Um local de alguma cultura, mas também alguma estupidificação, como é revelador ter chegado aos quase 50 anos sem ler o D.Quixote do Cervantes, o próprio, depois de ter perdido tanto tempo a ler tanta treta...Já agora, fale-se aqui muito de Angola...E do resto,desde que não pessoalizem quem não é figura publica como é o meu caso e o meu ocaso!
quarta-feira, março 28, 2012
segunda-feira, janeiro 30, 2012
quarta-feira, outubro 05, 2011
sábado, setembro 17, 2011
As impossíveis renúncias de Agostinho Neto e Eliane Potiguara
REDE GRUMIN DE MULHERES INDÍGENAS/BRASIL
As impossíveis renúncias de Agostinho Neto e Eliane Potiguara
(Carta para Eliane)
LEONEL COSME
Escritor e Ensaísta de Portugal
Tenho de começar por dizer que a minha memória não regista, depois da Renúncia Impossível, do maior poeta negro angolano Agostinho Neto, outro livro tão perturbador como é "Metade cara, metade máscara", da escritora e poeta índia brasileira Eliane Potiguara, a cuja apresentação assisti, na cidade do Porto, a 13 de Novembro de 2010, em Portugal. Perturbador, a todos os títulos, mas logo pelas epígrafes escolhidas para introduzir a sua mensagem de autora índia vinda do Brasil, face a uma audiência expectante porque, na generalidade, distanciada, física e culturalmente, de uma mensageira talvez só (mal) imaginada no recôndito das selvas brasileiras, onde, segundo raras notícias veiculadas pela comunicação social, os fazendeiros latifundiários continuam a não deixar os nativos em paz. na terra-mãe que lhes pertence desde a Criação.
Começando por uma significativa advertência recolhida do poema O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa,
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo.
adianta:
No dia que eu conseguir abrir as páginas de minh’alma e contar essas linhas de meu inconsciente coletivo – com alegrias ou dores, com prazeres ou desprazeres, com amores ou ódios, no céu ou na terra – aí sim, aí sim, vou soltar a minha voz num grito estrangulado, sufocado há cinco séculos. Quinhentos anos, de pretenso reconhecimento de nossa cidadania, não pagam o sangue derramado pelas bisavós, avós, mães e filhas indígenas deste país. Este dia certamente chegará, mesmo que eu esteja em outros planos.
Penso: que outra voz igual, vinda de África, ressoando a uma impossível renúncia e à crença numa sagrada esperança, ecoava na minha memória?
Ah!
Faça-se luz no meu espírito
LUZ!
Calem-se as frases loucas
desta renúncia impossível.
Eu-todos nunca me negarei
nunca coincidirei com o nada
não me deitarei nunca debaixo dos comboios.
………………………………………………….
Sou um valor positivo
da Humanidade
e não abdico,
nunca abdicarei!
Seguirei com os homens livres
o meu caminho
para a Liberdade e para a Vida.
A minha memória ia direita à voz de Agostinho Neto, o poeta revolucionário angolano, que depois da Renúncia Impossível escrevera Sagrada Esperança, para transmitir ao seu o povo a força motora
Nós somos
Mussunda amigo
Nós somos!
da mensagem conclusiva:
Do caos para o reinício do mundo
para o começo progressivo da vida
e entrar no concerto harmonioso do universal
digno e livre
povo independente com voz igual
a partir deste amanhecer vital sobre a nossa esperança.
Não é uma voz igual, esta, também épica, a de Eliane Potiguara?
Nós, povos indígenas
Queremos brilhar no cenário da História
Resgatar nossa memória
E ver os frutos de nosso país, sendo dividido
Radicalmente
Entre milhares de aldeados e “desplazados”
Como nós.
Ah, a História, lembrando-nos sempre que começa com o que vem de trás! Faço minhas estas palavras de Graça Graúna, no prefácio:
Em verso ou em contação de histórias, a visão dos povos indígenas em Potiguara é fruto da somatória de saberes ancestrais e dos chamados tempos modernos. Não é à toa que ela questiona a representação da mulher indígena na sociedade não-índia, mostrando que desde a colonização essa mulher foi e continua sendo tratada com requintes de malícia, discriminação, brutalidade, preconceito. Basta um olhar nas cartas que falam do “Descobrimento” das Américas, ou no antidiálogo de jesuístas para aquilatar a imagem da mulher indígena: pecado em carne e espírito, perversão, encarnação do mal.
E em poema, o retrato feito pela própria Eliane é ainda mais trágico:
Que faço com a minha cara de índia?
E meu sangue
E minha consciência
E minha luta
E nossos filhos?
Brasil, o que faço com a minha cara de índia?
Não sou violência
Ou estupro
Eu sou história
Eu sou cunhã
Barriga brasileira
Ventre sagrado
Povo brasileiro
Ventre que gerou
O povo brasileiro
Hoje está só…
A barriga da mãe fecunda
E os cânticos que outrora cantavam
Hoje são gritos de guerra
Contra o massacre imundo.
E regresso a um segundo prefácio, de Daniel Munduruku:
Houve um tempo que pertencer a um povo indígena era quase uma maldição. Falava-se destes povos como atrasados, selvagens, inoportunos para o progresso, sem razões e sem convicções. Havia quem falasse que desapareceriam à mercê do capitalismo selvagem, já que não teriam como resistir ao impacto da “civilização”. Havia, porém, quem ousasse defendê-los, encorajá-los, informá-los sobre o seu real papel dentro da sociedade envolvente. Estes amigos acreditaram na verdade destes povos, acreditaram em sua índole, acreditaram no seu futuro.
Tendo eu vivido quase metade da minha vida, a partir dos dezasseis anos, em Angola, - como o Brasil, país com minorias tidas como “inoportunas para o progresso” – cedo me ocorreram as vozes amigas de escritores e antropólogos, já falecidos, como Henrique Abranches, Alfredo Margarido e Ruy Duarte de Carvalho (estes dois últimos tendo lecionado em Universidades brasileiras), que, sendo portugueses de origem, consagraram a sua vida e obra à defesa dos indígenas angolanos “inoportunos para o progresso” porque resistindo aos “impactos da civilização e do capitalismo selvagem, dentro e fora da sociedade envolvente”.
No mesmo contexto sociológico, não deixarei de juntar àqueles estudiosos das identidades primigénias angolanas o nome de A.F.Nogueira, que em 1880 deu à estampa um livro básico para o estudo da colonização de Angola: A RAÇA NEGRA – Sob o ponto de vista da civilização da África – Usos e costumes de alguns povos gentílicos do interior de Moçâmedes – As colónias portuguesas.
Diga-se que António Francisco Nogueira, de seu nome completo, foi um dos primeiros colonos portugueses, entre duas centenas, saídos em 1849/50 de Pernambuco, fugindo à Revolução Praieira, para o território namibiano, pouco povoado, do sul de Angola, onde viveu um quarto de século. Etnólogo autodidacta, levava do Brasil uma visão realista que o levou a prever, como inevitável, a independência dos povos colonizados. E – surpresa, hoje! – apresentava a independência do Haiti como um paradigma da libertação. No Brasil, ele aprendera o que era visível da escravidão africana, certamente lamentando que os missionários jesuítas só tivessem investido o seu humanismo na preservação das almas índias, conferindo-lhes um direito de cidadania que porém só acabaria por ser exercido, como que silenciosamente, à margem dos colonizadores, no recôndito das florestas. Zumbi e Palmares viriam por acréscimo…
Nogueira não se deixou iludir pelo “acertos naturais” dos Camurus e Paraguaçus, que já não tinham entusiasmado o clássico Gregório de Matos, - apesar de também ter casado com uma mulher de cor e vivido um ano de desterro em Angola, por ser “Boca do Inferno” - como se calcula partindo da primeira quadra de um “multirracial” verso oferecido “Aos principais da Bahia chamados os Caramurus”:
Há cousa como ver um Paiaiá
Mui prezado de ser Caramuru,
Descendente de sangue de Tatu,
Cujo torpe idioma é cobé pá.
Gilberto Freyre ainda não existia para pregar as virtudes da miscigenação e da multiculturalidade, ele que, no relato da Vida Social no Brasil do Século XIX, já não registara a presença de índios entre os escravos negros amansados ao serviço da Casa-Grande, que vestiam de preto durante meses, em sinal de luto pelos seus ioiôs e iaiás…
Sempre houve muitos “brasis”, antes e depois de Cabral. Como houve muitas outras “américas”, antes e depois de Colombo, e muitas “áfricas”, antes e depois de Diogo Cão. E todas consignando, distintamente, a brancos, negros e pardos, o direito à preservação da identidade primária, uns por meio da posse, outros pela resistência à posse. Também foi, e continua a ser assim, em África, onde o otimismo do académico e então diplomata brasileiro na Nigéria, nos anos 60, Antônio Olinto, podia ainda levá-lo a escrever, em Brasileiros na África:
Nos meus primeiros tempos de África, em Dacar, Freetown, Acrá, Porto Novo (Daomé) e Lagos, os jovens negros de Abidjan, lendo sob os postes, eram o signo de uma verdade nova no mundo, de um modo diferente de fazer democracia e buscar o socialismo, de formas ainda não muito conhecidas de reestruturar as bases da administração pública, no esforço de “africanização” que, em maior ou menor grau, ocorre em qualquer parte do continente negro. Que as Africas são muitas, mas todas caminham para uma unidade.
Era uma época propiciadora de muitas “sagradas esperanças”, em que os negros de todo o mundo, falando a língua do colonizador, chamassem-se Agostinho Neto, Abdias do Nascimento, Frantz Fanon ou Thiongo wa Ngugi, subscreveriam o ditame de Sécou Touré:
Como cada um de nós traz em si uma parte de educação saída do regime colonial, e por isso mesmo um pouco de “complexo” herdado desse regime, devemos impor-nos a nossa própria e completa reabilitação, isto é, que cada um de nós regresse às fontes culturais e morais de África, que se reintegre na sua própria consciência e que se reconverta, em pensamentos e acções, aos valores, às condições e aos interesses de África.
Mas, o tempora! o mores!, a sede e/ou a necessidade de poder, que começaram para assegurar, por razões de sobrevivência, as conquistas das terras ricas de flora e fauna, dividiriam os povos entre conquistadores e conquistados, mostrando, afinal, que conforme a sua força e representação étnica, homo homini lúpus, em vez de homo sum, humani nihil a me alienum puto. Ou entre os kimbundus, kala nguvulu ni utuminu uê, kala nvula ni maloua mê, que o cronista angolano Óscar Ribas traduziu por “cada governador com o seu administrar, cada chuvada com os seus lamaçais”. Hoje, se fosse vivo na sua pátria (morreu triste em Portugal), aquele sábio mestiço, que exaltara a independência da sua terra-mãe, não deixaria de reflectir sobre os caminhos ínvios perspectivados pelo escritor guerrilheiro Pepetela nos seus perturbadores romances Mayombe, de 1980, e A Geração da Utopia, de 1992.
Era, pois, preciso escapar aos “lamaçais” endógenos e exógenos e retomar o “caminho” do regressso à “terra sem males”, no dizer de Eliane falando da “ancestralidade histórica” dos Guaranis, “uma terra que lhes permita viver com dignidade, sem interferências paternalistas, enfim, um paraíso mítico de sua ascendência.” O líder guineense de origem cabo-verdiana, Amílcar Cabral, sendo mais específico, corroborava:
A nossa resistência cultural consiste no seguinte: enquanto liquidamos a cultura colonial e os aspectos negativos da nossa própria cultura no nosso espírito, no nosso meio, temos que criar uma cultura nova, baseada nas nossas tradições também, mas respeitando tudo quanto o mundo tem hoje de conquista para servir o homem.
Por sua vez, Agostinho Neto, nacionalista pragmático, reiterava, quando Angola acabava de conquistar a independência:
Nós somos uma encruzilhada de civilizações, ambientes culturais, e não podemos fugir a isso de maneira nenhuma, mas da mesma maneira que nós pretendemos manter a nossa personalidade política, também é preciso que nós mantenhamos a nossa personalidade cultural.
Tratava-se, simplesmente, de defender as identidades nacionais, preservando a “ancestralidade histórica”. Todavia, como observava em 1986 o então jovem ensaísta angolano Luís Kandjimbo, em Apuros de Vigília,
É forçoso considerar que existindo nos nossos países várias ex-nações, existem concomitantemente vários níveis de desenvolvimento sócio-económico e cultural. Dito de outro modo: existem concomitantemente diversos modos de produção social. A identidade nacional terá a sua verdadeira dimensão quando às solicitações da humanidade, em circunstâncias necessárias, a nação responder através da sua harmónica unidade. É dizer através de um desenvolvimento económico, social, cultural, político, jurídico e ideológico de unidade.
(…) Se as resistências dos povos africanos ao colonialismo, durante todo o processo colonizador para a recuperação de uma personalidade anteriormente existente, são uma premissa para o processo prospectivo de unidade nacional dos povos africanos, a verdade é que só com o surgimento dos movimentos de libertação nacional e nas condições do desenvolvimento histórico mundial a identidade se torna um projecto real e efectivo.
Todavia, os movimentos de libertação, civis ou militares, tiveram de partir para uma construção nacional prefigurada pelos colonialistas, que mapearam num determinado espaço geográfico uma artificial entidade territorial, sem atender à identidade dos autóctones. Na verdade, a maioria dos países reconhecidos como Estados-Nações foram “construções” arbitrárias dos conquistadores que os invadiram.
Há dois séculos, no país chamado Brasil, ainda se contavam duas centenas de etnias falando mais de cem línguas e dialectos.. Povos que, não reconhecendo as fronteiras administrativas mapeadas pelo invasor estrangeiro, se disseminavam por paízes vizinhos. Em Angola, a situação, tomada por cerca de metade da brasileira, era similar: as “nações” identificavam-se pelo espaço territorial em que grupos da mesma língua, tradições e práticas exerciam, pacificanente ou em transe de guerras de ocupação, o “direito” de sobrevivência em acordo com a sua natureza. O suposto resto do Mundo envolvente, a sua cosmogonia, cabia bem na epígrafe pessoana escolhida por Eliane Potiguara: Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo.
Só que a “aldeia” da Poeta e do seu povo originário foi submersa pelos avatares de uma história que, vindo de trás, era fatalmente dialéctica, restando numa “sagrada esperança” de salvação da alma:
Ah! Já não tenho a minha aldeia/ Minha aldeia é meu Coração ardente! É a casa dos meus antepassados! E do topo dela eu vejo o mundo! Com o olhar mais solidário que nunca! Onde eu possa jorrar! Milhares de luzes! Que brotarão mentes! Despossuídas de racismo e preconceito.
Lembro-me de que nesses avatares também mingua o espaço para as utopias. Que pensar se um poeta angolano, de raiz bochímane (de que resta, hoje, um povo que se conta por escassos milhares nos territórios semidesérticos de Angola e do Sudoeste namibiano) exclamasse num grito de desesperança:
Os nossos irmãos-vizinhos bantus pensam-nos como não-gente! Porque temos diferenças anatómicas na cor da pele e no tamanho! Porque falamos numa língua de cliques, vivemos de caça, pastorícia e raízes e enganamos a fome e restauramos energias comendo um certo cacto do deserto (hudya)!
Defrontando as inclemências ou indiferenças dos vizinhos-homens e as perturbações climáticas por estes também provocadas, em razão de outro “direito” de sobrevivência, dir-se-á que a dialética se consome na salvação da alma. Di-lo a ameríndia Eliane Potiguara e o português-angolano Ruy Duarte de Carvalho, estudioso do ethos do povo herero, - que subsiste, ainda autonomamente, no sul de Angola - ao qual consagrou a sua vasta obra de escritor-antropólogo, até ser sepultado, depois de correr o mundo, conforme a sua vontade, no deserto de Moçâmedes:.
Ainda quererás saber qual é a minha posição no meio de tudo isto? Campanhas, de qualquer forma, não. Estou pronto a esclarecer no que puder mas não me peçam nem que ajude a domesticá-los nem que pugne pela causa da preservação dos seus modelos e sistemas, que de qualquer maneira não seria a deles.(…) Estou a investir-me numa teoria pessoal dos horizontes onde cabe tudo. (…) Não é só a salvação dos Kuvale que está em causa, é a minha também…
Viajante por natureza assumida (Carvalho saíra de Portugal, para Moçâmedes, com treze anos de idade), entre os hereros aprendeu vivendo o pleno sentido da máxima de Terêncio: “Sou homem e nada do que é humano considero estranho a mim.”
Aqui me dei, aqui me fiz
Desfiz, refiz amores.
Aqui me embebedei e vomitei o espanto.
Daqui abalo hoje, parido para o nada
apalpo a água
afago um bicho
ordeno qualquer coisa
e vou.
Sempre indo, ele faria coro, certamente, com o grande poeta espanhol António Machado - “Caminante, no hay camino,/se hace camino al andar”- e o poeta colombiano Manuel Vejia Vallejo: “Si camino siempre hacia adelante/Un dia llegaré/Al punto de partida./Asi he sabido que todo/camino del hombre/ es camino de regresso.”
Esta será porventura a mensagem do livro de Eliane, a caminhante.
LEONEL COSME
Escritor - Ensaísta Português
BIBLIOGRAFIA BÁSICA
CARVALHO, Ruy Duarte de - Vou lá visitar pastores, Edições Cotovia Lda., Lisboa, 1999.
COSME, Leonel - Agostinho Neto e o seu tempo, Campo das Letras Editores, Porto, 2004. Muitas são as Africas, Edições Novo Imbondeiro, Lisboa, 2006.
KANDJIMBO, Luís – Apuros de Vigília, União dos Escritores Angolanos, Luanda, 1988.
NETO, Agostinho – Sagrada Esperança, Sá da Costa, Lisboa, 1974.
A Renúncia Impossível, INALD, Luanda, 1982.
NOGUEIRA, A.F. – A Raça Negra, Lisboa, 1880.
OLINTO, Antônio – Brasileiros na África, 2ªed.., GRD, São Paulo, 1980.
POTIGUARA, Eliane – Metade cara, metade máscara, Global Editora, São Paulo, 2004.
ELIANE POTIGUARA
Tel: 55-21-9335-5551
Embaixadora da Paz
Poetas del Mundo
Fellow da Ashoka
Observatório da Mulher Indígena
INBRAPI/Inst.Indíg.Bras.Propriedade Intelectual
Comitê Intertribal
Membro Fundadora del Enlace Continental de Mujeres Indígenas
Associação Mulheres pela Paz
Rebra ( Rede de Escritoras Brasileiras)
Moína Produções Artísticas
http://elianepotiguara.blogspot.com
www.grumin.org.br (institucional)
http://www.elianepotiguara.org.br (site oficial da escritora)
http://groups.yahoo.com/group/literaturaindigena
As impossíveis renúncias de Agostinho Neto e Eliane Potiguara
(Carta para Eliane)
LEONEL COSME
Escritor e Ensaísta de Portugal
Tenho de começar por dizer que a minha memória não regista, depois da Renúncia Impossível, do maior poeta negro angolano Agostinho Neto, outro livro tão perturbador como é "Metade cara, metade máscara", da escritora e poeta índia brasileira Eliane Potiguara, a cuja apresentação assisti, na cidade do Porto, a 13 de Novembro de 2010, em Portugal. Perturbador, a todos os títulos, mas logo pelas epígrafes escolhidas para introduzir a sua mensagem de autora índia vinda do Brasil, face a uma audiência expectante porque, na generalidade, distanciada, física e culturalmente, de uma mensageira talvez só (mal) imaginada no recôndito das selvas brasileiras, onde, segundo raras notícias veiculadas pela comunicação social, os fazendeiros latifundiários continuam a não deixar os nativos em paz. na terra-mãe que lhes pertence desde a Criação.
Começando por uma significativa advertência recolhida do poema O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa,
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo.
adianta:
No dia que eu conseguir abrir as páginas de minh’alma e contar essas linhas de meu inconsciente coletivo – com alegrias ou dores, com prazeres ou desprazeres, com amores ou ódios, no céu ou na terra – aí sim, aí sim, vou soltar a minha voz num grito estrangulado, sufocado há cinco séculos. Quinhentos anos, de pretenso reconhecimento de nossa cidadania, não pagam o sangue derramado pelas bisavós, avós, mães e filhas indígenas deste país. Este dia certamente chegará, mesmo que eu esteja em outros planos.
Penso: que outra voz igual, vinda de África, ressoando a uma impossível renúncia e à crença numa sagrada esperança, ecoava na minha memória?
Ah!
Faça-se luz no meu espírito
LUZ!
Calem-se as frases loucas
desta renúncia impossível.
Eu-todos nunca me negarei
nunca coincidirei com o nada
não me deitarei nunca debaixo dos comboios.
………………………………………………….
Sou um valor positivo
da Humanidade
e não abdico,
nunca abdicarei!
Seguirei com os homens livres
o meu caminho
para a Liberdade e para a Vida.
A minha memória ia direita à voz de Agostinho Neto, o poeta revolucionário angolano, que depois da Renúncia Impossível escrevera Sagrada Esperança, para transmitir ao seu o povo a força motora
Nós somos
Mussunda amigo
Nós somos!
da mensagem conclusiva:
Do caos para o reinício do mundo
para o começo progressivo da vida
e entrar no concerto harmonioso do universal
digno e livre
povo independente com voz igual
a partir deste amanhecer vital sobre a nossa esperança.
Não é uma voz igual, esta, também épica, a de Eliane Potiguara?
Nós, povos indígenas
Queremos brilhar no cenário da História
Resgatar nossa memória
E ver os frutos de nosso país, sendo dividido
Radicalmente
Entre milhares de aldeados e “desplazados”
Como nós.
Ah, a História, lembrando-nos sempre que começa com o que vem de trás! Faço minhas estas palavras de Graça Graúna, no prefácio:
Em verso ou em contação de histórias, a visão dos povos indígenas em Potiguara é fruto da somatória de saberes ancestrais e dos chamados tempos modernos. Não é à toa que ela questiona a representação da mulher indígena na sociedade não-índia, mostrando que desde a colonização essa mulher foi e continua sendo tratada com requintes de malícia, discriminação, brutalidade, preconceito. Basta um olhar nas cartas que falam do “Descobrimento” das Américas, ou no antidiálogo de jesuístas para aquilatar a imagem da mulher indígena: pecado em carne e espírito, perversão, encarnação do mal.
E em poema, o retrato feito pela própria Eliane é ainda mais trágico:
Que faço com a minha cara de índia?
E meu sangue
E minha consciência
E minha luta
E nossos filhos?
Brasil, o que faço com a minha cara de índia?
Não sou violência
Ou estupro
Eu sou história
Eu sou cunhã
Barriga brasileira
Ventre sagrado
Povo brasileiro
Ventre que gerou
O povo brasileiro
Hoje está só…
A barriga da mãe fecunda
E os cânticos que outrora cantavam
Hoje são gritos de guerra
Contra o massacre imundo.
E regresso a um segundo prefácio, de Daniel Munduruku:
Houve um tempo que pertencer a um povo indígena era quase uma maldição. Falava-se destes povos como atrasados, selvagens, inoportunos para o progresso, sem razões e sem convicções. Havia quem falasse que desapareceriam à mercê do capitalismo selvagem, já que não teriam como resistir ao impacto da “civilização”. Havia, porém, quem ousasse defendê-los, encorajá-los, informá-los sobre o seu real papel dentro da sociedade envolvente. Estes amigos acreditaram na verdade destes povos, acreditaram em sua índole, acreditaram no seu futuro.
Tendo eu vivido quase metade da minha vida, a partir dos dezasseis anos, em Angola, - como o Brasil, país com minorias tidas como “inoportunas para o progresso” – cedo me ocorreram as vozes amigas de escritores e antropólogos, já falecidos, como Henrique Abranches, Alfredo Margarido e Ruy Duarte de Carvalho (estes dois últimos tendo lecionado em Universidades brasileiras), que, sendo portugueses de origem, consagraram a sua vida e obra à defesa dos indígenas angolanos “inoportunos para o progresso” porque resistindo aos “impactos da civilização e do capitalismo selvagem, dentro e fora da sociedade envolvente”.
No mesmo contexto sociológico, não deixarei de juntar àqueles estudiosos das identidades primigénias angolanas o nome de A.F.Nogueira, que em 1880 deu à estampa um livro básico para o estudo da colonização de Angola: A RAÇA NEGRA – Sob o ponto de vista da civilização da África – Usos e costumes de alguns povos gentílicos do interior de Moçâmedes – As colónias portuguesas.
Diga-se que António Francisco Nogueira, de seu nome completo, foi um dos primeiros colonos portugueses, entre duas centenas, saídos em 1849/50 de Pernambuco, fugindo à Revolução Praieira, para o território namibiano, pouco povoado, do sul de Angola, onde viveu um quarto de século. Etnólogo autodidacta, levava do Brasil uma visão realista que o levou a prever, como inevitável, a independência dos povos colonizados. E – surpresa, hoje! – apresentava a independência do Haiti como um paradigma da libertação. No Brasil, ele aprendera o que era visível da escravidão africana, certamente lamentando que os missionários jesuítas só tivessem investido o seu humanismo na preservação das almas índias, conferindo-lhes um direito de cidadania que porém só acabaria por ser exercido, como que silenciosamente, à margem dos colonizadores, no recôndito das florestas. Zumbi e Palmares viriam por acréscimo…
Nogueira não se deixou iludir pelo “acertos naturais” dos Camurus e Paraguaçus, que já não tinham entusiasmado o clássico Gregório de Matos, - apesar de também ter casado com uma mulher de cor e vivido um ano de desterro em Angola, por ser “Boca do Inferno” - como se calcula partindo da primeira quadra de um “multirracial” verso oferecido “Aos principais da Bahia chamados os Caramurus”:
Há cousa como ver um Paiaiá
Mui prezado de ser Caramuru,
Descendente de sangue de Tatu,
Cujo torpe idioma é cobé pá.
Gilberto Freyre ainda não existia para pregar as virtudes da miscigenação e da multiculturalidade, ele que, no relato da Vida Social no Brasil do Século XIX, já não registara a presença de índios entre os escravos negros amansados ao serviço da Casa-Grande, que vestiam de preto durante meses, em sinal de luto pelos seus ioiôs e iaiás…
Sempre houve muitos “brasis”, antes e depois de Cabral. Como houve muitas outras “américas”, antes e depois de Colombo, e muitas “áfricas”, antes e depois de Diogo Cão. E todas consignando, distintamente, a brancos, negros e pardos, o direito à preservação da identidade primária, uns por meio da posse, outros pela resistência à posse. Também foi, e continua a ser assim, em África, onde o otimismo do académico e então diplomata brasileiro na Nigéria, nos anos 60, Antônio Olinto, podia ainda levá-lo a escrever, em Brasileiros na África:
Nos meus primeiros tempos de África, em Dacar, Freetown, Acrá, Porto Novo (Daomé) e Lagos, os jovens negros de Abidjan, lendo sob os postes, eram o signo de uma verdade nova no mundo, de um modo diferente de fazer democracia e buscar o socialismo, de formas ainda não muito conhecidas de reestruturar as bases da administração pública, no esforço de “africanização” que, em maior ou menor grau, ocorre em qualquer parte do continente negro. Que as Africas são muitas, mas todas caminham para uma unidade.
Era uma época propiciadora de muitas “sagradas esperanças”, em que os negros de todo o mundo, falando a língua do colonizador, chamassem-se Agostinho Neto, Abdias do Nascimento, Frantz Fanon ou Thiongo wa Ngugi, subscreveriam o ditame de Sécou Touré:
Como cada um de nós traz em si uma parte de educação saída do regime colonial, e por isso mesmo um pouco de “complexo” herdado desse regime, devemos impor-nos a nossa própria e completa reabilitação, isto é, que cada um de nós regresse às fontes culturais e morais de África, que se reintegre na sua própria consciência e que se reconverta, em pensamentos e acções, aos valores, às condições e aos interesses de África.
Mas, o tempora! o mores!, a sede e/ou a necessidade de poder, que começaram para assegurar, por razões de sobrevivência, as conquistas das terras ricas de flora e fauna, dividiriam os povos entre conquistadores e conquistados, mostrando, afinal, que conforme a sua força e representação étnica, homo homini lúpus, em vez de homo sum, humani nihil a me alienum puto. Ou entre os kimbundus, kala nguvulu ni utuminu uê, kala nvula ni maloua mê, que o cronista angolano Óscar Ribas traduziu por “cada governador com o seu administrar, cada chuvada com os seus lamaçais”. Hoje, se fosse vivo na sua pátria (morreu triste em Portugal), aquele sábio mestiço, que exaltara a independência da sua terra-mãe, não deixaria de reflectir sobre os caminhos ínvios perspectivados pelo escritor guerrilheiro Pepetela nos seus perturbadores romances Mayombe, de 1980, e A Geração da Utopia, de 1992.
Era, pois, preciso escapar aos “lamaçais” endógenos e exógenos e retomar o “caminho” do regressso à “terra sem males”, no dizer de Eliane falando da “ancestralidade histórica” dos Guaranis, “uma terra que lhes permita viver com dignidade, sem interferências paternalistas, enfim, um paraíso mítico de sua ascendência.” O líder guineense de origem cabo-verdiana, Amílcar Cabral, sendo mais específico, corroborava:
A nossa resistência cultural consiste no seguinte: enquanto liquidamos a cultura colonial e os aspectos negativos da nossa própria cultura no nosso espírito, no nosso meio, temos que criar uma cultura nova, baseada nas nossas tradições também, mas respeitando tudo quanto o mundo tem hoje de conquista para servir o homem.
Por sua vez, Agostinho Neto, nacionalista pragmático, reiterava, quando Angola acabava de conquistar a independência:
Nós somos uma encruzilhada de civilizações, ambientes culturais, e não podemos fugir a isso de maneira nenhuma, mas da mesma maneira que nós pretendemos manter a nossa personalidade política, também é preciso que nós mantenhamos a nossa personalidade cultural.
Tratava-se, simplesmente, de defender as identidades nacionais, preservando a “ancestralidade histórica”. Todavia, como observava em 1986 o então jovem ensaísta angolano Luís Kandjimbo, em Apuros de Vigília,
É forçoso considerar que existindo nos nossos países várias ex-nações, existem concomitantemente vários níveis de desenvolvimento sócio-económico e cultural. Dito de outro modo: existem concomitantemente diversos modos de produção social. A identidade nacional terá a sua verdadeira dimensão quando às solicitações da humanidade, em circunstâncias necessárias, a nação responder através da sua harmónica unidade. É dizer através de um desenvolvimento económico, social, cultural, político, jurídico e ideológico de unidade.
(…) Se as resistências dos povos africanos ao colonialismo, durante todo o processo colonizador para a recuperação de uma personalidade anteriormente existente, são uma premissa para o processo prospectivo de unidade nacional dos povos africanos, a verdade é que só com o surgimento dos movimentos de libertação nacional e nas condições do desenvolvimento histórico mundial a identidade se torna um projecto real e efectivo.
Todavia, os movimentos de libertação, civis ou militares, tiveram de partir para uma construção nacional prefigurada pelos colonialistas, que mapearam num determinado espaço geográfico uma artificial entidade territorial, sem atender à identidade dos autóctones. Na verdade, a maioria dos países reconhecidos como Estados-Nações foram “construções” arbitrárias dos conquistadores que os invadiram.
Há dois séculos, no país chamado Brasil, ainda se contavam duas centenas de etnias falando mais de cem línguas e dialectos.. Povos que, não reconhecendo as fronteiras administrativas mapeadas pelo invasor estrangeiro, se disseminavam por paízes vizinhos. Em Angola, a situação, tomada por cerca de metade da brasileira, era similar: as “nações” identificavam-se pelo espaço territorial em que grupos da mesma língua, tradições e práticas exerciam, pacificanente ou em transe de guerras de ocupação, o “direito” de sobrevivência em acordo com a sua natureza. O suposto resto do Mundo envolvente, a sua cosmogonia, cabia bem na epígrafe pessoana escolhida por Eliane Potiguara: Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo.
Só que a “aldeia” da Poeta e do seu povo originário foi submersa pelos avatares de uma história que, vindo de trás, era fatalmente dialéctica, restando numa “sagrada esperança” de salvação da alma:
Ah! Já não tenho a minha aldeia/ Minha aldeia é meu Coração ardente! É a casa dos meus antepassados! E do topo dela eu vejo o mundo! Com o olhar mais solidário que nunca! Onde eu possa jorrar! Milhares de luzes! Que brotarão mentes! Despossuídas de racismo e preconceito.
Lembro-me de que nesses avatares também mingua o espaço para as utopias. Que pensar se um poeta angolano, de raiz bochímane (de que resta, hoje, um povo que se conta por escassos milhares nos territórios semidesérticos de Angola e do Sudoeste namibiano) exclamasse num grito de desesperança:
Os nossos irmãos-vizinhos bantus pensam-nos como não-gente! Porque temos diferenças anatómicas na cor da pele e no tamanho! Porque falamos numa língua de cliques, vivemos de caça, pastorícia e raízes e enganamos a fome e restauramos energias comendo um certo cacto do deserto (hudya)!
Defrontando as inclemências ou indiferenças dos vizinhos-homens e as perturbações climáticas por estes também provocadas, em razão de outro “direito” de sobrevivência, dir-se-á que a dialética se consome na salvação da alma. Di-lo a ameríndia Eliane Potiguara e o português-angolano Ruy Duarte de Carvalho, estudioso do ethos do povo herero, - que subsiste, ainda autonomamente, no sul de Angola - ao qual consagrou a sua vasta obra de escritor-antropólogo, até ser sepultado, depois de correr o mundo, conforme a sua vontade, no deserto de Moçâmedes:.
Ainda quererás saber qual é a minha posição no meio de tudo isto? Campanhas, de qualquer forma, não. Estou pronto a esclarecer no que puder mas não me peçam nem que ajude a domesticá-los nem que pugne pela causa da preservação dos seus modelos e sistemas, que de qualquer maneira não seria a deles.(…) Estou a investir-me numa teoria pessoal dos horizontes onde cabe tudo. (…) Não é só a salvação dos Kuvale que está em causa, é a minha também…
Viajante por natureza assumida (Carvalho saíra de Portugal, para Moçâmedes, com treze anos de idade), entre os hereros aprendeu vivendo o pleno sentido da máxima de Terêncio: “Sou homem e nada do que é humano considero estranho a mim.”
Aqui me dei, aqui me fiz
Desfiz, refiz amores.
Aqui me embebedei e vomitei o espanto.
Daqui abalo hoje, parido para o nada
apalpo a água
afago um bicho
ordeno qualquer coisa
e vou.
Sempre indo, ele faria coro, certamente, com o grande poeta espanhol António Machado - “Caminante, no hay camino,/se hace camino al andar”- e o poeta colombiano Manuel Vejia Vallejo: “Si camino siempre hacia adelante/Un dia llegaré/Al punto de partida./Asi he sabido que todo/camino del hombre/ es camino de regresso.”
Esta será porventura a mensagem do livro de Eliane, a caminhante.
LEONEL COSME
Escritor - Ensaísta Português
BIBLIOGRAFIA BÁSICA
CARVALHO, Ruy Duarte de - Vou lá visitar pastores, Edições Cotovia Lda., Lisboa, 1999.
COSME, Leonel - Agostinho Neto e o seu tempo, Campo das Letras Editores, Porto, 2004. Muitas são as Africas, Edições Novo Imbondeiro, Lisboa, 2006.
KANDJIMBO, Luís – Apuros de Vigília, União dos Escritores Angolanos, Luanda, 1988.
NETO, Agostinho – Sagrada Esperança, Sá da Costa, Lisboa, 1974.
A Renúncia Impossível, INALD, Luanda, 1982.
NOGUEIRA, A.F. – A Raça Negra, Lisboa, 1880.
OLINTO, Antônio – Brasileiros na África, 2ªed.., GRD, São Paulo, 1980.
POTIGUARA, Eliane – Metade cara, metade máscara, Global Editora, São Paulo, 2004.
ELIANE POTIGUARA
Tel: 55-21-9335-5551
Embaixadora da Paz
Poetas del Mundo
Fellow da Ashoka
Observatório da Mulher Indígena
INBRAPI/Inst.Indíg.Bras.Propriedade Intelectual
Comitê Intertribal
Membro Fundadora del Enlace Continental de Mujeres Indígenas
Associação Mulheres pela Paz
Rebra ( Rede de Escritoras Brasileiras)
Moína Produções Artísticas
http://elianepotiguara.blogspot.com
www.grumin.org.br (institucional)
http://www.elianepotiguara.org.br (site oficial da escritora)
http://groups.yahoo.com/group/literaturaindigena
domingo, junho 26, 2011
Lançamento do livro de Fragata de Morais
Lançamento
Dia 30 em Lisboa, no Parque das Nações, sob os auspícios da Casa de Angola em Lisboa, acto celebrativo dos seus 40 anos de criação.
Antologia da prosa angolana - O Fantástico na Prosa Angolana
*Autor: Fragata de Morais
*Prefácio:António Fonseca
*Colecção: Mayamba Antologia
*Formato: 15,5 x 23,0 cm*
*Número de páginas: 382
*ISBN 978-989-8370-02-0*
*Preço: Kz 3.500,00* Euros: 27,00
Sobre o livro, na óptica do prefaciador, Dr. António Fonseca, escritor e ensaísta, director do Instituto Nacional das Indústrias Culturais do Ministério da Cultura:
... desde o alvor da Independência Nacional e mesmo no período imediatamente anterior, assistimos a um grande movimento em torno da ideia de recuperação e valorização do imaginário ou dos imaginários angolanos através da literatura. Muitos títulos foram publicados com esta perspectiva, porém, até à saída da presente obra, não se tinha uma ideia de conjunto sobre o que efectivamente havia acontecido no domínio do fantástico na Literatura Angolana, isto desde Cordeiro da Matta aos nossos dias. Com efeito, até à edição desta Antologia, a questão do fantástico que, no nosso ver, não se limita apenas às práticas mágicas, mas estende-se também à aparição de factos inexplicados e teoricamente inexplicáveis não foi tratado, quer de forma sincrónica, quer de forma diacrónica.
António Fonseca
in Prefácio
... me preocupei mais com os aspectos do estranho, do maravilhoso, talvez mesmo até do insólito, na recolha que levei a cabo, deixando o fantástico maioritariamente para a literatura tradicional e para a literartura infantil, narrativas em que o narrador ou o escritor mais se preocupa com a mensagem, com a valorização moral e com um fim que transmita uma postura considerada de funcional na sociedade
O autor
Sobre o autor:
Fragata de Morais nasceu no Uíge a 16 de Novembro de 1941. Fez estudos de teatro na Universidade Internacional de Teatro em Paris, e cinema na Academia Holandesa de Cinema em Amsterdão.
Para além de colunista de vários jornais e revistas, tem várias obras publicadas por diversas editoras nacionais e estrangeiras, entre elas Jindunguices, premiada com o Prémio Sagrada Esperança e Inkuna Minha Terra, Menção Honrosa do Prémio Sonangol de Literatura. Ex-Presidente da Comissão Directiva da União dos Escritores Angolanos, e ex-Vice-Ministro da Educação e Cultura, este Embaixador de carreira dedica-se actualmente à política.
ÍNDICE
[Autores e textos antologiados por ordem alfabética]
Prefácio 11
O IMAGINÁRIO NO TEXTO ANGOLANO 13
ALFREDO TRO NY
NGA MUTURI 15
ANTÓNIO DE ASSIS JÚNIOR
UMA SOMBRA 25
ANTÓNIO JACINTO
VÔVÔ BARTOLOMEU 41
ANTÓNIO SETAS
OS FILHOS DE PAPÁ DYA KOTA 45
O Kakulu 50
ARNALDO SANTOS
OS CALUNDUS DA JOANA 53
A LIBERTAÇÃO DOS HOMENS–JINZÉU 55
BOAVENTURA CARDOSO
A ÁRVORE QUE TINHA BATUCADA 59
CHIKAKATA MBALUNDU
CIPEMBUWA 65
COSTA ANDRADE
A PRO FECIA 71
DYA KASEMBE
TUMUKA 81
FILIPE CORREIA DE SÁ
ESTAMOS JUNTOS NO REINO ANTIGO 85
MBOA, LELA E PENSAL NO SONHO DO REI 87
ESTAMOS JUNTOS COM OS TRÊS ARAUTOS 91
O CAOS NOS QUIMBOS 92
FRAGATA DE MORAIS
O FILHO 97
DESALMAR 100
HENRIQUE ABRANCHES
A KAPUNDA GRANDE 103
O MENSAGEIRO DA TRAGÉDIA 107
MERLIM DAS FALÉSIAS 113
ISAQUIEL CORI
O ÚLTIMO FEITICEIRO 123
JACINTO LEMOS
A DÍVIDA DA PEIXEIRA 127
8
JACQUES ARLINDO DOS SANTOS
KASAKAS & CARDEAIS 139
JOÃO MELO
O PATO REVOLUCIONÁRIO E O PATO CONTRA-REVOLUCIONÁRIO 147
O FATO AZUL ESCURO 151
JOÃO TALA
GEORGINA 155
MARQUITA TEM UM RO MANCE 159
JOFRE ROC HA
DE COMO NGA PALASSA DIÁ MBAXI, KITANDEIRA
DO XÁ-MAVU E DEVOTA CONHECIDA DESDE
SANTA’ANA ATÉ À SENHORA DA MUXIMA, RENEGOU
TODOS SEUS SANTOS E ORAÇÕES 163
JOSÉ MENA ABRANTES
CAMINHOS DESENCANTADOS 169
O PIÃO 170
O PREDADOR 172
KUNDUMA
A CALAMIDADE 175
LUANDINO VIEIRA
À ESPERA DO LUAR 183
O NASCER DO SOL 187
LUÍS FERNANDO
A SAÚDE DO MORTO 193
LUÍS KANDJIMBO
O ARTESÃO DE FOGAREIRO S 199
O AUDIDACTA QUE SONHAVA 202
LUÍS RO SA LOPES
MU UKULU, KI TUEXILÉ88 KU MAYOMBOLA89 205
MANUEL RUI
ALICE NO PAÍS DELA! 215
O TELEFONE CELULAR 217
NDÁ LUSSOLO
PRECIPITAÇÃO ESTRELAR 223
ONDJAKI
A LIBÉLULA
[palavras para o Dr. Carvalho] 237
O AUTOCLISMO DA TIA FATUCHA 241
AMARELA 244
Oscar Bento Ribas
FESTA DE NÚCPCIAS 249
A QUIANDA 252
RO DERICK NEHONE
O ANO DO CÃO 261
SÍLVIO PEIXOTO
A RIVAL 271
O ABRAÇO DA GUILHOTINA 273
TIMÓTEO ULIKA
KANDUNDU 279
UANHENGA XITU
O PARTO 285
A BOLA COM FEITIÇO 292
RECOLHA TRADICIONAL 303
ANTÓNIO FONSECA
O CABELO E A FOME 305
A SEIXA E O LEOPARDO 307
MONI A MAMBU 309
NE MPETELO MPTELO E SUAS MULHERES 311
ÓSCAR RIBAS
O LOBO E O CÃO 315
A BANZA DAS FÊMEAS 316
MBANGU A MUSUNGU 318
RAÚL DAVID
O CANDIMBA E O ELEFANTE 325
RO SÁRIO MARCE LINO
A ONÇA, O VEADO E O MACACO 327
A SANGRIA 329
JOSÉ SAMUÍLA CACUEJI
O HOMEM DO FUSO E ROC A 333
SECRETARIADO PASTORAL DA DIOCESE DE MENONGUE 339
O CUCO DO MEL E A ABELHA 341
AS GALINHAS E OS GATOS BRAVOS 342
LITERATURA JUVENIL 345
DARIO DE MELO
QUITUBO A TERRA DO ARCO –ÍRIS 347
FRAGATA DE MORAIS
O CACIMBO 353
PEPETELA
A MONTANHA 359
OS LUPIS 359
A ÁGUA LILÁS 360
AS DESCOBERTAS CIENTÍFICAS 361
DISPUTA E ACORDO 363
10
LITERATURA INFANTIL 367
MARIA CELESTINA FERNANDES
KALIMBA 369
MARIA EUGÉNIA NETO
E NAS FLORESTAS OS BICHOS FALARAM... 373
GABRIELA ANTUNES
KIBALA, O REI LEÃO 377
OCTAVIANO CORREIA
O REI QUE NÃO TINHA REINO 379
CREMILDA DE LIMA
TAMBARINO DOURADO 381
sexta-feira, junho 03, 2011
Conversão.
Conversão
Quando descobri, no adro da igreja, que o marxismo
era superior ao existencialismo, e que a dialéctica
do marx valia duas vezes o ser do sartre, já
nada podia convencer-me do contrário.A razão
que nós pensamos que temos torna-se o motor do mundo;
e quando aquilo que a faz mover é a gasolina hegeliana,
o movimento dos pistões da tese e da antítese, e
o poderoso acelerador da síntese, então
o sol da terra não passa de uma lâmpada de sessenta voltes,
uma simples faúlha de isqueiro a apagar-se,
a mais pálida chama de vela numa corrente de ar
no canto da igreja.É verdade: entretanto, eu tinha entrado
pela porta lateral, a que dava para o altar onde
ardiam as almas do purgatório, e ajoelhara-me
no confessionário.O marxismo não tinha feito, ainda, com
que me libertasse dessa velha supersticiosa
-a dama religião- mas nessa altura uma das coisas que não
se podia dizer nem ao padre era a crença
no comunismo.Com efeito,
o sonho de revoluções e utopias era o mais inconfessável
dos pecado: a última blasfémia.Mas
eu tinha-o descoberto no adro da igreja, lendo
«A guerra civil de Espanha» do hugh thomas: só muito
mais tarde vim a descobrir que os ingleses optam
esses ideais só para serem excêntricos, ou para matar o pai
(vide o Freud), ou para traírem a própria classe, como
esses dandys que caíram nas fileira republicanas.Assim, o
meu marxismo era uma ideologia aristocrática: algo de
ateniense, numa sociedade em que a vanguarda gozava
todos os previlégios só por pensar melhor
do que os outros.Pode ter sido um equívoco; mas
no adro da igreja eu estava bem acompanhado.Por baixo
da terra que eu pisava, em túmulos anónimos, senhores e
camponeses partilhavam o sono escatológico; mulheres
mortas de parto, vítimas de antigas pestes, padres
missionários nos confins do mundo, juntavam os ossos
na mais exacta das igualdades.Ali, o ser e o nada
lutavam entre si; e o resultado era a superação
dialéctica dos contrários, o princípio fundamental
da filosofia, a luz da matéria
contra a treva do espírito
Nuno Júdice
Ao acabar de ler este poema lembrei-me que o grande poeta basco Gabriel Celaya devia estar a antecipar o Júdice quando poetou “ A poesia é uma arma carregada de Futuro”
sexta-feira, fevereiro 18, 2011
Egito-política / Zenati Hassen / Novo Jornal / Luanda / 18-2-2011
Faraó caiu, mas não o regime.
Há apenas alguns meses nas ruas apinhadas do Cairo, os jovens egípcios frustrado pela inércia do regime de Hosni Mubarak, repetiam com desgosto: "nossos líderes são todos muito velhos, e por isso apegaram-se aos lugares. Nós somos uma geração perdida ".
Poucos meses depois, o cyber-ativista, Wael Ghoneim, super-herói relutante da Revolução no Nilo ", pode anunciar em seu blog:" Oito jovens estão sentados com os generais do Conselho Supremo das Forças Armadas para trocar livremente opiniões ". Entre essas duas sequências de uma história turbulenta, o poder passou do bunker da Presidência para Tahrir Square (Praça da Libertação no coração do Cairo), que em poucos dias se tornou o epicentro de um terramoto político cuja réplicas ainda estão por vir.
A faísca que ateou fogo à Tunísia, após a imolação de uma jovem licenciado desempregado em Sidi Bouzid, espalhou-se nas margens do Nilo.
No poder desde 1981, o antigo "Raïs", de 82 anos, que, não conseguindo impor o seu filho Gamal como um delfim numa aproximação dinástica que certamente as forças armadas não consentiriam, queria voltar a alistar-se para mais um mandato de seis anos.
Acabou saindo fora para um destino desconhecido - provavelmente a sua residência pessoal em Sharm el-Sheikh, no Mar Vermelho. Abandonado pelos militares rendeu-se após 18 dias de luta contra a multidão feliz, desigual e determinada, permanentemente instalada em Tahrir Square, que tinha jurado destruir.
A última batalha na sua retaguarda, travou-a contra sua própria família, quando finalmente abandonado pelos seus seguidores e a guarda presidencial, a força pretoriana, que já não cumpria as suas ordens preferindo aderir ao consenso das forças armadas contra ele.
O seu filho mais velho Alaa Mubarak, que fez fortuna à sombra de seu pai queria que à viva força assegurar a retaguarda do "clã". O mais novo, Gamal Mubarak, um banqueiro ambicioso de 42 anos, o protótipo do neo-liberalismo da City, onde estudou e estagiou é desprovido de qualquer sentido político, pediu-lhe para “aguentar” independentemente de qualquer risco de banho de sangue.
As forças armadas prometeram o apaziguamento para não atirar contra os manifestantes, pelo que restava ao"Raïs" tirar as ilações e deixar o poder.
Dos três presidentes que sucederam à frente do Egito, desde a eliminação da monarquia pelos “Oficiais Livres” em 1952, só Gamal Abdel Nasser morreu no seu leito sem completar o mandato. Anwar el-Sadat foi assassinado durante uma parada militar em Outubro de 1981. Hosni Mubarak acaba de ser deposto por uma revolta popular, como o Egito não conheceu igual nos últimos sessenta anos.
As Forças Armadas, que assumiram o poder das mãos de Hosni Mubarak, estão sob pressão extrema, tanto interna como externamente.
O exército, que assumiu o poder das mãos de Hosni Mubarak, está sob pressão extrema, tanto dentro como fora. Sua cabeça - se há um homem forte Marechal Mohammed Hussein Tantawi, 74 anos, o ministro da Defesa e presidente oficial superior da AFSC, trabalha principalmente para tranquilizar , para acalmar a impaciência da juventude local de Tahrir e ganhar tempo.
Dizem que ele mesmo está pronto para quando a calma for restabelecida, beneficiar o Chefe do Estado Maior, general Sami Anan, 12 anos mais jovem, com formação nas academias dos EUA, e que tem sido o ouvido dos americanos.
Washington, que há muito tempo hesitava em deixar cair Mubarak, quer uma "transição suave" para o governo civil, que não ponha em causa os "fundamentos" da sua estratégia na região para conter os islamistas - mesmo envolvê-los no poder como uma minoria bem supervisionado numa ampla coligação de democratas e leigos e respeitar o tratado de paz com Israel, assinado em 1979 por el-Sadat Anaouar.
A Casa Branca tem argumentos para fazer para atingir os seus objectivos: a aliança estratégica com Israel, o apoio de seus aliados na região, incluindo a Arábia Saudita, e ajuda militar de US $ 1,3 bilhões que fornece anualmente ao Egito. O maná servido por 30 anos, permitiu aos oficiais melhorar os seus ordenados e colher inúmeros benefícios: a escola gratuita, preços dos alimentos a preços condicionados, habitação prioritária, empréstimos ao consumidor com taxas reduzidas, etc. . Eles não estão disponíveis a abandoná-lo. Aposentando oficiais superiores - cuja idade média é de 42 anos – normalmente encaixando-os em lugares de topo em empresas públicas e privadas, nacionais e estrangeiros. Eles são os olhos do exército na economia.
O AFSC prometeu agir rapidamente para instalar um novo governo de transição, composto em princípio por todas as forças políticas nacionais para reformar a Constituição e organizar eleições presidenciais e parlamentares. Uma comissão constitucional, chefiado por um juiz conhecido por sua integridade, Tarek al-Bishr irá em breve definir as tarefas imediatas. Ele provavelmente irá propor o cancelamento de um conjunto de artigos inibidores da Lei Básica, que são a base do poder pessoal: a restrição candidatos presidenciais, a limitação a dois mandatos presidenciais, a revogação do estado de emergência, fiscalização das eleições pelo Tribunal Constitucional, etc. Com estas disposições poder exorbitante tinha garantido uma “câmara escura” durante as últimas eleições legislativas preparava-se para plebiscitar pela enésima vez Mubarak, ou o seu filho. Antes da tempestade da mudança era indiferente um ou outro.
EGITO (CAIXA)
A Irmandade Muçulmana: um espantalho inverosímil
Quando nas primeiras convulsões do regime egípcio, os países ocidentais e, especialmente Israel gritaram “Demolir já”. Um ministro israelita, resumiu o estado de sentimento geral: "Eu prefiro um ditador ao poder do que um irmão muçulmano nas margens do Nilo". Com 30 anos no poder, Mubarak tem actuado como um "companheiro leal" para Israel, ignorando as frustrações dos egípcios, que continuam a ver o acordo de paz de 1979, um "tratado desigual" minando a sua soberania.
A chegada de uma mudança de regime democrático, no Cairo, o tratado não será certamente revogado, mas os egípcios irão elevar o nível de suas exigências para o respeitar.
Então o que acontece com a Irmandade Muçulmana? Eles marcaram um ponto fazendo um reconhecimento de facto e logo uma jura. Pela primeira vez, este movimento tolerado terá um partido político legal. Seus líderes são muito experientes para perder essa conquista por entrar numa aventura que sabem perder. Liderados por novas forças democráticas, acompanhada de perto pelo exército, eles vão tomar o seu lugar, mas não mais do que um lugar na construção da paisagem política nova.
Zenati Hassen
domingo, janeiro 23, 2011
quarta-feira, janeiro 19, 2011
terça-feira, janeiro 11, 2011
domingo, dezembro 26, 2010
JORGE DE SENA /Some-te rato/ Depoimento corajoso em 1959 / S. Paulo
Some-te rato!
Em novembro de 1959 estreia-se Jorge de Sena como colaborador do jornal Portugal Democrático, editado em São Paulo desde 1956 por um ativo grupo de oposicionistas portugueses. O texto abaixo (prudentemente anônimo), além de mencionar as comemorações do “5 de outubro”, justifica e adensa de significado os desenhos satíricos de Fernando Lemos – ratos a figurarem o arqui-inimigo Salazar –, que vinham pontuando as páginas do jornal e deliciando os leitores
Tratam-te os que te lambem e legitimam, por Sr. Presidente do Conselho. Chamam-te os que ainda acreditam nas Universidades que degradaste, por Professor Doutor. No tempo em que eras fascista sem vergonha passavas por ser o Chefe, e os leonardos, teus chacais, escutavam a tua Palavra. Depois, quando inventaste a “democracia orgânica”, gostavas que te apelidassem de Chefe... do Governo. Mas, no isolamento e no silêncio e na treva, que é o sítio vago onde estaria a alma que te fugiu aterrada com o cheiro de arganaz podre a que o teu cérebro e o teu coração fedem, tu sabes que não és nada disso. Presidente de quê? De um Conselho de lacaios? Chefe de quê e de quem? Dos assassinos e ladrões impunes que proteges, para que eles te protejam o couro ressequido que nunca terá conhecido para que dignidade e que alegrias serve a carne humana? Professor de quê? Doutor em quê? Professor de desmoralização, de ceticismo, de corrupção, de crueldade, de hipocrisia, de blasfêmia, de infâmia? Doutor em quê? Em técnicas de Censura e de Polícia, que são toda a tua política, toda a tua filosofia, toda a tua religião?
Some-te, rato! Mergulha de uma vez no esgoto de oito séculos de erros que te criaram e engordaram, como excremento que és, venenoso, estéril, impotente. Rato, apenas, rato.
As comemorações brilhantíssimas do 5 de Outubro em São Paulo, o que elas significam de unidade na luta democrática, o que elas projetam no futuro como esperança de dissolução sulfúrica da tua presença pestilenta, nada disso chegará aos teus ouvidos surdos, às tuas unhas negras da pele dos mártires que esfolaste, à tua cauda imunda, com que fustigas um dos mais gloriosos e heróicos povos da terra. Não lerás, também porque és analfabeto e nunca leste nada, o telegrama em que os democratas reunidos para comemorar a Revolução que hoje simboliza a unidade de todos os portugueses, sem distinção de raça, religião ou credo político, na luta contra a tua baba peçonhenta, com que tens envenenado tanto patriota ingênuo que no Brasil honra o trabalho português, pedem a tua demissão.
E fazes bem, fazes bem. Tu não podes demitir-te, porque nunca foste nomeado. Tu és o símbolo da ilegalidade, da arbitrariedade, da injustiça, da opressão. Não te demitas, some-te! Some-te, rasteiro como nasceste, como subiste, como governaste, como imitaste nos teus discursos, laboriosamente vomitados, uma língua admirável que, rato que és, nunca soubeste falar. Some-te tal como viveste, com a mesma covardia com que mandaste assassinar, roubar, violentar. Some-te rato, com a tua bota de elástico, a tua pena de pato, a tua ceroula de fita, as tuas letras gordas, a tua finança de chácara, a tua economia de campônio, a tua política de traidores à Pátria. Some-te assim, rasteiro e mesquinho, como vieste! Some-te, rato! E que o ódio de um Povo, e o desprezo de todos os amantes da liberdade e da justiça, saibam esquecer o momento de nojo e de vergonha e castração que tu longamente foste, em mais de trinta anos de horror e reles mesquinhez. Que nem a tua pele piolhosa fique apodrecendo na memória das gentes, mais que como imagem da peste política e moral! Some-te rato!
Em novembro de 1959 estreia-se Jorge de Sena como colaborador do jornal Portugal Democrático, editado em São Paulo desde 1956 por um ativo grupo de oposicionistas portugueses. O texto abaixo (prudentemente anônimo), além de mencionar as comemorações do “5 de outubro”, justifica e adensa de significado os desenhos satíricos de Fernando Lemos – ratos a figurarem o arqui-inimigo Salazar –, que vinham pontuando as páginas do jornal e deliciando os leitores
Tratam-te os que te lambem e legitimam, por Sr. Presidente do Conselho. Chamam-te os que ainda acreditam nas Universidades que degradaste, por Professor Doutor. No tempo em que eras fascista sem vergonha passavas por ser o Chefe, e os leonardos, teus chacais, escutavam a tua Palavra. Depois, quando inventaste a “democracia orgânica”, gostavas que te apelidassem de Chefe... do Governo. Mas, no isolamento e no silêncio e na treva, que é o sítio vago onde estaria a alma que te fugiu aterrada com o cheiro de arganaz podre a que o teu cérebro e o teu coração fedem, tu sabes que não és nada disso. Presidente de quê? De um Conselho de lacaios? Chefe de quê e de quem? Dos assassinos e ladrões impunes que proteges, para que eles te protejam o couro ressequido que nunca terá conhecido para que dignidade e que alegrias serve a carne humana? Professor de quê? Doutor em quê? Professor de desmoralização, de ceticismo, de corrupção, de crueldade, de hipocrisia, de blasfêmia, de infâmia? Doutor em quê? Em técnicas de Censura e de Polícia, que são toda a tua política, toda a tua filosofia, toda a tua religião?
Some-te, rato! Mergulha de uma vez no esgoto de oito séculos de erros que te criaram e engordaram, como excremento que és, venenoso, estéril, impotente. Rato, apenas, rato.
As comemorações brilhantíssimas do 5 de Outubro em São Paulo, o que elas significam de unidade na luta democrática, o que elas projetam no futuro como esperança de dissolução sulfúrica da tua presença pestilenta, nada disso chegará aos teus ouvidos surdos, às tuas unhas negras da pele dos mártires que esfolaste, à tua cauda imunda, com que fustigas um dos mais gloriosos e heróicos povos da terra. Não lerás, também porque és analfabeto e nunca leste nada, o telegrama em que os democratas reunidos para comemorar a Revolução que hoje simboliza a unidade de todos os portugueses, sem distinção de raça, religião ou credo político, na luta contra a tua baba peçonhenta, com que tens envenenado tanto patriota ingênuo que no Brasil honra o trabalho português, pedem a tua demissão.
E fazes bem, fazes bem. Tu não podes demitir-te, porque nunca foste nomeado. Tu és o símbolo da ilegalidade, da arbitrariedade, da injustiça, da opressão. Não te demitas, some-te! Some-te, rasteiro como nasceste, como subiste, como governaste, como imitaste nos teus discursos, laboriosamente vomitados, uma língua admirável que, rato que és, nunca soubeste falar. Some-te tal como viveste, com a mesma covardia com que mandaste assassinar, roubar, violentar. Some-te rato, com a tua bota de elástico, a tua pena de pato, a tua ceroula de fita, as tuas letras gordas, a tua finança de chácara, a tua economia de campônio, a tua política de traidores à Pátria. Some-te assim, rasteiro e mesquinho, como vieste! Some-te, rato! E que o ódio de um Povo, e o desprezo de todos os amantes da liberdade e da justiça, saibam esquecer o momento de nojo e de vergonha e castração que tu longamente foste, em mais de trinta anos de horror e reles mesquinhez. Que nem a tua pele piolhosa fique apodrecendo na memória das gentes, mais que como imagem da peste política e moral! Some-te rato!
terça-feira, dezembro 21, 2010
AOS DOIS CADÁVERES
OS DOIS CADÀVERES
Coube a Jorge de Sena o editorial do jornal Portugal Democrático de abril de 1960, evocando o cadáver do Capitão Almeida Santos, um dos líderes da abortada “Conspiração da Sé” (da qual participara o próprio Sena), encontrado na praia do Guincho – caso que também forneceu mote a José Cardoso Pires para o seu Balada da Praia dos Cães.
Noticiaram os jornais a 2 de abril, em telegrama da AFP, que “as investigações para identificação de um cadáver descoberto anteontem na praia do Guincho, perto de Lisboa, permitem suspeitar de que se trata do capitão Almeida Santos, um dos evadidos da prisão militar de Elvas, em Dezembro último, onde estava encarcerado por actividades políticas contra o regime”. Tão sinistro, hipócrita e cobarde é o espírito da ditadura salazarista, que até o teor deste telegrama o retrata. É possível que o cadáver seja... Suspeita-se de que seja... Porquê? O cadáver está mutilado, irreconhecível, podre, como o próprio cadáver da Pátria que simboliza? Foi estrangulado, baleado, afogado, atropelado, atirado de uma janela alta, como todos os que “se” estrangularam, balearam, afogaram, atropelaram, atiraram - depois de caídos nas garras da PIDE? Fica-se na dúvida, a dúvida alimentada pela incerteza. Não há responsáveis de coisa alguma, ninguém é responsável de nada... Nada se passou - a não ser a satisfação dada ao registro civil de um óbito, um modesto óbito incerto que permite enterrar o sujeito em silêncio mais definitivo que uma desaparição inexplicável.
Isto é Salazar inteiro, isto é Portugal ensangüentado e trágico, que nem sequer nos cobre de vergonha com a sua atrocidade, porque permite (suspeitar...) todas as complacências, todas as cumplicidades, todas as mesuras da diplomacia covarde e interesseira. NEM SEQUER podemos ter vergonha disto, aos olhos do mundo, porque o mundo a não tem, antes de nós, de pactuar com os crimes de Salazar.
Que cadáver submisso! Que cadáver silencioso! Quantos meses levou a percorrer a escassa largura de Portugal, desde Elvas até àquele Atlântico que é o mesmo que banha as costas do Brasil! Numa praia deserta, aparece o cadáver hipotético de um homem que foi um dos chefes militares do 12 de março. Cadáver que poderia ser o de qualquer outro da enorme quantidade de civis e militares de todas as opiniões políticas que tentaram o “12 de Março” com uma extensão e uma profundidade que o Estado Novo teme esclarecer! Fazer aparecer o seu cadáver é mostrar a sorte que poderia ser a de cada um, mas é também roubar à vítima e aos outros o galardão do martírio, do sacrifício, do escândalo nacional e mundial, a que não resistiria um governo de assassinos mais vis que a vileza, porque nem mesmo tem a ombridade de estadear a sua profissão verdadeira.
Onde está o “glorioso Exército português”? Porque o capitão Almeida Santos era um dos seus membros mais brilhantes. Onde está a consciência dos pais de família. Porque o capitão Almeida Santos era um pai de família. Onde está o povo português? Porque o capitão Almeida Santos era um português. Onde está Portugal?
Tu, Salazar, nunca fizeste serviço militar. Nunca foste – que tenhas tido a dignidade de o confessar – pai de família. Nunca foste português, porque os portugueses sempre se vangloriaram de tudo, até dos crimes. Mas serás um cadáver, hás-de ser um cadáver, terás de ser um cadáver. Não um cadáver hipotético – como o da Pátria ensangüentada – abandonado, tão ocasionalmente, numa praia deserta. Mas um cadáver – consola-te – que não terá tempo de apodrecer, como o da Pátria em trinta anos de governo teu. Um cadáver que a terra portuguesa se recusará a comer. Um cadáver que os mares de Portugal – e todos são – se recusarão a engolir.
“PORTUGAL DEMOCRÁTICO” concita a consciência do mundo a que compare e escolha – entre o cadáver hipotético do Cap. Almeida Santos, um homem de bem que tentou honestamente salvar a sua Pátria, e o cadáver inadiável do tirano, um homem de mal que tenta cavilosamente destruí-la consigo. “PORTUGAL DEMOCRÁTICO” pergunta de uma vez para sempre ao glorioso Exército português: a qual dos cadáveres ele acha que deve honras militares.
Coube a Jorge de Sena o editorial do jornal Portugal Democrático de abril de 1960, evocando o cadáver do Capitão Almeida Santos, um dos líderes da abortada “Conspiração da Sé” (da qual participara o próprio Sena), encontrado na praia do Guincho – caso que também forneceu mote a José Cardoso Pires para o seu Balada da Praia dos Cães.
Noticiaram os jornais a 2 de abril, em telegrama da AFP, que “as investigações para identificação de um cadáver descoberto anteontem na praia do Guincho, perto de Lisboa, permitem suspeitar de que se trata do capitão Almeida Santos, um dos evadidos da prisão militar de Elvas, em Dezembro último, onde estava encarcerado por actividades políticas contra o regime”. Tão sinistro, hipócrita e cobarde é o espírito da ditadura salazarista, que até o teor deste telegrama o retrata. É possível que o cadáver seja... Suspeita-se de que seja... Porquê? O cadáver está mutilado, irreconhecível, podre, como o próprio cadáver da Pátria que simboliza? Foi estrangulado, baleado, afogado, atropelado, atirado de uma janela alta, como todos os que “se” estrangularam, balearam, afogaram, atropelaram, atiraram - depois de caídos nas garras da PIDE? Fica-se na dúvida, a dúvida alimentada pela incerteza. Não há responsáveis de coisa alguma, ninguém é responsável de nada... Nada se passou - a não ser a satisfação dada ao registro civil de um óbito, um modesto óbito incerto que permite enterrar o sujeito em silêncio mais definitivo que uma desaparição inexplicável.
Isto é Salazar inteiro, isto é Portugal ensangüentado e trágico, que nem sequer nos cobre de vergonha com a sua atrocidade, porque permite (suspeitar...) todas as complacências, todas as cumplicidades, todas as mesuras da diplomacia covarde e interesseira. NEM SEQUER podemos ter vergonha disto, aos olhos do mundo, porque o mundo a não tem, antes de nós, de pactuar com os crimes de Salazar.
Que cadáver submisso! Que cadáver silencioso! Quantos meses levou a percorrer a escassa largura de Portugal, desde Elvas até àquele Atlântico que é o mesmo que banha as costas do Brasil! Numa praia deserta, aparece o cadáver hipotético de um homem que foi um dos chefes militares do 12 de março. Cadáver que poderia ser o de qualquer outro da enorme quantidade de civis e militares de todas as opiniões políticas que tentaram o “12 de Março” com uma extensão e uma profundidade que o Estado Novo teme esclarecer! Fazer aparecer o seu cadáver é mostrar a sorte que poderia ser a de cada um, mas é também roubar à vítima e aos outros o galardão do martírio, do sacrifício, do escândalo nacional e mundial, a que não resistiria um governo de assassinos mais vis que a vileza, porque nem mesmo tem a ombridade de estadear a sua profissão verdadeira.
Onde está o “glorioso Exército português”? Porque o capitão Almeida Santos era um dos seus membros mais brilhantes. Onde está a consciência dos pais de família. Porque o capitão Almeida Santos era um pai de família. Onde está o povo português? Porque o capitão Almeida Santos era um português. Onde está Portugal?
Tu, Salazar, nunca fizeste serviço militar. Nunca foste – que tenhas tido a dignidade de o confessar – pai de família. Nunca foste português, porque os portugueses sempre se vangloriaram de tudo, até dos crimes. Mas serás um cadáver, hás-de ser um cadáver, terás de ser um cadáver. Não um cadáver hipotético – como o da Pátria ensangüentada – abandonado, tão ocasionalmente, numa praia deserta. Mas um cadáver – consola-te – que não terá tempo de apodrecer, como o da Pátria em trinta anos de governo teu. Um cadáver que a terra portuguesa se recusará a comer. Um cadáver que os mares de Portugal – e todos são – se recusarão a engolir.
“PORTUGAL DEMOCRÁTICO” concita a consciência do mundo a que compare e escolha – entre o cadáver hipotético do Cap. Almeida Santos, um homem de bem que tentou honestamente salvar a sua Pátria, e o cadáver inadiável do tirano, um homem de mal que tenta cavilosamente destruí-la consigo. “PORTUGAL DEMOCRÁTICO” pergunta de uma vez para sempre ao glorioso Exército português: a qual dos cadáveres ele acha que deve honras militares.
sexta-feira, dezembro 10, 2010
Quem era Helena Maria 1937-2010
Quem era
HELENA MARIA
(1937-2010)
Espontânea, senhora de enorme força vital sempre de alegre e sincera convivialidade, derretendo-se de ternura pelos seus familiares e amigos e por todas as crianças do mundo sensível ao sofrimento dos mais desprotegidos da Terra, solidária com as vítimas das múltiplas repressões que sofrem os humanos, enfrentando com destemor as adversidades, abraçou a causa nacionalista angolana em 1959quando se casou. Com 21 anos de idade, casada há cerca de três meses, vê o seu marido ser preso em Luanda pela polícia política portuguesa, a PIDE. Sem experiência política ela enfrenta com dignidade os esbirros e as chantagens.
Desde 1963 no exílio, participa na luta pela independência de Angola através de intensa actividade no Centro de Estudos Angolanos, em Argel, a partir de 1964, (documentação, feitura de manuais de formação política e escolares) e depois no Congo – Brazzaville, onde é também locutora na rádio do MPLA, a Voz de Angola Combatente, e dá aulas dos programas do ensino primário e secundário aos militantes. Em 1974, adere à tendência chamada Revolta Activa , que contestava os métodos autocráticos da presidência do MPLA.
No pós-independência de Angola, em Abril de 1976, o regime instalado no poder manda encarcerar vários elementos da Revolta Activa, conseguindo o seu marido esconder-se. A Lena aguenta estoicamente a ausência dos filhos, Mário Jorge e Tonica - que tinham ido visitar os avós a Portugal e receberam instruções para não voltar, dado o ambiente repressivo – e debate-se com a incerteza do paradeiro do marido. Nesses cerca de três anos de ausência do companheiro e filhos, enfrentou dignamente as mais variadas provocações. Em Janeiro de 1979, acompanha o marido, Adolfo Maria, que fora expulso do seu país e metido num avião para Portugal, para um novo exílio. Aí reconstroem o seu núcleo familiar e recomeçam a vida. Com a sua inteligência, energia e comunicabilidade, a Helena Maria impôs-se profissional e socialmente, tal como sempre o fizera. Há cerca de quatro anos que lutava estoicamente contra um cancro do pulmão, enfrentando sempre confiante cada batalha a travar nessa inexorável marcha de adiar a morte.
Esta mulher transmontana, natural de Chaves, singela, frontal e acolhedora - à maneira de ser da sua região de origem – tinha também o convívio fácil, exuberante e abrangente que caracteriza os angolanos com quem tanto fraternizou e lutou pela liberdade. Mas, há sobretudo a registar o seu carácter, muito próprio, que se manifestou nas mais diversas circunstâncias e lugares. Da Lena fica para todos nós a sua enorme força interior que generosamente transmitia, uma viva inteligência, uma constante curiosidade pelo saber, a sua grande sensibilidade, a sua jovialidade, a profusa ternura com que envolvia os seus familiares, amigos e companheiros de luta, a sua solicitude e disponibilidade para partilhar, para socorrer, para acarinhar, a sua coragem em enfrentar adversidades e sobreviver a provações, a sua dignidade, que sempre preservou.
Ficámos sem o seu magnífico sorriso que iluminava os rostos dos que a rodeavam, esse sorriso que tanto aquecia os nossos corações.
Adolfo Maria
Lisboa, 6 de Dezembro de 2010
HELENA MARIA
(1937-2010)
Espontânea, senhora de enorme força vital sempre de alegre e sincera convivialidade, derretendo-se de ternura pelos seus familiares e amigos e por todas as crianças do mundo sensível ao sofrimento dos mais desprotegidos da Terra, solidária com as vítimas das múltiplas repressões que sofrem os humanos, enfrentando com destemor as adversidades, abraçou a causa nacionalista angolana em 1959quando se casou. Com 21 anos de idade, casada há cerca de três meses, vê o seu marido ser preso em Luanda pela polícia política portuguesa, a PIDE. Sem experiência política ela enfrenta com dignidade os esbirros e as chantagens.
Desde 1963 no exílio, participa na luta pela independência de Angola através de intensa actividade no Centro de Estudos Angolanos, em Argel, a partir de 1964, (documentação, feitura de manuais de formação política e escolares) e depois no Congo – Brazzaville, onde é também locutora na rádio do MPLA, a Voz de Angola Combatente, e dá aulas dos programas do ensino primário e secundário aos militantes. Em 1974, adere à tendência chamada Revolta Activa , que contestava os métodos autocráticos da presidência do MPLA.
No pós-independência de Angola, em Abril de 1976, o regime instalado no poder manda encarcerar vários elementos da Revolta Activa, conseguindo o seu marido esconder-se. A Lena aguenta estoicamente a ausência dos filhos, Mário Jorge e Tonica - que tinham ido visitar os avós a Portugal e receberam instruções para não voltar, dado o ambiente repressivo – e debate-se com a incerteza do paradeiro do marido. Nesses cerca de três anos de ausência do companheiro e filhos, enfrentou dignamente as mais variadas provocações. Em Janeiro de 1979, acompanha o marido, Adolfo Maria, que fora expulso do seu país e metido num avião para Portugal, para um novo exílio. Aí reconstroem o seu núcleo familiar e recomeçam a vida. Com a sua inteligência, energia e comunicabilidade, a Helena Maria impôs-se profissional e socialmente, tal como sempre o fizera. Há cerca de quatro anos que lutava estoicamente contra um cancro do pulmão, enfrentando sempre confiante cada batalha a travar nessa inexorável marcha de adiar a morte.
Esta mulher transmontana, natural de Chaves, singela, frontal e acolhedora - à maneira de ser da sua região de origem – tinha também o convívio fácil, exuberante e abrangente que caracteriza os angolanos com quem tanto fraternizou e lutou pela liberdade. Mas, há sobretudo a registar o seu carácter, muito próprio, que se manifestou nas mais diversas circunstâncias e lugares. Da Lena fica para todos nós a sua enorme força interior que generosamente transmitia, uma viva inteligência, uma constante curiosidade pelo saber, a sua grande sensibilidade, a sua jovialidade, a profusa ternura com que envolvia os seus familiares, amigos e companheiros de luta, a sua solicitude e disponibilidade para partilhar, para socorrer, para acarinhar, a sua coragem em enfrentar adversidades e sobreviver a provações, a sua dignidade, que sempre preservou.
Ficámos sem o seu magnífico sorriso que iluminava os rostos dos que a rodeavam, esse sorriso que tanto aquecia os nossos corações.
Adolfo Maria
Lisboa, 6 de Dezembro de 2010
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