domingo, maio 04, 2008

Angola/Anatomia de uma tragédia




Angola, Anatomia de uma Tragédia

Extractos do livro Angola, Anatomia de uma Tragédia, General Silva Cardoso,
Oficina do Livro.

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Pg.330/331
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"A interpretação jurídica que o Dr. Almeida Santos deu a esta cláusula era que ela obrigava «à consulta directa e universal das populações das colónias, na salvaguarda dos seus interesses dentro de princípios democráticos». Durante algum tempo e em quase todas as suas intervenções públicas, Almeida Santos e a maioria dos novos políticos da época reiteravam este princípio como essencial na definição da política ultramarina dentro da nova ordem democrática que se pretendia não só instituir como consolidar. Ao povo soberano, através do voto, ser-lhes-ia dada a possibilidade de decidir do seu futuro, salvaguardando os seus interesses. Inclusivamente Mário Soares, numa entrevista que em meados de Junho deu ao «Século», afirmou: «Portugal teria o respeito mais absoluto pela vontade das populações livremente expressa, aceitando a independência como uma das opções possíveis do direito dos povos à autodeterminação.»
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Não me admirava que a grande massa do povo português de todos os continentes aceitasse e compreendesse os princípios que iriam orientar a sua vida nos tempos que se avizinhavam. No entanto, pessoalmente, estava bastante céptico quanto à viabilidade prática da sua aplicação nos territórios ultramarinos. Reportando-me apenas a Angola, onde conhecia bastante bem a situação no terreno, não tinha quaisquer dúvidas sobre a impraticabilidade duma tal consulta, a curto ou médio prazo, visto uma guerra que ali se arrastara durante treze anos ainda não estar completamente debelada. Eu sabia, mas o pior e mais preocupante, era que os senhores do MFA, também o sabiam e nada fizeram para arranjar soluções alternativas sempre subordinadas aos interesses das gentes desses territórios. Algo parecia pouco claro em toda esta formulação de linhas de acção para resolver o problema da guerra que parecia ser um dos grandes objectivos do movimento do 25 de Abril. Foi com esta e outras bandeiras de liberdade, paz, democracia e progresso que mobilizaram e quase convenceram a grande massa do povo português. No entanto, a aceleração que imprimiram ao processo levaria à inevitável reacção e às dúvidas que se começaram a levantar quanto aos verdadeiros objectivos da revolução.
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As minhas preocupações, decorrentes da agitação que se vivia em todos os sectores da vida nacional, conduziam à conclusão de que a questão do Ultramar, do maior significado para todo o espaço nacional, não iria ser resolvida democraticamente com se pretendia fazer crer mas, tão-somente, por via revolucionária. Só estranhava que um homem com a larga experiência e conhecimento de África como o Dr. Almeida Santos viesse convictamente a defender nas suas intervenções públicas este princípio inquestionável da consulta popular. Ele também devia saber ou ter a consciência de que esse processo era impraticável no contexto social das Províncias Ultramarinas.
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Já não me admirava com a demagogia do Dr. Mário Soares quanto às soluções que defendia para o problema ultramarino que, em teoria, não se afastavam muito dos princípios constantes do programa do MFA, mas que na prática não tomavam em consideração os direitos da grande maioria das populações que nunca tinham estado envolvidas em qualquer tipo de conflito subversivo ou, tendo estado, acabaram por aderir voluntariamente às forças da ordem. Em Angola, onde tinha permanecido até Setembro de 1973, talvez mais de noventa por cento das suas gentes nada tinham a ver com a guerra e, por isso, a interpretação que Almeida Santos deu ao clausulado do programa relativo à política ultramarina me parecia correcta embora inexequível em termos práticos. O conhecimento que Mário Soares tinha de África, especialmente dos territórios sob administração portuguesa, advinha certamente, aliás como afirmou, dos contactos que mantinha com elementos ligados aos chamados movimentos de libertação, desertores e refractários das nossas Forças Armadas durante os seus exílios pela Europa, que condenavam a nossa presença naquela região do globo. Recordo a sua inoportuna presença na mesa da conferência de imprensa que o padre Hastings deu em Londres uma semana antes da visita oficial a Inglaterra de Marcelo Caetano sobre a morte de civis inocentes ocorrido em Wiriyamu no distrito de Tete em Moçambique. Mário Soares nunca tinha visitado Moçambique, nem tão pouco Angola, não falara com nenhum dos protagonistas envolvidos na operação, mas estava ali para avalizar algo que só conhecia através das informações do próprio padre Hastings. Também este, por sua vez, não tinha estado no local e o seu relato era fruto do que lhe tinha sido dito por dois.padres espanhóis duma missão de Tete. Estes também não eram testemunhas oculares do alegado massacre nem lá se tinham deslocado e baseavam a sua história em informações relatadas pelos sobreviventes que se dirigiram ao hospital de Tete para receberem tratamento médico sem qualquer receio dos portugueses, pois ali a situação era totalmente controlada pelas forças da ordem. Era esta informação difusa e dispersa que constituía a razão de ser daquela conferência de imprensa a que a presença de Mário Soares pretendia dar credibilidade".
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Pg.333
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"Infelizmente, ao nível da execução, devido a factores inopinados e que não foi possível identificar, algo falhou e teve como consequência o incidente que logo na altura e ao longo dos tempos tem vindo a ser empolado e explorado na condenação dos métodos utilizados na forma como foi conduzida superiormente a contra-suversão. É certamente de lastimar o ocorrido que se insere dentro dos riscos inerentes à própria guerra, em especial quando a técnica do inimigo é dissimular-se no meio da população. Mas é curioso e salutar constatar que Portugal, conduzindo uma guerra em três frentes de combate num período de onze a treze anos, apenas um incidente deste tipo tenha sido referenciado e objecto de especulação política a que Mário Soares lamentavelmente se associou, não respeitando Portugal e as centenas de milhares de portugueses que por lá lutaram e alguns morreram. A sua presença naquela conferência de imprensa não poderá deixar de ser vista como um gesto de protagonismo pessoal. Claro que houve outras situações em que pessoas inocentes foram sacrificadas, mas tudo isso se terá de inserir dentro dos «custos» dum qualquer conflito armado. A nós, militares combatentes, apenas nos competia vencer a guerra no terreno para que a solução política fosse possível em condições mais favoráveis e, para tal, dispúnhamos de duas vertentes em que a nossa acção se teria de concentrar: eliminar o inimigo armado ou forçá-lo à rendição e conquistar as populações. Estes objectivos, por exemplo em Angola, foram plenamente atingidos. Mas que sabia o Dr. Mário Soares da guerra ou da própria realidade africana? Da guerra, o seu conhecimento só pode ser teórico e muito longe das condições em que centenas de milhares de portugueses se bateram com coragem e abnegação apesar de todas as carências e dificuldades que tiveram de enfrentar e, na minha opinião, não tinha um suficiente conhecimento de África que lhe permitisse fazer uni juízo concreto e realista da vivência das suas populações. Mas sabia e sabe as razões que o levaram a agir com tamanha destreza logo após o 25 de Abril.

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Em 27 de Abril, Mário Soares regressou a Portugal do exílio, avista-se com Spínola e logo em 29 reúne o Conselho Directivo do PS".
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Pg.334
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"Tudo isto sem que tenha sido ainda definido no Programa do Governo, conforme previsto no do MFA, a política ultramarina. Será de pensar se as linhas-base desta política não tinham sido já definidas em Paris, Praga ou em qualquer outro local da Europa, entre Mário Soares, Cunhal e um ou dois elementos do MFA, onde certamente não faltaria Melo Antunes, o verdadeiro cérebro da descolonização. Importa lembrar que Mário Soares disse ser este o único dos «capitães de Abril» que conhecera antes da revolução ter tido lugar, tendo-se encontrado com ele várias vezes.(...)
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Pg.355
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"Até hoje não apareceram, embora outras fontes tenham vindo a fazer referências a encontros secretos algures na Europa em que toda a estratégia revolucionária teria sido estabelecida. Muitas vezes tenho-me perguntado qual a razão por que a URSS, a partir de 1972 começou a reduzir o apoio ao MPLA, que acabaria por cessar completamente em princípios de 1974.
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Pg.366
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"No entanto Mário Soares está determinado em prosseguir a sua missão. Logo após o comício do 1.° de Maio, parte para uma digressão pelas principais capitais da Europa, donde tinha vindo cinco dias antes, para explicar aos seus contactos quais os objectivos do 25 de Abril, mesmo sem desempenhar qualquer função estatal, sem possibilidades de já ter uma noção clara do que de facto está a ocorrer e que está a fazer esta digressão a pedido de Spínola! E por mera coincidência, simples acaso, logo no dia 2 de Maio encontra-se com Agostinho Neto em Bruxelas. Passados quase vinte e cinco anos após o casual encontro, ainda não revelou o teor da conversa então havida. Agostinho Neto, abandonado pelos seus amigos da União Soviética, sem a sua força de combate mais significativa que se unira em volta de Chipenda, restando-lhe apenas uma escassas dezenas de homens no Congo-Brazzaville completamente desmotivados, era um líder política e militarmente vencido mas o escolhido para se negociar a paz em Angola! Na sequência da conversa havida com Mário Soares, declara ainda em Bruxelas no dia seguinte, isto é, em 3 de Maio, que «a luta não cessaria em Angola enquanto não fosse reconhecido o direito à autodeterminação e independência». Terá sido este o tipo de mercadoria que Soares lhe vendeu? Se alguns poderão ter dúvidas, pessoalmente reservo-me o direito de não as ter com base na evolução dos acontecimentos que vivi intensamente durante todo o processo da descolonização de Angola".
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E não podemos deixar de concluir que foi em 2 de Maio de 1974 que Mário Soares deu o «pontapé de saída» para:
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a descolonização que classificou, primeiro, como um incontestável sucesso, em seguida, de exemplar e, depois de constatar o seu fracasso, de ter sido a possível;o arranque para a reabilitação de Agostinho Neto, o grande derrotado na luta em Angola e abandonado pelos quadros mais válidos do seu próprio movimento;

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a tragédia que conduziu às mais dramáticas situações que se vivem hoje nos países resultantes da dita descolonização e com a qual Palma Carlos não quis ser conivente, demitindo-se das suas funções e declarando: «Não quero morrer como traidor à Pátria»;

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a aceleração da sua trajectória ascencional na política portuguesa.
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Naturalmente que Mário Soares não esteve isolado em toda esta movimentação".
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Pg.377
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"Após ter sido empossado como ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares incrementa a sua actividade no campo específico da descolonização. Para além dos contactos com Agostinho Neto, encontra-se também com Aristides Pereira em Londres e Samora Machel, que cumprimenta com um efusivo e grande abraço, em Lusaka, ignorando tanto Savimbi da UNITA como Holden Roberto da FNLA".
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Pg.348
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"No dia seguinte, o chefe de gabinete informou-me de que seria oportuno avistar-me com alguns elementos da Coordenadora do MFA e com uma delegação do MPLA que, de Angola, se tinha deslocado a Lisboa a fim de apresentar superiormente os problemas que estavam a afectar, duma forma desastrosa, a vida naquele território. Já tinha conhecimento da presença desta delegação, à frente da qual veio o Dr. Diógenes Boavida, embora a generalidade da imprensa referisse, não uma delegação do MPLA, mas nacionalistas incluindo várias tendências políticas. Não manifestei a minha estranheza, mas esta referência não deixava de se inserir na estratégia de reabilitação do MPLA que era notória desde o primeiro encontro de Mário Soares, no dia 2 de Maio, em Bruxelas com Agostinho Neto.
.Aliás esta estratégia foi perfeitamente confirmada por Iko Carreira, um dos homens do Comité Central do MPLA, quando no seu livro O pensamento estratégico de Agostinho Neto afirma: «O MFA (Movimento da Forças Armadas) que tomou o poder em Portugal, através dum golpe de estado, que derrubou a ditadura de Salazar e Caetano, tinha tendências esquerdistas. Esse facto, fundamentalmente, levou-o a dar um maior apoio ao MPLA.»
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No dia imediato, 18 de Julho, encontrei-me com a delegação do MPLA que era chefiada pelo Dr. Diógenes Boavida, advogado formado em Coimbra e antigo jogador da Académica, tendo-se deslocado na companhia de mais cinco elementos. Ouvi-os atentamente, encontrando-se a sua conversa na enorme agitação, com muita violência à mistura, que grassava em Angola e, muito especialmente, em Luanda. Toda aquela confusão era consequência do assassinato dum taxista, no dia 11 desse mês, e não se cingia a uma simples questão rácica, que até nem tinha sido significativa".
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Pg.349
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"O aparecimento de numerosas formações políticas de cariz altamente reaccionário e que conduziam toda a sua actividade no sentido de provocarem a maior instabilidade em todos os sectores em vez de, como seria natural, se preocuparem com a luta política no campo das ideias. Havia vidas humanas que estavam a ser sacrificadas e a guerrilha urbana parecia ter-se instalado sem que as autoridades responsáveis tomassem as medidas adequadas para se acabar com a crise. Apesar de todas as diligências levadas a cabo, parecia-lhes que a solução passava pela substituição imediata do governador-geral e das chefias militares. Não representavam apenas o MPLA, mas igualmente todas as formações políticas cujo ideário era convergente com o daquele movimento que, pela sua maior e mais significativa implementação em toda a Angola, estava em melhores condições para negociar com o Governo português a independência do território. Acrescentaram que lhes tinha constado a intenção do governador-geral de pretender oferecer ao Dr. Jonas Savimbi um lugar no aparelho governativo colonial. Jonas Savimbi, segundo eles, estava à frente dum movimento sem qualquer expressão, a UNITA, e ate combatera na guerra ao lado dos portugueses contra os verdadeiros nacionalistas. Desta forma o governador, em vez de procurar acalmar a situação, parecia «lançar mais achas para a fogueira».
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Disse-lhes desconhecer a política ultramarina do governo central e que apenas tinha conhecimento de que essa política passaria por uma consulta às populações, como aliás o Dr. Mário Soares, ministro dos Negócios Estrangeiros, afirmara recentemente numa entrevista ao «Século»; «Portugal teria o respeito mais absoluto pela vontade das populações livremente expressa, aceitando a independência como uma das opções possíveis do direito dos povos à autodeterminação.»(...)
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P362
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(..)"Agora já não tinha dúvidas de que a constituição da Comissão de Inquérito não passara de um mero expediente, concretizado à última hora, na sequência da minha recusa para «tomar conta de Angola», para se prosseguir dentro de uma linha de acção que visava, prioritariamente, a reabilitação da imagem do MPLA de que o encontro entre Agostinho Neto e Mário Soares era um exemplo e a ida a Lisboa da tal delegação chefiada por Diógenes Boavida, outro indicador bastante claro.
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Após o almoço, fomos informados de que, ao fim da tarde, teríamos uma reunião com a coordenadora do MFA de Angola na fortaleza de S. Miguel onde estava instalado o Comando-Chefe da Forças Armadas. Já durante o café, conversei com o Pavão Machado que, como referi, exercia as funções de comandante da Região Aérea. Comentando a situação afirmou que «Angola estava entregue à bicharada mas nem por isso a Força Aérea deixava de cumprir as missões que lhe estavam atribuídas com o mesmo empenho de antes do 25 de Abril.»
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Referiu-me que tinham activado há uns dias atrás, no Totó a UTCI (Unidade Táctica de Contra-Infiltração) pois haviam recebido notícias, através de mensagens interceptadas, que alguns grupos de guerrilheiros da FNLA se preparavam para entrar em Angola e reactivar a luta armada.(...)"
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P392
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"Evidentemente que tudo isto era uma perfeita mistificação porque, no fundo, quem realmente detinha o poder continuava a ser a tal antena da 5.a Divisão ou do estado maior do senhor Kallenini principalmente através dos oficiais milicianos altamente politizados nos anos 68/69 e introduzidos nas Forças Armadas com o objectivo de as controlar e neutralizar. No fim eram estes senhores, coadjuvados por activistas do MPLA e tendo por conselheiros elementos do PCUS, entretanto infiltrados, que conduziam toda a estratégia, no interior de Angola, para entregar o poder ao MPLA. Era, sem dúvida, um dos «jogadores» a pôr cm prática a sua ordem de batalha para alargar a sua influência a este imenso e riquíssimo território. Havia, no entanto, uma questão que ainda os preocupava e que era por vezes abordada ao nível da Junta: a não resolução do problema da chefia do MPLA onde o entendimento entre as três facções parecia difícil. O congresso agendado para o dia 8 de Agosto nos subúrbios de Lusaka, passados dois dias, ainda não tivera início e grossas nuvens pareciam pairar sobre a sua realização. A luta pelo poder iria ser renhida e, teoricamente, só um vencedor seria aceite pelas entidades que reconheciam ou davam apoio ao MPLA: Agostinho Neto. O próprio Mário Soares, no seu livro, Portugal Amordaçado, dá como certa a nomeação do Dr. Agostinho Neto chefe do Estado Angolano. Mas o congresso não arrancava e a imprensa de Lusaka refere os acontecimentos de Angola, em especial, os incidentes que decorreram nos muceques de Luanda da responsabilidade de grupos afectos ao MPLA e à FNLA. Tratava-se não duma qualquer limpeza étnica, mas tão-só da luta pela conquista da supremacia política em Luanda através da acção do Poder Popular e duma comunicação social orientada para a defesa dos princípios ideológicos da doutrina comunista.
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Entretanto o congresso acaba por arrancar, mas no dia 25 de Agosto, Agostinho Neto fica em minoria após a apreciação de um relatório onde constavam as suas actividades durante a guerra de libertação e que conduziu a um total fracasso e à suspensão de todos os apoios do exterior, principalmente da URSS.(...)
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Pg.402
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"Mas a esperança de ver nascer a companhia de Páraquedistas depressa se transformou em profunda desilusão. Dos vinte e oito homens que tinham recebido a boina verde, cerca de dois terços desertaram nos dias seguintes e todo o projecto morria aqui. Perdia esta batalha, como muitas outras que já havia perdido ao longo da minha vida e mais algumas que, no futuro, ainda haveria de perder. Mas a vida é mesmo assim. Nem sempre se é vencedor e quando, por qualquer razão, a derrota nos bate à porta, temos apenas que considerá-la como um normal incidente de percurso e prosseguir. Os desertores acabaram por ir engrossar o poderio militar do MPLA e os restantes foram passados à disponibilidade, ignorando-se qual o destino que tiveram mas admitindo-se que tenham sido aliciados a ingressar noutro movimento. Tudo tinha sido preparado durante a fase de instrução e aqueles homens de Angola, contrariamente ao que se pensava, não iriam contribuir para a paz e concórdia entre todos os angolanos, mas fortalecer uma das partes em luta pelo poder.
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Desta forma, o movimento de libertação MPLA que na altura do 25 de Abril tinha caído ao seu nível mais baixo de sempre, parecia, a pouco e pouco, ressurgir do lodaçal onde estava atolado. Após duas tentativas frustradas em Lusaka para resolver o problema da direcção, acaba por encontrar uma solução, já em meados de Setembro, no Congo-Brazzaville quando neste país decorria uma conferência de líderes africanos. Agostinho Neto saiu vencedor e Pinto de Andrade e Chipenda, tornados vice-presidentes, depressa desapareceram da cena política. Resolvida esta questão, era importante pensar na componente militar reduzida à sua mais ínfima expressão. Primeiro conseguiram criar o chamado poder popular cuja acção foi determinante para a obtenção da supremacia política dentro de Luanda. Em seguida, com base nos efectivos angolanos que, integrados nas nossas Forças Armadas, iam passando à disponibilidade começaram, com a ajuda de alguns elementos do MFA, a entrar para as FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola). Era a reabilitação do MPLA iniciada por Mário Soares a 2 de Maio em Bruxelas no seu encontro com Agostinho Neto e que não mais tinha cessado de crescer".(...)
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Pg.404
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"Entrava-se no mês de Setembro e a problemática da descolonização continuava um mundo de contradições e indefinições. Ninguém responsável conseguira definir a política ultramarina na sequência do 25 de Abril. Cada um agia de acordo com a sua consciência, os seus interesses ou as directivas recebidas de quem detinha o poder neste campo específico da vida nacional. No exterior, Mário Soares, Almeida Santos, Melo Antunes e outras personalidades de menor relevo, movimentavam-se intensamente para resolver o que consideravam ser o problema primeiro do País.
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Pg.405
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- Para libertar essses povos do jugo colonial?
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- Numa manobra de puro protagonismo em busca duma reafirmação pessoal no espaço nacional e internacional?
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- No cumprimento de directivas dos verdadeiros e mais interessados promotores do problema ultramarino com objectivos bem precisos?
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Analise-se com cuidado o percurso de Mário Soares, desde o 25 de Abril até ao 11 de Março de 1975, ou mesmo antes, quando começou a tomar consciência de que o «poder» que tanto ambicionava e pelo qual lutara tão arduamente durante tanto tempo, parecia escapar-se-lhe e ameaçava cair nas mãos dos comunistas.

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É, no mínimo, curioso verificar que Cunhal, talvez um dos principais interessados em entregar à URSS a tutela dos territórios ultramarinos, nunca se envolveu directamente no processo de descolonização, limitando-se a sua acção a meras declarações de circunstância. Em quantos encontros desde Bruxelas, Londres, Dakar, Argel, Lusaka e outros locais, onde se decidiu o futuro das colónias portuguesas, participou o Dr. Álvaro Cunhal? Mas alguém, minimamente avisado, acredita que o patrão dos comunistas portugueses, esteve inactivo nesta matéria ou se limitou a simples espectador? Seria demasiado ingénuo pensar-se assim. Não deu a cara, como aliás a maioria dos comunistas, para não criar um clima de suspeição e até medo, mas não se limitou a ser um observador atento apesar de as coisas lhe correrem de feição. A sua acção e dos seus correligionários directos manteve-se oculta, mas altamente eficaz. Manobrava na sombra e sempre muito atento ao que se ia desenrolando em todos os quadrantes da vida nacional. Conhecia perfeitamente os objectivos da descolonização (...)"
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Pg.407/9

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Pg.408
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(...) "Depois entregou-se, de alma e coração, à luta pelo poder no pequeno rectângulo com os apêndices das ilhas atlânticas. Haverá mais um protagonista da descolonização bastante badalado que, na minha opinião, se limitou a apanhar o comboio mas sem conhecer exactamente o destino desse comboio. Afirmou-se, inicialmente, pela defesa de princípios genuinamente democráticos, mas depressa compreendeu o desvario que parecia ter-se instalado no processo da descolonização. Apesar de tudo, o seu envolvimento forçado pelas funções que desempenhava — Ministro da Coordenação Interterritorial — mostrou em muitas situações, particularmente difíceis, tentar rumar contra a maré e encontrar as soluções mais adequadas naquela completa e perfeita tragédia que caiu sobre aqueles povos e os arrastaria para o lodaçal onde ainda hoje alguns sobrevivem e outros se arrastam para a morte. Trata-se, naturalmente, de Almeida Santos"(...).
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Ao rever o programa do movimento das Forças Armadas, ainda antes do 25 de Abril, quando foi chamado a protagonizar o golpe militar, em nada alterou do que nele constava a respeito da política ultramarina apesar de tal questão já ter sido objecto de acesa polémica entre os «abrilistas» com várias versões, mas vencendo a que deixava tudo em aberto e que não mereceu qualquer reparo do Gen. Spínola até ao eclodir da revolução. Após a sua concretização vitoriosa e antes de se divulgar o plano, o já Presidente da Junta de Salvação Nacional exige alterações de fundo na definição da política ultramarina que conduziram a todo um conjunto de cisões entre os revolucionários que acabaram por facilitar a missão aos verdadeiros promotores da descolonização e seus agentes. Seria inimaginável alterar os planos cuidadosamente elaborados pelos responsáveis do golpe em matéria de política ultramarina. Recorde-se, que mesmo antes do programa se tornar público, já Mário Soares se encontrara com Agostinho Neto em Bruxelas e com Aristides Pereira em Dakar. Não foi certamente tratar de assuntos privados mas, sem dúvida, preparar o terreno para o que viria a constituir uma das maiores tragédias da história contemporânea de Portugal (...)"
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Pg.430
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"MPLA – Completamente destroçado militar e politicamente, sem força e com graves problemas internos, inicia a sua recuperação logo a 2 de Maio no encontro de Mário Soares com Agostinho Neto em Bruxelas e, dias depois, com o diplomata Nunes Barata em Genebra. A partir daqui desconheço as diligências das nossas autoridades para conseguirem o cessar-fogo. Apenas tive conhecimento das dificuldades que o MPLA sentiu para encontrar um líder que só poderia ser Agostinho Neto ao qual restavam umas dezenas de guerrilheiros estacionados no conjunto fronteira de Cabinda.
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Consegue, entretanto, criar o poder popular e instalar o caos e a insegurança em Luanda. Acaba por assinar um cessar-fogo nas «terras liberadas» da chana no Leste de Angola que, para além de tudo mais, deixou a porta aberta para a formação do seu exército (as famosas FAPLA) à base da maioria dos quadros e soldados que passavam à disponibilidade com a extinção da quase totalidade das unidades das nossas forças armadas do recrutamento local. Mais uma vez numa clara posição de força, deu-se tudo - mais uma vitória do MFA com a prestimosa colaboração de Mário Soares".
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Pg463
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(...) "É importante salientar que Mário Soares, tendo iniciado uma autêntica maratona em prol da descolonização, logo após o 25 de Abril, e que teve como ponto de partida Bruxelas, onde se encontrou com Agostinho Neto e depois, para além de outros países europeus, se estendeu a África, nomeadamente Argélia, Zâmbia, Zaire, Senegal, Tunísia, nunca considerou ser importante fazer uma visita aos territórios que eram objecto de negociações visando a sua independência.
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Naturalmente que isso seria o mínimo que se poderia esperar de qualquer dos principais obreiros da descolonização se, de facto, eles estivessem preocupados em defender os interesses de Portugal dos povos desses territórios. Pelos fins de Novembro, já ninguém em Angola tinha dúvidas de que apenas os movimentos de libertação seriam os únicos interlocutores nas negociações com Portugal. Para além de outras vozes discordantes, a FUA reage através de um comunicado, denunciando a traição de que estava a ser vítima a grande maioria do povo angolano (...)"
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Pg.466
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(...)" Com este comunicado a FUA, de Fernando Falcão, parece ter acordado e denuncia toda a traição que tem envolvido o processo e confirmada pelas falsas declarações dos principais responsáveis quanto à participação de outras forças políticas. Só agora, em princípios de Dezembro, o Eng.° Falcão tomou consciência do logro em que tinha caído com as falsas promessas de Rosa Coutinho e Melo Antunes. Mas esqueceu-se de Mário Soares que, mesmo antes do enunciado dos princípios que deviam presidir à descolonização em Angola pela Junta de Salvação Nacional, já afirmava que os únicos e legítimos representantes das suas populações eram os movimentos de libertação.
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Pg.468
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(...) "A situação era nestes finais de Dezembro altamente complexa, parecendo que os campos se extremavam e que iríamos ter os dois «jogadores» em confronto no palco de Angola. Já não tinha dúvidas quanto à intenção do Rosa Coutinho e da «rapaziada» da estrutura do MFA de Angola de que tudo deveria ser conduzido de molde a dar o poder ao MPLA, como referira Mário Soares em Portugal Amordaçado. O repórter do «London Observer» escreve de Luanda a 30 de Janeiro de 1975: «O Almirante Rosa Coutinho — então Alto-Comissário português — e muitos outros oficiais portugueses aqui presentes manifestam simpatia pelo MPLA e este facto levanta suspeitas, entre os outros dois grupos e grande parte dos brancos de Angola, de que a administração planeia apoiar o MPLA.» Muito posteriormente, em 1987, quando Rosa Coutinho participou no programa canadiano «Novas Guerras de Libertação — Angola afirmou: «Eu sabia perfeitamente que não se poderia realizar naquela altura eleições, porque Angola se encontrava ainda a viver um período de turbulência... Eu afirmava então que a única saída seria reconhecer o MPLA como única força capaz de dirigir o território e que Portugal devia fazer um acordo separado com o MPLA e transferir o poder para aquele movimento na data fixada para a independência, 11 de Novembro de 1975.»(...)
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Pg.473
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(...)"A FUA luta desesperadamente para, conforme sucessivamente prometido, ter um papel activo no processo de descolonização. Esqueceu-se Fernando Falcão, curiosamente como secretário de Estado adjunto que, já em Maio, Mário Soares considerava os movimentos de libertação os únicos e legítimos representantes dos povos dos territórios colonizados e chegou a afirmar que só o MPLA e a FNLA deviam ser considerados, o que não deixa de ser insensato uma vez que estes dois movimentos tinham extremado as suas posições tornando impossível qualquer tipo de consenso. Afinal representavam confessadamente interesses externos que não se combatiam de armas na mão, conforme se deduz das palavras de Kissinger, ao apoiar a FNLA para impedir o alastramento do comunismo soviético em qualquer parte do mundo. Entretanto outras cartas são lançadas para o baralho para mais complicarem o jogo já de si muito pouco claro e com «batota» evidente da maioria dos jogadores (...)"
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Pg.504/6
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"11 de Janeiro de 1974, Hotel da Penina. (...) A peça teatral, sem qualquer ensaio prévio, visava mascarar a traição ao povo angolano e iria ter com certeza o aplauso duma parte do mundo. A farsa resultara em cheio, mas o drama catastrófico viria depois e iria arrastar-se por longos e infindáveis anos até ao holocausto final. E aquela grande parte do mundo que rejubilou na altura, hoje nem tem consciência da tragédia que ajudou a promover. Ou talvez a tenha, mas cobardemente opta por tudo branquear sem coragem para assumir a sua quota-parte de responsabilidade. Dois exemplos claros podem ser apresentados. Muito recentemente, neste Verão de 1999, Melo Antunes considerou como tragédia a descolonização da qual ele foi um dos principais condutores, enquanto o seu parceiro de acção, Mário Soares, confiando na falta de memória do povo e no oportunismo intelectual dos que sabem o que realmente se passou, cala e não tem coragem para assumir a sua própria e grande irresponsabilidade, escondendo-se por detrás de banalidades, falando da descolonização possível.
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Pg. 540
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"(Rosa Coutinho) Naturalmente não saiu satisfeito, sendo esta a primeira e a última vez em que falámos a sós. Não encontrara em mim um Rosa Coutinho disposto a apoiá-lo e a levá-lo ao poder. Entretanto também não podia contar com o seu amigo Mário Soares que se tinha aposentado da descolonização, porque outras questões mais importantes se perfilavam na sua frente como a subida ao poder em Portugal (...)"
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Cidade do Kuito completamente destruída. Eis o resultado da "descolonização exemplar".

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Perante este "excelente" currículo de Mário Soares referente à descolonização de Angola poderemos concluir que foi um dos grandes culpados pela tragédia que se abateu sobre o povo de Angola, brancos, pretos e mestiços e que provocou a destruição de um país, milhares de mortos e estropiados e que, de um país próspero e rico que era em 1975, hoje é um dos países mais pobres que tem de recorrer à ajuda internacional para subsistir porque a riqueza está nas mãos de alguns camaradas, dos kuribecas e dos previligiados.

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Por isso, o almirante vermelho Rosa Coutinho e Mário Soares são as pessoas mais execradas pelos portugueses que nasceram e viveram em Angola !
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Foram poucos os protagonistas na implementação desta estratégia mas muitos os «usados», os «oportunistas» e os «ingénuos». O cérebro da chamada descolonização foi materializado, no contexto nacional, por Melo Antunes, utilizando Mário Soares como motor de arranque que não parou até ter entregue nas mãos dos nacionalistas africanos ligados à URSS os destinos daqueles ricos e estratégicos territórios. "Nelas participavam portugueses, nossos concidadãos, traidores, que não enviando ultimatos, mas escondendo-se sob manto hipócrita dos Direitos do Homem, aí decidiram a estratégia para acabar com o tal Portugal pluricontinental e multi-racial. Mas contém essa carta de Norton de Matos um último ponto da maior relevância: «Temos dentro da nossa casa o inimigo na pessoa dos comunistas». Comunistas que foram, sistemática e arduamente, combatidos pelo Estado Novo e, aparentemente, sem sucesso. Obrigou-os a actuar na clandestinidade e causou-lhes alguns «incómodos». Mas permaneceram, engrossaram, disseminaram-se e nos últimos tempos, graças a uma boa fatia dos elementos do MFA e com Vasco Gonçalves na chefia do Governo, quase foram capazes de controlar o País, dominando todos os sectores da vida nacional. O polvo lançara os seus tentáculos, movendo-se com rapidez e segurança para garantir os tais objectivos decididos algures na Europa com a presença de compatriotas nossos e pouco tinha a ver com as tais «amplas liberdades» e a almejada democracia (...)".
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Poderá e deverá perguntar-se, porque corria Mário Soares? Mário Soares, curiosamente o que menos conhecia da realidade dos territórios africanos ligados a Portugal, era o mais activo. Mantivera, durante o exílio, alguns contactos com os principais líderes dos movimentos de libertação que, movidos por interesses raramente coincidentes com os das populações, lhe transmitiam uma imagem parcial, distorcida e falseada que não podia servir de base à acção que vinha desenvolvendo. Ao considerar os movimentos de libertação como os únicos legítimos representantes dos povos desses territórios, não incluía a grande massa de trabalhadores que nunca tinha pegado em armas mas que dera um contributo altamente válido para o desenvolvimento e progresso dessas regiões".(...)
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Mas Mário Soares não pára, emergindo como o grande condutor dos novos destinos da Nação. Durante as comemorações do 1." de Maio ao lado de Álvaro Cunhal declara, que o primeiro passo para acabar com a guerra «consistirá em negociar com os movimentos de libertação», em sintonia com as palavras de ordem do PCP que proclamam «pelo fim da guerra colonial, pela suspensão imediata de todas as operações militares nas colónias, pela abertura de negociações com o MPLA, PAIGC e FRELIMO». E curioso salientar a falta de referências aos outros dois movimentos de Angola: UNITA e FNLA. Será altura de se pôr a questão sobre o tipo de interesses que são defendidos pelos movimentos de libertação: se duma qualquer superpotência, se a ambição pelo poder dos seus líderes ou se a vontade da grande maioria das populações dos territórios onde grassava a subversão e que não aderiram a esta subversão?"
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in PortugalClub



in Mundo Phonographo


href="http://mundophonographo.blogspot.com/wiki/1898">1898)



Mapa Francês de África >(c. Partilha_da_África).
Períodos das independências dos países africanos(História da colonização)..* Victor Nogueira.
Ao contrário dessa autêntica fraude histórica que é Otelo Saraiva de Carvalho, não tomei notas para a posteridade e sou um Zé Ninguém face a «homens» da envergadura daquele ou do Senhor General Silva Cardoso [1]
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A história é normalmente «escrita» pelos vencedores e pela classe dominante, pois os dominados são geralmente «analfabetos» e da sua visão ou versão ao longo da história poucos testemunhos restam. E alguns desses são escritos por «trânsfugas» como Bartolomeu de Las Casas, António Vieira duma outra Companhia, ou cuja «escrita» foi revelada pela revelação da Pedra da Roseta, devido a «traidores» como Napoleão à Revolução Francesa, combatidos pelas retrógradas forças que defendiam a «Ordem» coligados numa Santa Aliança, derrotadas pelo seu génio militar.
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O minorca e então brilhante e genial estratega militar mas desprezado corso espalhou por toda a Europa os ideias da Revolução Francesa, «Liberdade, Igualdade e Fraternidade» e permitiu o desenvolvimento do capitalismo e o domínio da então «progressista» burguesia, que então mas não hoje proclamara que «Só não há Liberdade para os inimigos da Liberdade!».
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O então poderoso Buonaparte coroou-se a si próprio imperador, humilhando o enviado do Papa, defensor da origem divina do Poder Monárquico parasitário e Absolutista aglutinado numa Santa Aliança, em contraposição ao Poder Popular falsamente defendido pela Burguesia ou 3º Estado, senhora de facto da nova Ordem e então progressista modo de produção capitalista, hoje travestido de «liberal» «economia de Mercado», apropriando-se dum sistema de troca e determinação do valor das mercadorias de existência milenária em todo o mundo, coexistindo com sistemas de Governo baseados na Escravatura ou na servidão da Gleba.
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Buonaparte foi um génio militar com tácticas inovadoras, tal como Júlio César, Alexandre o Grande, Aníbal, Gengis Khan, Filipe da Macedónia, Nuno Álvares Pereira, Vo Nguyen Giap, Nzinga Mbandi Ngola, os árabes que ocuparam a península ibérica e portadores duma civilização superior e mais tolerante que a dos intolerantes e mal-cheirosos cristãos, assim considerados pelos Japoneses.
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Robespierre, o grande «terrorista» vermelho, foi guilhotinado pelos «brancos», cujo terrorismo homens como os herdeiros da «Brigada do Reumático» esquecem. E Marat, o amigo do povo, foi assassinado à traição, tal como o anti-esclavagista Abraham Lincoln. Na altura a guilhotina foi um processo de execução da pena de morte muito mais civilizado que o utilizado pelas «parasitárias» Monarquias Absolutas, pela Santa Inquisição, pelos EUA ou mesmo pelo então «progressista» Marquês de Pombal. Note-se que não sou adepto da pena de morte, de linchamentos ou de julgamentos sumários.
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Vem o senhor General Silva Cardoso, na esteira de outros políticos apolíticos com a defesa de que a independência das colónias deveria resultar dum referendo às populações locais. Espantoso. Salazar/Caetano alguma vez realizaram eleições livres em Portugal ou nas colónias? Salazar/Caetano alguma vez permitiram a discussão do problema das colónias? Salazar/Caetano alguma vez aceitaram negociar com os movimentos de libertação para uma descolonização pacífica? Salazar e Caetano alguma vez admitiram a capacidade eleitoral e a consciência autodeterminada e a cidadania dos portugueses, sobretudo das mulheres, e dos povos das colónias? Aliás, alguém põe hoje em causa a independência de Portugal, dos Estados Unidos, do Brasil, entre muitas outras, feitas por vassalos ou colónias pela força das armas e sem qualquer consulta popular prévia?
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Salazar manobrou habilmente para se tornar o chefe todo poderoso dum regime nascido duma sedição militar encabeçada por sediciosos Generais e tenentes, mantido com a ajuda da censura dos coronéis do lápis azul e Presidentes da República recrutados nas Forças Armadas pelo partido único permitido União Nacional/Acção Nacional Popular e apeado pelos sediciosos capitães de Abril apesar das reverências dos generais da brigada do Reumático, com excepção de Spínola e Costa Gomes!
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Seguindo o pensamento do Senhor General Silva Cardoso, será fundamentada a minha «impressão» que os oficiais do Quadro Permanente que estiveram por detrás do «sedicioso» Movimento das Forças Armadas ou aceitaram fazer parte da heterogénea Junta de Salvação Nacional, quebraram o voto de fidelidade ao regime que livremente juraram defender, perdendo deste modo a honra militar? Se tivessem sido derrotados, apesar do apoio espontâneo das populações, que destino lhes reservariam o Almirante Américo Tomaz e o General Kaúlza de Arriaga?
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Tivesse vencido a ala spinolista em 11 de Março, que destino teria sido dado aos capitães de Abril? Que destino foi reservado a muitos deles após o 25 de Novembro de 1975, apesar de não terem vencido as ideias do Coronel Jaime Neves? Que democracia existiria em Portugal? Uma igual àquela que agora revela a sua face verdadeira, a «pura», iniciada com Mário Soares, Ramalho Eanes e prosseguida por Sá Carneiro e Cavaco Silva e em vias de instauração por José Sócrates, que agora «preocupa» tanto general democrata envolvido no 25 de Novembro?
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Depois há quem esteja sempre a aprender, talvez devido a uma congénita ingenuidade e falta de massa cinzenta. Mário Soares apoiante do MPLA e de Agostinho Neto? E a minha «fraca» memória regista que à revelia da Internacional Socialista ele não reconheceu o MPLA mas mantinha relações preferenciais com a UNITA e Savimbi! A Internacional Socialista a «soldo» de Moscovo? O Papa Paulo VI ingénuo cegueta ao receber os representantes da Frelimo, do MPLA e do PAIGC, para desespero de Salazar? E como classificar a heterogénea Organização da Unidade Africana que desde sempre reconheceu estes três movimentos «terroristas» como legítimos representantes dos respectivos povos, que retirou o apoio à FNLA e só em 1975 reconheceu a UNITA?.
Wiriamu um massacre inexistente ou um «dano» colateral numa guerra «limpa» e civilizada, onde aos «terroristas» eram reconhecidos os direitos da Convenção de Genebra, tratados com todo o amor, ternura e carinho militar? Nem um massacre das populações negras perpetrados pelos brancos ou pelas Forças Armadas Portuguesas? E que dizer da «liberdade» das populações negras em serem obrigatoriamente «acantonadas» em povoações aquarteladas? Corrijam-me se a minha perplexidade não tem fundamento!
.
Portugal não esteve presente quando o MPLA proclamou a
independência de Angola e foi um dos últimos a fazê-lo, quando muitos países do «Mundo Livre» já o haviam feito. E se o Português tem a expansão mundial que tem, não é devido à política «civilizacional» de Salazar/Caetano mas ao facto de o português ter sido adoptado pelos Governos post independência para cimentar a unidade nacional de colónias artificialmente desenhadas a régua e esquadro na Conferência de Berlim, separando e juntando povos diferentes, e porque a ONU decidiu que as independências descolonizadoras deveriam respeitar essas fronteiras artificiais.
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Estarei enganado e falho de memória ao escrever que o racista general Norton de Matos, opositor de Salazar e também insuspeito de simpatias comunistas queria transferir a capital do Império para o centro de Angola, numa cidade criada de raíz chamada Nova Lisboa, depois capital de Savimbi e da UNITA? Estarei enganado ao pensar que Champalimaud após o falhado Golpe das Caldas defendia o desenvolvimento e aproveitamento local das matérias primas com a industrialização dos territórios ultramarinos? Terei lido mal um discurso de Champalimaud em que este defenderia a mudança da capital de Portugal para Angola? Se não estou enganado, Champalimaud um traidor à Pátria a soldo de Moscovo?
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E eu a pensar que o slogan «Nem um soldado para as colónias já!" a a «Revolução a Todo o Vapor» eram palavra de ordem dos maoístas e outros ultra-revolucionários inimigos do «social-fascista» PCP, que apoiavam o «ultra» Otelo! Durante a guerra colonial havia apenas dois partidos organizados nas Forças Armadas Portuguesas: os apoiantes compulsivos ou não da União Nacional/Acção Nacional Popular bem como os oficiais da geração NATO, anti-Pacto de Varsóvia, e os membros do Partido Comunista Português que não se exilaram na Europa, antes receberam instruções para aceitarem a incorporação compulsiva nas Forças Armadas Portuguesas, que em 25 de Abril não saíram à rua em defesa dum regime político apodrecido que há muito deixara de ter apoio dos Estados Unidos da América e dos Países Nórdicos. Corrijam-me, se estou enganado.
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Alguém obrigou as licenciadas tropas locais negras a aderirem ao MPLA? Um «crime» este ter pedido o auxílio de Cuba e da URSS face ao «desinteressado» auxílio militar estrangeiro prestado por um corrupto
Mobutu ou pela racista e internacionalmente condenada União Sul Africana? Militarmente derrotado o MPLA? E então qual a situação da UNITA? Estão enganados aqueles que dizem que esta foi uma criação do General Costa Gomes e da PIDE, explorando o tribalismo para atacar como aliado o «nacionalista» MPLA?
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Lembro-me duma entrevista na Televisão Portuguesa feita em simultâneo ao engenheiro Eduardo dos Santos e ao Dr. Jonas Savimbi. à mesma pergunta do jornalista, o primeiro afirmou que o MPLA reconheceria e aceitaria o veredicto popular. Já Savimbi afirmou que apenas aceitaria a vitória da UNITA. É verdade ou não que os resultados eleitorais, favoráveis ao MPLA em eleições cujo resultado foi internacionalmente reconhecido, foram recusados pela UNITA, o que deu origem à sangrenta guerra civil angolana, aceitando Savimbi o apoio do regime do Apartheid?
.
Critica-se Rosa Coutinho de ter desarmado os brancos em Luanda, os mesmos que vítimas de lavagens ao cérebro durante treze anos, da cegueira de Salazar e da tibieza de Marcelo, defensores do não racismo, em Angola e Moçambique tenham pedido a intervenção da União Sul Africana e apoiado a RENAMO e a UNITA? Que seria da unidade angolana e dos portugueses se Savimbi tivesse ganho a guerra? Quem teriam apoiado a maioria dos brancos de Angola se em Luanda estivessem armados e envolvidos na guerra entre a UPA/FNLA, a UNITA e o MPLA? Quantos teriam regressado vivos a Portugal, onde o seu dinamismo e «vistas largas» de muitos foram um alento para o desenvolvimento económico e refizeram com mais ou menos sucesso a sua vida, com olhos no futuro e genericamente integrados na democracia nascida com o 25 de Abril?..
[1] -
Angola, Anatomia de uma Tragédia, do General Silva Cardoso.

sábado, maio 03, 2008

Vai Água!




JORNAL DE ANGOLA online - Notícias de Angola para o Mundo

Da declaração de Agualusa ressalta mais um sinal da sua incapacidade de

discernir, com justeza, quais os conceitos, os valores e as palavras adequados

a um objecto com o qual tenha uma relação de competição, nomeadamente se

for a literatura angolana. Além do mais, Agualusa fez a acusação de que a sua

declaração sobre a qualidade literária de Agostinho Neto ter sido envolvida

numa polémica que seria política só pelo desejo dos outros, como se ele fosse

um inocente e ninguém tivesse memória. Ora, no blogue dirigido por Inácio

Rebelo de Andrade (www.huambino.blogs.sapo.pt), o escritor Leonel Cosme

recordou algumas outras frases polémicas de Agualusa, que quase fizeram

história, como aquelas em que ele considerou, a dada altura, Durão Barroso

um político de que não ficaria memória. Teremos de aguardar o decurso da

história. Em contraponto, Agualusa elogiou Mário Soares como grande político

português, o que é inquestionável, mas devo acrescentar que talvez o tenha

feito também e sobretudo, mas isto é uma especulação, por este ser um

antipático do MPLA de Agostinho Neto, sobretudo no pós-independência, e um

simpático para com a linha de Savimbi. Parece, então, que Agualusa,

politicamente, não se libertou dos pre(con)ceitos antigos e que continuará a

falar por intermédio de visões anquilosadas do tempo da Guerra Fria,

interesses obscuros que se apresentam como da máxima liberdade e

frontalidade, não suportando o facto, muito simples e evidente, de Agostinho

Neto ser o poeta da libertação e do povo, o poeta nacional angolano,

representando para Angola o que Rosalia de Castro representa para a Galiza,

Withman para os Estados Unidos ou Nazim Hikmet para a Turquia.

Agostinho Neto não é um poeta medíocre. Tudo estaria certo, e Agualusa não

seria “incomodado” e incomodativo, se opinasse, por exemplo, que Neto não é

um poeta da sua preferência ou que, para ele, não é o poeta mais

representativo de Angola. Estava no seu direito e não agredia o que quer que

fosse. Porém, dizer que é um poeta medíocre só pode ser interpretado como

provocação, como verdadeira tirada de mau gosto, vontade de exuberância

mediática, ressabiamento político, etc. Eu permito-me aqui uma “profecia” em

relação a Agualusa: na história da literatura angolana, daqui a dois ou três

séculos, continuará a constar, em grande plano, a poesia de Agostinho Neto,

como algo matricial e tutelar. E, comparada com a obra de Neto, Pepetela,

Luandino, Uanhenga, Maimona, Ruy Duarte de Carvalho, Mena Abrantes ou

Manuel Rui, a de Agualusa terá sempre direito a três ou quatro parágrafos a

menos ou, ainda, a uma referência breve na história da literatura portuguesa.

Creio que esse é o verdadeiro drama de Agualusa: ser menos representativo

do que se julga e apostar na raiva lusitana contra o MPLA de Agostinho Neto,

de que ele próprio é um dos ateadores, por cima de toda a compreensão

objectiva e histórica das condições estratégicas e tácticas da luta de libertação,

da independência e da pós-independência de Angola. Só para espíritos

cabotinos é que a poesia de Neto será medíocre. E as suas são frases típicas de

um cabotino, que o dicionário define do seguinte modo: “cómico ambulante (…)

pessoa presumida e que gosta de ser o centro das atenções, ostentando, com

modos teatrais, qualidades que a maior parte das vezes não tem”.

Há escritores assim, talentosos para os divertimentos, peritos em manobras de

diversão, com os seus ódios de estimação. São escritores de lugar nenhum e

de todos os lugares, explorando uma literatura em viagem, de um

http://www.jornaldeangola.com/artigo.php?ID=82945&Seccao=cultura (2 of 4) [27-04-2008 20:01:00]

Água vai!





JORNAL DE ANGOLA online - Notícias de Angola para o Mundo

Agostinho Neto não é um poeta medíocre

Pires Laranjeira

José Eduardo Agualusa (n. em Angola, Huambo, em 1960) considerou, como

se sabe, numa entrevista ao Semanário Angolense, que Agostinho Neto (n. em

Angola, Icolo-e-Bengo, em 1922; m. em Moscovo, em 1979) é um “poeta

medíocre”. Ele ainda associou dois outros poetas angolanos da Geração da

Mensagem e Cultura (II )(anos 50), salvando, por exclusão de partes, o poeta

Viriato da Cruz, do qual é um admirador confesso: “uma pessoa que acha que

Agostinho Neto foi um poeta extraordinário é porque não conhece

rigorosamente nada de poesia, (…) foi um poeta medíocre (…) o mesmo se

pode dizer de António Cardoso ou António Jacinto”. Para perceber esta

afirmação, é necessário ter em conta que apenas são conhecidos 12 poemas

de Viriato, incomensuravelmente menos do que os de António Cardoso e

António Jacinto, tendo este último escrito também uma meia dúzia tão

importante, consagrada e conseguida quanto a meia dúzia daquele (em

Portugal, para quem não saiba ou não se recorde, o grupo Trovante e Sérgio

Godinho tiveram grande êxito, nos anos 80, cantando um poema de Viriato,

“Namoro”, que a maior parte do público pensava ser um texto português).

A minha opinião é que, para Agualusa, os dois Antónios são “medíocres”, não

por que o sejam, mas por terem continuado no MPLA, até falecerem, sempre

ao lado de Agostinho Neto, enquanto Viriato foi um adversário politicamente

derrotado no interior do movimento, no início da década de 60. Agualusa, de

facto, não consegue desligar a qualidade literária do percurso político das

pessoas. Do mesmo modo se pode dizer que, se os leitores de Agualusa

avaliassem os seus textos literários pelas opiniões que expende a propósito dos

assuntos mais variados, como aquela afirmação inacreditável de que a língua

portuguesa nasceu na Galiza (omitindo Portugal, porque lhe dava jeito,

naquele momento, agradar ao público africano e brasileiro), seriam forçados a

concluir que ele, muitas vezes, exagera, diz coisas mirabolantes ou mesmo

delirantes, é impreciso e inexacto, entre outras menos abonatórias, como a de

diminuir a poesia de uma referência nacional. A questão principal é que

Agualusa age como um cabotino que diz coisas extraordinárias, por exemplo, a

respeito de Saramago, classificando-o como um “niilista” e um “velho”, quando

qualquer leitor percebe que o Nobel é um escritor sério, responsável e

respeitável.

Às declarações de Agualusa ao semanário angolano, seguiram-se as reacções

de vários intelectuais, entre os quais Artur Queiroz, António Fonseca, Sousa

Jamba e Luís Kandjimbo, com alguma repercussão na comunicação social

portuguesa, embora sem o alcance registado em Angola, até obviamente pelas

diferenças de espaço concedido (em Portugal, circularam breves notícias) e

porque o calor da refrega tem o seu epicentro, de facto, em Luanda. Agualusa

saiu chamuscado e, depois, queixou-se de que, aproximando-se as eleições em

Angola, se tratava de uma intimidação, sobretudo porque um universitário

angolano da área do Direito punha a hipótese (absurda, é verdade) de ele

poder ser responsabilizado criminalmente por atentar contra o nome de uma

figura icónica do Estado e da Nação.

http://www.jornaldeangola.com/artigo.php?ID=82945&Seccao=cultura (1 of 4) [27-04-2008 20:01:00]

quarta-feira, abril 30, 2008

Crise de alimentos, segurança alimentar e agricultura sustentável



NOVO JORNAL DE 18 DE ABRIL DE 2008

Crise de alimentos, segurança alimentar e agricultura sustentável

Angola tem condições para envitar alguns males que a actual crise alimentar provoca através de uma política agrícola mais autónoma e substentável

Fernando Pacheco
A REFLEXÃO ACADÉMICA e científica sobre de¬senvolvimento é muito pobre em Angola, prin¬cipalmente quando se trata de desenvolvimen¬to rural, o que é explicado pela subalternização da investigação científica e dos problemas rurais no quadro das prioridades do Governo. A forma como se (não) tem abordado a crise do aumento dos preços dos alimentos entre nós é apenas mais uma evidência disso.

Acabada a guerra, aumentou naturalmente o in¬teresse na produção camponesa - que errada¬mente continua a ser considerada de subsistên¬cia, ignorando-se que ela foi responsável pela auto suficiência alimentar de Angola em termos líquidos até 1973 - pelo papel que pode ter na redução do peso do petróleo no Produto Inter¬no Bruto. Como durante mais de trinta anos es¬ta questão esteve longe do centro do debate na¬cional - excepto quando os preços do petróleo baixaram para níveis considerados inquietantes -, não há hoje ideias claras sobre a forma de li¬dar com ela.

Entendo que o desenvolvimento ou é sustentá¬vel, isto é, continuado e com condições para se ampliar e reproduzir, ou não é desenvolvimento. Para isso é fundamental que se tenha em consi¬deração, entre outros, o factor humano. Ignorar os sistemas de produção praticados pelos campo¬neses, que têm garantido, em situações normais, a sua sobrevivência, é um erro crasso. O aumento da produção em condições como as de Angola pode ser encarado sob duas diferen¬tes correntes de pensamento. Uma, a "produtivista", põe o foco no resultado, isto é, na produ¬ção em si, e esteve na base da chamada revolução verde, que permitiu progressos espectaculares na produtividade, mas não acabou com a fome nos países onde ocorreu, excluiu a mulher ou re¬duziu o seu papel no processo de tomada de de¬cisões relativas à produção agrícola e tem pro¬vocado sérios danos ambientais. Outra corrente é a "ecológica" ou "sustentável", que dá ênfase ao processo de transformação gradual dos siste¬mas tradicionais, em que o produtor, o elemento-chave, ganha consciência da necessidade de tal transformação, e tem mais preocupações com a preservação do ambiente. Ela preconiza a evolu¬ção para os chamados sistemas agro-silvo-pastoris, baseados na associação de culturas anuais ou fruteiras, com a criação de gado e a exploração florestal, pois, se o agricultor tiver gado e explo¬rar a floresta - natural ou plantada - poderá dis¬por de matéria orgânica para melhorar a estru¬tura dos solos, reduzir a sua acidez e defendê-los contra a erosão, males que afectam a produção em quase todo o território narional e contribuem para a degradação ambiental. Ao contrário do que é hoje o pensamento dominante em Angola, esta linha - e não a produtivista - é considera¬da mais "moderna" ou avançada a nível mundial, e não é de estranhar que os chamados produtos orgânicos sejam os mais caros em qualquer su¬permercado dos países desenvolvidos. Ao mesmo tempo, ela confere menos dependência em rela¬ção aos mercados internacionais, o que se revela particularmente importante nos dias de hoje. Se se tivessem em conta os tais saberes e siste¬mas, muitas das catástrofes alimentares pro¬vocadas por irregularidades climáticas seriam evitadas. É verdade que os actuais sistemas de produção são menos produtivos que os "moder¬nos", mas são claramente social e ecologica¬mente mais sustentáveis. Nestes últimos anos os camponeses que semearam milho, massango e feijão de variedades mais resistentes à seca e às pragas e doenças, ou plantaram mandioca ou batata doce, estiveram mais protegidos contra a seca. Não foi por acaso que este ano, nas provin¬cias de tradição de mandioca - cultura que nun¬ca mereceu atenção por parte da investigação no tempo colonial - não há tanta fome como nas produtoras de cereais com variedades conside¬radas mais produtivas. Os preços da fubá não su¬biram tanto nos mercados de Malanje como nos dos municípios da Huíla hoje considerados o ce¬leiro do País.

Uma instituição científica como o Centro Nacio¬nal de Recursos Fitogenéticos, que tem recolhido por quase todo o território, preservado e multi¬plicado material que reconhecidamente dá mais garantias aos pequenos agricultores, apesar de algumas melhorias recentes é praticamente ig¬norado, e só a persistência dos seus membros faz com que não caia no esquecimento total. Infeliz¬mente ainda há outras prioridades que se sobre¬põem à segurança alimentar de milhões de ango¬lanos.

Angola tem condições para evitar alguns dos ma¬les que a actual crise alimentar provoca, porque ainda está a tempo de definir uma política agrí¬cola mais autónoma e sustentável. Para isso tem de reflectir e debater sobre algumas das opções que se desenham e põem em perigo tal opção, como a criação de gado de larga escala e a produ¬ção de biocombustíveis sem que condições téc¬nicas e científicas estejam reunidas para tal. Vol¬tarei ao assunto.

terça-feira, abril 29, 2008

Horror ao Vazio-Texto de Pepetela


HORROR DO VAZIO


Sei que pode parecer repetitivo, mas afligem-me as megalomanias se apossando de algumas cabeças que assumem responsabilidades em relação a Luanda. Uns tantos acham que merecemos ter uma capital no estilo Singapura ou Hong Kong, com torres de quarenta andares (no mínimo) ao longo do mar. Não é forçosamente para amealhar umas comissões, como imediatamente pensam os nossos cérebros borrados de preconceitos, embora uns tantos aproveitem. Nada de novo, afinal: o mundo está cheio de processos por causa do imobiliário e o cinema e a literatura até já esgotaram o tema. O que me preocupa é muita gente estar sinceramente convencida que isso é que é bonito e assim é que será viver bem. Têm horror ao vazio que nas suas cabeças significa uma praça, um jardim, um parque, um desperdício de espaço que ficaria melhor com uma torre no meio (antes dizia-se arranha-céus, mas reconheço o exagero americano ao inventar o termo, porque os céus não têm costas, são da natureza dos anjos, e ninguém imaginaria um edifício a arranhar as costas de um anjo). Torre é melhor, lembra logo aquelas construções onde se enfiavam os prisioneiros para morrerem lentamente, como a célebre Torre de Londres, ou onde se aninhava o povo da Europa medieval para se defender de ataques. Torre sim, pois os seus utentes/prisioneiros vivem no medo de sair à rua, de viver a cidade, enclausurados e protegidos da miséria que espalham à volta de si.

Queixamo-nos do trânsito na baixa da cidade (não só na baixa, sejamos justos) e nem sempre escapamos de lá cair, porque ali está concentrado mais de metade do capital financeiro e dos serviços do país. E querem fazer mais torres, para atrair mais gente e mais carros? Que as torres vão ter parques de estacionamento, dizem os defensores das ideias futuristas. O problema é entrar ou sair dos parques, porque as ruas estão atulhadas de carros. Claro que há uma solução do mesmo estilo: fazer as ruas da baixa com andares, género auto-estrada em fatias sobrepostas, ou até com viadutos por cima dos prédios, a arranharem as nuvens. Isso seria um arranhanço útil. E já agora peço, façam um túnel por baixo da baía ou uma ponte a ligar o bairro Miramar à Ilha, assim chegamos à praia em cinco minutos, como era há vinte anos atrás. Como de todos os modos a ideia geral é dar cabo da baía e da Ilha, também tanto faz, mais ponte menos ponte… Suponho também que já deve haver negociações para se tirar a Igreja da Nazaré do sítio onde está, a ocupar indevidamente um espaço nobre para mais uma torre. Uma pequena concessão não fica mal, mantém-se a igreja na cave do edifício. A História que se lixe, não foi a lição da destruição do palácio de D. Ana Joaquina? Então continuemos. Neste afã de ocupar todos os espaços, proponho também acabar com o prédio dos correios, bem feio e sem valor arquitectónico por sinal, e já agora com a praceta à sua frente, outro desperdício de espaço. E aquele compacto e azul edifício que serve a polícia? Um quarteirão inutilizado! A polícia pode ocupar um andar da nova torre. Com menos agentes, claro, para se fazer encolher o Estado, assim mandam os compêndios do liberalismo económico, nossa nova Bíblia.

Problema que estamos com ele é que todas essas novas construções vão ter sérias infiltrações de água salgada, pois ali antes era mar. E o mar gosta de recuperar o que lhe roubaram, ainda mais agora com a previsão da subida dos oceanos, como em todas as conferências se apregoa. Vai ser lindo, com as fundações das torres a serem corroídas pelo salitre e os prédios a desabarem. Felizmente para eles, já não estarão cá os responsáveis nem os seus filhos. E os netos dos outros que se lixem.

Pepetela

segunda-feira, abril 28, 2008

Este não mete Água!


Palestra do escritor moçambicano Mia Couto em homenagem a Jorge
Amado, lida em São Paulo no dia 25


"Eu venho de muito longe e trago aquilo que eu acredito ser uma mensagem
partilhada pelos meus colegas escritores de Angola, Moçambique, Cabo
Verde,Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe. A mensagem é a seguinte: Jorge
Amado
foi o escritor que maior influência teve na gênese da literatura dos
países africanos que falam português.

A nossa dívida literária com o Brasil começa há séculos, quando Gregório
de Mattos e Tomaz Gonzaga ajudaram a criar os primeiros núcleos literários
em Angola e Moçambique. Mas esses níveis de influência foram restritos e
não se podem comparar com as marcas profundas e duradouras deixadas pelo
baiano.

Deve ser dito (como uma confissão à margem) que Jorge Amado fez pela
projeção da nação brasileira mais do que todas as instituições
governamentais juntas. Não se trata de ajuizar o trabalho dessas
instituições, mas apenas de reconhecer o imenso poder da literatura.
Nesta sala, estão outros que igualmente engrandeceram o Brasil e criaram
pontes com o resto do mundo. Falo, é claro, de Chico Buarque e Caetano
Veloso.
Para Chico e Caetano, vai a imensa gratidão dos nossos países que
encontraram luz e
inspiração na vossa música, na vossa poesia. Para Alberto Costa e Silva vai
o
nosso agradecimento pelo empenho sério no estudo da realidade histórica do
nosso continente.

Nas décadas de 50, 60 e 70, os livros de Jorge cruzaram o Atlântico e
causaram um impacto extraordinário no nosso imaginário coletivo. É
preciso dizer que o escritor baiano não viajava sozinho: com ele chegavam
Manuel
Bandeira, Lins do Rego, Jorge de Lima, Erico Veríssimo, Rachel de
Queiroz,Drummond de Andrade, João Cabral Melo e Neto e tantos, tantos
outros.

Em minha casa, meu pai - que era e é poeta - deu o nome de Jorge a um
filho e de Amado a um outro. Apenas eu escapei dessa nomeação referencial.
Recordo que, na minha família, a paixão brasileira se repartia entre
Graciliano Ramos e Jorge Amado. Mas não havia disputa: Graciliano
revelava o osso e a pedra da nação brasileira. Amado exaltava a carne e a
festa
desse mesmo Brasil.

Neste breve depoimento, eu gostaria de viajar em redor da seguinte
interrogação: por que este absoluto fascínio por Jorge Amado, por que
esta adesão imediata e duradoura?

É sobre algumas dessas razões do amor por Amado que eu gostaria de falar
aqui. É evidente que a primeira razão é literária, e reside inteiramente
na qualidade do texto do baiano. Eu acho que o maior inimigo do escritor
pode ser a própria literatura. Pior que não escrever um livro, é
escrevê-lo
demasiadamente. Jorge Amado soube tratar a literatura na dose certa, e
soube permanecer, para além do texto, um exímio contador de histórias e
um notável criador de personagens. Recordo o espanto de Adélia Prado que,
após a edição dos seus primeiros versos confessou: "Eu fiz um livro e,
meu
Deus,não perdi a poesia..." Também Jorge escreveu sem deixar nunca de
ser
um
poeta do romance. Este era um dos segredos do seu fascínio: a sua
artificiosa naturalidade, a sua elaborada espontaneidade.

Hoje, ao reler os seus livros, ressalta esse tom de conversa intíma, uma
conversa à sombra de uma varanda que começa em Salvador da Bahia e se
estende para além do Atlântico. Nesse narrar fluído e espreguiçado,
Jorge vai desfiando prosa e os seus personagens saltam da página para a
nossa
vida cotidiana.

O escritor Gabriel Mariano de Cabo Verde escreveu o seguinte: "Para mim,
a descoberta de Amado foi um alumbramento porque eu lia os seus livros e
via a minha terra. E quando encontrei Quincas Berro d'Água eu o via na
Ilha
de São Vicente, na minha rua de Passá Sabe."

Essa familiaridade exisitencial foi, certamente, um dos motivos do
fascínio nos nossos países. Seus personagens eram vizinhos não de um lugar,
mas
da nossa própria vida. Gente pobre, gente com os nossos nomes, gente com as
nossas raças passeavam pelas páginas do autor brasileiro. Ali estavam os
nossos malandros, ali estavam os terreiros onde falamos com os deuses,
ali estava o cheiro da nossa comida, ali estava a sensualidade e o perfume
das nossas mulheres. No fundo, Jorge Amado nos fazia regressar a nós
mesmos.

Em Angola, o poeta Mario António e o cantor Ruy Mingas compuseram uma
canção que dizia: Quando li Jubiabá/me acreditei Antônio Balduíno./Meu
Primo, que nunca o leu/ficou Zeca Camarão. E era esse o sentimento:
António Balduino já morava em Maputo e em Luanda antes de viver como
personagem
literário. O mesmo sucedia com Vadinho, com Guma, com Pedro Bala, com
Tieta, com Dona Flor e Gabriela e com tantos os outros fantásticos
personagens.

Jorge não escrevia livros, ele escrevia um país. E não era apenas um
autor que nos chegava. Era um Brasil todo inteiro que regressava à África.
Havia pois uma outra nação que era longínqua mas não nos era exterior. E
nós
precisávamos desse Brasil como quem carece de um sonho que nunca antes
soubéramos ter. Podia ser um Brasil tipificado e mistificado, mas era um
espaço mágico onde nos renasciam os criadores de histórias e produtores
de felicidade.

Descobríamos essa nação num momento histórico em que nos faltava ser
nação. O Brasil - tão cheio de África, tão cheio da nossa língua e da
nossa
religiosidade - nos entregava essa margem que nos faltava para sermos
rio.

Falei de razões literárias e outras quase ontológicas que ajudam a
explicar por que Jorge é tão Amado nos países africanos. Mas existem outros
motivos, talvez mais circunstanciais.

Nós vivíamos sob um regime de ditadura colonial. As obras de Jorge Amado
eram objeto de interdição. Livrarias foram fechadas e editores foram
perseguidos por divulgarem essas obras. O encontro com o nosso irmão
brasileiro surgia, pois, com épico sabor da afronta e da
clandestinidade.

A circunstância de partilharmos os mesmos subterrâneos da liberdade
também contribuiu para a mística da escrita e do escritor. O angolano
Luandino
Vieira, que foi condenado a 14 anos de prisão no Campo de Concentração
do Tarrafal, em 1964, fez passar para além das grades uma carta em que
pedia o seguinte: "Enviem meu manuscrito ao Jorge Amado para ver se ele
consegue
publicar lá no Brasil..."

Na realidade, os poetas nacionalistas moçambicanos e angolanos ergueram
Amado como uma bandeira. Há um poema da nossa Noêmia de Sousa que se
chama Poema de João, escrito em 1949 e que começa assim:

João era jovem como nós/João tinha os olhos despertos,/As mãos
estendidas para a frente,/A cabeça projetada para amanhã,/João amava os
livros que
tinham alma e carne/João amava a poesia de Jorge Amado

E há, ainda, outra razão que poderíamos chamar de linguística. No outro
lado do mundo, se revelava a possibilidade de um outro lado da nossa
língua.

Na altura, nós carecíamos de um português sem Portugal, de um idioma
que, sendo do Outro, nos ajudasse a encontrar uma identidade própria. Até
se
dar o encontro com o português brasileiro, nós falávamos uma língua que
não
nos falava. E ter uma língua assim, apenas por metade, é um outro modo de
viver calado. Jorge Amado e os brasileiros nos devolviam a fala, num outro
português, mais açucarado, mais dançável, mais a jeito de ser nosso.

O poeta maior de Moçambique, chamado José Craveirinha, disse o seguinte
numa entrevista: "Eu devia ter nascido no Brasil. Porque o Brasil teve
uma influência tão grande que, em menino eu cheguei a jogar futebol com o
Fausto, o Leônidas da Silva, o Pelé. Mas nós éramos obrigados a passar
pelos autores clássicos de Portugal. Numa dada altura, porém, nós nos
libertamos com a ajuda dos brasileiros. E toda a nossa literatura passou
a ser um reflexo da Literatura Brasileira. Quando chegou o Jorge Amado,
então, nós tínhamos chegado à nossa própria casa."

Craveirinha falava dessa grande dádiva que é podermos sonhar em casa e
fazer do sonho uma casa. Foi isso que Jorge Amado nos deu. E foi isso
que fez Amado ser nosso, africano, e nos fez, a nós, sermos brasileiros.
Por
ter convertido o Brasil numa casa feita para sonhar, por ter convertido
a sua vida em infinitas vidas, nós te agradecemos companheiro Jorge. Muito
obrigado."


Mia Couto
---

O escritor Antonio Emílio Leite Couto, Mia Couto, nascido em 1955 na
cidade de Beira, em Moçambique, é poeta, contista, cronista e romancista,
autor
de livros como Terra Sonâmbula, O Último Vôo do Flamingo e O Outro Pé da
Sereia, entre outros

sábado, abril 26, 2008

Água leva o regador!


LEITURAS & ETC




A TRADIÇÃO LITERÁRIA ANGOLANA

E O GRAU ZERO DA MEMÓRIA DE UM ESCRITOR

(A propósito da incapacidade de fundamentar um juízo de natureza estética e literária)




Luís Kandjimbo







Em Março de 1989, fazendo parte de uma delegação de escritores angolanos, participei no I Congresso de Escritores de Língua Portuguesa, realizado na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, onde tive a oportunidade de apresentar uma comunicação que suscitou um debate com o malogrado Manuel Ferreira, o primeiro professor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Tive igualmente o grato prazer de trocar impressões com o também já falecido escritor cabo-verdiano Manuel Lopes, que me abordou para concordar com a minha tese sobre a «descalibanização» das literaturas africanas de língua portuguesa.

Desse evento conservo uma fotografia que dá uma vista parcial da audiência presente na sessão plenária de abertura. Numa das filas atrás de mim, vê-se um jovem que eu encontrara pela primeira vez em Lisboa. Lembro-me que num dos intervalos ele ter-me-ia interpelado para dizer que era angolano, nascido numa província do sul. Pareceu reivindicar o direito de estar ali, também na qualidade de «jovem escritor», para empregar uma expressão que estava então em voga em Angola. Não dei importância ao fortuito acaso. Passados cerca de dois anos, voltei a encontrá-lo na redacção do Jornal de Angola. Deu-me a notícia de que era jornalista de um jornal português, enviado a Luanda como repórter. E convidou-me a escrever um texto para a Via Latina, prestigiada revista de Coimbra. Mas a referida publicação só teve a sorte de inserir um texto meu dezassete anos depois.

Esse jovem, que em 1989 não era conhecido em Angola, chamava-se afinal Eduardo Agualusa, autor de um texto publicado no Novo Jornal de 18 de Abril do corrente. Não pertenceu a nenhuma das Brigadas de Literatura disseminadas pelo país na década de 80.

Hoje, julgo que ele jovem ignorava completamente o facto de os seis «mais novos» escritores (João Melo, E.Bonavena, Cikakata Mbalundu, Rui Augusto, Lopito Feijó) da delegação presente naquele Congresso terem passado por processos de socialização que de uma forma ou de outra lhes permitia assumir plenamente o sentimento de pertencerem a uma tradição literária angolana.

Ora, como compreender que vinte anos depois, tal jovem nascido numa província do sul de Angola, venha emitir juízos estéticos depreciativos acerca de três poetas angolanos importantes, revelando pertencer a uma tradição literária universal?

Como se explica que ganhe fortuna crítica em nome da tradição literária angolana cuja existência nega com frequência, tal como fez mais recentemente numa entrevista concedida ao conhecido humorista brasileiro Jô Soares?

Fazendo gala das suas leituras de autores «universais», é confrangedor que não saiba que estes têm as suas tradições literárias, inventadas em algum lugar do nosso planeta. Com efeito, torna-se evidente que a pertença à tradição literária angolana causa-lhe alguma repugnância, a julgar pelos indícios do modo como pensa. Para quem tira as dúvidas recorrendo aos escritores «universais», como se eles fossem representantes dos poetas orais vakuvale ou vakwanyama, que até não os conhecem, sugiro que leia T.S. Eliot, o inglês de origem americana. Se acaso leu aquele autor, esqueceu-se das teses publicadas nos Ensaios de Doutrina Crítica. Ao abordar a problemática da tradição e do talento individual, T.S.Eliot, afirma: «Nenhum poeta, nenhum artista de qualquer arte, detém, sozinho, o seu completo significado. O seu significado, a sua avaliação, é a avaliação da sua relação com os poetas e os artistas mortos». Se não tivesse perdido de vista uma voz autorizada como esta, chegaria à conclusão de que continua a revelar falhas graves de argumentação, ao ter tentado articular uma boutade destituída de qualquer consistência. Não acredito que com as suas meditações sobre uma suposta dissidência poética tenha, num sentido contrário, persuadido os leitores angolanos da poesia de Agostinho Neto, António Jacinto, Alexandre Dáskalos, Aires Almeida Santos Viriato da Cruz, António Cardoso e outros. Aponto em seguida algumas razões.

Em primeiro lugar, não fornece argumentos que tenham resultado do seu próprio pensamento, na medida em que socorre-se das palavras de dois escritores cabo-verdianos, mas não os cita com rigor argumentativo como seria desejável, por dever de ética e honestidade intelectual. Mesmo assim, no que diz respeito ao falecido João Vário, poeta com quem tive longas conversas sobre a poesia africana durante a sua última passagem por Angola, a paráfrase não corresponde ao que o perturbava neste domínio (o seu testemunho pode ser lido nos dois volumes de entrevistas a escritores cabo-verdianos da autoria de Michel Laban). Um dos males que ele denunciava em alguma poesia dos países africanos de língua portuguesa é o cantalutismo, isto é, uma certa escrita panfletária cujos autores reivindicavam o estatuto de criação poética. Nunca o ouvi falar de Agostinho Neto ou António Jacinto como maus poetas. Aliás, foi em Angola que ele sentiu a necessidade de escrever uma epopeia para cantar a gesta dos povos africanos bantu, desde os tempos das migrações até às independências. Por outro lado, João Vário não pode ser tomado como autoridade qualificada em matérias respeitantes às literaturas africanas, na medida em que, paradoxalmente, encontrava as referências do seu discurso poético na tradição greco-latina. O poeta cabo-verdiano Corsino Fortes imortalizou uma crítica feroz contra essa alienação do João Vário no poema Carta de Bia d’Ideal: «Junzin! Até na boca de São Vicente / Teu nome agora é Vário ou T.Thio Tiofe / Que tu és um negro negro greco-latino / Mas, deveras? Deveras? (...)

Em segundo lugar, opera-se com uma falácia, quando se considera que «para se escrever grande poesia é preciso primeiro ler os grandes poetas universais». O que são «poetas universais»? Não existe qualquer relação de causalidade entre a leitura de tais poetas e a escrita de excelente poesia. Além disso, há aí uma confusão entre aquilo que releva da condição de simples leitor, membro de uma determinada comunidade interpretativa, e o que entra no campo da actividade dos estudiosos da literatura, porque ler os poetas do mundo ocidental pode ser apenas uma condição necessária para explicar e comentar obras num contexto institucional em que predominem constrangimentos próprios. Invocar o universal sem ter em conta a primazia do particular é uma forma tendenciosa de reconhecer a hegemonia das culturas do mundo ocidental numa lógica colonialista. O universal assim enunciado é uma autêntica armadilha, pois ignora a existência dos Africanos, por exemplo.




É uma abominável prova de ignorância relativamente à história das literaturas africanas comparar sem fundamento dois poetas que pertencem a tradições literárias nacionais diferentes. Afirmar que Agostinho Neto (1922-1979) foi um político que frequentou a poesia e Senghor (1906-2001) um poeta que frequentou a política é, na verdade, um trocadilho que constitui o cúmulo da bazófia.

Conhecendo bem as literaturas africanas de língua francesa e inglesa, considero que semelhantes afirmações revelam a mais desbragada irresponsabilidade do acto judicativo e hermenêutico. Por isso, tenho dúvidas que quem assim pensa, conheça verdadeiramente as trajectórias biográficas dos dois escritores mencionados.

Que motivação subjaz à exaltação dos estudos clássicos de Leopold Senghor realizados na Universidade da Sorbonne, quando se esquece que, nas décadas de 40 e 50, Agostinho Neto foi dos primeiros negros angolanos a realizar os seus estudos de Medicina nas Universidades de Coimbra e de Lisboa? Ou será porque a alusão que Senghor faz à origem portuguesa do nome e à gota de sangue português representa uma virtude luso-tropical? Vê-se logo que o suposto juízo estético sobre a poesia de Agostinho Neto resvala para um registo biografista com laivos deterministas sem relevância crítica.

De tudo isso podemos retirar algumas lições. Não devemos ter ilusões. As tradições culturais e literárias servem sempre as comunidades que as criaram. Cada país tem a literatura e os escritores que merece. Por que razão teremos necessidade de convencer o mundo sobre a nossa história, a nossa cultura e a nossa literatura se elas são formas através das quais se manifesta a identidade colectiva e a coesão sociocultural das mulheres e homens deste país a que alguns de nós têm o orgulho de pertencer?

Finalmente, talvez seja interessante deixar um conselho para os leitores eruditos e poliglotas que falam das literaturas africanas, em que se inclui a literatura angolana, sem as conhecer em profundidade. Leiam a The Cambridge History of African and Caribbean Literature (2004) cuja edição foi organizada por dois vultos da crítica académica africana, os professores Abiola Irele e Simon Gikandi, respectivamente, da Universidade de Harvard e da Universidade de Michigan; e a African Literature. An Anthology of Criticism and Theory (2007), numa edição organizada por outros dois professores africanos, trabalhando igualmente nos Estados Unidos e no Canadá, Tejumola Olaniyan e Ato Quayson, respectivamente, da Universidade de Wisconsin e da Universidade de Toronto.

Continuamos com Água!


Réplica a «Dissidência poética ou poética da dissidência», de JE Agualusa

O seu a seu dono




Agualusa atribui todo mérito a Rui Mingas porque se recusa a perceber que os poemas de Agostinho Neto, por si sós, têm uma musicalidade intrínseca, «uma melodia silenciosa», como diria o poeta João Maimona




Adriano dos Santos Jr.





Num artigo publicado no «Novo Jornal», edição nº. 13, de 18 de Abril de 2008, sob o título «Dissidência poética ou a poética da dissidência», o escritor José Eduardo Agualusa decidiu justificar a afirmação feita numa entrevista dada ao «Angolense», acerca da poesia de Agostinho Neto, António Jacinto e António Cardoso.

Desta vez Agualusa já não se apresenta como uma divindade, toda ela perfeição, sabedoria, intolerância, detentora da verdade. Surge humano como qualquer um, competente profissional das letras, sensato e modesto a pontos de admitir que tem os seus limites. «…Exerci durante longos anos o ofício de crítico literário em publicações muito respeitadas, como os jornais Público e Expresso, ou ainda a revista Colóquio Letras. Estou consciente, não obstante, do reduzido valor das minhas opiniões literárias. Não são suficientes para autorizar, ou desautorizar quem quer que seja. São simplesmente as minhas opiniões….», diz o grande escritor. Os nossos sinceros parabéns!

Todavia, quanto a nós, ao tentar justificar-se e fazer-se compreender, Agualusa esgrime argumentos falaciosos.

Assim, comparando Agostinho Neto a Leopold Senghor, refere que «…Agostinho Neto foi um político que frequentou a poesia - por razões políticas. Senghor foi um poeta que frequentou a política – por razões poéticas…». São pontos de vista, que nos cabe respeitar.

O que não estamos de acordo é com o fundamento de Agualusa, segundo o qual Leopold Senghor tenha sido um grande poeta por ter ido beber à fonte da Grécia Antiga para além das tradições africanas, ter estudado na Sorbonne, ter tido orgulho pela sua «gota de sangue português», evocada num dos seus grandes poemas transcritos por Agualusa, e ter publicado onze livros, enquanto que Agostinho Neto não poderia ser um grande poeta porque não teria ido beber à bica da Grécia antiga, não passou pela Sorbonne e não publicou assim tantos livros. Para nós Leopold Senghor e Agostinho Neto foram grandes poetas pelas suas obras, independentemente dos santuários do saber que tenha frequentado ou visitado.

Por mais que devamos incentivar os nossos literatos a produzirem muito e terem o máximo apego à Cultura quer seja clássica ou tradicional, não nos podemos esquecer que o Poeta nasce e o Erudito faz-se. Há Poetas analfabetos e Eruditos incapazes de engendrar um poema. Por outro lado, os critérios para a classificação de escritores, poetas, contistas, romancistas, etc., não têm como factor essencial a quantidade de obras publicadas nem o número de versos ou de páginas das mesmas, mas sim a sua qualidade. Existem poetas de um poema só, contistas de um conto só e romancistas de um só romance. Embora possam ser excepções, literaturas relevantes de vários povos e em diversas épocas, registam casos em que autores de uma só obra integram as mesmas galerias que as de outros mais fecundos e com todo o merecimento.

Agualusa diz que «…Neto foi buscar parte da sua motivação poética a Senghor mas não dispunha nem do talento deste, nem da sua vasta erudição…». Aqui chegados, sem querermos comparar o talento e a erudição dum e doutro poeta porque não estamos capacitados para isso e, infelizmente, não dispomos de nenhum instrumento que nos permita aferir o grau de cultura de cada um, como por exemplo uma escala de Richter para medir a intensidade dos terramotos, torna-se conveniente informar para quem não saiba que apesar de não terem estudado na Sorbonne, tanto Agostinho Neto, quanto António Jacinto ou António Cardoso possuíam formação académica; Agostinho Neto e António Jacinto atingiram o nível universitário e António Cardoso tinha o Curso Complementar dos Liceus, então denominado 7º ano, tudo de acordo com o modelo clássico, ocidental, confiram-se os currículos da época; por isso não duvidamos de que, no mínimo, tivessem molhado os pés nas águas da Grécia Antiga, se é que esta é a condição sem a qual não se poderá ser um grande poeta.

Ademais, não se limitaram ao conhecimento das disciplinas escolares ou universitárias; eram também autodidactas, ávidos de saber e por isso detentores duma cultura invulgar; iam à fonte beber directamente os valores culturais, espirituais e materiais do seu povo, escutando os sábios iletrados, indiferentes ao risco de perderem as vantagens que a cor da pele ou a instrução superior lhes proporcionava na altura, sujeitando-se à prisão e ao desterro, como aliás aconteceu com os três. Não eram portanto nenhuns ignorantes e muito menos analfabetos funcionais ou doutra espécie; eram intelectuais em qualquer das Latitudes, Norte ou Sul.

Quanto a Agostinho Neto ter ido buscar parte da sua motivação a Senghor, como diz Agualusa, pode muito bem ser, não significa demérito nenhum, nada mais natural; é bastante comum autores de muita aptidão, mais novos, inspirarem-se noutros que sejam mais velhos, chegando a imita-los de início, até adquirirem o seu próprio estilo. Mia Couto, o engenhoso, fértil e agora original escritor moçambicano, deve estar cansado de repetir que começou por imitar Luandino Vieira e orgulha-se disso. Não sabemos se Agualusa também terá começado por imitar alguém, pode ser que sim e da mesma forma pode ser que já existam jovens autores, mais novos, a imitarem Agualusa.

Conforme Agualusa, «…Os versos de Agostinho Neto cumpriram com sucesso a função que se propunham, ou seja, a de chamar atenção para a injustiça colonial, mas, ao contrário dos de Leopold Senghor, dificilmente ganharão o futuro…». Como não estamos aqui para discutir pontos de vista pessoais, o nosso é que os poetas Agostinho Neto, António Jacinto e António Cardoso já ganharam o futuro, apesar das opiniões em contrário.

Falando de críticas à obra de Agostinho Neto, Agualusa cita duas vozes segundo ele muitíssimo mais autorizadas do que a sua, que entendem ser Agostinho Neto um poeta menor; o que se passa é que Agualusa só terá lido a primeira página do «livro das críticas» a Agostinho Neto; se se der ao trabalho de ler a segunda página, irá de certeza encontrar outras duas ou mais vozes, também muito autorizadas, que entendem ser Agostinho Neto um poeta maior; nesta fase de tolerância e compreensão em que se apresenta não cremos que Agualusa os vá taxar de ignorantes, por esse facto.

«…Talvez se justifique aqui acrescentar, para concluir, que gosto muito de escutar os versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas. Gosto deles, como centenas de milhares de angolanos, devido à arte de Rui Mingas e também porque fazem parte do meu imaginário, e isto independentemente da sua qualidade literária…», revela Agualusa. A nosso ver, a beleza e o sucesso dos versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas, que o nosso grande escritor adora escutar, não depende apenas da intervenção do genial compositor; Agualusa atribui todo mérito a Rui Mingas porque se recusa a perceber que os poemas de Agostinho Neto, por si sós, têm uma musicalidade intrínseca, «uma melodia silenciosa», como diria o poeta João Maimona referindo-se à poesia de António Jacinto. Interagindo e complementando-se, os talentos do poeta e do cancionista produziram as maravilhas que encantam até os desafectos.

«…Para escrever grande poesia é preciso primeiro ler grandes poetas universais…», proclama Agualusa; no entanto ninguém lhe garante que Agostinho Neto de facto não leu grandes poetas universais que o potenciassem a escrever a sua grande poesia.

Finalmente Agualusa acrescenta, sentenciando: «…Acreditar que temos muitos poetas excelentes pode melhorar a nossa auto-estima, mas não faz com que tenhamos muitos poetas excelentes. Podemos até convencer-nos a nós, mas não convenceremos nunca o resto do mundo…». Se, por um lado, não é sobrestimando os nossos poetas que passaremos a ter muitos e excelentes, por outro lado, não será subestimando-os que os iremos melhorar; não podemos ter a veleidade de convencer a todos os críticos do mundo da excelência dos nossos poetas; mas não será a opinião de uns quantos autorizados ou não, as vezes até suspeitos, que quebrará o orgulho que temos por eles e ainda mais quando celebrados por muitos outros críticos também autorizados, desse mesmo resto do mundo.




Luanda, 22 de Abril de 2008

quarta-feira, abril 23, 2008

Luanda de luxo





Desponta em Luanda uma nova sociedade angolana que, entre festas e champanhe, vive do petróleo, dos diamantes e de negócios multimilionários


FESTA Há quem viva entre recepções oficiais nos jardins da Cidade Alta e galas no palácio oficial do Presidente. Para trás ficam os que nada têm, num país em que a taxa de desemprego é de 80%


Hoje há festa em Luanda. Hoje, um dia qualquer. Um bebé nasceu entre o lixo, próximo de um esgoto a céu aberto, alguém atirou uma lata de «gasosa» para um chão imundo, alguém lhe deu um pontapé, alguém a recolheu para vender no mercado da sobrevivência, alguém caiu de um prédio sem varanda, sem água, sem luz, cheio de nada, cheio de gente, construído em altura, como em extensão se construíram quilómetros de barracas instáveis e insalubres, chamados musseques. Todos no âmago desta Luanda, uma camisa-de-forças recheada de automóveis, quase tantos como os buracos das suas ruas. Esta Luanda encerra toda a Angola, encerrando-se da Angola que resta. A assimetria entre a capital e as províncias é enorme. E parece menor se comparada com as paralelas assimétricas que dividem os ricos inacreditavelmente ricos, os inacreditavelmente-novos-ricos e os pobres, ainda inacreditavelmente mais pobres, de Luanda. Hoje, alguém morreu de cólera, de paludismo, alguém arrasta feridas de guerra pela cidade, vende cigarros na rua, lava o corpo na lama, chora ausências de nutrição, procura comida na lixeira, foi assaltado por um miúdo, bebeu de mais, fumou de mais, abusou, foi abusado, encontrou mais uma jazida de diamantes, inaugurou mais uma torneira de petróleo. E alguém terá de abandonar o musseque com a família às costas, a fugir das águas da chuva, do polícia que lhe diz para parar, para pagar, «pentear», dar «gasosa», a correr de encontro à fome que já tinha, nos dias pesados do calor, sem mais nada que isso, só uma estranha alegria que faz o angolano sempre sorrir. «Estamos sempre a subir». Tão certo como o contrário.



Nessa noite, cansada de trabalhar, cansada porque não tem trabalho, sem coragem para levantar-se entre os despojos do seu caos, essa Luanda estava incapaz de comparecer ao evento. Fazia anos - não seria elegante dizer quantos - Isabel dos Santos, primogénita do Presidente José Eduardo dos Santos, que escolheu o Miami, um bar da moda na ilha de Luanda, do qual é sócia, para celebrar com coisa de setecentos amigos chegados. Todos os convidados, escrutinados por um pelotão de seguranças, deviam vestir de branco. Abaixo do bar, numa enorme tenda sobre a areia da praia, seria servido o jantar. Ao lado, separado por um passadiço, brilhava a jóia da coroa, o bolo de anos, num altar envolto em arranjos florais. Por trás, fogo de artifício para a primeira fatia do bolo. Um grupo de «capoeira» articulava-se onde podia. Seguranças ofereciam olhares atentos, absolutamente convencidos do seu estado incógnito. Os convidados sacudiam o protocolo. «Boa party», dizia o novo ao velho, olhos à deriva. «Estas damas não são do teu campeonato», advertiu o «cota».
Isabel chegou dentro de um vestido em fundo branco, com estampado exclusivo de flores magenta e rosa - evidente como uma piscina olímpica no deserto - com Sindika Dokolo, o marido, filho de um banqueiro congolês, herdeiro prematuro da condição de milionário. Em séquito, abriram alas vagarosamente, consentindo que os desfrutassem. Três amigas aproximavam-se a grande velocidade, instáveis em salto alto, voando para um abraço cúmplice. «Huammm!!!» Beijo na bochecha da filha do Presidente. «Parabéns, querida! O teu vestido é lindo. Estás boa?» Tudo indicava que sim. «Ainda bem que vieste», disse Isabel. «Ya. Como é que eu ia faltar?!», declarou a amiga. As outras duas, de sorriso aberto, espreitavam com os queixos em posição oftalmológica nos seus ombros. Que desculpassem, Isabel tinha afazeres protocolares.


Convidadas da festa da filha de José Eduardo dos Santos: «dress code», branco
Depois de um jantar bem regado, com interrupções fotográficas para a «Caras» angolana, decorria animadíssima a noite. Ocasião para iniciar a travessia para o bolo. Champanhe ao alto à saúde de Isabel, uma das empresárias mais poderosas de África, movendo-se em áreas multimilionárias como o petróleo ou os diamantes. Na última visita a Angola, o primeiro-ministro José Sócrates elogiou o seu empreendedorismo, endereçando-lhe convite para ministrar em Lisboa uma conferência sobre dinamismo empresarial. Talvez fosse aí o momento para explorar a contradição destes números: crescimento da economia angolana ao ano - 18 por cento; taxa de desemprego - 80 por cento. Ali, não era de certeza. Explodira alegria e fogo de artifício. O bolo de aniversário tinha agora um cenário de chuva brilhante, que iluminava o mar e os guardas que no pontão embalavam metralhadoras kalashnikovs.
Descera a madrugada em arromba. Os mais idosos começavam a desistir. Entravam outros, «party-people», «subjet-set» generalistas, a arejar as narinas com leques coloridos, envergando óculos panorâmicos, próprios para o amanhecer na pista. Excelente média de empresário por metro quadrado. O Mister África 2007, que agora chegava, cruzava-se com um deputado, de saída. A sociedade emergente desfilava, celebrando-se. O Miami era agora uma mini-Ibiza. O balcão do bar segurava um amontoado de gente, escorriam suores na pista, corpos apertavam-se, soltava-se África. Com a luz da manhã, os resistentes abandonaram.



À tarde, na esplanada de um restaurante chinês, na ilha de Luanda, hoje mais uma península, a cidade aparecia de novo deslumbrante, a coberto da distância, só interrompida por barcos de pesca rudimentares ou pelos iates que balouçavam ancorados. Câmara, luzes, acção: «Incrível! Como é que pode?», frase da Melhor Actriz angolana de telenovelas 2006, Tânia Bwity. Decorria a gravação da próxima telenovela da Televisão Pública de Angola, de título «Crime e Punição» - nada de Dostoievski -, sob direcção e argumento de Aloísio Filho, brasileiro, contente por ali estar, a bordo de um carro-digital com um estúdio móvel do mais moderno que é possível. «Incrível! Como é que pode?» Take 2. Os artistas, diz Tânia, são em muitos sentidos o espelho convexo da Angola que se mostra ao mundo, e ópio para os 12 milhões no anonimato, que usa quilómetros de puxadas de fios eléctricos só para os ver. «Incrível! Como é que pode?» Take 3. A avaliar pelo cenário, nada de errado.


INTERIOR da UNYKA, loja do estilista Rucka Santos, uma das mais luxuosas de Luanda (à espreita, um sinal dos tempos: uma cliente chinesa)
A luz do dia começou a esconder-se. Do outro lado, Luanda adquiria brilho, camuflada sob as luzes de uma urbanidade que não tem. Esconde tantos segredos esta cidade, tantas singularidades, um fosso social que determina tudo ou nada, onde bolina uma classe média tímida, em boa parte expatriados ao serviço de multinacionais. Dizia alguém à Rádio Nacional sobre o problema dos buracos, que entopem o que está sobrelotado: «Como resolver o problema? Comprando um jipe.» Faz isto tanto sentido como a insegurança ser um excelente negócio para quem vende a segurança. Ou como estradas tão más entre províncias resultam num enorme estímulo para as companhias de aviação privadas. Angola está em bruto, como um diamante, mas não sofre de ingenuidade.
De modo que se torna difícil massificar as modas internacionais, enquanto na rua há miúdos a coçar os piolhos, ou democratizar o luxo num universo transversal que habita condomínios de pobreza. Luanda é uma festa de crianças onde poucos têm altura para chegar à caixa das bolachas. É, portanto, o que é. Mas é também o inverso. Sol e alegria, desprendimento, ruído, vida vivida rápido, «ya» e «tásse bem». O ritmo vagaroso é apressado. A sua pressa tem muito tempo. O tempo tem relógios à venda, a bom preço nos zungueiros (vendedores de rua), directamente de um retalhista da R.D. do Congo. Que «take» reservará o futuro?


A BORDO de um iate, a caminho do Mussulo, recanto paradisíaco de Luanda Sul
Se for da moda angolana, ao fundo está um sorriso. Os estilistas de Luanda, em processo de internacionalização, são como uma S.A. que se exporta, importando tecidos para as suas criações. Há tradicionalistas, retro-vanguarda, corte clássico, puristas, tribalistas, neoliberais, esquerda «fashion», os que estudaram Gestão em Lisboa, outros advocacia em Londres, uns que tiveram educação nos EUA, outros ali mesmo. Todos tomaram novo curso neste sector específico do universo amplo da futilidade. E há Shunnoz Tião, transcendência, antigo estudante de Psicologia, autoproclamado inventor da Pensologia, segundo o autor, uma espécie de corrente intelectual, com artes de igreja alternativa. «Não somos nada», diz Tião. «Não somos carne», diz Tião. Tião, contudo, desenha roupas para a carne que as pode comprar, vive da carne onde passeiam os exemplares com a sua assinatura. Com Tekassala, parceiro de ateliê, foram os Estilistas do Ano em Angola. Hoje, para encontrá-los é preciso viajar para as grandes capitais europeias, nas teias da globalização. O mesmo aconteceu com Rucka Santos. A sua loja, UNYKA, vende a exclusividade que o dinheiro pode comprar. Rucka organizou recentemente o espectáculo de Missy Elliot, embaixadora multimilionária do «rap» americano, que veio a Luanda ver como Angola é pobre entre o aeroporto e a sala de espectáculos. «Ela ficou muito impressionada com as mulheres com a fruta à cabeça», diz Rucka.


Vista da marina, onde iates e barcos de pesca tradicionais partilham águas
«O mercado é reduzido, mas abastado», garantem. Tanto vai ao cabeleireiro a Paris, como lhe pode apetecer comprar-lhes uma colecção inteira e deixar o troco. Na «chaise longue» social, essa Luanda é como se fosse a capital do paraíso, pequeníssima, tão real como a outra, imensa e submissa, atada de pés e mãos como um gigante em Liliput. A sobrevoar a cidade num helicóptero particular, em direcção ao iate, na travessia para uma mansão, nem se notam as evidências. Os grandes problemas tornam-se pequenos, minúsculos, ínfimos. E desaparecem, voando para longe na nuvem doce de um Cohiba à brisa da utopia.
Vive em Luanda uma cidade cor-de-rosa, de festas, brindes à saúde dela própria, em pose para a «Caras», por acaso propriedade de Tchizé dos Santos, filha do Presidente. O angolano tem natureza vaidosa, gosta de exibir. A «Caras» dá os «high-lights» de tudo a quem nada tem. Os luxos, as recepções oficiais nos jardins da Cidade Alta, no palácio oficial do Presidente, as galas, as festas no Mussulo, recanto paradisíaco de Luanda Sul, navegando para lá nos seus iates, trajando lantejoulas e «smokings», com vista para uma cidade feroz, nas ruas de outra realidade.


Festa de praia
Não seria por isso que Luís «Dufa» Rasgado, destacado empresário de Benguela, com vínculo ao MPLA, deixaria de assinalar o seu 60.º aniversário. A sociedade das aparências - ou das evidências - celebrava mais uma noite. Dizia no convite para se usar indumentária adequada, as melhores jóias, um «je ne sais quoi» de qualquer coisa, fosse o convidado pele de lobo em cordeiro ou exactamente o contrário. Fosse como fosse, ao entrar deixaram para trás uma rua cheia de guardas. E estes deixaram para trás as barracas e os milhões que nelas habitam, que deixaram para trás a província, as origens, longe, em sítios onde hoje só moram os velhos e a incapacidade de voltar. Para trás, musseque e pobreza. Para a frente, acepipes.
Gin-tónico, talvez? Whiskie irlandês com duas pedras de gelo purificado? Uma cervejinha importada a estalar? Salgadinho? O aniversariante, de «smoking» branco, da mesma cor do seu sorriso, estava à porta do Endiama, uma casa colonial de luxo no bairro de Miramar, onde fica a residência não-oficial do Presidente, assim como a «Casa Branca», que foi morada de Jonas Savimbi, líder defunto da UNITA. Abraço, beijo, agradecimentos pela comparência. «O trânsito está um inferno», atirou uma convidada, acertando a traseira do vestido, por onde escapava um pedaço de roupa interior. «Não se pode», devolveu outra, irrepreensível em corte clássico sobre camisa de folhos, penteado de fixação improvável.


SHUNNOZ TIÃO desenha roupas para os ricos. A sua parceria com Tekassala garantiu-lhes o título de Estilistas do Ano em Angola
Muito difícil o trânsito na cidade. Se chove, pior. Os assaltos também não ajudam. Luanda foi desenhada para 500 mil pessoas. Tem hoje mais de cinco milhões. Nada flui. Só os mil esquemas que a rua oferece. Aliás, vende. Nada é de graça. Tudo se paga. Tudo falta. Tudo se arranja. Só os limitados conhecem como são duros os limites. E guardam isso para eles, como se guardassem um segredo. Os que navegam na zona franca do «cash-flow» saboreiam esta nova Angola que superou o colonialismo português, mas não o arrumou, que saiu de uma longa guerra civil, mas não sarou todas as feridas, que tem abundância de petróleo e diamantes e transborda pobreza a cada rua. E transborda riqueza, como certa roupa interior num vestido apertado.
É a Angola dos descendentes da ascendência, ínfima minoria. Alto negócio, carro de luxo, charuto, helicóptero, iate e champanhe, apartamento na cidade e casa no campo, da política de relacionamentos, do apetite sôfrego das economias internacionais. Crescem em Luanda prédios moderníssimos, esguios por questões de propriedade privada e valor de metro quadrado numa das cidades mais caras do mundo. Mas os passeios e as estradas em redor são feitos de buracos públicos. As chinelas havaianas que nelas passeiam - baptizadas «facilitas» -, tornaram-se mito, calçaram todos os pés, foram augúrio de modernidade. Mas os pés continuam sujos. E nada podem, caso se cruzem na rua com os pneus de um jipe topo de gama. O trânsito estava um inferno? Provável.


ESTIVANDRA Oliveira, Miss Angola 2006, fotografada na varanda da suite do Hotel Alvalade, em Luanda
Os convidados integravam-se, escorriam pela cerimónia, mais descontraídos, segurando copos, descrevendo círculos. Uma bola gigante multimédia assinalava o evento: «Parabéns Dufa». Perto das mesas alongava-se um «buffet». Carnes, peixes, mariscos, frios, quentes, dentro de enormes caixas de cobre com tampa deslizante, para manter à temperatura exacta a comida. O vinho tinto devia estar a 16 graus. Para o Moët & Chandon, que começava a jorrar, o calor era inimigo da perfeição. Lá fora, dentro da enorme panela ao lume chamada Luanda, nas barracas onde não existe frigorífico e os escassos alimentos se conservam em sal, a Cuca, cerveja local, também sofre aquecimento prematuro. Tantas coisas dividem esse mundo deste, só mesmo imponderáveis os podiam unir num problema comum, sublinhando a diferença que os separa: uns incomodam-se porque não conseguem ter tudo. Outros sofrem porque só conseguem ter nada.
Na pista, meninas com traje de princesinhas rodopiavam alegremente. Por trás do palco, um desfile de doces e uma colecção de frutos. Ao lado, outra de frutos secos. Um conviva mais animado, que sabia do que falava em matéria de fruta seca, pegou num exemplar e declarou: «Este é bom para a virilidade», olhar malandro. «É... hermafrodita». Adiante. Repasto, sobremesa, mais brindes, discursos, mais champanhe, digestivos, mais champanhe e mais champanhe, champanhe para o momento da noite: Dufa dirigiu-se ao centro da pista, para soprar as velas. Seguiram-se horas de baile, comida, bebida, alegria.


OS RICOS são poucos e muito ricos. Os pobres são muitos e muito pobres. São dois mundos diferentes num convívio de vizinhos
Só a chuva deteve a festa, já de madrugada. De madrugada, o trânsito já não é um inferno. O inferno dorme a essa hora. Mas a chuva vai acordá-lo em sobressalto, despertando a Angola que não vai à «vernissage» e ao beberete, não tem preocupações com os «down jones» e o preço do barril de crude, não bebe conhaque em balão aquecido, não tem um todo-o-terreno Porsche e conta «off-shore», nem é servida em bandejas de prata. Essa Luanda, desenraizada, agoniza em contrastes. E sorri. E, sorrindo, é a Angola perdedora, neste jogo de subserviências. Tem a Babilónia debaixo dos pés, mas não encontra o caminho no meio do lixo e das barracas, a tropeçar no vácuo, a cair em nada. Se escavar um pouco do seu solo, é provável que encontre petróleo ou diamantes. A escavar no seu musseque, só encontra musseque.
Reportagem de Luís Pedro Cabral (texto)
e Sandra Rocha/Kameraphoto (fotografias),
em Luanda

terça-feira, abril 22, 2008

H2O lusa continua em ebulição!

NO MEU CANTO
Viajando pela poesia de Agostinho Neto
Celso Malavoloneke

Esporeado por uma polémica, polémica essa causada pela arrogância dita «democrática» de uma egocêntrica percepção do monopólio da verdade – revisito a poesia de Agostinho Neto. Não do Agostinho Neto nacionalista que foi, tal como Holden Roberto, Jonas Savimbi, Lúcio Lara, José Ndele, Mário de Andrade e tantos outros. Não. No meu imaginário surge neste momento o Agostinho Neto que burilou o sonho nacionalista que todos eles sonharam, mesmo daqueles cujos caminhos seguiram rumos diferentes, o «caminho do mato, o caminho do soba, o caminho da Lemba, Lemba formosa». Esta é a poesia que degusto. A mais elementar modéstia impede-me de apregoar quaisquer competências para perceber poesia. E preciso? Quando o meu coração se mexe de kaxêxe e a minha alma imagina «o som de grilhetas nas estradas; o canto de pássaros sobre a verdura húmida dos capinzais...» de um período negro na história da minha Nação que alguém – nesse caso Neto – imortaliza na lúdica estética da gramática teimosa do «havemos de voltar... à Angola libertada; à Angola Independente…» não está tudo dito? A ser assim, confesso não perceber «rigorosamente nada de poesia». Prefiro ficar no conforto da minha percebida pequenez intelectual. Porque não quero precisar de intelecto para a poesia, e nem quero perceber poesia, para já. Eu quero senti-la. Quero ouvi-la com a alma. Deixa-la colorir a minha imaginação, e encher o coração com este orgulho de ser parte desta terra e desta gente, orgulho esse para passar à minha prole. Para quê perceber o que posso sentir, e sentindo faz-me bem? Não é esse o papel essencial da Arte e da Literatura? No dia 15 de Abril deste ano, o poeta, contista, jornalista e romancista Mia Couto homenageando o escritor brasileiro Jorge Amado dizia o seguinte: «Deve ser dito (como uma confissão à margem) que Jorge Amado fez pela projecção da nação brasileira mais do que todas as instituições governamentais juntas. Não se trata de ajuizar o trabalho dessas instituições, mas apenas de reconhecer o imenso poder da literatura. Nesta sala, estão outros que igualmente engrandeceram o Brasil e criaram pontes com o resto do mundo. Falo, é claro, de Chico Buarque e Caetano Veloso. Para Chico e Caetano, vai a imensa gratidão dos nossos países que encontraram luz e inspiração na vossa música, na vossa poesia». O mesmo se poderia dizer de Agostinho Neto. O seu mérito como poeta terá sido transformar os ideais nacionalistas em arte literária, e com isso fazer uma poderosa arma de luta. Ter a humildade – que porventura ter-lhe-á faltado como político – de submeter-se ao crivo da crítica na construção de uma obra artística, que constituísse uma fonte de inspiração na construção de uma Nação. Dali que o «não direi nada, mesmo que me espanquem, mesmo que me ameacem de morte. Nada sou, renuncio-me, atingi o zero» atinge para tantos angolanos – sendo verdade que a outros não – aquela sublimidade típica das verdadeiras obras de arte. Sendo impossível dissociar o nacionalista do poeta, o político do visionário sonhador, sou daqueles que confesso-me profundo admirador da sua poesia. E continuarei sendo-o, mesmo que me chamem ignorante em termos de poesia. Mesmo ainda que o impropério venha de um escritor cujas obras para mim têm o mesmo valor literário que a poesia de Agostinho Neto. Convenhamos, porém, que nem todos os que se auto-intitulam donos da competência de perceber a poesia em questão têm, na minha opinião, o mínimo de vivência e exposição para, de perto ou de longe, poderem ser confundidos com angolanos. Tanto os que a atacam gratuitamente como os que defendem arruaceiramente. Será um sinal do complexo das minorias que procuram fazer-se ouvir pelo volume do ruído que produzem? Ao José Eduardo Agualusa, uma réplica: se por gostar desalmadamente da poesia de Agostinho Neto não percebo rigorosamente nada de poesia, então o senhor percebe ainda menos – se é que isso é possível – do papel essencial da Arte e Literatura na vida dos povos. Elegantemente incomodou-se a explicar-lhe o Luís Kandjimbo. Ao Artur Queiroz outro recado: a poesia de Agostinho Neto não precisa de ser defendida com linguagem de carroceiros brigando por uma picha de cerveja barata numa taberna qualquer. A não ser que vocês os dois decidam fazê-lo algures em terras lusas, onde essas baixarias parecem confundidas – confundibilizadas, como diria Paulo Tjipilika – com democracia. Então porquê não irem para lá e entabernarem-se, que assim deixa de ser problema nosso – etu mungwetu, que aqui nascemos, aqui ficámos, aqui sofremos, miseramos, esfomeamos e brigamos na esperança de com a Terra um dia crescer e sorrir. Etu mungwetu que na nossa ignorância até sabemos «criar amor com os olhos secos!»
Recado I
Ao José Eduardo Agualusa, uma réplica: se por gostar desalmadamente da poesia de Agostinho Neto não percebo rigorosamente nada de poesia, então o senhor percebe ainda menos – se é que isso é possível – do papel essencial da Arte e Literatura na vida dos povos
Recado II
Ao Artur Queiroz outro recado: a poesia de Agostinho Neto não precisa de ser defendida com linguagem de carroceiros brigando por uma picha de cerveja barata numa taberna qualquer
Recado III
A não ser que vocês os dois decidam fazê-lo algures em terras lusas, onde essas baixarias parecem confundidas com democracia. Então porquê não irem para lá e entabernarem-se, que assim deixa de ser problema nosso?