Mbela Issó
A origem dos ovimbundu tem sido motivo de estudos apaixonados por parte de vários historiadores. Uma das razões para que isso aconteça, tem a ver com o fato de se tratar de um grupo étnico que marcou (e continua a marcar), de modo profundo, a história econômica, social, política e cultural da porção de território que hoje se chama Angola.
Na verdade, este grupo étnico, destacou-se muito cedo. Assim, temos, em primeiro lugar, a enfatizar a resistência tenaz que manifestou contra o invasor colonialista; em segundo lugar, a sabedoria de alguns dos seus reis, que lhes permitiu estender as suas relações comerciais até ao Zanzibar (Oceano Índico); em terceiro lugar, a exploração desenfreada a que foi vítima durante o regime colonial (roças, pescarias, fazendas de algodão, café,etc.) que levou muitos ovimbundu a emigrarem para os países vizinhos. Por último, e na história mais recente, o fato de ter surgido, no seio deste grupo étnico, uma rebelião armada, cujas conseqüências ainda estão para ser descritas.
A origem dos Ovimbundu é, de acordo com os historiadores, sempre vista dentro dos processos migratórios Bantu (Os ovimbundu, tal como a maior parte da população que vive a sul do equador é Bantu, por pertencerem a um grupo lingüístico que utiliza a raiz ntu para se referir ao homem. O acréscimo do prefixo Ba (plural)- Bantu surge, assim, para designar esta população no seu todo). Recorde-se que alguns investigadores têm avançado hipóteses segundo as quais os Bantu teriam vindo da Ásia ou da região de Bahar-el-Ghazal e que se teriam fixado nos grandes lagos. Muito para além das formulações hipotéticas é um fato comummente aceite entre os investigadores de que os Bantu devem, provavelmente, ter vindo das mesetas de Bauchi (Nigéria) e dos Camarões. Mas tudo aponta no sentido de serem originários do Noroeste da floresta equatorial (vale de Benué) e que durante milhares de anos se foram fixando em vários pontos da África. As migrações, como são óbvias, tiveram várias causas entre as quais podemos apontar as de caráter político (defesa e luta pela sobrevivência de um grupo face ao outro); econômico (ligadas às catástrofes naturais que faziam com que os Bantu procurassem terrenos mais férteis). São os problemas que Basil Davidson designou como sendo de caráter físico. Por último, podem apontar-se os desentendimentos dentro dos vários clãs (problemas ligados à sucessão ao trono).
Ekuikui II :Artífice da estratégia "vergar o adversário pela economia"
Relativamente a Angola é de referir que os Bantu angolanos, são originários do que se tem designado por 2º Centro Bantófono (Baixo Congo e Planalto Luba).Os ovimbundu seriam, assim, descendentes dos Bantu que se fixaram no planalto central. No entanto, as hipóteses acerca da origem dos ovimbundu são várias e nem sempre consensuais. As referidas hipóteses dividem-se entre aquelas que afirmam que os Ovimbundu teriam vindo de Benué (um vale situado numa região a leste da Nigéria); as que defendem a idéia de que seriam resultado de uma miscigenação de outros grupos e as que os consideram como descendentes dos autores das pinturas rupestres de Caninguiri (Kañilili).
De acordo com a primeira hipótese os ovimbundu, conforme os seus autores, teriam passado pela faixa Atlântica, fixando-se em Benguela. E dado o fato de serem agricultores dirigiram-se ao planalto do Huambo e Bié, cujas terras eram as mais férteis. Esses autores sustentam esta hipótese com dados provenientes da lingüística. Assim, segundo ele, alguns dos termos utilizados pelos Ovimbundu, ao invés de se aproximarem aos usados pelos Bantu mais próximos assemelham-se mais aos do povo Igbo da Nigéria. É o caso do termo "Suku" (deus) "omunu" (pessoa,) "twendi" (vamos). Os kimbundu por, exemplo, utilizam o termo Nzambi para designar Deus.
Os defensores da segunda hipótese afirmam que os Ovimbundu são uma síntese de vários grupos étnicos. E, consequentemente, defendem a idéia de que este grupo não tem um caráter homogêneo. Estão à vista os aproveitamentos políticos que se podem fazer desta interpretação. Uma vez que se pretende, com este ponto de vista, provar que os Ovimbundu não são um grupo étnico unitário, e muito menos têm uma especificidade cultural e étnico-linguística próprias.
Os estudiosos, defensores desta hipótese, apegando-se em aspectos lingüísticos, afirmam que os Ovimbundu seriam descendentes dos Bakongo, uma vez que, segundo eles, a língua umbundu é uma síntese do Bantu-Kongo e do Bantu-Lunda. Na verdade, esta hipótese, possui uma certa evidência científica, pois os Ovimbundu, pela posição que ocupam no planalto central, teriam ligações com os Ambundu da baixa de Kasanji; com os Cokwe e os Lunda. E mesmo a sua grande versatilidade, a sua impressionante capacidade de adaptação aos diversos habitat, poderia ser explicada a partir desta simbiose; desta miscigenação que não se cingiu apenas a aspectos lingüísticos e biológicos;mas também à adoção de saberes, técnicas, formas coletivas de luta contra a adversidade da natureza.
Esta hipótese, a mais aceite pelos vários historiados, viria a levar um rude golpe, criando assim, várias dúvidas, com a descoberta da estação arqueológica de Kaniniguiri (Kaniñili). É de referir que esta se situa nas áreas do Mungo e do Bailundo e remonta a milhares de anos (9600 anos ou 9670 anos em idade absoluta). O que mostra que, paralelamente, as comunidades pré-bantu (Bosquímanos,os Vátuas e outros) existia, na região do planalto, uma comunidade, de onde saíram os autores das famosas e impressionantes pinturas ruprestes de Kaninguiri. E, se para além das evidências arqueológicas, nos ativermos à tradição oral, que apresentaremos quando falarmos da história de cada subgrupo étnico em particular, podemos tirar a seguinte conclusão: existem evidências claras que apontam no sentido de os Ovimbundu serem descendentes diretos dos autores das pinturas de Kaninguiri e que foram sofrendo, num processo de "osmose", influência dos grupos Bantu que se iam fixando nas proximidades. Saliente-se que, de acordo com alguns historiadores, as migrações dos Bantu, em Angola, devem ter iniciado no século XII com a entrada dos Kikongo; dos va-Nyaneka no séc XVI, dos Ngangeula, no século XVII, dos Ovambo e dos Cokwe, no século XVIII e dos Ovakwangali no século XIX.
O grupo étnico dos ovimbundu é, atualmente, formado por vários subgrupos :va-mbalundu, va-vihé, va-wambu, va-ngalangui, va-kimbulu, va-ndulu, va-kingolo, va-kaluquembe, os va-sambu), va-ekekete), va-kakonda), va-kitatu, va-sele, va-mbui, va-hanha, va-nganda va-chikuma, va-dombe e va-lumbu). Estes subgrupos vivem na região que compreende o Huambo, zona de solo fértil e onde se pode cultivar cereais, pomicultura, horticultura, etc. Para além disso, possui boas condições para o gado, especialmente bovino; é de referir que algumas províncias como a Huíla possuem regiões onde a população é majoritariamente Ovimbundu (Caluquembe e Caconda); o Bié, igualmente uma zona fértil e de clima saudável; Benguela, região igualmente com terrenos muito férteis e onde existem minérios de cobre,ferro,enxofre, sulfato de sal,etc.e numa parte do Cuanza sul.
Por fim resta-nos apenas dizer que os futuros estudos a efetuar querem ao nível da lingüística, quer da arqueologia,quer ainda da tradição poderão aportar outros dados importantes para o conhecimento relativo a origem dos Ovimbundu.
Um local de alguma cultura, mas também alguma estupidificação, como é revelador ter chegado aos quase 50 anos sem ler o D.Quixote do Cervantes, o próprio, depois de ter perdido tanto tempo a ler tanta treta...Já agora, fale-se aqui muito de Angola...E do resto,desde que não pessoalizem quem não é figura publica como é o meu caso e o meu ocaso!
quarta-feira, julho 14, 2010
quarta-feira, julho 07, 2010
OSCAR MONTEIRO - Paulo jorge, de mensageiro a meu heroi
Paulo Jorge do MPLA: De mensageiro a meu herói
ERA Maio em Paris de 1963. A viagem de fim de curso dos quintanistas de Direito da Universidade de Coimbra oferecia-me uma oportunidade inesperada de fazer algum contacto com os meus colegas que entretanto se haviam juntado aos movimentos de libertação, alguns cabo-verdianos, na maior parte angolanos. Eu vivia em Coimbra numa república de estudantes anticoloniais, de onde regularmente se fugia ou se era preso.
Maputo, Terça-Feira, 29 de Junho de 2010:: Notícias
Parto armado dos endereços de Saint Aubin, que como o nome não indica era cabo-verdiano, brilhante matemático e o contacto fornecido pelo núcleo de estudantes do PAIGC em Portugal de cujo relatório eu era portador. Em Paris, Saint Aubin recebe o relatório e com António Avidago, um angolano branco, que tinha sido meu co-repúblico, informam Marcelino dos Santos que era em Rabat Secretário-Geral do órgão de coordenação dos movimentos de libertação das colónias portuguesas, a CONCP, que eu estava nas paragens. No Quartier Latin vou ao ponto de encontro dos estudantes nacionalistas no Café Odeon onde me encontro com Sérgio Vieira que era dirigente da UNEMO, União de Estudantes Moçambicanos e muito brevemente com Joaquim Chissano, colega do liceu, que já era Secretário do Presidente Mondlane em Dar es Salaam e que havia chegado essa manhã mesmo de uma viagem aos Estados Unidos. A nossa viagem prossegue para a Alemanha (Koln e Bonn) e para a Dinamarca.
No regresso, passo de novo por Paris onde me aguarda Paulo Jorge. Paulo tinha a missão de estabelecer ligação com Portugal e Angola. Trabalhava numa empresa gráfica e com o seu salário apoiava a representação do MPLA que era a casa de Inocêncio Câmara Pires. Câmara Pires era um personagem de lenda. Descendente das grandes famílias mestiças de Angola, dono de considerável fortuna ao que diziam, havia entregado o que tinha ao MPLA e agia em Paris como representante do MPLA. Um homem formoso de tez morena, e quando o conheci já com uma farta cabeleira e barba branca, um Hemingway bem penteado e bem parecido, deveria ter sido famoso entre as mulheres. Casara com a Viscondessa de Caumont de quem enviuvara. Câmara Pires era um Compagnon de la Résistance medalhado, havia participado na resistência contra os nazis. Por isso numa França aliada de Portugal, as suas actividades eram toleradas. A sua casa era modestíssima, na Rua Hippolyte Maindron no 14ªeme arrondissement (bairro), na altura um quarteirão menos considerado em Paris.
* *
Paulo Jorge transmite-me a mensagem com o acordo ou orientações que havia recebido de Marcelino: que constituíssemos um órgão de coordenação dos estudantes com MPLA, PAIGC e FRELIMO e indica-me os contactos do chefe clandestino do MPLA, Álvaro Santos, que me descreve como um mulato cafuso conhecido por Zefo e Jorge Querido, estudante de engenharia do PAIGC. Remete-me ainda um calhamaço de boletins e comunicados dos movimentos de libertação entre os quais os primeiros documentos da FRELIMO que havia sido fundada no ano anterior, publicações obviamente proibidas que eu não sabia como esconder no comboio na passagem das fronteiras, mas que não tenho coragem de recusar com receio de passar por medroso logo à primeira.
Em Portugal o grupo devidamente constituído inicia em colaboração com um colega de liceu, natural da Zambézia, Álvaro Mateus, “Dallas”, a publicação do “Anti Colonial”, uma publicação regular clandestina, escrito por nós mas editado nas imprensas do Partido Comunista, em papel bíblia ou papel de mortalha de cigarro. Temos na altura uma divergência sobre a difusão das notícias de fonte UPA-GRAE que o Partido Comunista achava que se devia difundir de qualquer modo. Outra história. Só releva aqui porque é no decurso da distribuição desse boletim que venho a ter que atravessar a fronteira para chegar a França. Depois de detido em Poitiers, sigo para Paris. O 7 Hippolyte Maindron estava na minha cabeça porque era para lá que eu enviava os relatórios do trabalho em Portugal – parece que só foi um e encontrei-o nos arquivos do Marcelino com o pseudónimo demasiado óbvio de Fernando Santos. Para lá me dirigi a pé ao sair da Gare de Austerlitz. Estão lá Câmara Pires, Paulo Jorge e a jantar nessa noite os Margaridos, Alfredo e Manuela. Aí sou acolhido aos abraços, tomo o primeiro banho depois de quatro dias, como e durmo num colchão no chão, sob os olhares solícitos dos angolanos. No dia seguinte, os meus camaradas João Ferreira e Jacinto Veloso, que se haviam juntado à Frente de Libertação pilotando um avião da Força Aérea Portuguesa tomam conta de mim.
* *
No tempo de Paris frequento bastante Paulo Jorge, aprecio a sua simplicidade e o seu método. Mas é na Argélia que se cimenta a nossa amizade e – palavra essa que figura no museu das antiguidades da revolução – a nossa camaradagem. Somos ambos representantes dos nossos movimentos. Estando eu sozinho, pedi e passei a comer em casa dos angolanos, onde viviam o Adolfo Maria e esposa, Pepetela e Maria do Céu Reis e onde comiam também Hélder Neto, que perece na intentona nitista, o artista e etnólogo Henrique Abranches, Zé dos Kalos, meu antigo com repúblico de Coimbra e economista e Jorge Pires que como general dirigiu a logística das FAPLAs. Paulo Jorge concertava com mestria este conjunto de pessoas tão complexas, basta ver os conflitos que irromperam depois de ele sair e a que só o Presidente Neto conseguiu pôr cobro.
As funções das representações eram de difusão de informação na Argélia e nos países de expressão francesa para que os argelinos contribuíam com um subsídio mensal de dois mil e quinhentos dinares e no período final quatro mil dinares. Outras funções eram o relacionamento com as autoridades argelinas, nomeadamente pedidos de ajuda financeira directa, coordenação da acção diplomática na OUA e organizações internacionais e outras questões administrativas como passaportes, trânsito de militantes, bilhetes.
* * *
Mas havia um forte engulho. Nesses anos sessenta, o Governo argelino sob a influência de Franz Fanon, com as suas teses legitimadoras da violência dos oprimidos, havia reconhecido o GRAE de Holden Roberto. A sua viúva Josie, colega de Aquino de Bragança no jornal “Révolution Africaine”, velava sobre esse património como vestal do templo, até já aos anos setenta. Tínhamos que mudar a situação: Aquino fez muito por isso ao nível do jornal e da opinião. Mas faltava fazê-lo ao nível institucional. Com Paulo Jorge, aproveitámos uma convocação de todos os movimentos de libertação para concertar uma revolta daqueles que se auto-intitulavam os movimentos de libertação autênticos – e que éramos nós, claro! – MPLA, FRELIMO, PAIGC, ANC, ZAPU, SWAPO contra a “Unholly Alliance” (a aliança ímpia) que eram os outros. Fizemos o representante do GRAE sair da sala.
Mais tarde volto a encontrar Paulo Jorge como Chefe das Relações Exteriores da Presidência com o Presidente Neto. Estamos juntos com Samora e Chissano, Nyerere e Garba na grande batalha diplomática pelo reconhecimento do Governo do MPLA, na OUA em Addis-Abeba, onde a nossa vitória foi conseguir um empate de 22 a 22. Mais tarde como Ministro das Relações Exteriores estamos juntos na batalha da Namíbia e da SWAPO. Em 1978 vamos ambos às Nações Unidas. Andrew Young, o primeiro negro na Administração americana e seu representante nas Nações Unidas, convoca-nos para o seu escritório em frente das Nações Unidas a dois passos do nosso hotel, o UN Plaza, para trocar ideias. Os Ministros da Linha da Frente dos países anglófonos vão ao encontro. Paulo Jorge e eu decidimos que o encontro não é ao nosso nível. Vão os nossos colegas de delegação. Éramos assim em 1970...
No dia seguinte, domingo, alertado por Andrew Young, Cyrus Vance, Secretário de Estado de Jimmy Carter, homem de delicado trato, vem ao nosso hotel, hospeda-se numa suite onde nos recebe, a começar por Paulo Jorge. Os nossos colegas anglófonos estão estupefactos.
Paulo Jorge deixa nome na diplomacia africana pela sua defesa apaixonada da posição de Angola e pelo seu reconhecimento no mundo. Chissano contou-me da troca de argumentos entre Senghor e Paulo Jorge na OUA. Quando Senghor, excelente pessoa de resto e poeta que agora redescubro, começa com as suas divagações sobre a política, “on parle beaucoup d’imperialisme, mais qu´est-ce l´impérialisme” ? ou seja estamos aqui a falar muito de imperialismo, mas o que é esse imperialismo, Paulo Jorge levanta-se e diz: “L´impérialisme, Mr. Le Président, est le stade suprême du capitalisme. C´est écrit sur la couverture !”( O imperialismo, Senhor Presidente, é o estádio supremo do capitalismo. Está escrito na capa!) aludindo a um famoso panfleto muito lido entre os políticos na época, da autoria de Lénine, Éditions Sociales, Paris.
* * *
Conheço a sua vida e a sua casa. Conheci também os seus Gabinetes e Residências como Ministro e Governador de Benguela. Agora que está em Moçambique para participar em nome do seu Partido no simpósio sobre o legado de Samora Machel – que bem o MPLA soube escolher! – quis que viesse conhecer a minha família, a minha mulher e filhos, na terra onde nasci. O meu país, diferente por aquilo que a sua geração fez e à qual naquele dia de Maio de 63 em Paris, com Marcelino me fez pertencer. Riqueza e sentido que jamais poderei reconhecer à justa medida.
Mas Paulo Jorge é para mim e para muitos mais do que as recordações comuns. Haverá outros Ministros e outros dirigentes melhores. O que caracteriza Paulo Jorge é a sua constância. Em tudo o que é essencial, em tudo o que comanda a vida, Paulo Jorge permaneceu igual a si próprio. Nas amizades, na família – o que nos tempos que passam reconheça-se é um recorde absoluto, só por si merecedor de uma estátua –, nas convicções e na sua coragem. Fala quando é preciso, sem querer nada para ele. É um homem sem medo. Por isso ele é venerado.
É um puro. É um dos meus heróis.
Oscar 8 de Outubro 2003 em Maputo, Avenida do Zimbabwe.
Este texto foi lido e entregue a Paulo Jorge. E publicado hoje pela primeira vez.
• ÓSCAR MONTEIRO - O texto é uma homenagem ao nacionalista e deputado da Assembleia Nacional de Angola, Paulo Teixeira Jorge, falecido sábado passado, em Luanda.
ERA Maio em Paris de 1963. A viagem de fim de curso dos quintanistas de Direito da Universidade de Coimbra oferecia-me uma oportunidade inesperada de fazer algum contacto com os meus colegas que entretanto se haviam juntado aos movimentos de libertação, alguns cabo-verdianos, na maior parte angolanos. Eu vivia em Coimbra numa república de estudantes anticoloniais, de onde regularmente se fugia ou se era preso.
Maputo, Terça-Feira, 29 de Junho de 2010:: Notícias
Parto armado dos endereços de Saint Aubin, que como o nome não indica era cabo-verdiano, brilhante matemático e o contacto fornecido pelo núcleo de estudantes do PAIGC em Portugal de cujo relatório eu era portador. Em Paris, Saint Aubin recebe o relatório e com António Avidago, um angolano branco, que tinha sido meu co-repúblico, informam Marcelino dos Santos que era em Rabat Secretário-Geral do órgão de coordenação dos movimentos de libertação das colónias portuguesas, a CONCP, que eu estava nas paragens. No Quartier Latin vou ao ponto de encontro dos estudantes nacionalistas no Café Odeon onde me encontro com Sérgio Vieira que era dirigente da UNEMO, União de Estudantes Moçambicanos e muito brevemente com Joaquim Chissano, colega do liceu, que já era Secretário do Presidente Mondlane em Dar es Salaam e que havia chegado essa manhã mesmo de uma viagem aos Estados Unidos. A nossa viagem prossegue para a Alemanha (Koln e Bonn) e para a Dinamarca.
No regresso, passo de novo por Paris onde me aguarda Paulo Jorge. Paulo tinha a missão de estabelecer ligação com Portugal e Angola. Trabalhava numa empresa gráfica e com o seu salário apoiava a representação do MPLA que era a casa de Inocêncio Câmara Pires. Câmara Pires era um personagem de lenda. Descendente das grandes famílias mestiças de Angola, dono de considerável fortuna ao que diziam, havia entregado o que tinha ao MPLA e agia em Paris como representante do MPLA. Um homem formoso de tez morena, e quando o conheci já com uma farta cabeleira e barba branca, um Hemingway bem penteado e bem parecido, deveria ter sido famoso entre as mulheres. Casara com a Viscondessa de Caumont de quem enviuvara. Câmara Pires era um Compagnon de la Résistance medalhado, havia participado na resistência contra os nazis. Por isso numa França aliada de Portugal, as suas actividades eram toleradas. A sua casa era modestíssima, na Rua Hippolyte Maindron no 14ªeme arrondissement (bairro), na altura um quarteirão menos considerado em Paris.
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Paulo Jorge transmite-me a mensagem com o acordo ou orientações que havia recebido de Marcelino: que constituíssemos um órgão de coordenação dos estudantes com MPLA, PAIGC e FRELIMO e indica-me os contactos do chefe clandestino do MPLA, Álvaro Santos, que me descreve como um mulato cafuso conhecido por Zefo e Jorge Querido, estudante de engenharia do PAIGC. Remete-me ainda um calhamaço de boletins e comunicados dos movimentos de libertação entre os quais os primeiros documentos da FRELIMO que havia sido fundada no ano anterior, publicações obviamente proibidas que eu não sabia como esconder no comboio na passagem das fronteiras, mas que não tenho coragem de recusar com receio de passar por medroso logo à primeira.
Em Portugal o grupo devidamente constituído inicia em colaboração com um colega de liceu, natural da Zambézia, Álvaro Mateus, “Dallas”, a publicação do “Anti Colonial”, uma publicação regular clandestina, escrito por nós mas editado nas imprensas do Partido Comunista, em papel bíblia ou papel de mortalha de cigarro. Temos na altura uma divergência sobre a difusão das notícias de fonte UPA-GRAE que o Partido Comunista achava que se devia difundir de qualquer modo. Outra história. Só releva aqui porque é no decurso da distribuição desse boletim que venho a ter que atravessar a fronteira para chegar a França. Depois de detido em Poitiers, sigo para Paris. O 7 Hippolyte Maindron estava na minha cabeça porque era para lá que eu enviava os relatórios do trabalho em Portugal – parece que só foi um e encontrei-o nos arquivos do Marcelino com o pseudónimo demasiado óbvio de Fernando Santos. Para lá me dirigi a pé ao sair da Gare de Austerlitz. Estão lá Câmara Pires, Paulo Jorge e a jantar nessa noite os Margaridos, Alfredo e Manuela. Aí sou acolhido aos abraços, tomo o primeiro banho depois de quatro dias, como e durmo num colchão no chão, sob os olhares solícitos dos angolanos. No dia seguinte, os meus camaradas João Ferreira e Jacinto Veloso, que se haviam juntado à Frente de Libertação pilotando um avião da Força Aérea Portuguesa tomam conta de mim.
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No tempo de Paris frequento bastante Paulo Jorge, aprecio a sua simplicidade e o seu método. Mas é na Argélia que se cimenta a nossa amizade e – palavra essa que figura no museu das antiguidades da revolução – a nossa camaradagem. Somos ambos representantes dos nossos movimentos. Estando eu sozinho, pedi e passei a comer em casa dos angolanos, onde viviam o Adolfo Maria e esposa, Pepetela e Maria do Céu Reis e onde comiam também Hélder Neto, que perece na intentona nitista, o artista e etnólogo Henrique Abranches, Zé dos Kalos, meu antigo com repúblico de Coimbra e economista e Jorge Pires que como general dirigiu a logística das FAPLAs. Paulo Jorge concertava com mestria este conjunto de pessoas tão complexas, basta ver os conflitos que irromperam depois de ele sair e a que só o Presidente Neto conseguiu pôr cobro.
As funções das representações eram de difusão de informação na Argélia e nos países de expressão francesa para que os argelinos contribuíam com um subsídio mensal de dois mil e quinhentos dinares e no período final quatro mil dinares. Outras funções eram o relacionamento com as autoridades argelinas, nomeadamente pedidos de ajuda financeira directa, coordenação da acção diplomática na OUA e organizações internacionais e outras questões administrativas como passaportes, trânsito de militantes, bilhetes.
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Mas havia um forte engulho. Nesses anos sessenta, o Governo argelino sob a influência de Franz Fanon, com as suas teses legitimadoras da violência dos oprimidos, havia reconhecido o GRAE de Holden Roberto. A sua viúva Josie, colega de Aquino de Bragança no jornal “Révolution Africaine”, velava sobre esse património como vestal do templo, até já aos anos setenta. Tínhamos que mudar a situação: Aquino fez muito por isso ao nível do jornal e da opinião. Mas faltava fazê-lo ao nível institucional. Com Paulo Jorge, aproveitámos uma convocação de todos os movimentos de libertação para concertar uma revolta daqueles que se auto-intitulavam os movimentos de libertação autênticos – e que éramos nós, claro! – MPLA, FRELIMO, PAIGC, ANC, ZAPU, SWAPO contra a “Unholly Alliance” (a aliança ímpia) que eram os outros. Fizemos o representante do GRAE sair da sala.
Mais tarde volto a encontrar Paulo Jorge como Chefe das Relações Exteriores da Presidência com o Presidente Neto. Estamos juntos com Samora e Chissano, Nyerere e Garba na grande batalha diplomática pelo reconhecimento do Governo do MPLA, na OUA em Addis-Abeba, onde a nossa vitória foi conseguir um empate de 22 a 22. Mais tarde como Ministro das Relações Exteriores estamos juntos na batalha da Namíbia e da SWAPO. Em 1978 vamos ambos às Nações Unidas. Andrew Young, o primeiro negro na Administração americana e seu representante nas Nações Unidas, convoca-nos para o seu escritório em frente das Nações Unidas a dois passos do nosso hotel, o UN Plaza, para trocar ideias. Os Ministros da Linha da Frente dos países anglófonos vão ao encontro. Paulo Jorge e eu decidimos que o encontro não é ao nosso nível. Vão os nossos colegas de delegação. Éramos assim em 1970...
No dia seguinte, domingo, alertado por Andrew Young, Cyrus Vance, Secretário de Estado de Jimmy Carter, homem de delicado trato, vem ao nosso hotel, hospeda-se numa suite onde nos recebe, a começar por Paulo Jorge. Os nossos colegas anglófonos estão estupefactos.
Paulo Jorge deixa nome na diplomacia africana pela sua defesa apaixonada da posição de Angola e pelo seu reconhecimento no mundo. Chissano contou-me da troca de argumentos entre Senghor e Paulo Jorge na OUA. Quando Senghor, excelente pessoa de resto e poeta que agora redescubro, começa com as suas divagações sobre a política, “on parle beaucoup d’imperialisme, mais qu´est-ce l´impérialisme” ? ou seja estamos aqui a falar muito de imperialismo, mas o que é esse imperialismo, Paulo Jorge levanta-se e diz: “L´impérialisme, Mr. Le Président, est le stade suprême du capitalisme. C´est écrit sur la couverture !”( O imperialismo, Senhor Presidente, é o estádio supremo do capitalismo. Está escrito na capa!) aludindo a um famoso panfleto muito lido entre os políticos na época, da autoria de Lénine, Éditions Sociales, Paris.
* * *
Conheço a sua vida e a sua casa. Conheci também os seus Gabinetes e Residências como Ministro e Governador de Benguela. Agora que está em Moçambique para participar em nome do seu Partido no simpósio sobre o legado de Samora Machel – que bem o MPLA soube escolher! – quis que viesse conhecer a minha família, a minha mulher e filhos, na terra onde nasci. O meu país, diferente por aquilo que a sua geração fez e à qual naquele dia de Maio de 63 em Paris, com Marcelino me fez pertencer. Riqueza e sentido que jamais poderei reconhecer à justa medida.
Mas Paulo Jorge é para mim e para muitos mais do que as recordações comuns. Haverá outros Ministros e outros dirigentes melhores. O que caracteriza Paulo Jorge é a sua constância. Em tudo o que é essencial, em tudo o que comanda a vida, Paulo Jorge permaneceu igual a si próprio. Nas amizades, na família – o que nos tempos que passam reconheça-se é um recorde absoluto, só por si merecedor de uma estátua –, nas convicções e na sua coragem. Fala quando é preciso, sem querer nada para ele. É um homem sem medo. Por isso ele é venerado.
É um puro. É um dos meus heróis.
Oscar 8 de Outubro 2003 em Maputo, Avenida do Zimbabwe.
Este texto foi lido e entregue a Paulo Jorge. E publicado hoje pela primeira vez.
• ÓSCAR MONTEIRO - O texto é uma homenagem ao nacionalista e deputado da Assembleia Nacional de Angola, Paulo Teixeira Jorge, falecido sábado passado, em Luanda.
quinta-feira, julho 01, 2010
MEU TEMPO ESTÁ-SE ESFUMANDO / Arnaldo Santos

Observatório do Balão
MEU TEMPO ESTÁ-SE ESFUMANDO
Arnaldo Santos
Daqui, não tenho outra forma de encarar o falecimento do Paulo Jorge, senão olhando para mim e para a minha relação estrábica com o tempo.
Os dias correm e é certo que muitas coisas se vão ganhando nessa sua progressão. Nossa Pátria hoje, já não dá tantas dores de cabeça ao nosso Ministro das Relações Exteriores, como deu ao camarada Paulo Jorge quando nessa condição, ele porfiava pelos nossos interesses nos areópagos da diplomacia mundial; ou, como antes disso, se infiltrava pelos fóruns, chancelarias e gabinetes conspirativos terceiro-mundistas.
No porém, com a mesma cadência ou porventura, num ritmo cada vez mais acentuado, o que se vai perdendo no tempo que passa, é mais significativo do que se ganha. É pelo menos o que eu vou sentindo.
Dessa sensação pessoal de perda tem gente que se imuniza, mas à custa de algum depauperamento espiritual. O poder, seja de que natureza for, político ou económico, ajuda muito a encouraçar as sensibilidades. A nossa juventude, dada a sua pouca experiência de vida, ainda se pode dar conta do que representa o desaparecimento dos nossos valores vivos.
Por isso, estou consciente de que o falecimento do Paulo Jorge, é mais meu mambo pessoal do que uma questão nacional. Eu mesmo se tivesse um bocadinho mais decoro ficaria com estas considerações só para mim, conjuntamente com minhas outras maleitas privadas. Mas teimo em retirar do tempo passado o que para mim dá conteúdo real ao presente e ouso pensar que haja quem queira relembrar o Paulo Jorge, nosso caminheiro diplomático. Mas desse papel que o Paulo desempenhou concretamente, eu não vou longe. A sua biografia política é obra para Historiadores.
Estou muito aquém daquilo que no essencial foi a atribulada vida do Paulo Jorge, enquanto combatente da liberdade, desde os anos de 1959 em que lhe conheci, Presidente; mas da Casa dos Estudantes do Império, não se vá fabular em equívocos maquiavélicos.
Nesta minha saudade minhas pretensões são modestas. Infinitamente. Devia limitar-me ao que reputo de essencial. E hesito em denunciá-lo. Vão-me criticar, se calhar com toda a razão, ainda mais nesta hora de tão grande transcendência. Receio demais as reacções das pessoas desafectas às questões simples e vulgares.
No entanto, tenho que ser coerente. A minha confissão é simples e comezinha e sei que pode levar as pessoas sérias a sentirem-se defraudadas. Mas confesso que esta é a minha única verdade. Era através dela que nos últimos tempos me reencontrava regularmente com o Paulo Jorge. – “Continua… estou a ler.” – Este Observatório perdeu o seu mais fiel leitor, ou, melhor, e parafraseando o malogrado Paulo, uma das suas mais fiéis “vitimas.”
Obviamente que as pessoas perceberão que esta é a minha razão aparente. A real, decididamente, é outra. Paulo Jorge, era meu kamba ria mute ibatu. Para quem não gosta de quimbundar, ele era, um aliado para a vida. Observávamos a vida através dos mesmos dirigíveis.
Massamá, 28 de Junho de 2010.
quinta-feira, junho 10, 2010
Jorge de Sena /10 de Junho de 1977
TIVE O GRATO PRAZER DE TER ASSISTIDO A ESTE DISCURSO AO VIVO E A CORES!
«Os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, é não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião. (...) E sejam quais forem as nossas ideias e as nossas situações políticas, nenhum de vós que me escutais ou não, pode viver sem uma ideia que, genericamente, é inerente à própria condição humana: o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos. (...) Deixem-me todavia recordar-vos que o grande aproveitacionismo de Camões para oportunismos de politicagem moderna não foi iniciado pela reacção. Esta, na verdade, e desde sempre, mesmo quando brandindo Camões, sentia que as mãos lhe ardiam. Aqueles oportunismos foram iniciados com o liberalismo romântico e com o positivismo republicano. E se o Estado Novo tentou apoderar-se de Camões, devemos reconhecer que ele era o herdeiro do nacionalismo político e burguês, inventado e desenvolvido por aquele liberalismo e aquele positivismo naquelas confusões ideológicas que os caracterizavam e de que Camões não tem culpa (...). Além e acima de tudo e todos, a principal personagem da epopeia é Camões ele-mesmo, não só como o autor, não só como o narrador, não só como o crítico severo e implacável de toda a corrupção e de toda a maldade, como o denunciador angustiado de uma decadência moral e cívica que ele via e sentia à sua volta, e o qual constantemente interrompe a narrativa para invectivar com o maior desassombro. (...) Ele é o homem em si, aquele ser que se busca continuamente e ao amor que o projecta para dentro e para fora de si mesmo, e é, como Luís de Camões, o predestinado para ser, ao mesmo tempo, o poeta-herói supremo que realiza, isto é, torna real para a eternidade da poesia, a história de Portugal, e a embarca nos navios de Vasco da Gama para unir o Ocidente ao Oriente. Ao mesmo tempo, este poeta-herói-épico, e o poeta-homem, exemplo de ser-se português, em exílios e trabalhos, em sofrer incompreensões e injustiças , e - ao contrário do que sucede ou sucedeu a alguns - regressar com as mãos vazias, apenas rico de desilusões, de amarguras e do génio que havia posto numa das mais prodigiosas construções jamais criadas, desde que o mundo é mundo (...). E vendo-o no seu tempo, e na visão do mundo que ele teve, sabemos que devemos relê-lo atentamente para saber, que ele, tão orgulhosamente português, entenderia todas as independências, se fosse em vida nosso contemporâneo como ele o é na obra que nos legou, para glória máxima de uma língua falada e escrita ou recordada em todos os continentes. O orgulho de ser-se alguma coisa, o inabalável sentimento de independência e de liberdade, disso ele falou, e sentiu como ninguém. É disso um mestre. Tudo existe na sua obra: o orgulho e a indignação, a tristeza e a alegria prodigiosa, a amargura e o gosto de brincar, e desejo de ser-se um puro espírito de tudo isento e a sensualidade mais desbragada, uma fé inteiramente pessoal, pensada e meditada como ele a queria e não como uma instituição , e a dúvida do presdestinado que se sente todavia só e abandonado a si mesmo. Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) - todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu.»
Jorge de Sena, Discurso do 10 de Junho, na Guarda, In Dedicácias, Guerra&Paz. 2010
«Os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, é não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião. (...) E sejam quais forem as nossas ideias e as nossas situações políticas, nenhum de vós que me escutais ou não, pode viver sem uma ideia que, genericamente, é inerente à própria condição humana: o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos. (...) Deixem-me todavia recordar-vos que o grande aproveitacionismo de Camões para oportunismos de politicagem moderna não foi iniciado pela reacção. Esta, na verdade, e desde sempre, mesmo quando brandindo Camões, sentia que as mãos lhe ardiam. Aqueles oportunismos foram iniciados com o liberalismo romântico e com o positivismo republicano. E se o Estado Novo tentou apoderar-se de Camões, devemos reconhecer que ele era o herdeiro do nacionalismo político e burguês, inventado e desenvolvido por aquele liberalismo e aquele positivismo naquelas confusões ideológicas que os caracterizavam e de que Camões não tem culpa (...). Além e acima de tudo e todos, a principal personagem da epopeia é Camões ele-mesmo, não só como o autor, não só como o narrador, não só como o crítico severo e implacável de toda a corrupção e de toda a maldade, como o denunciador angustiado de uma decadência moral e cívica que ele via e sentia à sua volta, e o qual constantemente interrompe a narrativa para invectivar com o maior desassombro. (...) Ele é o homem em si, aquele ser que se busca continuamente e ao amor que o projecta para dentro e para fora de si mesmo, e é, como Luís de Camões, o predestinado para ser, ao mesmo tempo, o poeta-herói supremo que realiza, isto é, torna real para a eternidade da poesia, a história de Portugal, e a embarca nos navios de Vasco da Gama para unir o Ocidente ao Oriente. Ao mesmo tempo, este poeta-herói-épico, e o poeta-homem, exemplo de ser-se português, em exílios e trabalhos, em sofrer incompreensões e injustiças , e - ao contrário do que sucede ou sucedeu a alguns - regressar com as mãos vazias, apenas rico de desilusões, de amarguras e do génio que havia posto numa das mais prodigiosas construções jamais criadas, desde que o mundo é mundo (...). E vendo-o no seu tempo, e na visão do mundo que ele teve, sabemos que devemos relê-lo atentamente para saber, que ele, tão orgulhosamente português, entenderia todas as independências, se fosse em vida nosso contemporâneo como ele o é na obra que nos legou, para glória máxima de uma língua falada e escrita ou recordada em todos os continentes. O orgulho de ser-se alguma coisa, o inabalável sentimento de independência e de liberdade, disso ele falou, e sentiu como ninguém. É disso um mestre. Tudo existe na sua obra: o orgulho e a indignação, a tristeza e a alegria prodigiosa, a amargura e o gosto de brincar, e desejo de ser-se um puro espírito de tudo isento e a sensualidade mais desbragada, uma fé inteiramente pessoal, pensada e meditada como ele a queria e não como uma instituição , e a dúvida do presdestinado que se sente todavia só e abandonado a si mesmo. Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) - todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu.»
Jorge de Sena, Discurso do 10 de Junho, na Guarda, In Dedicácias, Guerra&Paz. 2010
quarta-feira, maio 12, 2010
Canção de Madrugar (Uma das 10 melhores musicas portuguesas de sempre
Canção de madrugar
DE LINHO TE VESTI
DE NARDOS TE ENFEITEI
AMOR QUE NUNCA VI
MAS SEI.
SEI DOS TEUS OLHOS ACESOS NA NOITE
SINAIS DE BEM DESPERTAR
SEI DOS TEUS BRAÇOS ABERTOS A TODOS
QUE MORREM DEVAGAR
SEI MEU AMOR INVENTADO QUE UM DIA
TEU CORPO PODE ACENDER
UMA FOGUEIRA DE SOL E DE FÚRIA
QUE NOS VERÁ NASCER
IREI BEBER EM TI
O VINHO QUE PISEI
O FEL DO QUE SOFRI
E DEI
DEI DO MEU CORPO UM CHICOTE DE FORÇA
RASEI MEUS OLHOS COM ÁGUA
DEI DO MEU SANGUE UMA ESPADA DE RAIVA
E UMA LANÇA DE MÁGOA
DEI DO MEU SONHO UMA CORDA DE INSÓNIAS
CRAVEI MEUS BRAÇOS COM SETAS
DESCOBRI ROSAS ALARGUEI CIDADES
E CONSTRUÍ POETAS
E NUNCA TE ENCONTREI
NA ESTRADA DO QUE FIZ
AMOR QUE NÃO LOGREI
MAS QUIS.
SEI MEU AMOR INVENTADO QUE UM DIA
TEU CORPO HÁ-DE ACENDER
UMA FOGUEIRA DE SOL E DE FÚRIA
QUE NOS VERÁ NASCER
ENTÃO:
NEM CHOROS, NEM MEDOS, NEM UIVOS, NEM GRITOS,
NEM PEDRAS, NEM FACAS,
NEM FOMES, NEM SECAS, NEM FERAS,
NEM FERROS, NEM FARPAS, NEM FARSAS,
NEM FORCAS, NEM CARDOS, NEM DARDOS,
NEM GUERRAS
(Letra: Jose carlos Ary dos Santos e Musica de: Nuno Nazareth Fernandes)
segunda-feira, maio 10, 2010
Genérico da telenovela "Retalhos da Vida de um Médico", onde tive o prazer de participar
Retalhos - José Carlos Ary dos Santos
Serras, veredas, atalhos,
Estradas e fragas de vento,
Onde se encontram retalhos
De vidas em sofrimento
Retalhos fundos no rostos,
Mãos duras e retalhadas
Pelo suor do desgosto,
que talha as caras fechadas
O caminho que seguiste,
Entre gente pobre e rude,
Muitas vezes tu abriste
Uma rosa de saúde
Cada história é um retalho
Cortado no coração
De um homem que no trabalho
Reparte a vida e o pão
As vidas que defendeste,
E o pão que repartiste,
São a água que tu bebeste
Dos olhos de um povo triste
E depois de tanto mundo,
Retalhado de verdade,
Também tu chegaste ao fundo
Da doença da cidade
Da que não vem na sebenta,
Daquela que não se ensina,
Da pobreza que afugenta
Os barões da medicina
Tu sabes quanto fizeste,
A miséria não se cura,
Nem mesmo quando lhe deste
A receita da ternura
Cada história é um retalho
Cortado no coração
De um homem que no trabalho
Reparte a vida e o pão
As vidas que defendeste,
E o pão que repartiste,
São a água que tu bebeste
Dos olhos de um povo triste
Serras, veredas, atalhos,
Estradas e fragas de vento,
Onde se encontram retalhos
De vidas em sofrimento
Retalhos fundos no rostos,
Mãos duras e retalhadas
Pelo suor do desgosto,
que talha as caras fechadas
O caminho que seguiste,
Entre gente pobre e rude,
Muitas vezes tu abriste
Uma rosa de saúde
Cada história é um retalho
Cortado no coração
De um homem que no trabalho
Reparte a vida e o pão
As vidas que defendeste,
E o pão que repartiste,
São a água que tu bebeste
Dos olhos de um povo triste
E depois de tanto mundo,
Retalhado de verdade,
Também tu chegaste ao fundo
Da doença da cidade
Da que não vem na sebenta,
Daquela que não se ensina,
Da pobreza que afugenta
Os barões da medicina
Tu sabes quanto fizeste,
A miséria não se cura,
Nem mesmo quando lhe deste
A receita da ternura
Cada história é um retalho
Cortado no coração
De um homem que no trabalho
Reparte a vida e o pão
As vidas que defendeste,
E o pão que repartiste,
São a água que tu bebeste
Dos olhos de um povo triste
sábado, maio 08, 2010
sábado, maio 01, 2010
Pepetela na cerimónia do doutoramento honoris causa pela Univ do Algarve.

Magnífico Reitor da Universidade do Algarve.
Ex.mo Senhor Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
Magnifico Reitor da Universidade de Cabo Verde,
Senhor Director da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais e outras autoridades académicas,
Senhor Embaixador de Angola,
Senhora Vereadora da Câmara Municipal de Faro
Senhora Governadora Civil de Faro,
Senhor Presidente da Associação Académica
Membros do corpo docente e discente desta Universidade,
Prezados convidados, familiares e amigos,
Minhas senhoras e meus senhores,
Tocou-me vivamente o gesto da Universidade do Algarve, ao se lembrar de me outorgar o título de Doutor Honoris Causa. Compreendo o gesto como vontade de homenagem que ultrapassa o próprio homenageado, mas também e principalmente visa uma literatura e uma nação, a angolana. Porque muito dificilmente se separará a obra e a vida de um escritor da história e cultura do seu povo. Agradeço profundamente a ideia desta celebração, que muito me honra e quero pois dedicá-la, com vossa permissão, ao povo angolano. Dedico-a também à minha mãe, que, como verão em seguida, teve um papel decisivo no meu percurso e à minha mulher, Filomena, infelizmente ausente nesta ocasião, responsável pelo menos por metade daquilo que tenho produzido. Agradeço também as generosas palavras de apresentação do Magnífico Reitor da Universidade de Cabo Verde, o Professor António Correia e Silva.
No meu fraco entender, considero que um ficcionista deve contar preferentemente estórias e não falar ou escrever sobre aquilo que é o seu trabalho íntimo, talvez o mais íntimo dos trabalhos humanos. Chamemos discrição ou suma vaidade a este cuidado de não revelar intimidades. Há porém escritores, também especialistas em teoria literária e que, sem cair em esquizofrenias, conseguem analisar, ponderar e divulgar aquilo que vão descobrindo nos textos ditados pela sua própria imaginação (alguns denominam subconsciente). Admiro a sua capacidade e até ousadia de exposição mas sou incapaz de os seguir. Da mesma maneira, não sou capaz de escrever mais de dez linhas sobre o trabalho de outro escritor sem começar a contar estórias que a meus olhos melhor o definem em contraposição às analíticas palavras habituais.
Dito isto, decidi para este acto complicado da minha vida (embora possa não parecer, convivo muito mal com as luzes da ribalta e, sobretudo, quando se trata de homenagens que sinto sempre não suficientemente merecidas). Mas dizia, decidi escrever algo que já tenho contado em entrevistas, em encontros com leitores ou alunos de escolas, mas nunca tinha vertido para o papel, dando-lhe assim mais espessura e talvez durabilidade. Portanto, tento aqui a resposta à sacramental e terrível pergunta: como começou a escrever ou como se tornou escritor? (O que não é exactamente a mesma coisa). Pois bem, vou contar-vos uma estória, verídica na sua essência, talvez ligeiramente ficcionada na sua forma, forçado pela necessidade da economia de tempo. Mas em todo o caso estória matemática, pois é de facto uma equação com várias incógnitas.
Tinha quatro anos de idade, quando a minha mãe me ensinou a reconhecer os números para poder jogar com dados um passatempo onde os cavalos avançavam sobre casas numeradas, transpondo obstáculos. E depois explicou-me como o meu cavalo saltava, contando as casas em função da sorte dos dados. Também havia penalidades, que consistiam em recuar algumas casas. Tinha de as contar. E, na varanda de trás da casa de Benguela onde nasci e vivi até aos cinco anos, arejada pela brisa brisando entre mamoeiros e goiabeiras do quintal, deitado no chão morno, no meu recato de solidão, fui lançando dados e fazendo avançar os cavalos, ao mesmo tempo que ouvia os pássaros em eternas serenatas amorosas e as máquinas embirrentas do vizinho Jornal de Benguela a atroar os silêncios de uma cidade semi paralisada no tempo. Até a minha mãe descobrir um dia que eu tinha aprendido a somar e subtrair, como se dizia na altura. A partir de então, fui uma espécie de macaco de feira. Nos jogos de futebol, os letrados da terra, no intervalo, passavam o tempo morto a me perguntarem quanto eram 12 mais 5 ou 18 menos 3. E lá lhes respondia, meio encabulado, ainda sem idade ou descaramento para lhes pedir com uma lata o tinido das moedas que provavelmente merecia por acertar nas respostas. Como qualquer macaco de feira. Podem crer, não sentia orgulho nenhum pelo aparente brilho do meu desempenho, antes a humilhação do macaco prisioneiro forçado a exibir-se para gáudio de uma qualquer plateia.
Minha mãe era sem dúvida uma professora frustrada, por nunca ter podido exercer a profissão que consideraria a mais nobre do mundo. Por isso, entusiasmada com a experiência didáctica anterior, embalou-se a ensinar-me a ler e escrever, tinha eu cinco anos. E entretanto fui descobrindo tesouros escondidos nos meus silêncios de menino recatado, ouvidor atento das conversas se processando na varanda ou no quintal. Aconteceu pois que, aos seis anos incompletos, e ao entrar na escola, já sabia todo o programa da primeira classe. Dois meses depois, promoveram-me para a segunda, a qual fiz sem mais dificuldades. A dificuldade derivou então para a escola, apanhada na sua própria armadilha. Iam ter de me admitir na terceira classe ainda com seis anos de idade, embora por escasso mês, devido ao calendário escolar da época. Não sei como se passaram exactamente as coisas, se o director escreveu para o delegado distrital pedindo desesperadamente orientações, se apenas o caso se circunscreveu à jurisdição da escola, mas acabaram por chamar a terreiro o especialista de maior nomeada para resolver tão intricado caso, o médico da terra, que por coincidência era irmão do meu pai. E o meu tio, que antes já tinha admoestado o casal por andar a cansar exageradamente o meu jovem e frágil cérebro, só capaz de assimilar o que o programa normal da escola indicava, foi determinante na decisão da escola: o menino não podia entrar na terceira classe com seis anos, era quase crime de lesa-majestade ou pelo menos de lesa-saúde cerebral, e portanto teria de repetir a segunda. A ciência falou, todos respeitaram. Erro fatal ou força do destino? Na época não frequentava os kimbandas, os nossos adivinhos tradicionais, e por isso não vos poderei responder. Mas de facto aqui começa a estória.
Ao fim de pouco tempo, a professora, aliás a mesma do ano anterior, me punha a corrigir os exercícios dos colegas, enquanto se abanava feliz num canto, até se abater com o sono provocado pela modorra do clima. Eu era o mais novo e o mais pequeno da classe, convém dizer. E corrigia matulões, daqueles que chumbavam pelo prazer de irem à praia fugindo das aulas e já experimentavam acender beatas nos recreios. Por vezes choviam ameaças, eh miúdo, como é que puseste errado no meu problema ou então, por que é que me marcaste tantos erros no ditado? Ou atentados parecidos, merecendo vingança nos jogos de futebol debaixo dos majestáticos jacarandás e mulembas do pátio da escola onde não era poupado a umas boas caneladas dignas de cartão vermelho, inexistente na época. Havia entretanto uma prova que me passou a pôr os nervos em franja, chamada redação, hoje composição, creio. Era sempre a mesma coisa. Sobre o gato, cão, boi ou pato, demonstrar como eram animais úteis ao homem. Deixem-me acrescentar, também havia dissertações sobre o pinheiro, a amendoeira ou o castanheiro, árvores que desconhecíamos obviamente, jamais saídos de território tropical. Ainda se fosse um imbondeiro… Já tinha feito esses exercícios no ano anterior. E teria de repetir a mesma lengalenga nesse ano. Eu que nunca gostei de repetir coisas.
Aqui entra a terceira variável da equação, o Thor, ainda não merecedor de trabalhar dentro de casa e confinado a tratar do quintal, não só por demasiado pequeno para limpar móveis e loiças mas sobretudo por ter vindo directamente do interior, sem educação urbana portanto. Continua a ser para mim um mistério o nome Thor, pois não pertence a nenhuma etnia da região, conhecendo-o como um dos deuses dos Viking. Provavelmente terá sido herdado de algum grupo de alemães ou equivalentes avançando para norte nos carros bóeres de oito juntas de bois, fugidos da actual Namíbia e falando línguas guturais do norte da Europa, em princípios do século passado. Ele provinha de um ponto de confluência de três povos, dois de pastores e um de agricultores. Pertencia aos agricultores. E contava as lutas entre pastores e agricultores por causa da posse das terras, mas também as lutas derivadas dos costumes pastoris de roubar um boi ao grupo adversário para um jovem passar a ser considerado adulto, tradição que ainda hoje se mantém e por vezes é causa de conflitos mais ou menos graves. Thor sabia estórias. Até mesmo as passadas bem antes de ter nascido e que permaneciam na memória colectiva do Planalto Central como momentos de grande terror, tais as célebres razias dos incomparáveis cavaleiros kuanhama, vindos muito do sul para confiscar gado e mulheres. E gostava de narrar, hábito adquirido no seu terreiro natal em que toda a vida social se passava ao fim de tarde e parte da noite à volta da fogueira, ouvindo os mais velhos e sábios relatar cenas do presente e do passado. Talvez também adivinhando futuros, quem sabe.
Em suma, íamos para cima de uma acácia à frente de casa e ele contava as mesmas ocorrências, porém nunca da mesma maneira.
A acácia rubra merece um parágrafo especial e peço licença para o introduzir. A casa nova, onde então habitávamos, tinha sido construída ao lado do antigo leito do rio Corinje. O meu pai era jovem quando desviaram o leito do rio para sul, servindo assim de limite ao território. É da sua recordação os antílopes irem beber água ao Corinje e os leões e onças aproveitarem a carne tentadora. A lenda contava que ao lado do rio, teve lugar uma luta de morte entre dois heróis: um leão de juba farta e acobreada e um homem armado apenas de um punhal. Foi alguma gazela o fruto da disputa? A lenda não reteve a razão. Apenas que o combate foi demorado e terminou com a morte de ambos os adversários. Diz ainda a lenda que o sangue dos dois heróis correu para a depressão onde uma jovem acácia brotava. Alimentada por esse sangue quase sagrado, a árvore ultrapassou as irmãs em altura e deu sempre flores mais encarnadas. Também os seus ramos grossos eram melhores para nos sentarmos neles e observarmos o contínuo movimento da rua. Pois bem, era para cima dessa acácia rubra que íamos conversar e Thor me contava as estórias do seu povo e dos vizinhos belicosos. Sempre fui amante de estórias, passava o tempo a pedi-las a todos os da casa, em especial ao cozinheiro e à lavadeira, que explicavam as cenas acontecidas nos seus bairros marginais, sem luz elétrica, sem água canalizada, sem lojas e sem asfalto, mas com muitos dramas, sofrimento e também paixões avassaladoras e gestos de heroísmo. Eu era um ouvidor de estórias. Mas não as sabia contar. E Thor insistia comigo, conta lá uma, e eu não o satisfazia, achava que não era capaz de as narrar com a mesma intensidade e o mesmo colorido que ouvira. Por isso me remetia à obscuridade da plateia e nunca ao fulgor do palco.
Aqui voltamos à segunda incógnita da equação, a escola.
Cansado de repetir as mesmas escritas sobre o melhor amigo do homem ou todas as partes do boi aproveitáveis, desde os chifres aos cascos, resolvi um dia arriscar as mãos numas reguadas e narrei uma estória, onde o tema pedido era respeitado, mas não as regras da demonstração, pois de ficção se tratava. Entregue o trabalho, arrependido já do rasgo impensado de ousadia, preparei-me para o justo castigo da palmatória de cinco olhos. Surpresa. A professora leu e releu, sorriu e depois partilhou a minha primeira estória escrita com toda a aula. Era isto mesmo que queria que vocês fizessem, rematou. Não só salva a integridade física, como elogiado. É claro, nunca mais segui as regras da demonstração escolástica. Ao menos divertia-me a inventar coisas sobre os temas pedidos. E a ouvir elogios, que sempre soavam melhor que as frequentes palmatoadas. E, talvez o mais importante, a ter estórias para o Thor. Subíamos à acácia, ele contava uma e eu lia o que não sabia contar. Tomado o gosto, não parei mais de escrever essas pequenas narrativas, cada vez mais desligadas dos temas escolares e entrando nas experiências de um menino na complexa e polissémica cidade de Benguela, em que parte considerável da população, cerca de metade, era mestiça e praticamente toda ela se orgulhava de ser do contra, qualquer que fosse o governo ou regime. Até hoje, se me permitem acrescentar, é um orgulho citadino o facto de ter sido o único espaço do então império português em que oficialmente ganhou as eleições de 1958 o general Humberto Delgado. Oficialmente, repito.
Outra variável a ter em conta: o gosto pela leitura e a boa biblioteca que tínhamos em casa. E um tio do lado materno, este jornalista, que começou a explicar-me certos assuntos que ninguém ousava esclarecer: por exemplo, porquê no nosso bairro, fronteira com a sanzala, os negros não dormiam dentro das casas mas nos anexos? Porquê eram criados, cozinheiros, lavadeiras, mas nenhum professor ou médico? Porquê Thor nunca tivera oportunidade de frequentar a escola? Aos treze anos, esse tio deu-me a ler Proudhon, com muitas recomendações de cautela, ninguém pode saber, lê às escondidas. Depois admiram-se de eu ser até hoje utópico e achar ainda que a propriedade está associada ao roubo…
As preocupações sociais e mais tarde políticas moldaram certamente a literatura que passei a fazer na adolescência. Eram gritos de revolta, um pouco anarquistas, abafados, porque reservados à escrita clandestina. No resto era um adolescente como os outros, jogando futebol, gostando de cinema e tentando namorar as miúdas mais bonitas. E pouca gente sabia que gastava parte das minhas noites a escrever estórias, muitas que não completaria, como o meu primeiro policial, até hoje sem a última página para desconhecer o nome do assassino. Diga-se de passagem, sem as outras páginas também, porque todas essas experiências de juventude foram perdidas ao longo da vida. Não é grave, o seu valor era mínimo, apenas o da memória.
Terá sido o jogo destas variáveis que me fez escritor? Talvez, e certamente umas variáveis mais importantes que as outras, mãe empenhada, obrigatoriedade de repetir um ano escolar, professora compreensiva, amigo contador de estórias, cidade de contradições, leituras variadas, injustiça na sociedade, etc., mas outras pessoas tiveram talvez experiências semelhantes e nunca pretenderam enveredar pelos mesmos caminhos. Ficará sempre a dúvida. Poderia por exemplo existir um fugaz sopro de vento e eu continuar por um qualquer curso de engenharia, nunca descobrindo a poesia dos números, à força de os usar sem os saborear. Ao escolher mais tarde a senda sociológica, podia ter limitado a minha imaginação a esse percurso e não o contrário, utilizando-a para a ficção. Por isso é tão complicado responder à questão do como e do quando se faz um escritor. Outros saberão. Prefiro deixar que búzios sejam atirados e os leitores adivinhem ou imaginem. O importante é a delícia e alívio que se tem quando um personagem nos surpreende, se apodera da narrativa e diz, agora sou eu que comando, tu, reles escritor, remete-te ao simples papel de escriba ou oráculo, enquanto eu, o personagem, passo a ditar a ação. Sim, nesse momento há o êxtase do corredor de fundo que ultrapassa as dores, a suprema fadiga, e entra no breve paraíso em que flutua sobre nuvens adocicadas antes do colapso final. Há sempre um colapso, todos o sabemos, mas o que interessa mesmo é o facto de se correr para lá da exaustão e pressentir como poderia ser o paraíso. Tal como escrever e deixar solta a imaginação, mesmo para a mais absurda das estórias. Por muito absurda que seja, nunca ultrapassará certas realidades.
Como vêem, sou um pouco herético sobre uma profissão que o escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro me confessou considerar como pouco decente para um honesto chefe de família. E eu respondi, pois é, mas eu não procurei essa profissão, ela é que me encontrou, decente ou não. E ele perguntou: foi numa encruzilhada de caminhos que foi apanhado? Certamente, disse eu. Perigosos, continuou o baiano, os espíritos das encruzilhadas. De facto, espíritos não conhecem rotundas. Encolhemos ambos os ombros, que havíamos de fazer?, e bebemos mais um copo.
Cada escritor terá a sua estória de como começou a escrever. E nem sempre será a mesma. Esta estória que vos contei não me foi revelada em noite de insónia ou de uma análise às profundezas escuras da minha memória, antes foi sendo construída no decorrer dos anos. Um detalhe ou outro acrescentado ontem e hoje. Não é forçosamente falsa pelo facto de se transmutar frequentemente. Apenas não considerei outras incógnitas que poderei vir a acrescentar à equação matricial daqui a cinco ou dez anos. E a retirar algumas variáveis, entretanto resolvidas pela usura do tempo ou aniquiladas pelos caprichos da moda. É esse o mistério da literatura.
Para benefício de todos nós, leitores.
Mais uma vez, muito obrigado a todos os que conspiraram para que esta cerimónia pudesse acontecer.
Pepetela – 28.04.2010
segunda-feira, abril 26, 2010
O meu 25 de Abril de 2006

“Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E dum tempo justo”
Sophia de Mello Breyner Andersen
quinta-feira, março 18, 2010
TAXA CAMARAE

Um dos pontos culminantes da corrupção humana
A Taxa Camarae é um tarifário promulgado, em 1517, pelo papa Leão X (1513-1521) destinado a vender indulgências, ou seja, o perdão dos pecados, a todos quantos pudessem pagar umas boas libras ao pontífice. Como veremos na transcrição que se segue, não havia delito, por mais horrível que fosse, que não pudesse ser perdoado a troco de dinheiro. Leão X declarou aberto o céu para todos aqueles, fossem clérigos ou leigos, que tivessem violado crianças e adultos, assassinado uma ou várias pessoas, abortado… desde que se manifestassem generosos com os cofres papais.
Vejamos o seus trinta e cinco artigos:
1. O eclesiástico que cometa o pecado da carne, seja com freiras, seja com primas, sobrinhas ou afilhadas suas, seja, por fim, com outra mulher qualquer, será absolvido, mediante o pagamento de 67 libras, 12 soldos.
2. Se o eclesiástico, além do pecado de fornicação, quiser ser absolvido do pecado contra a natureza ou de bestialidade, deve pagar 219 libras, 15 soldos. Mas se tiver apenas cometido pecado contra a natureza com meninos ou com animais e não com mulheres, somente pagará 131 libras, 15 soldos.
3. O sacerdote que desflorar uma virgem, pagará 2 libras, 8 soldos.
4. A religiosa que quiser alcançar a dignidade de abadessa depois de se ter entregue a um ou mais homens simultânea ou sucessivamente, quer dentro, quer fora do seu convento, pagará 131 libras, 15 soldos.
5. Os sacerdotes que quiserem viver maritalmente com parentes, pagarão 76 libras e 1 soldo.
6. Para todos os pecados de luxúria cometido por um leigo, a absolvição custará 27 libras e 1 soldo; no caso de incesto, acrescentar-se-ão em consciência 4 libras.
7. A mulher adúltera que queira ser absolvida para estar livre de todo e qualquer processo e obter uma ampla dispensa para prosseguir as suas relações ilícitas, pagará ao Papa 87 libras e 3 soldos. Em idêntica situação, o marido pagará a mesma soma; se tiverem cometido incesto com os seus filhos acrescentarão em consciência 6 libras.
8. A absolvição e a certeza de não serem perseguidos por crimes de rapina, roubo ou incêndio, custará aos culpados 131 libras e 7 soldos.
9. A absolvição de um simples assassínio cometido na pessoa de um leigo é fixada em 15 libras, 4 soldos e 3 dinheiros.
10. Se o assassino tiver morto a dois ou mais homens no mesmo dia, pagará como se tivesse apenas assassinado um.
11. O marido que tiver dado maus tratos à sua mulher, pagará aos cofres da chancelaria 3 libras e 4 soldos; se a tiver morto, pagará 17 libras, 15 soldos; se o tiver feito com a intenção de casar com outra, pagará um suplemento de 32 libras e 9 soldos. Se o marido tiver tido ajuda para cometer o crime, cada um dos seus ajudantes será absolvido mediante o pagamento de 2 libras.
12. Quem afogar o seu próprio filho pagará 17 libras e 15 soldos [ou seja, mais duas libras do que por matar um desconhecido (observação do autor do livro)]; caso matem o próprio filho, por mútuo consentimento, o pai e a mãe pagarão 27 libras e 1 soldo pela absolvição.
13. A mulher que destruir o filho que traz nas entranhas, assim como o pai que tiver contribuído para a perpetração do crime, pagarão cada um 17 libras e 15 soldos. Quem facilitar o aborto de uma criatura que não seja seu filho pagará menos 1 libra.
14. Pelo assassinato de um irmão, de uma irmã, de uma mãe ou de um pai, pagar-se-á 17 libras e 5 soldos.
15. Quem matar um bispo ou um prelado de hierarquia superior terá de pagar 131 libras, 14 soldos e y6 dinheiros.
16. O assassino que tiver morto mais de um sacerdote, sem ser de uma só vez, pagará 137 libras e 6 soldos pelo primeiro, e metade pelos restantes.
17. O bispo ou abade que cometa homicídio põe emboscada, por acidente ou por necessidade, terá de pagar, para obter a absolvição, 179 libras e 14 soldos.
18. Quem quiser comprar antecipadamente a absolvição, por todo e qualquer homicídio acidental que venha a cometer no futuro, terá de pagar 168 libras, 15 soldos.
19. O herege que se converta pagará pela sua absolvição 269 libras. O filho de um herege queimado, enforcado ou de qualquer outro modo justiçado, só poderá reabilitar-se mediante o pagamento de 218 libras, 16 soldos, 9 dinheiros.
20. O eclesiástico que, não podendo saldar as suas dívidas, não quiser ver-se processado pelos seus credores, entregará ao pontífice 17 libras, 8 soldos e 6 dinheiros, e a dívida ser-lhe-á perdoada.
21. A licença para instalar pontos de venda de vários géneros, sob o pórtico das igrejas, será concedida mediante o pagamento de 45 libras, 19 soldos e 3 dinheiros.
22. O delito de contrabando e as fraudes relativas aos direitos do príncipe contarão 87 libras e 3 dinheiros.
23. A cidade que quiser obter para os seus habitantes ou para os seus sacerdotes, frades ou monjas autorização de comer carne e lacticínios nas épocas em que está vedado fazê-lo, pagará 781 libras e 10 soldos.
24. O convento que quiser mudar de regra e viver com menos abstinência do que a que estava prescrita, pagará 146 libras e 5 soldos.
25. O frade que para sua maior conveniência, ou gosto, quiser passar a vida numa ermida com uma mulher, entregará ao tesouro pontifício 45 libras e 19 soldos.
26. O apóstata vagabundo que quiser viver sem travas pagará o mesmo montante pela absolvição.
27. O mesmo montante terá de pagar o religioso, regular ou secular, que pretenda viajar vestido de leigo.
28. O filho bastardo de um prior que queira herdar a cura de seu pai, terá de pagar 27 libras e 1 soldo.
29. O bastardo que pretenda receber ordens sacras e usufruir de benefícios pagará 15 libras, 18 soldos e 6 dinheiros.
30. O filho de pais incógnitos que pretenda entrar nas ordens pagará ao tesouro pontifício 27 libras e 1 soldo.
31. Os leigos com defeitos físicos ou disformes, que pretendam receber ordens sacras e usufruir de benefícios pagarão à chancelaria apostólica 58 libras e 2 soldos.
32. Igual soma pagará o cego da vista direita, mas o cego da vista esquerda pagará ao Papa 10 libras e 7 soldos. Os vesgos pagarão 45 libras e 3 soldos.
33. Os eunucos que quiserem entrar nas ordens, pagarão a quantia de 310 libras e 15 soldos.
34. Quem por simonia quiser adquirir um ou mais benefícios deve dirigir-se aos tesoureiros do Papa que lhos venderão por um preço moderado.
35. Quem por ter quebrado um juramento quiser evitar qualquer perseguição e ver-se livre de qualquer marca de infâmia, pagará ao Papa 131 librase15 soldos. Pagará ainda por cada um dos seus fiadores a quantia de 3 libras.
No entanto, para a historiografia católica, o Papa Leão X, autor de um exemplo de corrupção tão grande como o que acabamos de ler, passa por ser o protagonista da «história do pontificado mais brilhante e talvez o mais perigoso da história da Igreja».
(Fonte: Rodríguez, Pepe (1997). Mentiras fundamentais da Igreja católica.
Terramar – Editores, Distribuidores e Livreiros -
(1.ª edição portuguesa, Terramar, Outubro de 2001 – Anexo, pp. 345-348)
NOTA: Esta é a primeira vez que a Taxa Camarae do papa Leão X aparece na NET em português.
domingo, março 14, 2010
JEAN FERRAT (1930-2010)
C'est un nom terrible Camarade
C'est un nom terrible à dire
Quand, le temps d'une mascarade
Il ne fait plus que frémir
Que venez-vous faire Camarade
Que venez-vous faire ici
Ce fut à cinq heures dans Prague
Que le mois d'août s'obscurcitca:
sábado, março 06, 2010
quarta-feira, março 03, 2010
A minha proposta de nome para o A380 da Lufthansa
A minha proposta de nome para o A380 da Lufthansa: "O maior e mais moderno avião de passageiros do mundo precisa de um nome. Venha ajudar-nos e ganhe 1 milhão de milhas de prémios Miles & More – em lufthansa.com/A380."
domingo, fevereiro 28, 2010
domingo, janeiro 31, 2010
Sou doutras coisas (somos) 30-1-2010 / Grande Equipa

Sou de outras coisas
pertenço ao tempo que há-de vir sem ser futuro
e sou amante da profunda liberdade
sou parte inteira de uma vida vagabunda
sou evadido da tristeza e da ansiedade
Sou doutras coisas
fiz o meu barco com guitarras e com folhas
e com o vento fiz a vela que me leva
sou pescador de coisas belas, de emoções
sou a maré que sempre sobe e não sossega
Sou das pessoas que me querem e que eu amo
vivo com elas por saber quanto lhes quero
a minha casa é uma ilha é uma pedra
que me entregaram num abraço tão sincero
Sou doutras coisas
sou de pensar que a grandeza está no homem
porque é o homem o mais lindo continente
tanto me faz que a terra seja longa ou curta
tranco-me aqui por ser humano e por ser gente
Sou doutras coisas
sou de entender a dor alheia que é a minha
sou de quem parte com a mágoa de quem fica
mas também sou de querer sonhar o novo dia
Fernando Tordo
quinta-feira, janeiro 14, 2010
quarta-feira, janeiro 13, 2010
Há cada Pio, que nunca devia ter tido Pio quanto mais santo!

Marianne de 1.1.2010. O tom do artigo de Henri Tincq (jornalista, especialista das religiões) fica dado pelas suas palavras iniciais: « A beatificação de Pio XII inscreve-se numa campanha de reabilitação deste Papa desconsiderado pelo seu silêncio durante o Holocausto e pelo seu combate antimodernista. Uma iniciativa sintomática da orientação de Bento XVI , obcecado como Pio XII pela «restauração» da identidade cristã. E a demonstração de uma verdadeira regressão ideológica».
http://tempodascerejas.blogspot.com/2010/01/depois-nao-se-queixem.html
segunda-feira, janeiro 11, 2010
A CIA CONTRA ANGOLA" - de JOHN STOCKELL

A CIA CONTRA ANGOLA" - de JOHN STOCKELL
Transcrições recolhidas em : "A CIA CONTRA ANGOLA" - de JOHN STOCKELL, ex. Chefe da Força de Intervenção da CIA em ANGOLA )-- pgs.31- 39 - 44 - 46 - 47/8 - 49 -- (1ª edição - Setembro de 1979) --
-- "...Os soviéticos estão a rondar em Angola e pensa-se que a agência tem de impedi-los. Estamos a programar em conjunto a forma de dar apoio a Savimbi e Roberto. Isto é em grande, a maior coisa da Divisão para África desde o Congo. Temos 14 milhões de dólares e já começámos a enviar algumas armas por via aérea. Estamos a enviar armas apenas para Kinshasa a fim de substituir o equipamento que Mobutu está a enviar para Angola dos seus próprios stocks. A ideia é neutralizar militarmente o MPLA, até à realização das eleições em Outubro."...(afirmações de GEORGE COSTELLO, chefe de operações da Divisão da CIA para África ) --
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..."As relações turvas dos Estados Unidos com o Zaire também estimularam o desejo de Kissinger em actuar em Angola. Tanto o Zaire como a Zâmbia receavam a perspectiva de um governo apoiado pelos soviéticos nos seus flancos, controlando o Caminho de Ferro de Benguela.O Presidente Mobutu receava, particularmente,os soviéticos. Por duas vezes desde 1960 que rompeu as relações com a União Soviética e, embora as relações tivessem sido restabelecidas de cada uma das vezes,mais recentemente ele andara a fazer a corte aos Chineses, à custa tanto dos Soviéticos como dos Americanos. Na primavera de 1975 os problemas internos do Zaire tinham-se agravado e o regime de Mobutu tinha sido ameaçado pelo descontentamento.
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..."Eu estava familiarizado com a colónia portuguesa da costa Atlântica no Atlântico Sul através de viagens feitas na infância e na idade adulta. Nós visitámos os portos angolanos de Luanda e do Lobito e tivéramos encontros com missionários americanos que contavam histórias alarmantes sobre as autoridades portuguesas no interior de Angola. Em 1961 um navio da marinha norte-americana, no qual eu me encontrava como elemento da informação dos Fusileiros Navais aportou em Luanda para uma breve visita. Tarefas e missões de serviço temporárias da CIA tinham-me levado para perto de Angola, por exemplo, Lubumbashi, no Zaire, em 1967, quando o grupo de Bob Denard, composto de 16 mercenários invadiu a partir da fronteira angolana.
A minha última experiência directa com as questões angolanas tinha sido em Fevereiro de 1969 quando me dirigi de automóvel de Lubumbashi para visitar um acampamento da FNLA perto da fronteira com Angola. Constatar a indolência e indisciplina e talvez a experiência me tivesse levado a subestimar a tenacidade do movimento nacionalista Angolano, alguns anos mais tarde. Alguns soldados sem líder, fardas esfarrapadas e mulheres e crianças semi-nuas arrastavam-se por entre edifícios de tijolos delapidados, os quais eram o resto de um acampamento da Force Publique colonial belga. Sem instalações nem condições sanitárias, pouco diferia de uma aldeia africana primitiva, com as pequenas casas de tijolo a substituir as palhotas de colmo e espingardas ferrugentas a substituirem armas ainda primitivas."...
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..."Durante muitos anos os Portugueses propagandearam um sucesso exemplar na assimilação de negros para uma sociedade colonial dita isenta de barreiras raciais. Até 1974 eles pareciam acreditar que mantinham uma relação permanente com as colónias. Nos serviços clandestinos da CIA, estávamos inclinados a aceitar as declarações dos portugueses, de uma sociedade aberta, do ponto de vista racial,em Angola e aceitava-se tacitamente que a agitação comunista era em grande parte responsável pela resistência contínua dos negros ao governo português. A razão era de base. Sendo uma organização essencialmente conservadora, a CIA mantém ligação secreta com serviços de segurança locais onde quer que actue"...
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"...Em relação a Angola dizíamos normalmente... "os Portugueses estabeleceram uma sociedade anti-racial,miscegenaram-se"..."Na realidade, o papel dos Portugueses em Angola foi historicamente o da exploração e brutal repressão. Tendo iniciado em 1498, Portugal conquistou e subjugou os três reinos tribais dominantes : -- os Bakongo, os Mbundu e os Ovimbundo -- e exportou mais de três milhões de escravos, deixando vastas extensões da colónia sub-povoada. A sociedade colonial achava-se dividida em seis categorias raciais definidas pela quantidade de sangue branco em cada uma delas, com duas categorias de pretos puros, na base da escala. Os privilégios de cidadania, económicos e legais, resultavam apenas a favor dos 600.000 brancos, mulatos e assimilados ou pretos legalmente aceites entre a elite da sociedade. Os 90% da população classificados de indígenas sofreram todo o tipo de discriminação -- incluindo trabalho forçado,pancada,prisões arbitrárias e condenações sem julgamento às mãos das autoridades coloniais."...
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..."A desintegração da sociedade tradicional levou ao aumento da desorientação, desespero, e à preparação para um protesto violento"... "Por volta de 1961, Angola era um barril de pólvora negra com três grupos étnicos mais significativos organizados para a revolta.
..."A 15 de Março de 1961 as guerrilhas da FNLA realizaram um ataque em 50 pontos ao longo do rio Congo, numa frente de 640 kms., matando indiscriminadamente tanto homens Africanos e Portugueses, como mulheres e crianças.Imediatamente aviões da Força Aérea Portuguesa trouxeram reforços, utilizando armas da NATO, destinadas à defesa da área do Atlântico Norte, e começaram a atacar com uma fúria indiscriminada, bombardeando mesmo áreas que não tinham sido afectadas pela sublevação nacionalista. A política portuguesa prendeu nacionalistas, protestantes, comunistas e eliminou sistematicamente líderes negros executando-os ou utilizando métodos terroristas. Ao reagir e reprimir indiscriminadamente, os Portugueses ajudavam a garantir que a insurreição não seria localizada ou suprimida"...
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..."O golpe do 25 de Abril de 1974 em Portugal apanhou os Estados Unidos
de surpresa, sem alternativas políticas à altura e sem contacto com os revolucionários africanos. A CIA não actuava no interior de Angola desde o final dos anos 50, até 1975."...
..."Apenas em Março de 1975, quando os portugueses estavam a desligar-se e a perder o controle, é que finalmente reabrimos a delegação de Luanda . Antes disso, a maior parte das informações locais da CIA sobre o interior de Angola vinham de Holden Roberto que era o líder, desde 1960, do movimento revolucionário Bakongo, chamado FNLA. Operando a partir de Kinshasa (então chamado Leopoldville), estabeleceu laços com a CIA"...
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-- Transcrições recolhidas em : "A CIA CONTRA ANGOLA" - de JOHN STOCKELL, ex. Chefe da Força de Intervenção da CIA em ANGOLA )-- pgs.31- 39 - 44 - 46 - 47/8 - 49 -- (1ª edição - Setembro de 1979) --
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Do blog ANGOLABRASIL
terça-feira, janeiro 05, 2010
Passagem do ultimo discurso de Ano Novo do Américo Tomás 1-1-1974

«[...] finalmente, de acordo com o procedimento seguido em todos os anos dos meus mandatos, procedi às sessões solenes inaugurais dos novos anos lectivos realizadas em todos os estabelecimentos militares de ensino. Destacadamente me refiro à cerimónia militar que se realizou no Terreiro do Paço, no dia 10 de Junho. Mais uma vez essa patriótica cerimónia decorreu com o brilho que lhe é peculiar, nela tendo sido condecorados os bravos combatentes que mais se distinguiram na defesa das terras portuguesas de Angola, de Moçambique e da Guiné. E, além das distinções concedidas, evocaram-se, saudosamente, comovidamente e com toda a gratidão, aqueles que nessa defesa perderam a vida. E, como tem sucedido nos anos anteriores, cerimónias semelhantes se realizaram noutras cidades da Metrópole e no Ultramar e em todas elas o fulgor das cerimónias foi idêntico. [...]»
sexta-feira, janeiro 01, 2010
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