, foi escrito na prisão durante o ano de 1963, publicado em Angola em outubro de 64 e obteve, em 1965, o Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, o que gerou uma violenta reação de setores sociais conservadores e, inclusive, culminou na extinção dessa associação por decisão do governo português.



Notadamente durante os anos 60 e 70, Luandino Vieira demonstrou grande convicção no exercício de um poder político que possibilitasse a construção de uma cidadania plena para os angolanos. Sem necessariamente almejar o poder de mando, o escritor envolveu-se na luta empreendida pelo MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) pela constituição de um poder novo, capaz de gerir um país também novo, onde efetivamente houvesse menos injustiças sociais. Logo depois da independência, ocupou cargos de direção no governo revolucionário e trabalhou como presidente da Radiotelevisão Popular de Angola e como secretário-geral da União de Escritores Angolanos.



Depois de ter publicado quatro romances - o último, intitulado Nosso musseque, foi publicado em 2003 - e cerca de oito livros de estórias, atualmente Luandino Vieira vive discretamente numa pequena cidade ao norte de Portugal.



Engajamento e utopia



A leitura de cartas e depoimentos de Luandino Vieira pode nos auxiliar a compreender o engajamento e a utopia que são marcas inequívocas de seu projeto ficcional. Se é fato que a literatura de Luandino é forjada a partir de uma clara indignação diante da realidade a que está submetida a maioria dos angolanos, também é verdade que a maneira como ele se posicionou pessoalmente diante do processo de construção da história de seu país é, em certa medida, perceptível na fatura dos próprios textos. Assim, não são apenas os momentos históricos vividos em Angola em meados do século passado que vão transparecer nas narrativas do escritor. Mais do que isso, a subjetividade do sujeito que vivenciou essa História será significativa na constituição das obras: é na tensão entre a vida particular e a vida social que se dá a ação e a reflexão do autor.



Em cartas enviadas da prisão ao amigo Carlos Everdosa, intelectual que também fez parte da geração que se organizou em torno da revista “Cultura”(II), Luandino Vieira atesta sua imensa capacidade de resistência e a confiança na transformação política e social do seu país. Ainda em Luanda, antes de ser transferido para o campo de concentração do Tarrafal, ele escreve:



31-7-64



Meu caro:

Faltam poucas horas para embarcar no “Cuanza” rumo a cabo Verde – ou assim dizem. Li a tua carta e aproveito estes curtos momentos para te enviar umas linhas, talvez as últimas que recebas de mim antes do regresso geral à nossa terra, às nossas coisas, ao nosso povo. É muito difícil nesta altura dizer qualquer coisa; mas podes afirmar aos amigos e companheiros que procurarei sempre ser digno da confiança que têm em mim; que, nas minhas possibilidades e dentro do meu particular campo de acção - o estético - ... tudo farei para que a felicidade, a paz e o progresso sejam usufruídos por todos.



(...)



O meu livro, o livro da Linda afinal, chegar-te-á talvez com mais trabalhos selecionados para a 2ª edição. Se a conseguirem aí em edição de bolso era óptimo para ir a concurso da Sociedade Portuguesa de Escritores. Depois enviem ao Jorge Amado (Brasil) para ver se conseguem uma edição lá. Não é pelo livro, claro, é pelo que ele pode representar como “arma” para a nossa libertação.(...)[1]



Mesmo envolvido por incertezas - o escritor tem dúvidas sobre a possibilidade de continuar se comunicando com os amigos, estando isolado em Cabo Verde -, Luandino Vieira demonstra uma profunda tranqüilidade e uma notável disponibilidade para a relação com o outro: não apenas afirma sua fidelidade aos companheiros, como também se diz empenhado na luta pelo bem comum. Note-se que as reticências, utilizadas depois do termo “estético”, podem indicar que o campo de atuação do escritor talvez transcenda o especificamente literário, sugerindo um envolvimento direto com ações revolucionárias.



No parágrafo final, o livro que o autor menciona é Luuanda, chamado de “livro da Linda” porque foi ela, sua mulher à época, que conseguiu retirar clandestinamente os manuscritos da prisão, escondidos num saco de fundo duplo, no qual levava as refeições em visitas diárias ao marido[2]. Já o concurso promovido pela Sociedade Portuguesa de Escritores, forte centro de resistência ao fascismo, é justamente aquele que iria premiar a obra no ano seguinte. Vale ainda ressaltar a referência de Luandino Vieira a Jorge Amado, escritor brasileiro que apresentava posições políticas progressistas e certamente apoiava a luta de libertação angolana. A importância atribuída a uma edição brasileira do livro naquele momento reforça o caráter militante assumido pela literatura, que se torna efetivamente uma arma de combate contra a opressão colonial.



Dois anos depois, já em Cabo Verde, outra carta destinada a Carlos Everdosa reafirma a esperança e o comprometimento do escritor:



Tarrafal, 14-10-66

(...) Meu caro Carlos: só não compreendo como insistes em alcunhas ainda que sinceras como a do “maior ficcionista angolano”. Isto para te falar no estares desiludido de ti próprio, como dizes, e de muitos outros. Isso era inevitável, é um constante suceder e é preciso compreendermos que não há outros homens para com eles construir o mundo. É com esses mesmos que se fará – ou nunca se fará. E portanto me regozijo que digas que ainda vai havendo sementeiras para o futuro. Nós somos responsáveis, pouco ou muito não importa, ou o que importa é que o sejamos na medida em que nos foi permitido ou o soubemos ser, por essas sementes. Portanto não se justifica essa desilusão de nós próprios, mas é necessário não cairmos nas mistificações da sementeira que parimos. É só isso que fará a nossa justificação: lucidez. Mas para que não penses que o teu primo é um super-homem e para que se dissolvam ainda mais as idéias feitas, sempre te digo, meu caro irmão, que há dias em que os seguintes versos são possíveis: “é necessário o ódio/ só ele impele/ o vermelho estrebuchar do sangue/ quieto insone/ sob o medo...// só ele sacode/ o cansado sono do pensamento/ puro fraterno/ sob o amor// é necessário o ódio/ só ele liberta/ só ele não cansa!”

Deixo-te com toda a amizade, hoje: o poema é de ontem.[3]



As palavras de encorajamento de Luandino Vieira dirigidas ao amigo desiludido realmente traduzem a lucidez tão necessária para o enfrentamento da realidade. O pragmatismo demonstrado por ele (“é preciso compreendermos que não há outros homens para com eles construir o mundo”), alia-se à esperança de que as “sementeiras” já plantadas iriam germinar no futuro. Porém, ele alerta: “mas é necessário não cairmos nas mistificações das sementeiras que parimos”. Para o autor, utopia não tem nada a ver com ilusão: enquanto a primeira deve considerar as contingências, a segunda é completamente fantasiosa. Nessa perspectiva, o trabalho de disseminação da ideologia libertária, de formação de quadros, de conscientização, enfim, havia sido realizado “na medida em que nos foi permitido ou o soubemos ser”. E o resultado dessa tarefa dependia principalmente dos sujeitos que iriam sucedê-los.



Finalmente, o poema escrito por Luandino - para que ele mesmo não esmoreça - fala sobre a necessidade imperativa do ódio para manter a firmeza dos combatentes. “Só o ódio”, diz o autor, “impele”, “sacode”, “liberta”, “não cansa”. Num contexto revolucionário, o ódio, explicitamente dirigido contra os mecanismos opressores e seus representantes, é o que mantém acesa a chama da luta, driblando o medo e o cansaço: odiar é necessário para que a fraternidade seja conquistada.



Essa carta, escrita depois de cinco anos de confinamento, revela a tenacidade do escritor e sua imensa capacidade de alimentar - com lucidez - a utopia de uma Angola livre. Mais de dez anos depois, em entrevista concedida a Michel Laban em 1977, portanto dois anos depois da conquista da independência, Luandino Vieira faz uma avaliação de sua trajetória pessoal e acaba por validar sua atitude combativa, reafirmando a certeza de que havia sempre agido justificadamente:



Portanto, pessoalmente, também considero que, suceda o que suceder à República Popular de Angola, nunca, tanto quanto vejo, posso dizer assim: “Bom, meti a minha vida por uma estrada que não tinha qualquer sentido ou fim”. Suceda o que suceder, considero sempre que o que andei até hoje estava perfeitamente justificado, quer individualmente – não sou pessoa com grandes problemas de natureza pessoal, o que não quer dizer que diariamente não reflita sobre a minha atividade – quer coletivamente.[4]



Ao estabelecer uma clara distinção entre o significado da luta pela independência e o futuro de Angola como nação independente, Luandino salienta a importância de ter participado do movimento revolucionário. Afirmando ser uma pessoa sem “grandes problemas de natureza pessoal”, o escritor atribui sentido pleno a suas atitudes, reafirmando a convicção de ter feito exatamente o que era possível fazer em cada encruzilhada histórica. Seja no nível individual ou no nível coletivo, a coerência parece ter sido marca decisiva em sua conduta.



A inserção histórico-social de Luandino Vieira pauta-se sobretudo por uma reflexão aguda sobre sua realidade nacional. Contra a manutenção de uma ordem social excludente, Luandino Vieira aposta na efetivação de uma realidade mais justa e inclusiva em Angola. Em tempos revolucionários, o escritor angolano forja um discurso transgressor e utópico que vai reivindicar literariamente - e politicamente - identidade e autonomia para seu país.



A ficcionalização da marginalidade social



O repertório e a perspectiva que sustentam a conjunto da obra de Luandino Vieira estão essencialmente marcados por sua vivência infantil nos musseques, bairros populares luandenses, em fins da década de 30 e início da década de 40. Na percepção do próprio autor, viver na “margem africana” da maior cidade angolana teria sido fundamental para forjar sua consciência política:



Tudo isso [as contradições sociais, o preconceito, as diferenças culturais entre as tradições africanas e européias], em criança, fui vivendo e mais tarde fui relatando. Isso me deu a riqueza – o que eu penso ser a riqueza – de uma experiência que se prolongou até aos dez, doze anos e que serviu para a aquisição de valores culturais africanos, valores populares angolanos, que continuamente a margem africana da cidade estava elaborando, e que, depois, no liceu, quando chegou a idade em que eu comecei a ler outras coisas, fui interpretando de outro modo, e que foram realmente o germe de minha consciência política.[5]



Seja através do exercício do conto ou do romance, a opção de Luandino Vieira foi por ficcionalizar os desafios vividos pelos marginalizados que habitam a periferia de Luanda e sublinhar o potencial de resistência dos habitantes dessa periferia mestiça. Vale registrar que, afastados do centro, os musseques também funcionavam como guetos que mantinham as populações africanas longe dos brancos mais ricos que habitavam a parte central da cidade, denominada de “Baixa”.



Uma das estórias do escritor, intitulada “A fronteira do asfalto” e publicada em A cidade e a infância, trata justamente da acentuada divisão entre periferia e centro, negros e brancos, pobres e ricos na cidade de Luanda. Lembremos que em seu desfecho, Ricardo, o jovem morador do musseque, morre no meio fio ao tentar falar com Marina, a menina de tranças loiras que habitava o asfalto. A interdição do mundo branco aos africanos e, no limite, a impossibilidade de diálogo entre universos ideologicamente conflitantes são simbolicamente retratadas pela narrativa.



Aliás, é importante sublinhar que os contos escritos por Luandino Vieira são nomeados por ele como “estórias”, já que guardam uma relação profunda com o universo da oralidade. Vale dizer que o termo “estórias”, que designa narrativas de cunho tradicional e popular, já havia sido utilizado pelo brasileiro Guimarães Rosa e, posteriormente, também foi escolhido pelo escritor moçambicano Mia Couto para qualificar os seus contos.

Como bem apontaram pesquisadoras como Maria Aparecida Santilli, Tania Macêdo e Carmen Lucia Tindó Secco, os três escritores - Guimarães Rosa, Luandino Vieira e Mia Couto - aproximam-se pelo fato de criarem uma linguagem inovadora, que amalgama aspectos do português padrão a formas espontâneas da oralidade praticada pelas populações marginalizadas enfocadas em seus textos[6]. O resultado dessa mistura é a expressão de uma lógica que revela um modo de ser e de ver o mundo característico de sujeitos que se encontram em profunda tensão com as normas da civilização moderna.



È importante ressaltar que uma das singularidades da obra produzida por Luandino Vieira repousa justamente na convicção que a sustenta: a de que o texto literário deveria afirmar a grande diferença cultural angolana a partir da qual a autodeterminação e a independência poderiam ser reivindicadas. Nesse sentido, a elaboração discursiva de suas estórias dá-se em função de um projeto político bastante claro. Num período tenso e convulsionado, a luta em curso deixa em aberto novas possibilidades de configuração social. Daí que a marginalidade social ficcionalizada pela narrativas do autor angolano deva ser vista como conseqüência conjuntural, já que é decorrência de uma situação de opressão tida como transitória.



Luuanda: a cartilha do musseque



Como já assinalamos, o livro de contos Luuanda atesta a maturidade de Luandino Vieira como ficcionista, uma vez que marca um redirecionamento de sua escrita literária, que passa a apresentar uma maior sofisticação no modo de representar a realidade luandense que sempre alimentou a sua prosa. De fato, se a objetividade e o caráter de exemplaridade das situações narrativas se fazem mais presentes nas primeiras estórias do autor – nos contos de A cidade e a infância, de Vidas novas e no romance A vida verdadeira de Domingos Xavier -, a partir de Luuanda a complexidade das relações sociais, culturais e políticas típicas dos espaços marginais urbanos assumem maior destaque, condicionando a forma literária – que se torna intensamente oralizada – e rompendo com um registro mais simplificado da realidade.



Nessas narrativas da segunda fase, além de haver uma modificação na configuração dos protagonistas, observa-se também uma transformação na perspectiva do narrador que, paulatinamente, abandonará a perspectiva da onisciência para abrir maior espaço para que as personagens construam suas falas e suas versões sobre os conteúdos narrados. Desse modo, o narrador abandona seu papel de intérprete privilegiado dos fatos enunciados e a polifonia torna-se marca constitutiva das narrativas.



No plano lingüístico, também a partir de Luuanda a própria estrutura textual é fortemente impregnada pelas “marcas da terra”, que deixam de ser somente tema para atuarem profundamente na forma das narrativas[7]. Lembremos que, na década de 60, quando grande parte da população angolana não era alfabetizada em português e a dominância das culturas tradicionais, mesmo num centro como Luanda, era muito mais forte do que hoje, era grande a variação do português metropolitano, misturado aos falares característicos das línguas nacionais. Assim, formas do quimbundo - língua falada na região de Luanda e que, juntamente com o umbundo e o quicongo, conforma as três principais línguas nativas - são misturadas a formas do português normativo, modelando uma linguagem híbrida de grande potencial expressivo.



Virtualidades, associações imprevistas, alterações na estrutura da frase, incorporação do léxico quimbundo. A recriação lingüística operada por Luandino Vieira aposta numa leitura essencialmente dinâmica, em que o leitor é também intérprete da matéria narrada, atuando quase como co-autor das estórias. Isso significa fundamentalmente a decodificação da lógica das populações autóctones - já que ela passa a presidir a ação narrativa. Ao apreender a dicção típica das populações marginalizadas, o leitor compartilha da “cartilha do musseque”[8], o que significa conhecer de perto a realidade dos oprimidos e posicionar-se em relação à luta por sua libertação.



Ao justificar o “desvio da norma” em suas estórias, o próprio Luandino afirma:



(...) penso que o primeiro elemento da cultura angolana que interferiu com a escrita, segundo a norma portuguesa, foi a introdução da oralidade luandense no meio do discurso da norma portuguesa... mas depois, quando entramos na luta política pela independência do país, que foi feita em nome das camadas que não tinham voz - e se tivessem não podiam falar, e se falassem não falariam muito tempo... -, foi aí que os escritores angolanos resolveram dar voz àqueles que não tinham voz e, portanto, escrever para que se soubesse o que era o nosso país, se soubesse qual era a situação do país e, desse modo, interferirem de maneira a modificarem essa situação... [9]



Sobre a elaboração de Luuanda, o escritor é ainda mais contundente ao relacionar elaboração discursiva e resistência política:



E como estávamos numa fase de alta contestação política - e um dos elementos dessa contestação política do colonialismo era afirmar a nossa diferença cultural, mesmo na língua -, um bichinho qualquer soprou-me a dizer-me: “Por que é que tu não escreves em língua portuguesa de tal maneira que nenhum português perceba!”



Foi desta maneira que escrevi essas três estórias do Luuanda, de tal maneira que se um português de Portugal lesse, percebesse todas - ou quase todas – as palavras e dissesse que era português e, depois, dissesse ao mesmo tempo: “Não percebo nada disto!” Foi alguma coisa de deliberado, de provocatório, e por isso, essas três estórias não resistiram ao tempo.[10]



Escrever em língua portuguesa e ao mesmo tempo não ser compreendido por um português: tal foi o desafio proposto por Luandino Vieira ao conceber Luuanda. O resultado dessa tarefa, ao contrário do que afirma modestamente o autor, não foi o perecimento da obra, mas a afirmação de sua grandeza. Ao buscar a diferenciação da língua da metrópole, o escritor encontra um caminho expressivo bastante original, realizando uma mescla lingüística que inscreve sua obra entre as grandes obras escritas em língua portuguesa.



O processo de busca por uma dicção angolana realmente autêntica leva Luandino a encontrar parentesco entre o seu trabalho o os textos de Guimarães Rosa. Em diversos depoimentos e entrevistas, o escritor afirma a importância da leitura do autor brasileiro no que tange aos seus próprios processos de criação lingüística. Sobre a apreensão que realiza de Sagarana, por volta de 1963, declara:



E então aquilo foi para mim uma revelação. Eu já sentia que era necessário aproveitar literariamente o instrumento falado dos personagens, que eram aqueles que eu conhecia, que me interessavam, que reflectiam – no meu ponto de vista – os verdadeiros personagens a pôr na literatura angolana. Eu só não tinha ainda encontrado era o caminho. (...) Eu só não tinha percebido ainda, e foi isso que João Guimarães Rosa me ensinou, é que um escritor tem a liberdade de criar uma linguagem que não seja a que os seus personagens utilizam: um homólogo desses personagens, dessa linguagem deles.[11]



A “revelação” de que fala Luandino Vieira talvez deva ser compreendida em termos de “confirmação”. Afinal, quando o escritor leu Sagarana, ele havia concluído a sua “Estória do ladrão e do papagaio”, narrativa central de Luuanda, em que já se observa uma recriação lingüística notável.[12] Por isso, em vez de influência, talvez possamos pensar em confluência entre a escrita dos dois autores: ambos, na intenção de reelaborar a linguagem de sujeitos que se situam à margem das normas sociais impostas, empenham-se em realizar um intenso trabalho de oralização do discurso escrito. Guardadas as diferenças contextuais de produção e as especificidades de cada projeto estético-ideológico, os discursos dos dois escritores convergem na medida em que operam o resgate de culturas locais e marginais através da utilização inventiva da linguagem.



A celebração da utopia



A elaboração literária de Luuanda deixa entrever uma perspectiva utópica da realidade. Concebida num momento histórico revolucionário, a obra sinaliza a consolidação paulatina do processo de resistência popular que se opõe ao poder colonial, sugerindo caminhos para a transformação efetiva da sociedade angolana. Suas três estórias - “Vavó Xixi e seu neto Zeca Santos”, “Estória do ladrão e do papagaio” e “Estória da galinha e do ovo” - atestam que o amadurecimento dos sujeitos, que devem assumir o seu papel transgressor, é condição fundamental para a conquista da independência e para a construção de uma nova Angola.



A utopia revolucionária que perpassa e sustenta Luuanda pode ser percebida em vários aspectos da elaboração das estórias, todas organizadas por um narrador onisciente: na aprendizagem empreendida pelos protagonistas, na progressão temporal sugerida pela sucessão das narrativas e na ampliação paulatina da voz do “griot” a ritualizar o texto escrito.



A ação narrativa do conto, o único em que a voz do “griot” não se faz presente e que certamente por isso não é nomeado como “estória” pelo narrador, centra-se nas dificuldades enfrentadas por uma avó e seu neto, que moram juntos numa mesma cubata, de sobreviverem em meio às agruras típicas da exclusão social, numa sociedade extremamente preconceituosa e segregadora. Perplexos e sem consciência política, Zeca Santos e sua avó deixam-se envolver pelos sentimentos de fracasso e impotência. A velha, ligada ao passado, e o moço, desiludido com o presente, não sabem como agir para construir um futuro livre da violência e da opressão.



Leiamos os dois últimos parágrafos do texto:



Por cima dos zincos baixos do musseque, derrotando a luz dos projetores nas suas torres de ferro, uma lua grande e azul estava subir no céu. Os monandengues brincavam ainda nas areias molhadas e os mais velhos, nas portas, gozavam o fresco, descansavam um pouco dos trabalhos desse dia. Nos capins, os ralos e os grilos faziam acompanhamento nas rãs das cacimbas e todo o ar estava tremer com essa música. Num pau perto, um matias ainda cantou, algumas vezes, a cantiga dele de pão-de-cinco-tostões.



Com um peso grande a agarrar-lhe o coração, uma tristeza que enchia todo o corpo e esses barulhos da vida lá fora faziam mais grande, Zeca voltou dentro e dobrou as calças muito bem, para agüentar os vincos. Depois, nada mais que ele podia fazer já, encostou a cabeça no ombro baixo de vavó Xíxi Hengele e dasatou a chorar um choro de grandes soluços parecia era monandengue, a chorar lágrimas compridas e quentes que começaram a correr nos riscos teimosos as fomes já tinham posto na cara dele, de criança ainda. (p.38)



Observe-se que a descrição da paisagem natural e humana do musseque presentifica-se de modo contundente. A politização do espaço mestiço e periférico do musseque, que acolhe indistintamente crianças e velhos, é enfatizada e a música orquestrada pelos pequenos animais nativos expressa a vitalidade da terra angolana.



Mas, no momento final da narrativa, “os barulhos da vida lá fora” só fazem aumentar a tristeza e a impotência do protagonista, que “nada mais podia fazer” contra a miséria a que estava submetido junto com a avó. Daí o choro inconsolável, sinal de que Zeca não era capaz de vislumbrar saída para sua situação marginal. A afirmação dupla de sua infantilidade – em quimbundo e em português: “parecia era monandengue” e “cara dele, de criança ainda” – atesta menos a idade cronológica do rapaz e mais a sua incompreensão dos mecanismos da opressão colonial. Sem mais nada a dizer, o narrador suspende a narrativa bem no meio desse desamparo, deixando as personagens a sós com sua dor e deixando a nós, leitores, perplexos com a sua solidão.



A estória central do livro, “Estória do ladrão e do papagaio”, opera uma espécie de passagem entra a primeira narrativa – em que os protagonistas ainda não despertaram para a necessidade do engajamento na luta contra o colonizador – e a última – em que as personagens vão experienciar o alcance político da prática social solidária. De um modo bem genérico, é possível dizer que o texto fala sobre o encontro de três africanos na prisão - Xico Futa, Lomelino dos Reis e Garrido Fernandes - e sobre o florescimento da solidarieidade entre eles. Vale afirmar que o papel exercido por Xico Futa é central nessa interação: ele é porta-voz de ensinamentos preciosos para as outras personagens e também para os leitores da estória.



Nesse sentido, a “parábola do cajueiro”, enunciada por Futa, é fundamental para a constituição de um saber revolucionário. Nessa narrativa de caráter didático, a personagem adverte que é preciso conhecermos a raiz ou o princípio daquilo que mobiliza as pessoas e as suas ações. Vejamos:



(...) Sentem perto do fogo da fogueira ou na mesa de tábua de caixote, em frente do candeeiro; deixem cair a cabeça no balcão da quitanda, cheia do peso do vinho ou encham o peito de sal do mar que vem no vento; pensem só uma vez, um momento, um pequeno bocado, no cajueiro. Então, em vez de continuar descer no caminho da raiz à procura do princípio, deixem o pensamento correr no fim, no fruto, que é outro princípio e vão dar encontro aí com a castanha, ela já rasgou a pele seca e escura e as metades verdes abrem como um feijão e um pequeno pau está nascer debaixo da terra com beijos da chuva. O fio da vida não foi partido. Mais ainda: se querem outra vez voltar no fundo da terra pelo caminho da raiz, na vossa cabeça vai aparecer a castanha antiga, mãe escondida desse pau de cajus que derrubaram mas filha enterrada doutro pau. Nessa hora o trabalho tem de ser o mesmo: derrubar outro cajueiro e outro e outro... É assim o fio da vida. Mas as pessoas que lhe vivem não podem ainda fugir sempre para trás, derrubando os cajueiros todos; nem correr sempre muito já na frente, fazendo nascer mais paus de cajus. É preciso dizer um princípio que se escolhe: costuma se começar, para ser mais fácil, na raiz dos paus, na raiz das coisas, na raiz dos casos, das conversas. (p. 54)



Ao insistir no fato de que devemos refletir sobre o cajueiro - imagem das estórias entrelaçadas que conformam e justificam a realidade - e perseguir o fio da vida - fio das histórias pessoais e coletivas – Futa aponta para a necessidade de constituirmos nossa identidade como sujeitos históricos, afirmando valores fundamentais para a mobilização popular contra o poder instituído.

Já no final da estória, a confraternização entre os capianguistas presos afirma a solidariedade tão necessária para o enfrentamento da luta e é aí que a voz do narrador/“griot” vai se manifestar pela primeira vez. Sua fala, antes de mais nada, pede um posicionamento dos leitores, propondo um julgamento estético - e ético - da própria estória: Minha estória. Se é bonita, se é feia, os que sabem ler é que dizem (p.96). Desse modo, “os que sabem ler” ocupam o lugar da audiência dos antigos “griots” e são convocados a aderir ou não à narrativa e aos seus ensinamentos.



Por fim, a última frase do narrador/”griot”, que encerra definitivamente o texto, é: “E isto é a verdade, mesmo que os casos nunca tenham passado” (p.97). Se pensarmos no caráter didático de muitas das estórias tradicionais, que cumprem a função de transmitir valores éticos, o valor atribuído à verdade na “Estória do ladrão e do papagaio” estaria contido justamente na sugestão de procedimentos importantes para o estabelecimento da harmonia nas relações pessoais e sociais. Ao afirmar que diz a verdade, “mesmo que esses casos nunca tenham se passado”, o narrador/“griot” articula as noções de real e verossímil, fazendo com que os leitores/ouvintes tornem-se testemunhas vivas e ativas da possibilidade de construção de uma nova realidade histórica afinada com as aspirações revolucionárias.



A terceira estória, “Estória da galinha e do ovo”, que já começa com a voz do “griot” anunciando-a como “caso”, tem como motor a disputa entre duas vizinhas – nga Bina e nga Zefa – pela posse de um ovo. Posto pela galinha Cabíri, que pertencia à nga Zefa, no quintal de nga Bina, que está grávida e tem o marido preso, o ovo é reivindicado por ambas, que alegam seu direito sobre ele. A solução do conflito se dá com a interferência de duas crianças – Beto e Xico – que, imitando o cantar de um galo, fazem com que Cabíri fuja das mãos de policiais que haviam sido chamados para intervir no caso e que pretendiam levar vantagem na situação. Depois disso, nga Zefa resolve abrir mão do ovo e oferecê-lo a nga Bina. Na cena final da estória, podemos observar toda a satisfação da jovem mãe:



De ovo na mão, Bina sorria. O vento veio devagar e, cheio de cuidados e amizade, soprou-lhe o vestido gasto contra o corpo novo. Mergulhando no mar, o sol punha pequenas escamas vermelhas lá embaixo nas ondas mansas da Baía. Diante de toda a gente e nos olhos admirados e monandengues de miúdo Xico, a barriga redonda e rija de nga Bina, debaixo do vestido, parecia era um ovo grande, grande... (p.123)

O vagar do vento, a amenidade do sol e a mansidão do mar demonstram a solidariedade da natureza com a protagonista. A força de sua imagem carregando dois ovos - um nas mãos e outro na barriga -, símbolos de vidas novas que se anunciavam, atesta o acerto na solução de um impasse que parecia insolúvel. A justiça é alcançada graças à intervenção das crianças que conseguem fazer com que o ovo alimente aquela que está gestando um novo angolano, metáfora de um futuro mais desejável para Angola. E as reticências que encerram o parágrafo traduzem justamente esse porvir que precisa ser conquistado.

Para arrematar a narrativa, o narrador/“griot” mais uma vez atualiza a forma oral cristalizada das estórias tradicionais, pedindo o julgamento do relato pelos leitores e atestando a sua verdade:



Minha estória.

Se é bonita, se é feia, vocês é que sabem. Eu só juro que não falei mentira e estes casos se passaram nesta nossa terra de Luanda.(p.123)



Como já vimos, a avaliação estética exigida dos leitores é também uma avaliação ética. Julgar a estória “bonita” significa concordar com os valores que ela veicula e, em última instância, interiorizá-los e colocá-los em prática. Já o contrário significa a não adesão à ideologia que sustenta a narrativa, a negação daquilo que ela propõe - e que já havia sido anunciado na segunda estória: a ressignificação da tradição, a compreensão histórica dos fatos e a solidariedade entre os angolanos como forma de fortalecimento na luta contra os representantes do colonialismo.



Mais uma vez, a “verdade” da estória afirma exatamente aquilo que é necessário para a conquista da liberdade e da justiça na “nossa terra de Luanda”. Trata-se, assim, não da afirmação de realidades sedimentadas, mas da possibilidade de construção de uma nova realidade histórica.



A última narrativa de Luuanda valoriza o caráter revolucionário da ação dos monandengues que, valendo-se de conhecimentos tradicionais, salvam a galinha de cair em mãos inimigas e ensinam as mulheres a agir de maneira mais consciente e coerente com os objetivos da luta contra a opressão colonialista. Temos, então, a utilização da sabedoria dos mais-velhos em função de uma causa bastante objetiva, representativa da luta que deve ser travada para a conquista da liberdade. As gerações mais novas, representadas por Beto e Xico, põem em prática o “exercício da compreensão” explicitado por Xico Futa na estória central do livro.



A progressão temporal sugerida pela ordenação das três narrativas de Luuanda diz muito do sentido geral do livro. Nele, passado, presente e futuro se dispõem cronologicamente, perfazendo uma trajetória que anuncia novos tempos. De Vavó Xíxi à criança gestada por Bina, o fio da vida trançado pelo escritor é percorrido também pelos leitores. Desse modo, um percurso que diz respeito à construção de um saber ou de uma ética revolucionária pode ser depreendido da leitura encadeada das três narrativas do livro. Vale lembrar que a última estória se encerra com o pôr do sol. Aliás, o poente - referido por três vezes durante a narrativa - é bastante significativo em sua elaboração. Para além dos sentidos evocados por seu tom avermelhado - a paixão revolucionária, o sangue derramado na luta pela liberdade e até a cor característica das bandeiras dos partidos comunistas -, é possível pensar que o cair do dia metaforiza o final de um ciclo, de um tempo de opressão que deve se encerrar. Desse modo, a estória sinaliza que, depois da morte do tempo colonial, um novo dia - vidas novas, novos tempos – surgirá.



É prática literária de Luandino Vieira, corporificada nas três narrativas do livro, aproximaria-se da concepção de “utopia concreta” desenvolvida por Ernst Bloch principalmente em sua obra Das Prinzip Hoffnung (O princípio esperança), escrita entre 1938 e 1948.



Numa linha marxista, o filósofo alemão desenvolve seu conceito de utopia a partir do sentido ontológico do “ainda-não-ser”, redefinindo o conceito de “ser” como “modo de possibilidade para frente”. Assim, ao combinar uma concepção materialista da história e as potencialidades imanentes ao sujeito, espécie de força dinâmica que o projeta para o futuro, Bloch vislumbra a “realização progressiva da utopia marxiana da sociedade sem classes, que aposta na transformação da vida capitalista alienada em autodeterminação humana real, em auto-realização e em emancipação social individual.”[13]



Arno Münster, um dos maiores intérpretes da filosofia blochiana, ao circunscrever os sentidos do “espírito utópico” no pensamento de Bloch, verifica a relação estabelecida entre o conceito de utopia e o de “esperança crítica”, o que visaria



à negação de todas as relações humanas baseadas na alienação e na dominação, e a articulação desta esperança com o projeto (utópico) de uma revolução ética, devendo completar o objetivo de uma revolução das estruturas econômicas da sociedade. Por fim, o “espírito utópico” implica uma reformulação da questão ética, não no sentido de uma “ética normativa” tradicional, mas no sentido da reivindicação da realização de uma nova prática humana e moral enquanto síntese de uma nova concepção ética das relações inter-humanas que abrange não somente os ideais de igualdade e de fraternidade sintetizados pela Revolução Francesa, mas também os objetivos de uma revolução socialista.[14]



Parece-nos claro que o imaginário social configurado em Luuanda vai ao encontro da formulação de uma “revolução ética”, capaz de concretizar o projeto utópico de um país livre e justo. Nesse sentido, a proposta do escritor angolano aposta na transformação da realidade vivida pelas personagens a partir de sua conscientização e de sua atitude revolucionária.



Em termos mais formais, o engajamento da linguagem literária recriada em Luuanda se dá através da mistura entre o português e o quimbundo e também através da inscrição universalizante da palavra oral, recuperada ritualisticamente para ampliar o alcance dos ensinamentos contidos em cada narrativa. Dessa maneira, o diálogo estabelecido entre os modos da cultura oral e os modos da cultura letrada realiza a superação, em termos do discurso literário, da dicotomia existente entre tradição e modernidade. Em termos sociais, tal síntese cultural pode ser pensada como a superação da realidade de opressão típica do colonialismo. Afinal, ao ressignificar os valores e as práticas culturais tradicionalmente angolanas e afirmar um saber fundamentalmente ético, a obra articula passado e presente em função de uma experiência futura mais desejável.



Aparentando-se com os casos tradicionais, as duas últimas estórias do livro de Luandino Vieira transmitem valores essenciais para o bem-estar coletivo e exigem um posicionamento crítico de quem se dispõe a conhecê-las



Embora profundamente arraigada na história angolana pré-independência, a escrita literária de Luuanda permanece viva e atual como reflexão sobre contradições e impasses que, se estão presentes no plano social, estão também profundamente cravados nas subjetividades dos protagonistas das narrativas e, em alguma medida, de cada leitor.



Para além de sugerir a afirmação de uma ética revolucionária fundamental para a superação dos impasses inerentes à condição marginal na Luanda do início dos anos 60, o “otimismo militante” de Luandino Vieira aposta nas possibilidades e nas potências imanentes ao homem, sujeito literariamente concebido como livre e capaz de concretizar utopias sociais.







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Vima Lia Martin é doutora em Letras e professora de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade de São Paulo. Atualmente é vice-diretora do Centro de Estudos Portugueses/USP. Tem realizado pesquisas sobre as literaturas africanas e, em 2005, organizou o livro Diálogos críticos: literatura e sociedade nos países de língua portuguesa.









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[1] In LABAN, Michel et alli. Luandino. José Luandino Vieira e a sua obra. Lisboa: Edições 70, 1980, p.90.

[2] Sg. Carlos Everdosa in LABAN, M. et alli. Luandino. José Luandino Vieira e a sua obra, op. cit., p. 89.

[3] Idem, p.99.

[4] In LABAN, Michel. Angola - Encontro com escritores. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1991, p.40.

[5] LABAN, M. et alli. Luandino. José Luandino Vieira e a sua obra, op. cit., pp.13-4.

[6] Cf. SANTILLI, M. Ap. “João Guimarães Rosa e José Luandino Vieira, criadores de linguagens”. In Paralelas e tangentes entre literaturas de língua portuguesa. São Paulo: Área de ECCLP/ USP; Editora Arte e Ciência, 2003, pp.91-108; MACÊDO, T. “Os rios e seus (dis)cursos em Rosa, Luandino e Mia Couto” (pp. 95-105) e “Cantos do sertão e do musseque”(pp.107-116). In Angola e Brasil: estudos comparados. São Paulo: Área de ECLLP/ USP; Editora Arte e Ciência, 2002; SECCO, C. L. T. “Luandino Vieira e Mia Couto - intertextualidades...” (pp.44-53) e “O mito da criação em Luandino e Guimarães” (pp.70-7). In A magia das letras africanas. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora; Barroso Produções Editoriais, 2003.

[7] Sg. CHAVES, Rita. “José Luandino Vieira: consciência nacional e desassossego”, op. cit., p.79.

[8] Termo utilizado pelo narrador de “Cangundos, verdianos, santomistas, nossa gente”, estória de Luandino Vieira publicada em Macandumba (Lisboa: Edições 70, 1997, p. 104).

[9] In “Um escritor confessa-se... ”. Entrevista de Luandino Vieira publicada no Jornal de Letras, Artes e Idéias, de Lisboa, em 9/5/89, p. 10.

[10] Idem, p.10.

[11] LABAN, M. et alli. Luandino. José Luandino Vieira e a sua obra, op. cit., p. 27.

[12] Sg. depoimento do próprio autor in “Um escritor confessa-se...”, op. cit., p.10.

[13] Sg. MÜNSTER, Arno. Utopia, messianismo e apocalipse nas primeiras obras de Ernst Bloch. São Paulo: Edunesp, 1997, p.15.

[14] In Ernst Bloch - Filosofia da práxis e utopia concreta. São Paulo: Edunesp, 1993, p.19.


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