sexta-feira, julho 03, 2009

Alcora: O acordo secreto do colonialismo português com o apartheid


Artigo publicado na edição de Junho da revista África 21
A aliança de Marcelo Caetano com os racistas sul-africanos e rodesianos para impedir as independências de Angola e Moçambique.
No inicio de 1974, Portugal estava à beira de perder o controlo da guerra em Angola e Moçambique e preparava-se para transferir para a África do Sul a capacidade de dirigir e orientar o uso das forças militares para «erradicar o terrorismo da África Austral».

É o que se depreende da análise dos documentos oficiais recentemente descobertos e relativos a uma aliança secreta estabelecida em 1970 entre os Governos de Portugal, África do Sul e Rodésia. Aliança que ficou escondida de todos ou quase todos os que participaram na guerra, mas que projecta uma luz diferente – e assustadora – sobre os acontecimentos que antecederam a Revolução portuguesa de Abril de 1974, as independências de Moçambique e Angola, e sobre os conflitos que dilaceraram estes dois países até à queda do regime racista sul-africano.

Trinta e cinco anos depois do fim da guerra colonial e quando se julgava que tudo tinha sido dito sobre um conflito que marcou as memórias de toda uma geração, e dos filhos e netos dos que nele participaram, eis que a abertura dos arquivos veio revelar dados substanciais e totalmente desconhecidos que vêm iluminar os factos que todos conheciam.

Dois investigadores portugueses, os coronéis Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes, já autores de uma história da guerra colonial, publicada há 12 anos, tiveram esta «surpresa» ao meter ombro à tarefa de rever os acontecimentos à luz dos arquivos entretanto abertos (Arquivos Histórico Militar e do Secretariado-Geral da Defesa Nacional).

As opções político-militares da ditadura portuguesa face ao eclodir da luta armada nas suas colónias africanas e as alianças estratégicas estabelecidas por Salazar e Marcelo Caetano foram e estão ainda embrulhadas em tamanho mistério, que têm dado azo às interpretações mais fantasiosas acerca da situação militar em Angola, Guiné e Moçambique em vésperas do golpe de Estado de 25 de Abril de 1974, e a violentos ataques contra os «militares de Abril», acusados de terem entregue Angola e Moçambique aos «comunistas» quando a guerra estava «praticamente ganha».

Artigo publicado na edição de junho da revista África 21

É esta visão heróica do pequeno e pobre Portugal, «orgulhosamente só», que teria mudado a história de África e dos seus povos se não tivesse sido abandonado pelas grandes potências, que cobiçavam as riquezas do continente, e traído por um punhado de jovens oficiais cansados e manipulados, que os documentos agora tornados públicos e aos quais África 21 teve acesso, destrói irremediavelmente.

A realidade, ignorada então e ainda agora pela maioria dos portugueses, é bem diferente. Quando Marcelo Caetano sucede a Oliveira Salazar na chefia do Governo, em 1968, o esforço realizado desde 1961 para mobilizar e enviar para África dezenas de milhares de soldados está a tornar-se demasiado pesado, e os sectores mais lúcidos do regime já tinham compreendido que se não se acabava rapidamente com a guerra, seria o seu fim, e foi esta preocupação que norteou acção do Governo de Lisboa, sob a batuta de Andrade e Silva, ministro do Ultramar, e de Sá Viana Rebelo, ministro da Defesa, de 1968 a 1973.
Segundo Aniceto Afonso, a alegada indecisão de Marcelo Caetano em relação à questão colonial nunca existiu. A opção escolhida foi a militar.

Foi esta procura da vitória «a todo o custo» que levou Portugal a aceitar uma aliança com a África do Sul, única potência capaz de fornecer o apoio suficiente para inclinar a balança das armas a seu favor, e que oferecia ao mesmo tempo um «modelo» de saída política susceptível de conquistar apoios no chamado «mundo livre»: a necessidade de construir um bastião branco na África Austral para impedir o continente de cair na órbita do poder soviético, em plena fase de expansão.

Uma aliança secreta

A aproximação entre Lisboa e Pretória tinha começado antes, com o apoio de Salazar à independência auto-proclamada da Rodésia. Ian Smith, eleito primeiro-ministro em 1964, tinha-se reunido com Salazar em Lisboa antes de tomar a decisão de romper com o Reino Unido, e Portugal e a África do Sul, sem se atreverem a desafiar frontalmente a condenação e o embargo decretado pela ONU, actuaram concertadamente para impedir a asfixia económica do «Estado pária».

A partir de 1968, a força aérea sul-africana prestava apoio logístico e de transporte às tropas portuguesas em Angola (operação Bombaim) e participou em acções de combate no Leste: as operações Luambi e Nova Fase realizadas a partir do Cuito Canavale por comandos portugueses transportados e apoiados por helicópteros sul-africanos.

A transformação deste apoio táctico numa aliança formal começou a ser esboçada a 4 de Março de 1970, quando delegações militares portuguesas e sul-africanas de alto nível se reuniram em Pretória para analisar a situação em Angola e Moçambique.

O tenente-general C. A. Frazier, que chefiava a delegação sul-africana, fez um balanço pormenorizado das operações realizadas pela SAAF (Força Aérea Sul-africana) desde Junho de 1968 e do seu custo. A conclusão era que os escassos resultados de tamanho investimento impunham uma revisão geral das condições de cooperação, e Frazier propôs submeter aos respectivos Governos «um plano de defesa para a África Austral que estabeleça as normas de utilização das tropas disponíveis de forma coordenada e planeada, para fazer face a um inimigo comum». Foi dado a este plano o nome de código de «Exercício Alcora».

Marcelo Caetano e Balthazar Vorster tiveram a oportunidade de conversar sobre o assunto a 5 de Junho, durante a visita a Lisboa do primeiro-ministro sul-africano (em que se tratou também da construção da barragem de Cahora Bassa, adjudicada meses antes ao consórcio Zamco).

Os territórios do Alcora

O acordo de base do Exercício Alcora foi assinado a 14 de Outubro de 1970, pelo coronel Rocha Simões, director da Quinta Divisão da Secretaria Geral da Defesa Nacional de Portugal, e pelo brigadeiro Greyvenstein, chefe do Planeamento Estratégico do Ministério da Defesa da África do Sul. A Rodésia juntar-se-ia formalmente à Aliança na reunião seguinte de alto nível, a 30 de Março de 1971, em que se aprova o esboço do projecto estratégico de defesa militar dos «territórios Alcora», actualmente repartidos entre cinco estados: África do Sul, Angola, Moçambique, Namíbia e Zimbabwe.

As actas das reuniões «reencontradas» pelos investigadores portugueses (sete no total, à razão de duas por ano, alternadamente em Lisboa e Pretoria) dão conta da progressiva intensificação da cooperação entre os três regimes, que ultrapassa, claramente, o âmbito estritamente militar, e do cuidado de Lisboa em manter secreta esta aliança, de forma a preservar a sua «liberdade de acção política» em relação a Pretória e Salisbúria.

As razões desta «prudência» portuguesa são múltiplas. No plano internacional, Portugal não quer indispor a NATO (de que é membro fundador) aliando-se abertamente com dois regimes que os outros membros da Aliança Atlântica votaram ao ostracismo. Internamente, este repentino alinhamento com os regimes racistas de Pretória e Salisbúria poderia suscitar reacções hostis nos meios mais conservadores do regime, ao entrar em contradição flagrante com a doutrina do Estado Novo, de um Portugal uno, do Minho a Timor, pluricontinental e multirracial.

Dezenas de milhares de portugueses que tinham sido enviados para a guerra, para defender este Império universalista, e não racista, não iriam sentir-se ludibriados, reforçando as dúvidas que muitos jovens oficiais começavam a sentir acerca da justeza da causa que defendiam?

A necessidade de não desperdiçar o único auxílio susceptível de lhe garantir a vitória militar falou mais alto e, passo a passo, Portugal foi cedendo às pressões cada vez mais insistentes dos seus «parceiros» da África Austral, preocupados com a deterioração da situação militar, sobretudo em Moçambique, que atribuíam à fraca motivação das tropas «metropolitanas» portuguesas e à incompetência dos seus chefes.

Em Novembro de 1972, em Lisboa, é finalmente definido o conceito estratégico da aliança tripartida, que aponta como ameaças comuns «o comunismo e o nacionalismo africano, em que o segundo é o instrumento escolhido pelo primeiro para alcançar os seus objectivos mais profundos», e como meta «assegurar a inviolabilidade individual dos territórios Alcora pela eliminação da subversão».

Para o efeito deverão «organizar uma força estratégica constituída por meios aéreos de ataque e forças terrestres altamente móveis (...) que sirvam de dissuasor contra todo o ataque externo e que assegure uma intervenção oportuna e eficiente», e levar a cabo uma intensa campanha para «convencer as nações africanas e o mundo livre de que a sua própria sobrevivência está sendo ameaçada na África Austral».

África do Sul toma a liderança

Apesar da insistência de Pretória que vê «os governos africanos superar os seus diferendos e progredir nos seus esforços contra nós», o que faz prever um aumento dos apoios às «organizações terroristas», o acordo entre os ministros da Defesa de Portugal e da África do Sul para a criação de uma «Organização Permanente de Planeamento Alcora» (PAPO em inglês) só será assinado em Outubro de 1973, ainda a tempo de permitir que na sexta reunião de alto nível do Alcora que teve lugar em Salisbúria em Novembro se avançasse no sentido de um Exército comum, com a criação de um Quartel-General, sedeado em Pretória, em instalações próprias, sob o comando do major-general sul-africano Clifton, primeiro director-geral da PAPO.

Este QG devia entrar em funções em Janeiro de 1974, mas a Rodésia e sobretudo Portugal não procederam atempadamente à nomeação dos seus representantes para todos os cargos que lhes eram destinados, o que provocou um ligeiro atraso.

A África do Sul assume claramente a iniciativa e a maior parte dos encargos com a aliança. Prontifica-se para mobilizar «até cem mil homens, brancos» para a constituição de brigadas mistas, altamente móveis, prontas para intervir em qualquer ponto de Angola e Moçambique, não requerendo de Portugal mais do que um contributo diminuto, e o empenho de algumas companhias de comandos e pára-quedistas.

A 8 de Março de 1974, o Ministério português das Finanças assina com a South África Reserve Bank um acordo que outorga a Portugal um empréstimo de 150 milhões de rands (seis milhões de contos portugueses segundo o câmbio da época) para a compra de material de guerra, em prestações mensais de cinco milhões de rands. A primeira fatia foi imediatamente disponibilizada.

A última reunião

A máquina estava lançada e parecia imparável, pelo que já não seria necessário (nem possível) mantê-la oculta. A decisão de a tornar pública chegou a ser agendada para a sétima reunião Alcora, marcada para 24 de Junho de 1974, em Lisboa.

Nunca se saberá qual teria sido a reacção da comunidade internacional, e dos militares portugueses, ao serem colocados perante o facto consumado, porque a 25 de Abril, um punhado de jovens capitães resolveu derrubar a mais velha ditadura da Europa e mudar radicalmente o rumo da história de Portugal e da África Austral.

Alcora, porém, não acabou neste dia e a sétima reunião ainda se realizou, à data prevista, não em Lisboa, mas em Pretória. O general Armstrong, chefe do Estado-Maior da Defesa da RAS chegou mesmo a afirmar que o encontro era «crucial quanto à principal tarefa para Alcora, que consiste na eliminação do terrorismo na África Austral».

A delegação portuguesa, chefiada pelo general Basto Machado, ex-comandante em chefe em Moçambique, respondeu como pôde às perguntas dos parceiros que queriam saber o que iria acontecer em Angola e Moçambique, e se «havia vantagem na continuação de Alcora na sua forma actual».

Disse que o novo Governo de Lisboa não estava de acordo com «alguns partidos» que, em Portugal, estavam a favor da independência imediata das províncias ultramarinas e que o seu «primeiro objectivo era obter um cessar-fogo como pré-requisito para a abertura de negociações» com os movimentos nacionalistas. Contudo, nas actuais circunstâncias considerava conveniente manter o segredo e suspender «quaisquer acções conjuntas», nomeadamente em Moçambique.

Haveria ainda, em Maio de 1975, uma reunião em Lisboa entre representantes militares sul-africanos com o Estado-Maior português, para resolver definitivamente a questão da devolução de grandes quantidades de materiais e equipamentos que tinham sido «emprestados» a Portugal no âmbito do extinto «Exercício Alcora», processo que só ficaria concluído em 1976.

Já sabemos o que aconteceu depois. Obrigado a reconhecer o direito à autodeterminação das colónias portuguesas, Spínola seria pouco depois substituído por Costa Gomes na Presidência de Portugal e iniciou-se o processo negocial que levaria a Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique e Angola à independência. Alcora foi atirado para as gavetas da História, onde permaneceu até ao presente, sem que nenhum dos seus arquitectos tivesse quebrado o pacto de silêncio, o que não deixa de ser um caso singular, dado o elevado número de pessoas que estiveram envolvidas num processo que durou meia dúzia de anos.

Ainda há muito para investigar sobre os contornos desta aliança, os seus actores e cúmplices, e as suas sequelas. Mas uma coisa é certa: os dados coligidos e tornados públicos por Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes projectam uma nova luz sobre muitos acontecimentos posteriores, tais como a invasão de Angola pelas forças sul-africanas em 1975, o papel da África do Sul nas guerras civis angolana e moçambicana, e as tentativas de desestabilização dos países da «Linha da Frente».

Perdem todo o sentido as acaloradas polémicas sobre a mal fadada «descolonização» portuguesa como causa principal dos conflitos que dilaceraram a África Austral até à queda do regime racista sul-africano, em 1991. Pretória já estava em guerra contra os nacionalistas africanos, em Angola e Moçambique, muito antes do primeiro soldado cubano ter pisado o solo angolano.

sexta-feira, junho 26, 2009

O LIVRO DO LICEU ESTÁ AÍ

Deixar Morrer o Dondo ((I) / Aida Freudenthal/ Novo Jornal/ Luanda



Numa breve visita feita recentemente ao Dondo, senti aquela emoção de rever um amigo ou de saborear de novo uma manga madura... A história da vila impõe-se a cada rua, a cada esquina, a cada árvore frondosa que nos protege do ardor do sol, enquanto o Kwanza nos abre o horizonte para a vizinha Kissama e nos sugere melancólicas viagens em direcção ao sol poente. Apesar das temperaturas sufocantes, o ambiente é mágico e convida a percorrer repetidamente as mesmas ruas e largos onde os homens permanecem na sua luta diária como o fizeram os seus antepassados. À semelhança das gerações anteriores, lutam em condições bem difíceis pelo seu sustento, encaminham os seus filhos à escola e repousam precocemente no cemitério da vila. Apesar de características climáticas hostis - dizem alguns que serão as piores em todo o país - a que se deve a permanência deste aglomerado urbano?
Voltando atrás no tempo, surpreende-nos o rápido crescimento da vila no séc. XIX. À medida que as práticas africanas de permuta a curta e a longa distância iam integrando novas técnicas comerciais, a importância do Dondo aumentou, tornando-o então o maior empório comercial do interior. A sua história esteve intimamente ligada ao facto de ali confluírem várias rotas comerciais desde tempos muito recuados, sendo o Kwanza a via complementar por onde grandes pirogas escoavam os géneros para Luanda. Tinha então o porto e a quitanda a função aglutinadora de gentes e de mercadorias tão diversas como o sal da Quissama, peixe seco, óleo de palma e outros víveres, algodão, artefactos de cobre e ferro, tacula, panos, marfim e cera. Também os escravos eram conduzidos à feira do Dondo, trazidos de regiões cada vez mais distantes no interior do continente e daí prosseguiam o caminho até ao litoral. Com o desenvolvimento do comércio “lícito” a partir dos meados do séc. XIX, continuaram a afluir regularmente à vila as comitivas de Ambaquenses, Bangalas e Songos, transportando produtos vários como o café produzido no Cazengo e no Golungo, durante o primeiro surto cafeícola registado em Angola entre 1845 e 1875. Na Quitanda circulavam ao longo do dia numerosos compradores que buscavam as os produtos vendidos pelas “mulheres de negócio”: peixe seco, fuba de mandioca, feijão, sal, e também panos de algodão, chitas, missangas, rendas e bordados.
Ano após ano, aumentou a população urbana ao mesmo tempo que se foi constituindo um núcleo de famílias relativamente abastadas com parentes e sócios em Luanda com os quais mantinham relações comerciais. É o seu quotidiano que Assis Jr. tão sentidamente descreve em “ O Segredo da Morta”.

terça-feira, junho 16, 2009

Texto de Diana Andringa do seu blog Caminhos da Memória!

Fugir para lutar
Diana Andringa






Abril de 1961. A guerra em Angola começara há pouco mais de um mês. As vitrinas do Palácio Foz, então sede do Secretariado Nacional de Informação ostentam ainda as terríveis fotografias dos massacres levados a cabo pela UPA (União dos Povos de Angola), no levantamento armado de 15 de Março – que o primeiro presidente do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), Mário Pinto de Andrade, viria a classificar de “jacquerie”. A Censura impedira os portugueses de conhecer outros massacres anteriormente ocorridos: milhares de mortos de população civil angolana, na repressão da revolta dos plantadores de algodão da Baixa do Cassange, centenas de mortos nos ataques aos muceques de Luanda e na repressão em Icolo e Bengo, na sequência do assalto pelos nacionalistas às prisões e quartéis da capital angolana, ocorrido a 4 de Fevereiro.

Os estudantes africanos em Portugal temem que também sobre eles se abata a repressão. Muitos deles – “nacionalistas progressistas” da Casa de Estudantes do Império, na classificação do inspector Sachetti [1], baptistas e metodistas dos lares de Lumiar de Carcavelos – tinham acorrido ao aeroporto de Lisboa em Dezembro de 1960, protestando contra a deportação do médico Agostinho Neto para Cabo Verde, sendo por isso identificados e retidos para interrogatório pela PIDE. Por outro lado, a guerra que alastra em Angola dá-lhes uma oportunidade de se juntarem às forças que combatem o colonialismo português.

Com um número muito reduzido de militantes em Conacry – Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Lúcio Lara, Eduardo dos Santos e Hugo de Meneses – e um pequeno núcleo no então Congo-Brazaville, o MPLA apela aos jovens nacionalistas para que abandonem Portugal e reforcem as estruturas do Movimento no exterior.

O MEA, Movimento de Estudantes Angolanos, constituído sobretudo por frequentadores da Casa de Estudantes do Império, decide então enviar dois representantes a França, onde mais facilmente poderiam tentar contactar a Direcção do MPLA. Edmundo Rocha e Graça Tavares são os escolhidos. A resposta do Movimento, de que não tem possibilidade de os apoiar na saída, leva-os a procurar novos caminhos. Na Bélgica e na Alemanha, vão juntar-se a outros estudantes das colónias portuguesas – José Carlos Horta, de Moçambique, José Fret Lao Shong e Manuel Pinto da Costa, de S. Tomé, Alberto Passos, Arlindo Barbeitos, Carlos Rocha, Desidério Costa, Luís de Almeida, Luísa Gaspar e Ruth Neto, de Angola. E parte de Desidério Costa e Luísa Gaspar a sugestão de um contacto com o bispo metodista de Frankfurt, que talvez os possa ajudar. Este põe os jovens nacionalistas em contacto com outro bispo, Black, da Assembleia Mundial das Igrejas Protestantes, em Genebra. Conhecedor da realidade angolana através de um outro bispo protestante, Ralph Dodge, que vivera muitos anos em Angola, Black apoia as reivindicações dos nacionalistas. (Rocha, 2002:219). Ao responder ao incitamento do MPLA, é das igrejas protestantes, nomeadamente norte-americanas, que os jovens delegados do MEA vão receber auxílio.

Finais de Maio. João Vieira Lopes, finalista de Medicina e Gentil Viana, estudante de Direito, recebem a visita do pastor protestante francês Jacques Beaumont [2]. Beaumont pertence à CIMADE, uma organização ecuménica ligada aos movimentos protestantes de juventude, criada em 1939 para apoiar os refugiados reagrupados nos campos do sul da França, que participara activamente na resistência contra o nazismo e o resgate de Judeus, durante a Segunda Guerra Mundial e se envolvera depois na luta pela independência e o desenvolvimento das colónias, nomeadamente da Argélia.

Acompanhado de outros activistas protestantes, como Charles Harper e Bill Nottingham, Jacques Beaumont vem ajudar a organizar a fuga dos nacionalistas africanos. Anos mais tarde – em 1990 – Bento Ribeiro (Cabulo) [3] recorda alguns descuidos nos contactos havidos:

«Fizemos bastantes erros… O secretário-geral da CIMADE encontrou-se várias vezes connosco no Mandarim… A Pide estava bem informada das nossas movimentações. A maior parte dos angolanos de Coimbra vivia na Rua Antero de Quental, – era onde eu ficava quando ia a Coimbra. A PIDE ficava na mesma rua… Éramos vizinhos do inspector Sachetti, que nos cumprimentava muito afavelmente, mas nos interrogatórios posteriores à nossa saída demonstrou que sabia dos encontros com o secretário-geral da CIMADE.»

Com mais ou menos erros, a fuga dos jovens nacionalistas começa, integrando não só angolanos mas também nacionalistas de outras colónias africanas, como Joaquim Chissano, moçambicano, e Pedro Pires, cabo-verdiano [4]:

«O Iko Carreira é que foi o meu elemento de ligação com o grupo. A organização era de protestantes – houve um elemento de ligação americano protestante preso connosco em San Sebastian . Houve um primeiro grupo que saiu, que passou normalmente a fronteira espanhola-francesa e estava-se a preparar um segundo grupo, convidaram-me para fazer parte e eu aceitei imediatamente. Eu estava na tropa.»

Como Pedro Pires, muitos outros estavam em idade militar e só tinham duas opções: ou ficar e ir combater contra os seus ou sair e juntar-se aos que lutavam no exterior. Optaram, naturalmente, pela segunda.

Estruturaram-se em grupos de 3 a 5 pessoas, em Lisboa, Coimbra, Porto. O local escolhido para a passagem da fronteira foi o Norte de Portugal:

«Um camarada nosso, estudante de Medicina, tinha um amigo que era casado com uma senhora do Norte de Portugal que tinha família na Galiza. Esta senhora pôs-nos em contacto com um familiar, que nos disse que, através de contrabandistas, podia pôr-nos fora de Portugal. Ele era anti-franquista, tinha família dos dois lados da fronteira, tinha os contactos todos feitos. Era preciso pagar – e havia depois a Espanha franquista.» [5]

Era nesta segunda fase que a CIMADE se revelava ainda mais importante, garantindo uma travessia tranquila rumo a França. Embora nem todos os fugitivos fossem protestantes, não contactaram qualquer estrutura ligada à Igreja católica, por esta ser considerada demasiado próxima do regime. Segundo as informações que recolhemos, tampouco o PCP terá sido contactado.

Entretanto, alguns saem legalmente, como Amélia Araújo [6], que pretexta uma ida ao Santuário de Lourdes com a filha de poucos meses a fim de agradecer à Virgem a cura de uma doença da menina, ou Manuel Videira [7], que se justifica com a lua de mel antes do cumprimento do serviço militar. Rui de Sá (Dibala) [8], consegue visto à conta do desporto: jogador de volley no Benfica, acompanha a sua equipa a um torneio em Asnières, França, e arranja ainda maneira de assistir à participação do clube, com Eusébio, no torneio anual do Paris Saint- Germain. Ou ainda como Gim Monteiro [9], que integra a digressão de um episódico Trio Ouro Negro…

Os que saem clandestinamente partem de Lisboa e de Coimbra para o Porto e daí para o rio Minho, que deverão atravessar em botes de contrabandistas.

À frente do grupo de Lisboa estão, segundo João Vieira Lopes, membros das células clandestinas do MPLA, que dá como existindo em Portugal desde 1960. Dos cabecilhas, só um, Pedro Filipe, não seria do MPLA, mas sim militante da UPA/FNLA: «Na altura não fazia diferença.» Ainda segundo Vieira Lopes, «saíram de Lisboa para o Porto, em carros e comboios, mais de 80 pessoas, incluindo crianças de 2 a 5 anos e mulheres grávidas, uma delas de 8 meses».

Pelo meio há episódios curiosos, como relata um dos elementos da CIMADE, Charles Harper:

«Um desvio não planificado leva-nos directamente para uma festa do S. João, em pleno centro de Santo Tirso. Os habitantes parecem surpreendidos perante tantas caras negras. Felizmente, é a época do delírio em torno do rei Pélé. Recebem-nos bem e abrem caminho para passarmos.»

É um facto que, nessa época, os negros que a população conhece são, sobretudo, os grandes nomes do futebol. Os fugitivos são tratados, portanto, com toda a simpatia. Foi aliás um jogador de futebol da Académica, Daniel Chipenda, que convidou Jorge Valentim a integrar a fuga. No seu livro «Esperança», Valentim conta que, no dia combinado, deixou a casa como normalmente, acompanhado por Mateus da Silva, encontrando-se depois ambos num café com um cidadão americano, que falava português e guiava um carro Mercedes Benz. Na fronteira do Minho juntaram-se a outros colegas, formando um grupo de 19 pessoas. A saída para Espanha decorreu sem problemas, bem como a travessia do país e a passagem para França: embora os passaportes que lhes tinham dado tivessem fotos que não coincidiam, e lhes atribuíssem uma língua que desconheciam, passaram sem incidentes para território francês, onde os esperava a gente da CIMADE.

As coisas não correriam tão bem com o segundo grupo, de cerca de cem pessoas:

«Saímos em 3 vagas. A primeira chegou a Espanha, passou pela Espanha e seguiu directamente para França e dali para a Suíça. A segunda vaga parou em Espanha à espera da terceira, para depois seguirem juntas para França. Eu fiz parte dessa segunda vaga, estive 20 dias fechado à espera dos outros, nem podíamos assomar à janela. Depois fomos atravessar a fronteira, os espanhóis não acreditaram nos salvo-condutos senegaleses. A nossa história era que éramos estudantes senegaleses em França, tínhamos atravessado a fronteira em Barcelona, não tinham posto carimbo… os espanhóis não acreditaram, levaram-nos para a Cadeia Distrital.» [10]

«Saímos de Lisboa, fomos ao Porto, e a altas horas da noite partimos para a fronteira, para o Rio Douro. Esperámos muito tempo, não apareceu o passador, tivemos que regressar ao Porto e repetir a operação no dia seguinte. Nessa noite conseguimos passar, num bote de contrabandistas. Estivemos escondidos numa pequena mata, depois transportaram-nos para San Sebastian. É aí que as coisas se complicam. Devíamos passar com um documento senegalês, mas a polícia já devia estar avisada… Fomos interrogados, levados para uma prisão.» [11]

Aparentemente, surgira um imprevisto: o guarda fronteiriço espanhol cuja desatenção fora garantida pela CIMADE adoecera e fora substituído por um colega mais atento, que recusou os argumentos esgrimidos pelos fugitivos. Estes correm o risco de ser devolvidos a Portugal pelas autoridades franquistas: o governo português terá mesmo feito deslocar um avião a Madrid, para garantir o regresso.

O grupo passa assim 48 horas na prisão de San Sebastian. Com eles, os pastores protestantes que os acompanhavam. Mas estes têm contactos que conseguem pôr em acção: há quem fale do Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Couve de Murville, quem refira a administração Kennedy, até mesmo a CIA [12]. Certo é que os prisioneiros são libertados e conduzidos em carros da própria Guardia Civil até à fronteira Irun-Hendaye.

Do lado francês, a CIMADE recebe-os com um enorme jantar e garante-lhes hospitalidade. Mas rapidamente essa hospitalidade lhes vai parecer pesada.

O problema, explica Manuel Videira [13] – que, embora tendo saído legalmente, recebera também apoio da CIMADE – era que continuavam semi-prisioneiros, porque não lhes davam documentos. A razão invocada era o risco, previsível para alguns, de serem tomados por argelinos, numa altura em que estes eram violentamente perseguidos.

Mesmo as visitas não eram fáceis: na CIMADE, diz Videira, para lá de Savimbi, apenas os visitou – até porque lá se encontravam, entre outros, Joaquim Chissano, Pascoal Mocumbi e Joana Simeão – Eduardo Mondlane, que trabalhava na ONU e tinha passaporte diplomático. Já os encontros com Mário Pinto de Andrade – que usaria então passaporte egípcio – Viriato da Cruz e Lúcio Lara eram feitos clandestinamente, num café perto da CIMADE, frequentado precisamente por argelinos. E com o MPLA a exortar todos os que quisessem juntar-se à luta a seguir para Leopoldville, é aí que Mário Pinto de Andrade lhes dá indicações para prepararem uma outra fuga, desta vez da CIMADE.

Segundo Manuel Videira, é a embaixada da Guiné Conacry que arranja passaportes e uma organização clandestina de argelinos em França que organiza a fuga em massa, financeiramente apoiada pelo Gana. Fogem de autocarro, pretextando-se uma orquestra – para o que terão comprado, aliás, diversos instrumentos. Dirigem-se para a fronteira alemã, numa zona pouco vigiada, perto da Bélgica. Com a ajuda de argelinos, atravessam a fronteira e entram na Alemanha. Daí partirão poucos dias depois, de avião, com destino a Accra, no Gana.

Segundo recorda Fernando Chaves [14], voaram primeiro para Amsterdão e depois, pela KLM, para o Gana, com passagem por Las Palmas e Monróvia. Em Acra, foram recebidos pelo Africain Affairs Center e alojados num hotel perto do aeroporto – curiosamente chamado Lisbon Hotel. Mais tarde foram encaminhados para Aximota, um centro universitário, onde ficaram até serem transferidos para Núngua, uma pequena aldeia perto de Tema, a segunda cidade portuária do Gana, onde, refere Chaves, receberam a visita do adido cultural brasileiro, que os convidou a visitar uma fragata brasileira que ali passava e a ir para o Brasil. Foram também visitados por Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz e Miguel Trovoada.

A maioria dos protestantes do grupo dirigira-se entretanto para a Suíça, onde se encontrava já Jonas Savimbi. Outros, como Cabulo, Filipe Amado, Fernando Octávio, Wilson e Ilda Carreira (Baiana), querendo continuar os estudos, tinham optado pela Alemanha [15]. Agora, a proposta feita aos fugitivos é que os estudantes prossigam os seus estudos no Bloco de Leste – URSS e Checoslováquia, sobretudo, mas também na RDA – ou na Suíça e na Holanda.

Quanto aos médicos, deverão dirigir-se para Leopoldville, para ali dar assistência aos refugiados que abandonaram Angola na sequência da perseguição aos “assimilados”, que se seguiu ao 15 de Março. Entre os que chegaram ao Gana há vários médicos – Vieira Lopes, Manuel Videira, Mário Assis, Carlos Pestana “Katiana”, Manuel Boal – e a sua presença vai permitir a “operação batas brancas”, ou seja, a instalação em Leopoldville de um organismo estreitamente ligado ao MPLA, o Corpo Voluntário Angolano para Assistência aos Refugiados, CVAAR, que conta também com os médicos do grupo dos “mais velhos” anteriormente sediados em Conacry: Américo Boavida, Eduardo dos Santos, Hugo Meneses. «É a primeira ONG angolana», ironiza Manuel Videira. Criam postos de assistência aos refugiados na fronteira e recolhem fundos e medicamentos, garantindo apoios da Suécia, da Holanda, um pouco de França, mais tarde da URSS.

Outros, como Rui de Sá (Dibala), irão receber treino militar, para seguir para a frente de combate.

Hoje, os elementos da grande fuga de 1961 estão espalhados pelos seus países de origem e em outras partes do Mundo. Alguns ocuparam ou ocupam o mais alto cargo dos seus países, como Joaquim Chissano, em Moçambique e Pedro Pires, em Cabo Verde. Alguns foram ministros, outros embaixadores, generais, deputados, altos funcionários. Em alguns, a forma como a independência do seu país evoluiu deixa uma mágoa: «Não foi isto que nós combinámos!»

Mas aquilo que tinham em mente ao fugirem de Portugal nesse Junho de há 48 anos, isso foi conseguido: o colonialismo português foi derrotado e são agora cidadãos de países independentes – mesmo se a luta pela concretização do sonho de jovens, essa, tem de continuar.


Notas:

[1] AN/TT – PIDE-DGS, Proc. CEI 4529/62, Docs. 132 a 136, abud Rocha, Edmundo, Angola – Contribuição ao Estudo da Génese do Nacionalismo Moderno Angolano, Kilombelombe, Luanda, 2002, 1º vol., pág. 222.

[2] Rocha, Edmundo, Angola – Contribuição ao Estudo da Génese do Nacionalismo Moderno Angolano, Kilombelombe, Luanda, 2002, 1º vol., pág. 219.

[3] Bento Ribeiro (Cabulo), declarações recolhidas em 1990, para a série “Geração de 60”.

[4] Pedro Pires, declarações recolhidas em 1990, para a série “Geração de 60”.

[5] Bento Ribeiro (Cabulo), declarações recolhidas em 1990, para a série “Geração de 60”.

[6] Declarações recolhidas em 1990, para a série “Geração de 60”

[7] Declarações recolhidas em Julho de 2006, para a preparação de um documentário sobre a fuga de Portugal dos estudantes nacionalistas das colónias.

[8] Id.

[9] Ibid.

[10] José Araújo, declarações recolhidas em 1990, para a série “Geração de 60”.

[11] Pedro Pires, declarações recolhidas em 1990, para a série “Geração de 60”.

[12] Rocha, Edmundo, Angola – Contribuição ao Estudo da Génese do Nacionalismo Moderno Angolano, Kilombelombe, Luanda, 2002, 1º vol., pág. 221.

[13] Declarações recolhidas em Julho de 2006, no âmbito da preparação de um documentário sobre a fuga de Portugal dos estudantes nacionalistas das colónias.

[14] Declarações recolhidas em Julho de 2006, no âmbito da preparação de um documentário sobre a fuga de Portugal dos estudantes nacionalistas das colónias.

[15] Declarações de Luísa Gaspar, recolhidas em Julho de 2006, no âmbito da preparação de um documentário sobre a fuga de Portugal dos estudantes nacionalistas das colónias.

sábado, junho 06, 2009

Brecht

"Dificuldade de governar"

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

Bertold Brecht

sexta-feira, junho 05, 2009

Bem caçada!

ADEUS GENERAL MOTORS






ADEUS GENERAL MOTORS


*Por Michael Moore, traduzido no Brasil

Escrevo na manhã que marca o fim da toda-poderosa General Motors. Quando
chegar a noite, o Presidente dos Estados Unidos terá oficializado o ato: a
General Motors, como conhecemos, terá chegado ao fim.

Estou sentado aqui na cidade natal da GM, em Flint, Michigan, rodeado por
amigos e familiares cheios de ansiedade a respeito do futuro da GM e da
cidade. 40% das casas e estabelecimentos comerciais estão abandonados por
aqui. Imagine o que seria se você vivesse em uma cidade onde uma a cada duas
casas estão vazias. Como você se sentiria?

É com triste ironia que a empresa que inventou a “obsolescência programada”
– a decisão de construir carros que se destroem em poucos anos, assim o
consumidor tem que comprar outro – tenha se tornado ela mesma obsoleta. Ela
se recusou a construir os carros que o público queria, com baixo consumo de
combustível, confortáveis e seguros. Ah, e que não caíssem aos pedaços
depois de dois anos. A GM lutou aguerridamente contra todas as formas de
regulação ambiental e de segurança. Seus executivos arrogantemente ignoraram
os “inferiores” carros japoneses e alemães, carros que poderiam se tornar um
padrão para os compradores de automóveis. A GM ainda lutou contra o trabalho
sindicalizado, demitindo milhares de empregados apenas para “melhorar” sua
produtividade a curto prazo.

No começo da década de 80, quando a GM estava obtendo lucros recordes,
milhares de postos de trabalho foram movidos para o México e outros países,
destruindo as vidas de dezenas de milhares de trabalhadores americanos. A
estupidez dessa política foi que, ao eliminar a renda de tantas famílias
americanas, eles eliminaram também uma parte dos compradores de carros. A
História irá registrar esse momento da mesma maneira que registrou a Linha
Maginot francesa, ou o envenenamento do sistema de abastecimento de água dos
antigos romanos, que colocaram chumbo em seus aquedutos.

Pois estamos aqui no leito de morte da General Motors. O corpo ainda não
está frio e eu (ouso dizer) estou adorando. Não se trata do prazer da
vingança contra uma corporação que destruiu a minha cidade natal, trazendo
miséria, desestruturação familiar, debilitação física e mental, alcoolismo e
dependência por drogas para as pessoas que cresceram junto comigo. Também
não sinto prazer sabendo que mais de 21 mil trabalhadores da GM serão
informados que eles também perderam o emprego.

Mas você, eu e o resto dos EUA somos donos de uma montadora de carros! Eu
sei, eu sei – quem no planeta Terra quer ser dono de uma empresa de carros?
Quem entre nós quer ver 50 bilhões de dólares de impostos jogados no ralo
para tentar salvar a GM? Vamos ser claros a respeito disso: a única forma de
salvar a GM é matar a GM. Salvar a preciosa infra-estrutura industrial, no
entanto, é outra conversa e deve ser prioridade máxima.

Se permitirmos o fechamento das fábricas, perceberemos que elas poderiam ter
sido responsáveis pela construção dos sistemas de energia alternativos que
hoje tanto precisamos. E quando nos dermos conta que a melhor forma de nos
transportarmos é sobre bondes, trens-bala e ônibus limpos, como faremos para
reconstruir essa infra-estrutura se deixamos morrer toda a nossa capacidade
industrial e a mão-de-obra especializada?

Já que a GM será “reorganizada” pelo governo federal e pela corte de
falências, aqui vai uma sugestão ao Presidente Obama, para o bem dos
trabalhadores, da GM, das comunidades e da nação. 20 anos atrás eu fiz o
filme “Roger & Eu”, onde tentava alertar as pessoas sobre o futuro da GM. Se
as estruturas de poder e os comentaristas políticos tivessem ouvido, talvez
boa parte do que está acontecendo agora pudesse ter sido evitada. Baseado
nesse histórico, solicito que a seguinte ideia seja considerada:

1. Assim como o Presidente Roosevelt fez depois do ataque a Pearl Harbor, o
Presidente (Obama) deve dizer à nação que estamos em guerra e que devemos
imediatamente converter nossas fábricas de carros em indústrias de
transporte coletivo e veículos que usem energia alternativa. Em 1942, depois
de alguns meses, a GM interrompeu sua produção de automóveis e adaptou suas
linhas de montagem para construir aviões, tanques e metralhadoras. Esta
conversão não levou muito tempo. Todos apoiaram. E os nazistas foram
derrotados.

Estamos agora em um tipo diferente de guerra – uma guerra que nós travamos
contra o ecossistema, conduzida pelos nossos líderes corporativos. Essa
guerra tem duas frentes. Uma está em Detroit. Os produtos das fábricas da
GM, Ford e Chrysler constituem hoje verdadeiras armas de destruição em
massa, responsáveis pelas mudanças climáticas e pelo derretimento da calota
polar.

As coisas que chamamos de “carros” podem ser divertidas de dirigir, mas se
assemelham a adagas espetadas no coração da Mãe Natureza. Continuar a
construir essas “coisas” irá levar à ruína a nossa espécie e boa parte do
planeta.

A outra frente desta guerra está sendo bancada pela indústria do petróleo
contra você e eu. Eles estão comprometidos a extrair todo o petróleo
localizado debaixo da terra. Eles sabem que estão “chupando até o caroço”. E
como os madeireiros que ficaram milionários no começo do século 20, eles não
estão nem aí para as futuras gerações.

Os barões do petróleo não estão contando ao público o que sabem ser verdade:
que temos apenas mais algumas décadas de petróleo no planeta. À medida que
esse dia se aproxima, é bom estar preparado para o surgimento de pessoas
dispostas a matar e serem mortas por um litro de gasolina.

Agora que o Presidente Obama tem o controle da GM, deve imediatamente
converter suas fábricas para novos e necessários usos.

2. Não coloque mais US$30 bilhões nos cofres da GM para que ela continue a
fabricar carros. Em vez disso, use este dinheiro para manter a força de
trabalho empregada, assim eles poderão começar a construir os meios de
transporte do século XXI.

3. Anuncie que teremos trens-bala cruzando o país em cinco anos. O Japão
está celebrando o 45o aniversário do seu primeiro trem bala este ano. Agora
eles já têm dezenas. A velocidade média: 265km/h. Média de atrasos nos
trens: 30 segundos. Eles já têm esses trens há quase 5 décadas e nós não
temos sequer um! O fato de já existir tecnologia capaz de nos transportar de
Nova Iorque até Los Angeles em 17 horas de trem e que esta tecnologia não
tenha sido usada é algo criminoso. Vamos contratar os desempregados para
construir linhas de trem por todo o país. De Chicago até Detroit em menos de
2 horas. De Miami a Washington em menos de 7 horas. Denver a Dallas em 5h30.
Isso pode ser feito agora.

4. Comece um programa para instalar linhas de bondes (veículos leves sobre
trilhos) em todas as nossas cidades de tamanho médio. Construa esses trens
nas fábricas da GM. E contrate mão-de-obra local para instalar e manter esse
sistema funcionando.

5. Para as pessoas nas áreas rurais não servidas pelas linhas de bonde, faça
com que as fábricas da GM construam ônibus energeticamente eficientes e
limpos.

6. Por enquanto, algumas destas fábricas podem produzir carros híbridos ou
elétricos (e suas baterias). Levará algum tempo para que as pessoas se
acostumem às novas formas de se transportar, então se ainda teremos
automóveis, que eles sejam melhores do que os atuais. Podemos começar a
construir tudo isso nos próximos meses (não acredite em quem lhe disser que
a adaptação das fábricas levará alguns anos – isso não é verdade)

7. Transforme algumas das fábricas abandonadas da GM em espaços para moinhos
de vento, painéis solares e outras formas de energia alternativa. Precisamos
de milhares de painéis solares imediatamente. E temos mão-de-obra capacitada
a construí-los.

8. Dê incentivos fiscais àqueles que usem carros híbridos, ônibus ou trens.
Também incentive os que convertem suas casas para usar energia alternativa.

9. Para ajudar a financiar este projeto, coloque US$ 2,00 de imposto em cada
galão de gasolina. Isso irá fazer com que mais e mais pessoas convertam seus
carros para modelos mais econômicos ou passem a usar as novas linhas de
bondes que os antigos fabricantes de automóveis irão construir.

Bom, esse é um começo. Mas por favor, não salve a General Motors, já que uma
versão reduzida da companhia não fará nada a não ser construir mais Chevys
ou Cadillacs. Isso não é uma solução de longo prazo.

Cem anos atrás, os fundadores da General Motors convenceram o mundo a
desistir dos cavalos e carroças por uma nova forma de locomoção. Agora é
hora de dizermos adeus ao motor a combustão. Parece que ele nos serviu bem
durante algum tempo. Nós aproveitamos restaurantes drive-thru. Nós fizemos
sexo no banco da frente – e no de trás também. Nós assistimos filmes em
cinemas drive-in, fomos à corridas de Nascar ao redor do país e vimos o
Oceano Pacífico pela primeira vez através da janela de um carro na Highway
1. E agora isso chegou ao fim. É um novo dia e um novo século. O Presidente
– e os sindicatos dos trabalhadores da indústria automobilística – devem
aproveitar esse momento para fazer uma bela limonada com este limão amargo e
triste.

Ontem, a último sobrevivente do Titanic morreu. Ela escapou da morte certa
naquela noite e viveu por mais 97 anos.

Nós podemos sobreviver ao nosso Titanic em todas as “Flint – Michigans”
deste país. 60% da General Motors é nossa. E eu acho que nós podemos fazer
um trabalho melhor.

quarta-feira, maio 13, 2009



CONVITE/ CONVOCATÓRIA/ INTIMAÇÃO



Dia 22 de Maio de 2009, às 18h na Casa de Angola em Lisboa, é apresentado o mais recente trabalho do Fernando Teixeira (Baião)
Estão pois intimados, convocados ou convidados a participarem no lançamento do livro “Kimalanga”, um livro de uma mordacidade acutilante, bem ao jeito do excelente contador de histórias que é este autor.
Prefaciado pelo Carlos Ferreira (Cassé), editado em simultâneo pela Prefácio e pela Chá de Caxinde, é posto à venda a partir do dia 15 de Maio.
Porque queremos estar com o Baião, nada melhor que nos encontrarmos todos no dia 22 de Maio, ali para os lados do Rato na Travessa da Fábrica das Sedas, em Lisboa.
Fernando Teixeira (Baião)é um angolano de Malanje, luandense de sempre, ocasionalmente belga por motivos políticos, foi quadro dirigente da banca angolana governante numa fase difícil da história de Angola.
Hoje reformado, o economista foi emprestado à escrita, e a sua criatividade e sagacidade fazem com que “Kimalanga” chegue às bancas como o seu quarto livro.
Se querem saber mais, venham à Casa de Angola e assistam ao que se vai dizer dele. Quem não puder vir a Lisboa, ou não quiser subir ao Rato, pode comprar o livro e lê-lo!
Simples!!!

terça-feira, maio 12, 2009

Rui Mingas faz hoje 70 anos.




Faz hoje 70 anos o meu amigo Rui Alberto Vieira Dias Mingas,mais conhecido por Rui Mingas.
Tive o privilégio de ter trabalhado com ele, e ter partilhado com uma equipa por si dirigida, alguns dos melhores momentos desportivos de uma Angola que vivia a sua fase de entusiasmo, depois de um parto difícil com o colonialismo.
Autor da musica do Hino Nacional da Republica Popular de Angola,partilhado com letra de Manuel Rui Monteiro,pareceria repetida em vários trabalhos onde avultam "Os Meninos do Huambo", "Meu Amor". "Monangambé", com letra do grande António Jacinto do Amaral Martins, "Adeus à hora da largada", de Agostinho Neto, "Benguela" de Ernesto Lara Filho, "Muxima" de Liceu Vieira Dias "Muibu ua sabalu" de Mário Pinto de Andrade, e uma versão notável do "Namoro" do Viriato da Cruz, foram algumas das muitas canções que fizeram dele incontornavelmente o maior de todas as vozes angolanas.
Atleta de eleição, dirigente político da fase determinante do arranque das bases do desporto angolano, embaixador em Lisboa num período crucial na história diplomática conturbada dos dois Países, vice-ministro da cultura de um GURN, que politicamente era uma amalgama de divergências e serenamente hoje vai construindo com o Dr. Paulo Murias, o projecto educativo com maior crescimento em Angola, "A Universidade Lusíada".
Antigo aluno do Liceu Salvador Correia foi um símbolo de uma geração, e por isso aqui a menção ao seu aniversário.
Neste dia dos seus setenta anos, muito vividos ao lado da sua companheira de sempre e dos seus cinco filhos e netos, só me resta dar-lhe o enorme abraço de parabéns, e a certeza que tenho da amizade retribuída.

Fernando Pereira

quarta-feira, abril 01, 2009

Faz hoje 70 anos que acabou a guerra civil de Espanha




Em 1 de Abril de 1939 acabou o sonho de uma Espanha democrática e republicana. Venceu então o despotismo, a tirania e a morte.
Sobre este assunto ir a Publico.es

terça-feira, março 31, 2009

O fogo do inferno...que fazer sem o purgatório?


Tirei esta foto no Reboleiro, que é uma aldeia limite de Sebadelhe,terra de Aquilino Ribeiro.

quinta-feira, março 26, 2009

Texto de Miguel Sousa Tavares no Expresso de 21-3-09


Tristes trópicos, triste Papa - Miguel Sousa Tavares

Lisboa - Os Papas gostam muito de ir a África. São viagens que asseguram sempre uma grande cobertura mediática, estádios cheios de multidões com bandeirinhas que não entendem nada do que o Papa lhes vai dizer nem estão lá para isso, discursos de efeito fácil e inócuo contra a pobreza e o subdesenvolvimento que ficam sempre bem à imagem de uma Igreja preocupada com questões sociais. De caminho, os Papas não se preocupam nada ou quase nada com a caução que dão às ditaduras que visitam, à corrupção que elas praticam e à miséria que promovem.

Quando João Paulo II visitou a Costa do Marfim, de que era ditador Houphouet-Boigny, dormiu num edifício construído de propósito para o efeito que custou 150 milhões de euros - o equivalente, talvez, ao PIB anual do país, e construído ao lado da Catedral de Yamassoukro - do tamanho da Basílica de S. Pedro, em Roma, toda em mármore, erguida em plena selva e cujo custo ninguém conseguiu jamais estimar. E aí, no covil do ladrão, abençoou o país e o seu Presidente e não se esqueceu de pregar a caridade para a multidão de miseráveis a quem o regime local roubava o pão e a escola para financiar a ostentação religiosa e o palácio particular do VIIème em Paris onde Boigny gostava de passar o melhor do seu tempo.

Também agora, vendo o ar feliz com que Bento XVI se passeou em Yaoundé, ao lado do Presidente Biya, dos Camarões - corrupto e ditador, como manda a tradição - e da sua contratada primeira-dama, constato que a tão elogiada diplomacia duplamente milenar da Santa Sé continua a seguir a mesma regra de sempre: o essencial é garantir que a Igreja Católica seja tolerada e de preferência bem tratada onde quer que seja, nem que para isso o Papa tenha de caucionar, visitar e abençoar aquilo que a decência mandaria evitar. Foi assim, por exemplo, que João Paulo II, de visita à Indonésia, aceitou deslocar-se a Timor, no auge da ocupação e da repressão (inclusive sobre a Igreja Católica), porque, em contrapartida, lhe asseguraram uma existência pacífica no maior país muçulmano do mundo.

Para dizer com franqueza, por mais que a figura de Ratzinger afaste qualquer simpatia - ao contrário do que sucedia com Woytila - o que Bento XVI faz e diz em África não é substancialmente diferente do que fazia e dizia João Paulo II: convoca a fé irracional das multidões, de que a Igreja tanto gosta, prega a caridade em lugar da justiça social, e repete os insustentáveis dogmas morais para um mundo que não existe e que hoje parece ser o fundamental da mensagem de Roma. Se fosse só esta a mensagem que a Igreja Católica tivesse para levar a África e a outras partes do mundo, há muito que teria desaparecido do mapa. Mas, apesar da perda de influência constante a favor daquilo a que Bento XVI chama "seitas", o que ainda mantém a Igreja com uma força de influência moral em África é o trabalho, muitas vezes invisível e até mal compreendido por Roma, que muitos sacerdotes, missionários e comunidades cristãs desenvolvem no terreno, em condições bem difíceis. Felizmente, aí vale aquele provérbio africano que diz que "a palavra do chefe não passa além do rio". Aí, confrontados diariamente com a doença e o sofrimento, vivendo num continente onde estão 70% dos infectados com sida, os padres sabem que a sua obrigação, moral e religiosa, é aconselhar o uso do preservativo e não fazer pregações irresponsáveis e paternalistas a favor da abstinência, da fidelidade ou da procriação como único fim da sexualidade.

No curto espaço de três semanas, este infausto Papa, imposto por longas manobras da cúpula 'negra' da Igreja Católica, conseguiu mostrar o pior de si mesmo. Primeiro, levantou a excomunhão contra o arcebispo nazi inglês Williamson e a sua seita anti-Vaticano II e apenas duas semanas depois de ele ter repetido que o Holocausto era uma invenção dos judeus; depois, defendeu e confirmou a excomunhão decretada pelo arcebispo de Olinda e Recife contra a mãe e os médicos que procederam ao aborto de uma menina de 9 anos (!), violada repetidamente e engravidada pelo padrasto, e que nem sequer percebeu que estava grávida e tinha deixado de estar; enfim, decretou, ao pisar África, que o preservativo não só não serve para atacar a disseminação da sida como até "a pode agravar". E isto, em nome da "vida". Que saberá o Papa da vida? Como é que algum católico, a começar por ele próprio, pode acreditar que Deus fala por ele?

Eu não gosto de Ratzinger, como se percebe. Não gostei do seu passado à frente da Doutrina da Congregação e da Fé, onde se dedicou sempre a perseguir o sector mais aberto e moderno da Igreja e a defender o sector mais retrógrado e fechado. Ao mesmo tempo que fustigavam o preservativo, o aborto em quaisquer circunstâncias e o sexo como direito natural das pessoas, fecharam os olhos durante décadas ao deboche e à ignominiosa perversão das paróquias, bispados e colégios católicos onde a pedofilia homossexual sobre indefesos era lei e regra. E eles sabiam - tinham de saber.

A moral não é uma questão de fé nem de mandamento divino. Não é preciso ter fé para se obedecer a um código de conduta com valores morais que todos devemos ter. Por vezes até - como se vê com os pregadores extremistas do Islão, do judaísmo ou do Papa Ratzinger - é a invocação da fé que acaba por pretender legitimar o que é moralmente insustentável. Também a fé não dispensa que se tente perceber quem os outros são, olhando-lhes para a cara. A mim, bastou-me olhar para a expressão de Ratzinger, no primeiro momento em que apareceu à janela de S. Pedro como Papa Bento XVI, para perceber muita coisa: Deus não tinha nada a ver com aquilo; o que ali estava inscrito transparentemente era uma expressão de pura cobiça satisfeita, de deleite com o poder. E até hoje não o vi mudar de expressão, apenas disfarçar, enquanto vai achando prudente, as ideias que desde sempre foram as suas.

Enquanto se ocupa a excomungar médicos que salvam a vida a uma criança violada pelo padrasto, Bento XVI prepara-se fatalmente para dar sequência ao que seria apenas uma anedota portuguesa, não fosse também uma vampirização da nossa História: fazer de D. Nuno Álvares Pereira santo, só porque uma senhora de Vila Franca de Xira se queimou com o óleo da cozinha, rezou ao beato e curou-se... graças aos médicos que a assistiram e às defesas do organismo. E fica em silêncio quando tantos devotos católicos e financeiros, seguidores do também beato Escrivá de Balaguer, fundador da Opus Dei, levaram o culto de vendilhões do templo a tal extremo que conduziram o mundo a uma crise global e reduziram milhões de pessoas à moderna escravidão do desemprego e da pobreza.

Não, Deus não iluminou o conclave de Roma no momento de soltar fumo branco por Ratzinger. Mas o pior é que o mundo que os rodeia também não os inspirou em nada. E a consequência é que a Igreja Católica desertou de onde, apesar de todos os seus humanos erros, faz falta.
Miguel Sousa Tavares

Luta Livre (Tarzan Taborda)


Com a cortesia do IÉ-IÉ

quarta-feira, março 25, 2009

O Sr. Duarte Pio e o opúsculo!



Este Duarte Nuno, o Nunes como é conhecido fez a tropa colonial eventualmente em Angola, e também eventualmente no Negage!Um rei à medida do colonial-fascismo!

Li no excelente blogue De Rerum Natura, num post de Carlos Fiolhais, o seguinte:

«De facto, o candidato a rei é autor de um opúsculo laudatório do Beato Nuno, onde se pode ler esta pérola: “Quando passava de Tomar a caminho de Aljubarrota, a 13 de Agosto de 1385, D. Nuno foi atraído a Cova da Iria, onde, na companhia dos seus cavaleiros, viu os cavalos do exército ajoelhar, no mesmo local onde, 532 anos mais tarde, durante as conhecidas Aparições Marianas, Deus operou o Milagre do Sol» (“D. Nuno de Santa Maria - O Santo”, ACD Editores, 2005).»
Fiquei maravilhado com o que li e, sobretudo, por saber que o Sr. Duarte Pio escreve.

O Sr. Duarte Pio, suíço alemão, da família Bourbon, imigrante nacionalizado português pela conivência de Salazar e pelo cumprimento do Serviço Militar Obrigatório, podia emprestar a imagem às revistas do coração mas precaver-se contra a ideia de publicar opúsculos.

Claro que não é necessário saber falar para escrever e, muito menos, saber escrever para publicar um opúsculo, mas a gramática, o tino e o decoro deviam criar numerus clausus.

É verdade que famosos especialistas são frequentemente alheios ao mister que os celebriza. É o caso do Conde de Abranhos como ministro da Marinha ou de Bagão Félix nas Finanças. E Portugal é um país que resiste a tudo. Resistiu à dinastia de Bragança, ao salazarismo e a Santana Lopes.

O Sr. Duarte Pio há-de ter pensado, em seu pensamento, num esforço heróico, que um livro vinha a calhar para lhe dar o toque de erudição depois das saídas rústicas que lhe mereceu José Saramago a cuja leitura o pouparam a rudimentar cultura e ausência de sensibilidade.

Se o Bush e a Alexandra Solnado são capazes de falar com Deus, e da Alexandra não há razão para duvidar, por que motivo o Sr. Duarte não há-de ser capaz de escrever um livro ou, pelo menos, um opúsculo, ainda que com a ajuda de alguns vassalos?

Há quem, através do estudo e do trabalho, de altas classificações numa boa universidade e de grande tenacidade consiga um emprego ao balcão de uma loja de pronto a vestir mas não será fácil chegar a Grão Mestre da Ordem de N. Sra. da Conceição de Vila Viçosa, da Real Ordem de São Miguel da Ala, Juiz da Real Irmandade de São Miguel da Ala, Bailio Grã-Cruz da Ordem Soberana de Malta, membro do Concelho Científico da Fundação Príncipes de Arenberg e outras distinções guardadas para os descendentes de rainhas de Portugal.

Felizmente vivemos em República. Somos cidadãos e não súbditos. Quando nos cansamos dos titulares dos órgãos de soberania, votamos noutros. E ninguém, com juízo, votaria em quem acredita que Nuno Álvares curou o olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus, queimado com salpicos de óleo de fritar peixe.

Diário "Provincia de Angola" 30-3-1961


Para os muitos que continuam a dizer que os portugueses não eram racistas só peço que ampliem o jornal e vão lendo o que então se escreveu.
Fernando Pereira

segunda-feira, março 23, 2009

LUis Cília..A Bola (1966)

Em Março de 1961...


ERa assim que abria qualquer serviço noticioso na Emissora Nacional nesses tempos de má memória de 1961...
Com o Ferreira da Costa a debitar triunfos atrás de triunfos e a reforçar que "Rádio Moscovo não fala verdade", lá se ia cantando e rindo...



“Monólogo e Exposição”

“Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas,

Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.”

Fernando Assis Pacheco em “Câu Kiên: um Resumo”, Lisboa 1972

_____________

A ilustração é a capa de um disco que contém o hino colonialista “Angola É Nossa”, com música de Duarte Pestana e letra de Santos Braga. A interpretação é do Coro e Orquestra da FNAT (Federação Nacional para a Alegria no Trabalho).
Para o reime tratava-se de um hino patriótico, criado após a célebre frase de Salazar: “Para Angola, ràpidamente e em força”
Cortesia de “Ié-Ié”

sexta-feira, março 20, 2009

Sua Santidade tem razão!

Sem o preservativo é indiscutívelmente muito melhor...Palavras do SS Papa!
Isto da SIDA é uma coisa inventada pelos Luteranianos em conluio com a Control, Durex ou Harmony!

Desenho do António!

Sai na edição em papel do Expresso de 21/03/09

terça-feira, março 17, 2009

A Fama e o Proveito / Texto de Eugénio Ferreira na apresentação do livro sobre seu pai!


Habitamos o planeta terra e somos componentes da sua sociedade mais complexa e mais desenvolvida até alguém nos demonstrar o contrário. Como tal, buscando uma das milhares de invenções da humanidade - a matemática - podemos desde logo fazer uma regra três simples , uma equação do segundo grau a uma incógnita ou uma simples combinação, para chegarmos á conclusão prematura de que a sociedade humana,tem condições para transformar a hierarquia global entre sociedades que C. Darwin só descobriu há menos de dois séculos – e que alguns loucos , de tempos a tempos , tentam projectar nas suas aldeias - naquilo que os utilizadores de religiões que mais engendraram historicamente pati farias conhecidas , chamam paraíso .
Por isso, esta história “ aldeã “ de ser angolano ou haitiano , chinês ou sueco , aus traliano ou da Mongólia , só lá vai se a humanidade criar as condições materiais mínimas , para que cada humano – antigamente através de gerações e agora , por vezes , com um simples clique de um botão de computador - ,não viva , por sistema , a chegar à conclusão de que a vida é soma de equívocos que se reduz à existência de santos, diabos e malabaristas na arte de conviver .
Há 40 anos, diziam alguns que era por moda , a luta de uns aldeãos – ricos e pobres - por um lugar ao sol na rota do Atlântico – sul , em nome de injustiças verdadeiras , foi resolvida na ba se da reivindicação de que havia por aí uma identidade especial e que a única forma de resolver a questão particular - a deles serem eles mesmos - , só tinha lógica se virássemos o mundo ao contrário . Paco Ibañez cantava : Era uma vez um príncipe mau, uma bruxa moça, um pirata honrado , e todas estas coisas só “existiam“ para que acontecesse um mundo melhor . Inver tendo os termos da equação descobria a forma mais hábil de conseguir uma transformação de sejada .
Assim,numa luta titânica entre produtores e difusores,inventores e aproveitadores, construtores e destruidores , completados por tarefeiros - alguns deles tornados novos senhores do mundo material ! – chegou-se à conclusão de que , consoante a aldeia em que vivemos , só há 1 mo mento em que fama e proveito se articulam e se sentem no paraíso .
É quando a história começa a descrever descobertas e a revelar factos impossíveis de serem desmentidos , sob o risco de , pelo esforço , nada nesta vida humana fazer sentido.
É quando a história ajuda a demonstrar, que em tempos de pedra lascada , entre muitas combi nações e arranjos matemáticos , pode haver diferença principal entre um bandido que de facto fica com fama de distribuidor de benesses e um herói que corre o risco de ser conhecido , por vezes durante muito tempo , como bandido .
É , em suma , quando a história deste planeta pode demonstrar :
1º que o “ inferno“ e o “ purgatório“podem andar por aí a esboçar-se quotidianamente, porque sendo a perfeição extra-terrestre , há os que defendem que o caos e a barbarie devem ser espa lhados pelos “rebanhos“ para que só os “guias” vivam organizadamente em paz e harmonia ;
E
2º que o ”paraíso” pode vir a existir por absoluta necessidade de construção humana e de vontade em dar um sentido humano ao acaso que é a vida das sociedades descoberta por C.Darwin .
Tenho dito
Luanda , 19 de Março de 2009 .

domingo, março 15, 2009

quinta-feira, março 05, 2009

IDEOLOGIAS E MENTALIDADES /Eugénio Monteiro Ferreira



IDEOLOGIAS E MENTALIDADES

I

Há 4 condicionantes que me dizem directamente respeito - tal como a todos os que não desistem de ter" Angola no coração " - que não posso deixar de enunciar , depois de ler o texto de Alfredo Margarido sobre "Uma fresta do tempo" seguida de "Ironias " de Adelino Torres , difundida no número 34 de Dezembro de 2008 , na revista "Latitudes " . Dizem respeito simplesmente à reprodução da luta interminável entre a ciência política e as outras ciências , neste caso , sociais , e tem a ver com a renovada história , com muitas bifurcações , do racismo , e com aquilo que , podendo ser um factor decisivo-como o foi - nos processos históricos , não pode deixar de ser , para quem consegue ultrapassar a " menoridade mental " de alguns "chefes " políticos , um valor acrescentado . Alfredo Margarido , que dizia que Mário António não era " puro " por ter influências dos colonizadores , renova nes te texto , um racismo estrutural que não tem emenda , pois renova a linearidade da relação cor - raça -cultura , que a História de todos os azimutes já demonstrou ser falsa . Ou seja , Alfredo Margarido dá razão a ...Shakespeare :

1º mostrando-se afinal de contas um exímio defensor da ideologia prática do salazarismo , isto é , dos produtores do aparelho repressivo imperial portu guês , por exemplo da PIDE ou das Polícias vulgares até ao final dos anos 50 , que em caso de violência política prendia negros e mestiços e mandava para Portugal , brancos ;

2º a) renovando a sistemática defesa política do vai - vem do Poder imperial português - colonização /descolonização ou , nos dias de agora , neo-colo
nialismo - , numa lógica em que a ida para Angola e o apego ao espaço social , impõe um torna -viagem " obrigatório " e se abre , porventura muito
" poeticamente " a relação portugueses - África , imitando franceses por exemplo , recusa reduzir-se à realidade : Angola - Portugal . Dito de outro mo
do , por mais que Margarido o não pretenda , os " poemas " de Adelino Torres não são " consagrados a África " ...são consagradados ao conhecimento da angolanidade vivida e depois idealizada , pois até organicamente ...da África veiculada como "uniforme" e "nublosa ", a quase totalidade dos angola nos , repito , angolanos , da política à poesia ou à engenharia , não a conheceram nunca , com a excepção de uma minoria ...a dos nacionalistas agressi vos e estruturalmente racistas...a começar pelo " Poeta Maior" ; b) não concebe que a história real da angolanidade teve a ver com uma ida sem retorno nas mentalidades e nas vontades de muitos colonos ...a meio caminho entre as"descolonizações"à moda dos EUA, Nova Zelândia , Austrália , R.A.S. e ...as que se projectaram à moda das zambias , Guinés-Conakri , e outras fórmulas de reprodução de poder económico - financeiro sem responsabili dades políticas directas e a velha identificação pro- nacionalista , nunca desarticulada , de que - qual apoiante de Enrico Macias - , um branco nascido ou criado em Angola , de cultura portuguesa ou um colono articulado à "colónia " , ...não eram " argelinos de cultura francesa " , eram " franceses da Argélia " ;

3º falseando a história através da política actualista , não conseguindo sequer distrinçar a transição violenta generalizada em qualquer parte do mundo para o capitalismo , ou seja , as relações de produção e troca , do tipo de violência prevalecente na Angola do final dos anos 50 , imbuida do racismo
" mental " das minorias - branca e ,todos esquecem , mestiça - e , por outro lado , pela primordial , decisiva , por vezes fundamental , REACÇÃO negra com o INCENTIVO E O APOIO PRINCIPAL E NÃO SECUNDÁRIO das igrejas protestantes , precisamente porque A FASE DO NACIO NALISMO INTERNO ( desde 1930) , estava a " dar os últimos espasmos " , por outro lado , tenta defender-se alterando UMA REALIDADE...AS FOTOS DOS MILITARES , PORVENTURA COM O APOIO IMEDIATO DE COLONOS , ESPETANDO CABEÇAS DE NEGROS NUM PAU , com a sua utopia..generalizando essa prática . ANGOLA PODIA TER SIDO INDEPENDENTE EM 1960-1962 SE HOUVESSE UMA BASE SOCIAL DE APOIO INTERNO E LIDERES COM APOIO DE DENTRO PARA FORA A ESSA INDEPENDÊNCIA POR PARTE DA MAIORIA NEGRA .

4º Há aspectos particulares em grupos que se articulam no âmbito da Humanidade , e a Europa chamada Ocidental formalmente não é mais do que a tentativa de demarcação política...o "OCIDENTE "...de uma fase de degeneração de Poder global capitalista branco em exclusivo...a eleição de Obama é um recomeço de uma partilha fruto dessa degeneração . Mas ela não começou , não despoletou , não se desencadeou por via das lutas dos " povos " , como por exemplo do " povo angolano " liderado por vanguardas de facto retrógradas à moda do MPLA formalmente muito certinho...ELA - a degene ração dita ocidental - CONTINUA A DEGENERAR porque os alfredos margaridos desta vida , ao não quererem entender que os espaços sociais , os países económicos , as nações , os Estados , as " culturas nacionais " fruto do expansionismo global , internacionalista , da ECONOMIA , são cada vez mais uma mais valia , um valor acrescentado , QUANTO MAIS PARTILHAM AS DESGRAÇAS E OS TRIUNFOS . Em resumo , A ANGOLANI DADE FOI CONSTRUÇÃO MULTIRRACIAL VIOLENTA COM FUTURO...pois Adelino Torres , o colono rural e a família que ainda resta nas imediações do Lubango , ou os alemães nacionalistas politicos (!) , todos eles ERAM PERTENÇA DA ANGOLANIDADE ! Porque assim não foi ,
PORTUGAL ESTÁ OBRIGADO A SÊ-LO POR DEGENERAÇÃO E DESCONTRUÇÃO .

II

Para que nada se fique contra as pessoas em particular , mas de facto contra as ideias que defendem , não é nada negativo lembrar ANTÓNIO BARRE TO , que AFIRMANDO com razão que a economia é que cria as condições para que as mentalidades se transformem , chamando IDIOTAS a outros , tal como ALFREDO MARGARIDO , SE ESQUECE :

A) que um dos grandes erros das Esquerdas nacionais " OCIDENTAIS " é idealizarem que o seu " universo " de contradições é percebido pelos habitantes de todos os outros continentes ;

B) NÃO ENTENDE porventura QUE SE SHAKESPEARE TINHA RAZÃO SOCIALMENTE ...sobre que cada um " vai ser sempre aquilo que...já era " -ISSO É VERDADEIRO PARA AS MAIORIAS do " deixa andar " e é determinante ! - ,

TAMBÉM É VERDADE QUE " A VONTADE HUMANA PODE TUDO " e cada homem ou mulher tem capacidade , a começar pelas minorias "intelectualizadas " (!!!) , de se transformar, em alterar, em modificar, de lutar contra aquilo que se auto considera como negativo ( se sou nervoso tenho a capacidade de me esforçar por controlar o dito nervoso ! ) - ISSO É VERDADEIRO PARA AS MINORIAS " conscientes " e é decisivo !

PAREM DE SE FICAR PELOS ELOGIOS FOLCLÓRICOS ...NESTE CASO POLÍTICOS E CULTURAIS ...AOS NELSON MANDELA !
Por mais exertos e disfarces se pretendam reproduzir...Adelino Torres É POETA da angolanidade histórica...não é " progressista mas colonialista " !

Eugénio Monteiro Ferreira , Março 2009

domingo, março 01, 2009

Há um ano falecia Joaquim Pinto de Andrade / Texto gentilmente cedido por Adolfo Maria

Angola perdia um ilustre filho em 23 de Fevereiro de 2008. Morria Joaquim Pinto de Andrade um dos símbolos maiores da resistência à opressão e da luta pela liberdade em Angola.

Nos tempos coloniais dos anos 50 do passado século, era um padre guiado pelos valores universais dos direitos humanos e pelos princípios doutrinários da sua religião, o catolicismo. Encorajava clandestinamente os seus compatriotas a lutarem pela liberdade e, abertamente, perante a nata da sociedade colonial, nas suas célebres homilias de domingo, na Igreja da Sé de Luanda, proclamava que os homens são todos iguais quando nascem e todos devem viver com dignidade. Apesar dos assuntos «provocadores» que nelas versava nas homilias, essa sociedade deliciava-se a ouvi-lo, tão grande era a sua erudição e fluente a sua oratória. Sendo padre (deixou de o ser anos depois, mas continuou católico) Joaquim Pinto de Andrade, convivia com ateus, agnósticos e fiéis de outras religiões e pela vida fora manteve sempre este espírito eclético e ecuménico.

Nos finais daquela década de 50, a situação política evoluía muito rapidamente: os nacionalistas angolanos organizaram-se para a acção política e, através de panfletos, denunciavam o colonialismo português e reivindicavam a independência nacional. Joaquim Pinto de Andrade embrenhou-se directamente nessa luta e, em 1960 é preso com Agostinho Neto e outros angolanos. Ambos são deportados de Angola. Joaquim Pinto de Andrade é colocado em Portugal onde iniciará um longo ciclo de residências vigiadas em diversos mosteiros e prisões em várias cadeias, que durou cerca de catorze anos. Enfrentou com firmeza e dignidade a polícia secreta salazarista, a PIDE, em vários interrogatórios, evocando as condições de opressão colonial em que vivia o povo angolano e afirmando que nada mais era que um homem assumindo a defesa das aspirações de liberdade do seu povo. Vozes se levantaram em todo o mundo contra a repressão que a polícia política portuguesa exercia sobre ele e o MPLA nomeou-o presidente honorário do Movimento.

Após a revolução portuguesa de 25 de Abril de 1974, Joaquim Pinto de Andrade procurou no Exterior dar a sua contribuição para a solução das divergências no seio do MPLA, dividido então em três tendências. Os tempos não se prestavam à sua mediação pois as perspectivas de uma próxima independência despoletaram em quase todos os dirigentes nacionalistas a preocupação maior e única de prepararem o assalto ao poder na futura Angola independente. Daí que graves questões como métodos de direcção e funcionamento do Movimento, responsáveis pela crise existente, e importantes questões nacionais não fossem objecto de interesse e preocupação dos dirigentes instalados pois o que lhes interessava eram as acções e manobras visando uma próxima conquista do poder em Angola.

Mesmo assim, depois de numerosas conversações e mediações de países africanos limítrofes amigos, foi decidida a realização de um congresso que levasse à unificação das fileiras do MPLA, estabelecesse métodos democráticos no seio da organização e definisse as estratégias a seguir naquele delicado momento político que antecedia as conversações com o novo regime português para a independência de Angola. Mas o congresso de Lusaka fracassou, devido às posições extremadas de Neto e Chipenda. Foi então que Joaquim Pinto de Andrade aderiu à facção Revolta Activa e passou a ser o seu líder.

Regressado meses mais tarde ao país, foi alvo de humilhações públicas por parte de vários sectores do MPLA às quais respondeu corajosamente. Após a independência, viu serem presos vários membros da ex-Revolta Activa e outros patriotas. De novo foi atacado na imprensa oficial por escribas ignorantes ou de má fé que vomitavam várias insinuações e calúnias até a de traição à pátria. Contra a repressão reagiu escrevendo cartas ao presidente Neto e chamando-lhe a atenção para o processo de exclusão de cidadãos válidos da vida nacional que fora desencadeado, um processo susceptível de trazer consequências ao próprio presidente. Eram proféticas as suas palavras porque um ano depois deu-se o 27 de Maio. Joaquim Pinto de Andrade, o incansável lutador pela liberdade, o tenaz resistente à opressão colonial, assistiu consternado a uma sanguinária repressão feita por angolanos sobre angolanos (até do mesmo partido político) na Angola Independente.

Desde a independência que estava impossibilitado de se pronunciar publicamente e também impedido de exercer profissão pública. Mas a sua ânsia de intervenção na sociedade angolana permanecia e, assim, em Janeiro de 1990 criou a Acção Cívica Angolana, ACA. Depois, na abertura política proporcionada pelos acordos de Bicesse, ainda procurou exercer intervenção política através de um dos novos partidos, mas depressa se desiludiu. Tendo-se afastado da intervenção directa, falava de Angola em colóquios internacionais para os quais era convidado pelos organizadores. Até que a doença o acometeu e nele se instalou durante longos anos em que lentamente foi perdendo as suas capacidades até ao desfecho ocorrido há um ano, tinha ele oitenta e dois anos.

É útil lembrar que Angola se tornou independente graças às atitudes e actos de pessoas como Joaquim Pinto de Andrade. Contudo, o Estado angolano ainda não reconheceu os erros que praticou em relação a este patriota e exemplar cidadão nem lhe presta a homenagem a que tem direito pelo contributo que deu à Pátria, colocando-o na galeria histórica dos mais insignes angolanos.

Mas, independentemente dos reconhecimentos oficiais, importa o exemplo que Joaquim Pinto de Andrade será para as novas gerações angolanas. Neste momento que Angola atravessa em que as concepções dominantes na sociedade são o ganho fácil e a ganância desenfreada, o recurso a todos os meios mesmo os mais abjectos para se conseguir os seus fins, o desprezo mais absoluto pelo povo, convém recordar os princípios que orientaram a vida de Joaquim Pinto de Andrade e que podem servir de estímulo àqueles que desejam ver Angola tornar-se um país de maior justiça social.

A constante luta pela liberdade dos homens e dos povos, a coragem face à repressão em todos os momentos (perante o regime colonial ou perante a ditadura nacional), a honestidade e dignidade, o civismo, o amor ao seu povo são valores que nortearam a vida de Joaquim Pinto de Andrade e constituem um magnífico legado ao seu país.

Adolfo Maria
Lisboa, 23 de Fevereiro de 2009

Gentil Viana faleceu há um ano / Texto de Adolfo Maria

Gentil Viana faleceu há um ano

A 23 de Fevereiro de 2008 falecia Gentil Ferreira Viana o destacado vulto da luta pela independência de Angola, íntegro cidadão e brilhante pensador.
Nos seus tempos de aluno do curso complementar do liceu de Luanda, 1953-1954, Gentil Viana impunha-se aos colegas pela sua capacidade de raciocínio e pela sua convivialidade. Apaixonado pelo seu país e pelos feitos dos mais velhos (entre eles o seu pai Gervásio Viana, fundador da Liga Nacional Africana) na resistência ao sistema colonial e na dignificação do homem angolano, Gentil Viana mobilizava através de eloquentes conversas e discussões os seus colegas em torno das questões ligadas à identidade nacional. Em grupos mais restritos e mais clandestinos falava da necessária independência do País. Em Portugal, para onde foi fazer os seus estudos universitários, elaborou um plano para o controle da Casa dos Estudantes do Império pondo esta associação de estudantes oriundos das colónias portuguesas ao serviço das causas nacionalistas daqueles países sob dominação colonial. Em 1961 participou na saída clandestina de cerca de cem estudantes africanos para França, o que permitiu aos movimentos nacionalistas, em especial o MPLA, receberem repentinamente numerosos quadros. Em breve o jovem advogado Viana foi integrado na diplomacia do MPLA, acompanhando o presidente do Movimento, Mário de Andrade às sessões do comité de descolonização da ONU e a visitas a vários países.
Em 1962, na Conferência Nacional do MPLA, em Leopoldville, num intenso debate, Gentil Viana e Viriato da Cruz confrontaram as suas ideias sobre o momento político que se vivia e as saídas para o desenvolvimento da luta armada e implantação do MPLA no interior. Viana apresentou um projecto de desenvolvimento da guerrilha e de tácticas a seguir no Exterior pelo MPLA, plano esse que a assembleia aprovou.
Pouco tempo depois, Gentil Viana, descontente por o seu plano não estar a ser aplicado e pela estagnação que continuava a existir, abandona a actividade militante e acaba por ir para a China onde lhe foi dada a tarefa de traduzir para português as obras de Mao-Dze-Dong e outros. Aproveita este período para estudar filosofia e obras sobre as grandes revoluções do século XX: nomeadamente a soviética e a chinesa.
Em 1971, na sua visita à China, Agostinho Neto convida-o a retomar a actividade militante no MPLA e é então que Viana e outros quadros idos da Frente Leste frequentam um curso específico de formação militar superior. Regressado esse grupo à Frente Leste, em meados de 1972, encontra uma situação caótica: a ofensiva militar portuguesa tinha empurrado as forças guerrilheiras para a fronteira, a desorganização e falta de motivação eram generalizadas entre as populações refugiadas, militantes, quadros, guerrilheiros. Eram constantes as queixas contra as negligências de dirigentes ou seus comportamentos. Gentil Viana viu que era necessário por em causa aquilo que já mostrara a sua ineficácia e estava na base do descontentamento geral, ou seja, as estruturas e as concepções de condução existentes. Concebe um plano que apresenta ao presidente Agostinho Neto. Este aceita. Trata-se do «movimento de reajustamento». O ponto de partida foi o congelamento do comité director (a direcção do Movimento). Assim eram temporariamente suspensas as hierarquias, o que possibilitaria às pessoas falarem livremente apontando as falhas da organização e dos responsáveis de todos os escalões. Todos passaram a ser iguais, sem qualquer espécie de coacção. O movimento de reajustamento foi uma gigantesca discussão dentro do MPLA como nunca dantes houvera e com entusiasta participação de todos. Os documentos teóricos que Gentil Viana elaborou para o arranque do reajustamento, a metodologia proposta representam um pensamento profundo e uma enorme criatividade.
Em finais de 1972, Gentil Viana é nomeado conselheiro do presidente, e realiza com êxito a tarefa de resolver o imbróglio político criado pelo surpreendente acordo que Neto fizera com Holden em Kinshasa e que tanto penalizava o MPLA.
No início de 1973, a situação geral do MPLA, política, militar e diplomática era muito má. Na Frente Leste surgira a Revolta do Leste, como pretexto à súbita retirada de quadros para a Frente Norte, toda actividade política e militar estava parada. Na Frente Norte, a manipulação do reajustamento pela presidência do Movimento, concluído em Fevereiro de 1973, ocasionou descontentamento em vários quadros e militantes que viam persistir a degradada situação.
É então que Gentil Viana se empenha em mobilizar clandestinamente militantes e quadros para um pronunciamento a favor de medidas que transformassem o MPLA na organização eficaz que a luta requeria e os militantes desejavam. Assim nasceu o famoso “Apelo dos Dezanove” porque foi este o número dos seus primeiros subscritores. Nesse apelo, concebido por Viana, atacava-se o presidencialismo absoluto que atrofiava a organização, apelava-se para a realização de um congresso para acabar com as divisões existentes, instituir a prática democrática no MPLA e definir as estratégias de luta adequadas. Este pronunciamento chamou-se Revolta Activa. Ele surge numa situação interna e externa extremamente complexa. O mundo estava dividido em dois blocos profundamente antagónicos: um, o Ocidente sob a capa dos Estados Unidos que, em nome da democracia apoiavam as ditaduras africanas e da extrema direita nos continentes americano, asiático, e europeu (Portugal e Espanha) e faziam a guerra ao povo vietnamita; o outro, chamado Bloco do Leste, que apoiava os movimentos de libertação, e onde imperava a União Soviética, constituído por países de partido único que exerciam um poder ditatorial. No movimento nacionalista angolano, a FNLA e o MPLA estavam em profunda crise, essencialmente por erros cometidos no seu seio e na condução da luta. É neste contexto que surge o apelo da Revolta Activa cuja questão central era a democracia no seio do MPLA e no seio da Nação. Para lá da sua urgência naquele momento político angolano, a questão da democracia era uma questão de grande actualidade para os povos de todo o Mundo necessitando uma profunda reflexão não só porque estava a ser secundarizada em todos os países, mas também por ser um valor civilizacional, determinante instrumento do progresso humano. Nesse apelo, Viana punha questões universais que só décadas mais tarde seriam objecto de decisões internacionais.
A independência de Angola deu-se nas condições dramáticas que conhecemos. Poucos meses depois, Gentil Viana e outros seus companheiros viriam a ser perseguidos e encarcerados a 13 de Abril de 1976, como castigo do pronunciamento que haviam feito dentro do MPLA em 1974. Fez greve de fome, dizendo que não lutara pela independência do seu país para estar guardado por soldados estrangeiros, que eram cubanos. Dos maus tratos recebidos ficou cego de um olho. Em finais de 1978 foi deportado para o estrangeiro, tendo fixado residência em Portugal, onde se encontrou sem documentos de identidade, numa situação de apátrida. Aí exerceu a advocacia. Simultaneamente com a sua profissão reunia e discutia os problemas do país com alguns companheiros também ali exilados, tendo-se formado um grupo de reflexão que viria a desencadear em 1989 e 1990 uma actividade diplomática para apoio às suas propostas de fim da guerra civil em Angola, um objectivo que deveria ser conseguido sem a intervenção estrangeira e recorrendo à mediação angolana, ou seja fazendo recurso à própria nação. Desta actividade destacam-se as conversações com os dirigentes de Cabo Verde e com dirigentes de partidos portugueses. São essencialmente da autoria de Gentil Viana os documentos de denso conteúdo que então foram elaborados: Apelo a Chefes de Estado africanos; documento de análise das origens do conflito angolano e dos interesses da cada uma das componentes do conflito: MPLA e UNITA, como componentes internas, África do Sul, Estados Unidos, Cuba e União Soviética, as componentes externas; memorando aos chefes de estado dos países envolvidos no conflito angolano.
Entretanto, e secretamente, a UNITA e o MPLA começaram a negociar, chegando aos acordos de Bicesse que consagraram a desigual partilha do poder pelos dois contendores e uma democracia formal em que a vitrina era a constituição de numerosos e ineficazes pequenos partidos.
Sempre pensando que o país só poderia avançar se todas as vontades fossem mobilizadas para um objectivo de interesse comum, Gentil Viana viu nas tréguas instaladas a possibilidade de se recorrer à Nação para garantir a Paz. Deslocou-se a Luanda para apresentar o seu plano de convivência nacional ao presidente da república e aos dirigentes dos partidos, aos responsáveis da igreja católica e protestante, a membros da sociedade civil. Esse plano, inicialmente aceite com interesse e depois desprezado pelos dois partidos que já se preparavam para o ajuste de contas de Outubro de 1992, contém elaborados princípios e metodologias para a intervenção da Nação na arbitragem do conflito e na construção de normas de convivência, garantia de uma real reconciliação nacional.
Pouco depois de retomada a guerra civil em Angola, Gentil Viana teve um AVC de que conseguiu recuperar. O país continuou mergulhado na guerra, mas Viana não deixava de pensar num futuro mais feliz para a pátria. Os anos foram passando, foi-se debilitando e, por fim, tomado por implacável doença. Faz agora um ano que morreu, tinha setenta e dois anos de idade.
Gentil Viana merece ser estudado porque, possuindo uma enorme inteligência que pôs ao serviço da causa da liberdade do povo angolano, produziu sempre um pensamento inovador não só angolano mas universal. A sua integridade, a sua postura de não aceitação do statuo quo paralisante, a sua capacidade em fazer rupturas com o etablishement, a sua procura audaciosa de novos caminhos para a liberdade e dignidade dos homens, a sua coragem ao enfrentar e desafiar a opressão fazem dele uma referência nacional e um incentivo para que as novas gerações procurem um caminho para o povo angolano onde não tenha lugar o rastejar da submissão e onde a dignidade seja um valor cultivado.

Adolfo Maria
Lisboa, 23 de Fevereiro de 2008

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Joaquim Pinto de Andrade morreu há um ano!


Depoimento de Mário Brochado Coelho

Em 23 de Fevereiro de 2008, morreram dois angolanos que importa não esquecer: Joaquim Pinto de Andrade e Gentil Viana. Sobre o primeiro, divulgamos hoje um texto de Mário Brochado Coelho, escrito por ocasião de uma homenagem que teve lugar em Angola, e referimos outros dois publicados há um ano. Incluímos também uma referência a dados biográficos de Gentil Viana.


O homem que, hoje e aqui, se homenageia é tanto um filho da sua querida Angola como um cidadão do mundo.

É um lutador infatigável em defesa da independência do seu povo mas sem nunca deixar de ser um espírito aberto, culto, tolerante e amante da paz.

Trata-se não apenas de um intelectual vindo directamente do seio do seu povo mas também de um cidadão ferreamente coerente em todos os aspectos da sua intensa vida pessoal e cívica.

Sendo nacionalista nunca aceitou remeter-se aos limites estritos do nacionalismo.

Sendo angolano nunca perdeu a noção dos enquadramentos africano e mundial.

Sendo um combatente nunca deixou de propugnar as vias do entendimento e da paz.

Sendo filho de uma terra com abundantes riquezas nunca deixou de preferir os valores morais, a história e a humanidade das suas valorosas gentes.

Que a memória dos angolanos e dos amantes da liberdade nunca se esqueça deste exemplo vivo de homem justo, porque ela é um património inestimável para toda a Angola.

Os princípios norteadores da actuação de Joaquim Pinto de Andrade integram, portanto, o “renascer africano”, agora e em boa hora, promovido pela Associação Cívica de Angola e pela Associação Chá de Caxinde.

Na impossibilidade de estar presente e de poder partilhar directa e pessoalmente esta homenagem (a quem tenho, aliás, como sendo um verdadeiro irmão), gostaria de, por este meio, recordar especialmente aos mais novos alguns factos que urge, em meu entender, não esquecer sobretudo nestes dias que o povo angolano vive.

Através deles, todos poderão avaliar a envergadura de quem estamos a homenagear.

1. É bom que se recorde que a luta de Joaquim Pinto de Andrade se iniciou logo em 1950, em Lisboa (em carta dirigida em 3.5.1976 ao dr. Agostinho Neto descreveu o seguinte:
“Foi no Verão de 1950 que travámos conhecimento, em Lisboa. Éramos ambos jovens. Éramos ambos estudantes. Éramos ambos ardorosos patriotas. Com meu irmão Mário, com Amílcar Cabral, com Alda do Espírito santo, com tantos outros estudantes das colónias portuguesas, sonhámos e planeamos o futuro das nossas pátrias africanas“).

2. Com o seu regresso de Roma em 1953, ou seja há 50 anos, quando ainda não fora criado qualquer dos históricos movimentos de libertação de Angola, iniciou em solo pátrio todas as iniciativas possíveis para o necessário combate pela dignidade dos angolanos.
Desde então passou a ser vítima de uma feroz e destruidora perseguição de índole racista e colonialista que passou pelos seguintes episódios principais:
- envolvimento no chamado “processo dos 50″,
- prisão em 25.7.1960,
- exílio e prisão no Aljube de Lisboa em 4.7.1960,
- envio num navio de carga para a Ilha do Príncipe,
- regresso ao Aljube de Lisboa em 1961,
- residência fixa e clausura no Mosteiro de Singeverga,
- nova prisão na PIDE da cidade do Porto e posterior transferência para a tristemente famosa “cela dos curros” do Aljube de Lisboa,
- “libertação” em 5.1.1963 e nova prisão imediata na cadeia de Caxias,
- colocação em residência fixa no interior do Alentejo após 389 dias de prisão ininterrupta sem culpa formada,
- nova prisão (a quinta) em 24.1.1964,
- colocação em residência fixa num seminário de Vila Nova de Gaia,
- sétima prisão em 1970,
-condenação a 3 anos de cadeia e 15 anos de suspensão de direitos políticos sob a acusação de ser membro de uma conspiração promovida pelo MPLA em Lisboa.

3. Cumprida a pena no Forte de Peniche e com o 25 de Abril de 1974 em Portugal, logo Joaquim Pinto de Andrade procurou, sem demora ou hesitação, contribuir para a unidade dos angolanos na tarefa do reconhecimento da desejada independência de Angola.
Partiu para Adis Abeba, depois Brazzaville, compareceu em Lusaka, e, finalmente, pôde regressar à sua pátria.
Tinham decorrido 14 anos de exílios e prisões.

4. Gostaria que, por pertinente, hoje fosse recordada a seguinte parte de um apelo que lançou através da Rádio Brazzaville em 9 de Julho de 1974:
“São objectivamente nacionais angolanos todos aqueles que lutam efectivamente contra a dominação colonial para a construção da Pátria independente. Nesta hora difícil mas exaltante, todos os nacionais, independentemente do local de nascimento, da sua origem racial ou étnica, da nacionalidade dos seus antepassados, da sua ideologia ou religião, têm de lutar pela libertação imediata e completa da Pátria comum e pela construção duma Angola independente e democrática“.

5. Mais tarde (Maio de 1976), após a sua oitava prisão - desta vez no seu próprio país e determinada pelo próprio Estado da Angola já independente - Joaquim Pinto de Andrade escreveu uma carta ao dr. Agostinho Neto, então Presidente da República.
Dela retiro a seguinte parte que gostaria de partilhar hoje convosco:
“Quero apenas realçar de novo a minha viva preocupação pelo que está acontecendo neste País (particularmente em Luanda) e pelo que pode vir a acontecer. Semeia-se o ódio, fomenta-se a discórdia, propala-se a calúnia, incita-se à violência gratuita. Assiste-se a cada passo a cenas e atitudes de racismo. Vive-se num ambiente de desconfiança, inquietação e insegurança. Aumentam as prisões por motivos políticos.
Neste clima de paixão, habilmente fomentado e aproveitado por toda a casta de oportunistas, podem cometer-se as maiores iniquidades, os maiores atropelos à justiça e à dignidade humana. Está em causa a vida, a liberdade e a dignidade humana de cidadãos angolanos. Está em jogo a honra e o prestígio da nossa jovem República e do nosso Povo. É urgente e imperioso que se tomem medidas para sanear o ambiente por demais inquinado pelo vírus do ódio, da vingança e da calúnia. É necessário que se faça justiça num clima de serenidade. É imperioso unir a Nação e não dividi-la”.

6. Anos depois (1992) quando lhe foi atribuído o Prémio Internacional da Paz pela Pax Christi (de que foi vice-presidente), afirmou no seu discurso de Belém:
“Urge exercer uma libertadora pressão moral sobre os responsáveis dos destinos do país, para que sejam exorcizados de uma vez por todas os demónios da violência, da destruição, da guerra. A paz é uma tarefa e uma arte de viver delicada e persistente, paciente e generosa, um jogo em permanente equilíbrio instável. Ela constrói-se no dia a dia da luta constante das mulheres e dos homens por mais verdade, mais justiça, mais amor, mais liberdade. Não resulta da violência dos senhores da guerra nem é consequência apenas da habilidade e esforço dos negociadores. O conceito bíblico de ’shalom’ (paz) vai além da mera e limitada segurança política, para incluir a realização plena da pessoa - matéria e espírito - na sua dimensão individual, familiar e social, sem esquecer a integridade da criação. Estas breves reflexões levam-nos a concluir que a instauração e preservação da paz só será possível se for garantida a democracia, o que significa defesa intransigente dos direitos do homem e das liberdades fundamentais, respeito pelo indivíduo e pelas minorias (sejam elas étnicas ou religiosas, culturais ou linguísticas), aceitação da diferença e preservação do pluralismo, convivência na tolerância e na solidariedade, adopção da concertação e do diálogo como métodos para a solução dos conflitos.“

Com a imensa actualidade destas palavras do nosso homenageado - que eu tomei a liberdade de escolher - podemos verificar que estamos perante uma dessas raras personalidades que apresentam os seus gestos, as suas palavras, as suas acções, os seus muitos anos de militância, como uma demonstração inequívoca e contínua das suas intenções, da sua mensagem pessoal, da sua vida.
Como ele, África teve Luthuli, Amílcar Cabral, Eduardo Mondlane, seu irmão Mário Pinto de Andrade, Nelson Mandela e não muitos mais.

Que o nosso carinho e respeito nesta homenagem de amigos seja para Joaquim Pinto de Andrade a certeza de que a sua vida valeu a pena.

Uma palavra final de reconhecimento para a família deste lutador e em especial para sua mulher, dra. Vitória Almeida e Sousa. Justo é recordar que todos estiveram e estão à sua altura, quer no isolamento, quer no sofrimento, quer nas imensas dificuldades do dia dia, quer nos momentos infelizes em que alguns chegaram a tentar manchar a sua honra com calúnias de vário tipo, quer também nas ocasiões de felicidade e justiça como esta que aqui vos reune.

Para ti, Joaquim, só te posso desejar que tenhas teimosia e saúde suficientes para poderes sentir e fruir a tão esperada concretização da grande esperança que enche a Angola actual.