domingo, dezembro 20, 2009

Village Vanguard







Tive o privilégio de lá ter ido em 24 de Maio de 2007, e ouvi um trio notável com uma americana que cantava Jobim, acompanhada de um baixo brasileiro e de um baterista cubano...
Fiquei hoje a saber que em 2010 faz 75 anos.
New York não é uma cidade´, é o mundo!

terça-feira, outubro 13, 2009

URSS quase apoiou FNLA e admitiu apostar em Savimbi


URSS quase apoiou FNLA e admitiu apostar em Savimbi
Por João Manuel Rocha
Livro revela indecisões na estratégia e "desconfiança mútua" entre Moscovo e Agostinho Neto
Muito depois do fim do comunismo

A ideia de que a União Soviética (URSS) sempre esteve de alma e coração com o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), que assumiu o poder após a independência, é falsa. No início dos anos 1960, Moscovo esteve prestes a reconhecer a rival FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), o que só não aconteceu devido à intervenção do líder comunista português, Álvaro Cunhal.
Já na época de Mikhail Gorbatchov, responsáveis de Moscovo viam com bons olhos Jonas Savimbi e a sua UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) e o último líder soviético encorajou o diálogo que o Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, estava disposto a iniciar com os adversários políticos. As novidades constam do livroAngola - O princípio do fim da União Soviética, de José Milhazes, editado pela Nova Vega e ontem lançado em Lisboa. Baseado em fontes russas, documentos, artigos e entrevistas, revela episódios inéditos e mostra que não havia unanimidade em Moscovo sobre a intervenção na ex-colónia portuguesa.
O quase reconhecimento da FNLA como "legítimo representante" angolano chegou a ser ordenado pelo então líder soviético Nikita Krutchov, em 1963. O episódio revela "a confusão que reinava em Moscovo em relação à sua política africana". Documentação citada indica que, paralelamente aos contactos com o MPLA, a espionagem soviética procurou estabelecer laços com a UPA (União dos Povos de Angola), antecessora da FNLA, e a UNITA. José Milhazes, ex-correspondente do PÚBLICO em Moscovo, cita as memórias de Piotr Evsiukov, um alto funcionário que, durante 15 anos, dirigiu os contactos com os movimentos de libertação, segundo o qual, sem a intervenção de Cunhal, a URSS teria reconhecido FNLA de Holden Roberto.
O apoio militar que se revelou fundamental para o MPLA em 1975 também não se concretizou sem dúvidas de Moscovo. "Não havia unanimidade face à intervenção das tropas cubanas em Angola e ao envolvimento da URSS", escreveu Milhazes. A partir de testemunhos de responsáveis soviéticos, concluiu que "Cuba decidiu intervir militarmente em Angola com ou sem autorização de Moscovo" e que no terreno havia "sérias divergências" entre o comando das tropas cubanas e os conselheiros soviéticos.
A boa impressão que Savimbi causou, em 1988, ao então ministro de Negócios Estrangeiros de Moscovo, num encontro na ONU, fez com que a URSS tenha estado "próxima de apostar em Jonas Savimbi", revela Milhazes. "Depois do encontro de [Eduard] Chevarnadze com Savimbi, em Nova Iorque, em Moscovo quase surgiram hesitações: em que apostar em Angola?", contou ao autor o então embaixador em Luanda, Vladimir Kazimirov.
No mesmo ano, José Eduardo dos Santos encontrou-se com Gorbatchov e informou-o de que ia conversar sobre a UNITA com o rei Hassan II, de Marrocos, ao qual Savimbi teria admitido afastar-se, se isso contribuísse "para a solução positiva do problema". No diálogo, relatado no livro, o actual Presidente admitiu a integração de elementos da força inimiga no processo político. "Não como militantes da UNITA, mas como particulares. Alguns farão parte do Governo", disse.
Atritos graves
Outra das revelações do livro é o fuzilamento, em 1973, por ordem de Agostinho Neto, de cinco adversários no MPLA, acusados de uma conjura em que também estaria envolvido Daniel Chipenda, "número dois" da organização. O facto desagradou aos soviéticos, tal como o acordo, assinado em 1972, para uma frente MPLA/FNLA onde Agostinho Neto teria aceite ser "número dois". Os documentos citados revelam uma "desconfiança mútua" entre os dirigentes de Moscovo e o primeiro Presidente angolano e "indecisões na direcção política" sobre quem apoiar que se prolongaram até muito perto da independência.
Os "atritos graves" com Neto levaram já diversos estudiosos a considerar que os soviéticos incentivaram o então ministro do Interior, Nito Alves, a liderar a contestação ao rumo do MPLA, numa acção que culminou com milhares de mortos. Milhazes escreve que Neto não só acreditou nessa tese como "foi de propósito a Moscovo pedir explicações" a Brejnev, então secretário-geral soviético, e exigiu o afastamento de dirigentes da representação militar em Luanda. O autor confirma que "os soviéticos depositavam confiança" em Nito Alves, mas não conseguiu ser conclusivo sobre o seu papel nesse episódio devido à dificuldade de acesso aos arquivos soviéticos e ao silêncio e contradições dos entrevistados.
Já sobre os rumores de que Neto foi assassinado durante uma operação, em 1979, Milhazes diz que são "um disparate". "As autoridades soviéticas não queriam que Agostinho Neto fosse operado em Moscovo, pois sabiam do seu real estado de saúde, mas, por outro lado, não podiam recusar, para não afectar a credibilidade do país", escreveu. O autor é também de opinião que, sem esquecer o Afeganistão, a intervenção em Angola ajudou à queda da URSS. "A estrutura soviética fica, do ponto de vista económico e até militar, fortemente abalada."

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/10-10-2009/urss-quase-apoiou-fnla-e-admitiu-apostar-em-savimbi-17988868.htm

quarta-feira, outubro 07, 2009

Américo Tomaz Alive!

Américo de Deus Rodrigues Tomás (ou Thomaz) (Lisboa, 19 de Novembro de 1894 - Cascais, 18 de Setembro de 1987), político e militar português, foi o décimo quarto Presidente da República Portuguesa (último do Estado Novo).


--------------------------------------------------------------------------------

«É a primeira vez que estou cá desde a última vez que cá estive.»
«Hoje visitei todos os pavilhões, se não contar com os que não visitei.»
«Comemora-se em todo o país uma promulgação do despacho número Cem da Marinha Mercante Portuguesa, a que foi dado esse número não por acaso mas porque ele vem na sequência de outros noventa e nove anteriores promulgados....»
- in revista Opção, ano II, n.º30
«...É uma terra [Manteigas]bem interessante, porque estando numa cova está a mais de 700 metros de altitude...»
- in O Século, 1/6/1964
«A minha boa vontade não tem felizmente limites. Só uma coisa não poderei fazer: o impossível. E tenho verdadeiramente pena de ele não estar ao meu alcance.»
- in Diário de Notícias, 23/6/1964
«O Sr.Prof.Oliveira Salazar, ao longo de mais de trinta anos, é uma vida inteiramente sacrificada em proveito do país, e desconhecendo completamente todos os prazeres da vida, é um homem excepcional que não aparece, infelizmente, ao menos, uma vez em cada século, mas aparece raramente ao longo de todos os séculos.»
- in Seara Nova, Maio 1965
«Eu prolongo no tempo esse anseio de V.Ex.ª e permito-me dizer que o meu anseio é maior ainda. Ele consiste em que, mesmo para além da morte, nós possamos viver eternamente na terra portuguesa, porque se nós, para além da morte vivermos sempre sobre a terra portuguesa, isso significa que portugal será eterno, como eterno é o sono da morte.»
- in Diário da Manhã, 14/9/1970
«Neste almoço ouvi vários discursos, que o Governador Civil intitulou de simples brindes. Peço desculpa, mas foram autênticos discursos.»
- in Diário de Notícias, 14/9/1970
«Pedi desculpa ao Sr.Eng.º Machado Vaz por fazer essa rectificação. Mas não havia razão para o fazer porque, na realidade, o Sr. Eng.º Machado Vaz referiu-se à altura do início do funcionamento dessa barragem e eu referi-me, afinal, à data da inauguração oficial. Ambas as datas estavam certas. E eu peço, agora, desculpa de ter pedido desculpa da outra vez ao Sr.Eng.º machado Vaz.»
- in Seara Nova, Agosto 1972
- Por vezes, um censor mais inteligente riscava uma frase tola demais, o que acabava por acentuar a ironia: o mais alto magistrado da nação censurado....
- retirado do livro "Frases que fizeram a História de Portugal" por Ferreira Fernandes e João Ferreira

sábado, setembro 19, 2009

Jornal de Angola, há 30 anos durante as exéquias de Agostinho Neto




Revista Jugoslava sobre a guerra em Angola

Boletim da Frelimo em inicios de 1974

Boletim da UNITA em 1973


Para não dizerem que sou sectário!

Dr. Américo Boavida (1923-1968)


Um folheto distribuído na Europa em memória de Américo Boavida, morto pela aviação colonial na mata em 1968, enquanto em missão.
Américo Boavida era director dos serviços de assistencia médica do MPLA. Licenciado em Coimbra, antigo jogador da Académica de Coimbra, depois de ter passado pelo Liceu Salvador Correia em Luanda.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Tomas, histórias faz!


Para quem andava distraído, antes do 25 de Abril, lembro as "sábias palavras" do então mais alto magistrado da Nação...Américo Tomás, vulgo, cabeça de Tarro...Era só para lembrar que nessa altura ele era o Chefe de Estado do Minho a Timor....

"Memórias de Tomás" (I)
«É a primeira vez que estou cá desde a última vez que cá estive.»

«Hoje visitei todos os pavilhões, se não contar com os que não visitei.»

«A minha boa vontade não tem felizmente limites. Só uma coisa não poderei fazer: o impossível. E tenho verdadeiramente pena de ele não estar ao meu alcance.»

"Eu por mim próprio, não me decidi a escrever as «Minhas Memórias». Decidiram-me. É que, estando quase toda a gente, ex-chefes de gabinete, ex-subsecretários de Estado, ex-secretários de Estado, ex-ministros, ex-chefes de Governo, escrevendo as suas memórias, a minha família começou a insistir comigo para que escrevesse as minhas «Memórias», na medida em que, disseram-me, mal me ficaria não escrever, também eu próprio, as minhas «Memórias».
Habituado a falar e não a escrever, contando, segundo as minhas contas, nove mil trezentos e sessenta e quatro alocuções por sobre o território nacional, isto é, continente, ilhas adjacentes e províncias ultramarinas, não minto!, nove mil trezentos e sessenta e cinco alocuções por sobre o território nacional e internacional, ligadas ao meu cargo de Presidente da República, - eu nunca me afeitei a usar a caneta, coisa que disse repetidamente a minha família.
Não tive sucesso, como é obvio, dado que me compraram uma caneta e ma deixaram fechada na mão.
Foi então que, pegando na caneta, carreguei no botão do gravador e comecei: "Senhor bispo da diocese, senhor ministro das Obras Públicas, senhor governador civil, senhor presidente da câmara municipal, senhor presidente da junta de freguesia, minhas senhoras e meus senhores" [in, revista Opção, Ano II, nº 30]

"É esta, portanto, a ultima cerimónia que se passa na cidade da Guarda e eu não quero deixar passar esta oportunidade sem agradecer ao bom povo desta terra o seu entusiasmo, o carinho com que recebeu o Chefe do Estado. A chuva não teve qualquer influência no entusiasmo das populações. Elas vivem numa terra de granito, e a chuva não as apoquenta (&) A Guarda é um distrito de bons portugueses, de portugueses de uma só face, portugueses, portanto, sempre prontos a defender a terra que os viu nascer. E a Guarda tem uma particularidade: é a cidade mais alta da Metrópole" [ididem, discurso na Guarda, in Século]

"& É uma terra [Gouveia] bem interessante, porque estando numa cova, está a mais de 700 metros de altitude. Pois o que desejo, sr. Presidente, para poder pagar, de qualquer forma a dívida que contraí, é que esta gente tenha um futuro feliz, abençoado por Deus. Que assim seja, para contentamento vosso e para contentamento meu &" [ibidem, em Gouveia, segundo O Século, 1/6/1964]

Almirante Américo Tomás, no dia 1 de Janeiro de 1974: "no primeiro dia do ano de 1974, tudo se passou como em iguais dias dos anos imediatamente anteriores..."

sábado, setembro 12, 2009

José Eduardo dos Santos- 30 anos na Presidencia da Republica

Jorge de Sena não pediu para ir para Portugal!


Hoje o corpo de Jorge de Sena regressa a Portugal sem o seu consentimento, deixando assim o chão da Califórnia que escolheu para viver os últimos anos. Com a ajuda do blog “de Rerum Natura” aqui se recorda um poema que escreveu em vida.

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.

Araraquara, 6/12/1961,
do Capítulo "Tempo de Peregrinatio ad loca infecta" (1959-1969) do livro "40 Anos de Servidão", 2ª edição revista, Círculo de Poesia da Moraes Editores, 1982

Jorge de Sena

sábado, agosto 01, 2009

O velho foi à viola / Diana Andringa



O velho foi à viola
Diana Andringa



Segunda-feira, 27 de Julho de 1970. Um inusitado toque de clarim interrompe a rotina matinal na prisão de Caxias.
Um toque diferente, desconhecido, num tom lamentoso que não lhe conhecíamos.
Numa cadeia, ganham-se mil ouvidos: habituamo-nos aos sons ciciados da chegada de um novo preso, ao esforço de distinguir qual a cela onde o colocam (da parte da frente, com o rio ao longe? Da de trás, tendo como única visão o muro e as pernas do guarda republicano andando nele?), à frase «Prepare-se para ir à António Maria Cardoso», que pode significar, para aquele a quem é dita, uma sessão de tortura, seja a pancada, o sono ou a estátua, o seu regresso («Quantas horas passou em interrogatórios? Quantas noites?»), à tosse que anuncia esse regresso, ao assobio longínquo de um camarada, identificando-se com uma canção comum (no nosso caso, uma coladera), até às crises de asma de alguém que necessita socorro, numa cela próxima. Então, um toque de clarim, a uma hora inabitual, desperta de imediato a atenção e a ansiedade.

Lá em baixo, na guarita, o jovem guarda republicano olha, também ele, o lado de onde o som surgiu.«Que toque é este?», perguntamos-lhe, gritando.Olha-nos e encolhe os ombros. Não como quem não quer responder à pergunta gritada por aqueles que tem o dever de guardar, mas como quem não sabe. E ouvimo-lo repetir a pergunta para a guarita seguinte: «“Que toque é este?»Do outro lado chega uma resposta, para nós inaudível. Mas o jovem ouve-a e repete-a para nós: «“É o toque dos mortos!»Para que, numa cadeia, toque o clarim por alguém que morreu, é que esse alguém é pessoa de importância. E a ansiedade e a curiosidade crescem. Gritamos, de novo, para o guarda: «E quem é que morreu?»
Tal como da primeira vez, ele repete, para a guarita seguinte, a nossa pergunta. E tal como da primeira vez, a resposta escapa-nos. Mas – tal como da primeira vez – o jovem que nos guarda logo no-la repete: «Foi o velho! O velho foi à viola!»

Não houve necessidade de perguntar mais nada. O «velho» com direito a clarim só podia ser um: Salazar. E logo nos abraçámos a rir, enquanto ouvíamos, vindos de outras celas, gritos de regozijo. Que a morte, tantas vezes desejada, do ditador, nos fosse anunciada pelo jovem que devia guardar-nos aumentava a ironia da notícia.
A cadeia explodiu em gritos, risos, murros nas paredes, comunicando de cela em cela, na velha caligrafia prisional – «Um toque é “a”, dois são “b”, três “c” e por aí adiante…» – a morte do antigo Presidente do Conselho.
Os mais lúcidos lembraram que já havia outro, Marcelo Caetano. Mas, nesse dia, a alegria prevaleceu. Mesmo quando a visita foi cancelada, mesmo quando nos cortaram os minutos de música diária, porque «o país está de luto». «De luto?», respondemos nós. «O vosso talvez esteja, o nosso país está em festa!»

E, desafinadas ou não, ergueram-se as vozes dos presos e ouviram-se pela Cadeia, nesses minutos sem música, canções de resistência.






(Publicado no nº 26 da colecção Os anos de Salazar/ O que se contava e o que se ocultava durante o Estado Novo , coordenada por António Simões do Paço.)

quinta-feira, julho 30, 2009

Uma imagem que vale por mil palavras!


Praia de Luanda nos anos 70!
Multirracialidade evidente!

domingo, julho 12, 2009

Não deixar morrer o Dondo(III)/ Aida Freudenthal/ Novo Jornal / Luanda 10-07-09



III. O património urbanístico
A primeira intervenção urbanística no Dondo operada na 2ª metade do século XVIII, ocorreu num tempo em que a intensidade do tráfico criava problemas sanitários graves na vida de homens livres e escravos. Foi promovido o saneamento urbano através do aterro de pântanos, do abastecimento de água em fontanários e da construção de alguns edifícios públicos. O núcleo embrionário “em quadra” a partir do qual foi implantado o traçado ortogonal, era o modelo característico da era pombalina (Batalha 1951 e 2008). Na rede urbana de planície foram sendo erguidas grandes casas de negócio com quintalões para escravos e mercadorias, tendo grandes armazens e casas comerciais deixado marca na vila. As lojas de um piso e alguns sobrados na rua Capacala traduzem a solidez de algumas famílias antigas do Dondo, cujas campas perpetuam a sua memória no cemitério da vila. A principal originalidade da arquitectura civil do Dondo consiste em construções térreas de grossas paredes de pedra ou de adobe cobertas de telha, cujas fachadas são rasgadas por uma sucessão de portas e janelas em arco onde os umbrais contrastam com as cores das paredes. Acrescente-se que em 1877, além de muitas cubatas não contabilizadas, a vila contava com 14 casas de negócio, 55 casas de pedra e barro e 5 sobrados de dois pisos na Rua Principal (antiga Rua Capacala). Subsidiária do conceito imperial de urbanização, o vasto largo da Quitanda junto ao rio, era o centro de toda a azáfama comercial, local de embarque e desembarque das mercadorias destinadas à exportação através de Luanda [Batalha 1960]. A expansão urbana ocorrida nas décadas de 70 e 80, exigiu ainda a construção de novas estruturas como os Paços do Concelho, o hospital, o mercado e o açougue, foi arborizado o Passeio Público e instalado o coreto para a banda de música. Ampliando os espaços verdes, os largos arruamentos foram sombreados com acácias rubras. A vila passou por uma transformação radical no aspecto sanitário e urbanístico, e foi a primeira em Angola a ver instalada a iluminação pública no último quartel do século XIX. Já no século XX, existia uma escola oficial, uma católica e outra evangélica e em 1957 foi construído o novo hospital que se empenhou no combate à doença do sono que era um terrível flagelo na região. Em termos urbanísticos, a singularidade do Dondo provém da conjunção das velhas casas de cunho tradicional português com portentosas árvores africanas; nas ruas largas, as espessas paredes das construções e as frondosas copas do arvoredo irmanaram-se numa aliança defensiva contra os raios escaldantes do sol. Com efeito “esta visão urbana que será já única em Angola pela sua beleza natural e grandiosidade de proporções, dir-se-ia uma amostra da exuberante floresta tropical dentro da povoação.”(Batalha 2008)
Em pleno século XXI, graças ao empenho actual do Ministério da Cultura e dos municípios mais conscientes dos seus valores patrimoniais, constatamos que têm sido registados actos de defesa do património urbanístico que se encontra em perigo, como acabamos de registar no Dondo onde espaços e edifícios públicos estão a ser recuperados. Esperamos pois a continuação da tarefa iniciada, com o restauro do sobrado com “a mais bela janela de sacada de Angola”, com a recuperação da dignidade do cemitério e a reconstrução do porto fluvial onde existiu um cais de alvenaria que pode servir de passeio para peões e zona de lazer. No nosso entender todo o cidadão tem o dever de apoiar as acções que visam não só preservar um pouco da história do país para as jovens gerações, como recuperar estruturas capazes de defender a dimensão humana dos agregados populacionais, melhorando a qualidade de vida dos seus habitantes e sustentando o desenvolvimento económico e social de cada região. Por tudo isso, importa não deixar morrer o Dondo.

12 de Junho de 2009 Aida Freudenthal

sexta-feira, julho 03, 2009

O Municipio do Dondo/ Aida Freudhental/ Novo Jornal / Luanda 3-07-09




Criado em 1856, procedeu ao ordenamento do aglomerado urbano, dotando-o de novas estruturas. As revoltas recorrentes na Quissama onde se acoitavam escravos fugidos das fazendas, explicam o reforço militar da vila e a construção de um forte, um quartel para duas companhias móveis, duas companhias de empacasseiros, um destacamento de caçadores e um paiol de pólvora entre 1856-68. Para responder ao crescente fluxo de mercadorias, foram abertas estradas em direcção a Pungo-a-Ndongo e Cassanje enquanto o Dondo ficou ligado a Luanda a partir de 1866 pela 1ª carreira regular de barcos a vapor da Companhia de Navegação a Vapor no Cuanza. [Boletim 0ficial de Angola, nº 39 e 52 de 1866]
O rápido crescimento económico da povoação fundamentava a petição apresentada pelos moradores em 1868: “Esta recente povoação... é actualmente uma das mais florescentes, comerciais e numerosas da provincia [cerca de 2000 almas, entre elas muitos europeus]... Estabelecimentos filiais das casas comerciais do Dondo guarnecem as margens do Quanza... comerciantes de outros concelhos vêm fornecer-se nas casas do Dondo... a existência da companhia de navegação a vapor, além de bom número de embarcações de cabotagem ... tornam esta povoação da maior importância e esperançosa de ser em poucos anos uma cidade”. [Petição dos habitantes do Dondo para elevação a vila. 25.5.1868. AHU-Lisboa]
Seria satisfeita esta expectativa dos moradores? No último quartel do século, o Dondo atingiu com efeito o maior volume de negócios com produtos como a cera, a borracha e o álcool, sendo então ponto de passagem obrigatória de funantes e aviados e de exploradores europeus que se dirigiam do litoral à distante Lunda. Contudo o súbito declínio na viragem do século seria o efeito da concorrência do caminho de ferro Luanda-Ambaca que atingiu o Lucala em 1899: a partir desse ano, as antigas rotas comerciais foram abandonadas; as mercadorias dos velhos caminhos do sertão sofreram fortes quebras, em especial a borracha, afectando os ganhos das casas comerciais e ditando o declínio da vila.
Consequentemente, o Dondo perderia parte da sua população no início do século XX, persistindo no entanto um comércio de âmbito regional, em particular de óleo de palma e coconote, reanimado pelo ramal de caminho de ferro que uniu Zenza ao Dondo. Com a ponte sobre o Kwanza, construída no início da década de 1960, o trânsito de mercadorias e passageiros por camionagem voltou a reanimar a vila, tornando-a um importante centro de comunicações entre o norte e o sul de Angola [Granado 1959]. Com a electricidade da barragem de Cambambe, foi iniciado um plano de industrialização na década de 60, que permitiu a instalação de fábricas de prensagem de algodão, de desfibra de sisal, de óleo de palma e serrações de madeira, de uma fábrica de cerveja e uma fábrica de tecidos estampados de algodão destinados ao mercado interno, que mobilizaram muita mão de obra e transformaram matéria-prima produzida internamente.