segunda-feira, outubro 13, 2014

Os Segredos da Censura, livro de César Príncipe, 5/1/67. «Primeiro turista de 1967 — não dizer que é operário.» 31/3/67. «Achado um feto embrulhado em papéis, em Algés. Eliminar que os rapazes andavam a jogar a bola com ele. Coronel Pinheiro.» 30/4/67. «Pampilhosa. Actos de loucura de um sargento do Exército. Não dizer que é sargento do Exército. Senhora de Vila Maior, S. Pedro do Sul, morreu ao tomar conhecimento de que o filho embarcava para o Ultramar. Não falar em Ultramar. Coronel Saraiva.» 24/9/67. «Funeral do capitão Augusto Casimiro. Não referir o facto de não ter havido viatura militar disponível para o transporte do caixão. Pode ser noticiado o casamento dum soldado alemão na Base de Beja com uma portuguesa — mas sem especulações.» 30/7/68. «Em Soutelo uma rapariga suicidou-.se depois do namorado ter seguido para Angola, mobilizado. Não falar na ida para Angola. Tenente Teixeira.» 20/8/68. «Transferência dos moradores do Bairro Xangai. Não usar a expressão «bairro de lata» por causa dos estrangeiros. Coronel Saraiva.» 28/8/68. «Presos dois gatunos em Lisboa. Não dizer que os roubados eram turistas. Capitão Correia de Barros.» 29/8/68. «Ciganos vendiam chá por whisky. Não dizer que os polícias andavam vestidos de fato-macaco. Dr. Ornelas.» 25/10/68. «Telegrama 140, da Reuter. Não aludir, no título, ao Partido Comunista Português, pois é coisa que não existe. Major Tártaro.» 28/4/69. «Fotografia do Prof. Salazar com o Cardeal Cerejeira, em que ele está um bocadinho descomposto. Não se deve publicar. Coronel Roma Torres.» 12/12/69. «Aumento do preço do corte de cabelo. — CORTAR. Coronel Saraiva.» 29/1/70. «As montras dos estabelecimentos de Coimbra estão às escuras — CORTAR. Capitão Correia de Barros.» 26/4/70. «Queima das Fitas do Porto. Espectáculo no Teatro Sá da Bandeira com baladas — CORTAR o nome do abade Fanhais. Mas, para não se notar o CORTE, é melhor CORTAR os nomes de todos os intervenientes. Não pôr em título a palavra aborto. Coronel Saraiva.» 22/6/70. «Lata de tinta vermelha atirada contra Heath — CORTADA a gravura e a legenda. Penafiel: um jornal tinha um título: «O bispo do Porto destacou a vantagem de nos voltarmos para a Europa.» Só pode ser assim: «O bispo do Porto em Penafiel.» No texto é CORTADO tudo o que seja política, visto que um bispo não tem de falar em política. Coronel Garcia da Silva.» 23/7/70. «Sismo em Sines — CORTAR. Dr. Ornelas.» 2/8/70. «Quanto ao pedido de não publicação da notícia do desastre e morte do filho do almirante Henrique Jorge, na estrada de Santo Amaro — pedido do secretário de Estado da Informação e Turismo — ainda hoje não se pode falar do desastre. Sindicato Nacional de Metalúrgicos, que discordam de uma homologação feita pelo governo e que mandaram telegramas. Coisas assim — NADA. O caso de Beja, de dois cavalheiros que se suicidaram. Eram homossexuais. Não se pode dizer que pediram, nas cartas que deixaram, que os sepultassem lado a lado nem que veneno tomaram. Coronel Saraiva.» 18/9/70. «Descarrilamento em Chaves — NADA. Tenente Teixeira.» 1/10/70. «Foi fundado o Sindicato dos Técnicos de Desenho. Não dizer que tal fundação havia sido pedida há mais de 30 anos. Capitão Correia de Barros.» 2/10/70. «Assembleia Geral do Círculo de Cultura Teatral — MANDAR. Lisboa quer MUITO CUIDADO com as coisas do TEATRO. Coronel Saraiva.» 30/10/70. «Não dizer, em título, que Nixon saltou da janela em pijama. Coronel Garcia da Silva.» 20/12/70. «Gravura do actor Rogério Paulo na TV cubana. Não pode ser publicada. Coronel Garcia da Silva.» 21/1/71. «No Supremo Tribunal de Justiça foi julgado o recurso de um chefe de posto de Angola que bateu num preto e o preto veio a falecer. Foi julgado e condenado — CORTE TOTAL. Coronel Saraiva.» 1/4/71. «Gravura da casa de Salazar, dando a perceber que está a cair — CORTAR gravura e legenda. Não é verdade. Talvez ande em obras. Tenente Teixeira.» 6/6/72. «O editor de Afrodite, que há tempos apresentou um livro metido numa banheira, vai agora fazer uma conferência muda e itinerante numa camioneta. Toda a palhaçada se pode noticiar. Mas nãos e pode falar em textos inéditos de Manuel João Gomes, do bispo do Porto, do padre Felicidade Alves e do Dr. Fernando Luso Soares. Coronel Saraiva.» 12/8/72. «No Parque Eduardo VII, em Lisboa, numa rusga policial, foram presos 24 indivíduos — vadios, prostitutas e homossexuais. Pode falar-se nos vadios e nas prostitutas, mas não nos homossexuais. Tenente Teixeira.»

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Telegramas trocados entre o dramaturgo Bernard Shaw e Churchill, seu desafeto.

Telegramas trocados entre o dramaturgo Bernard Shaw e Churchill, seu desafeto. Convite de Bernard Shaw para Churchill: "Tenho o prazer e a honra de convidar digno primeiro-ministro para primeira apresentação de minha peça Pigmaleão. Venha e traga um amigo, se tiver." Bernard Shaw. Resposta de Churchill: "Agradeço ilustre escritor honroso convite... Infelizmente não poderei comparecer primeira apresentação. Irei à segunda, se houver." Winston Churchill.

quinta-feira, julho 05, 2012

terça-feira, julho 03, 2012

Mutamba/ Luanda 1985

Fotos de Luanda em 1985

ARTIGO DO MARIO DE CARVALHO PUBLICADO NO MONDE DIPLOMATIQUE MARÇO 2012

Um sublime texto MÁRIO DE CARVALHO A SEMÂNTICA DAS ATITUDES (In Monde Diplomatique –Março - 2012) Parece-me assistir a um grande festim antropófago, com algazarras, batuques e guizalhadas. O poder patronal instalou-se, organiza a pilhagem, abate as resistências. Solta as ameaças, açula os medos. Esteve anos no cerco, à espera da ocasião. Chegou o total desenfreio. A crise rompeu a ...brecha em defesas já erodidas e abaladas. Organiza-se o saque dos rendidos. A direita venceu no terreno após ter avassalado os discursos. Ainda imita alguns rituais e maneiras. O futuro chanceler traz, por ora, chapéu alto e rabona. O objectivo final já esteve mais longe. Assoma no horizonte. Fechar o parêntesis aberto em 1974. Tudo pelo patrão, nada contra o patrão. Como há duzentos anos, nega-se a diferença entre esquerda e direita. Passei toda a vida a ouvir notícias desta indistinção. Ouvi-as na escola primária quando, aos sábados um capitão nos ia edificar, a nós, miúdos. Ouvi-as no liceu, bradadas em vários cambiantes entre saudações nazis, manuais facciosos e aulas de religião ao gosto de quem mandava. Ouvi-as na faculdade e li-as em sebentas eruditas e túrgidas. Ouvi-as talvez aos pides que peroravam nas longas madrugadas da tortura do sono. Voltei a ouvi-las depois de o país ter sido entregue ao concurso de filhos-família, patos-bravos e videirinhos que já trazia a reserva mental de dar cabo da revolução logo que possível. O terreno foi batido milímetro a milímetro por uma propaganda que cobriu todos os alcances. Desde o programinha de televisão fútil e alegrete ao comentário apessoado e arteiro. Desde o concurso integralmente copiado ao documentário abençoado por remotos serviços secretos. Desde a divulgação de frioleiras endinheiradas à selecção das vozes que opinam de alto. Desde a ablação da Ciência, da Literatura e da Arte, à promoção do obscurantismo e da irracionalidade. O iluminismo inventou a Crítica? Desacredite-se o Iluminismo. Pensar é chato. Fale alguém com desassombro e é sempre acusado de «demagogia». Procure-se distinguir o Bem do Mal, salta logo a acusação de «maniqueísmo». Operem-se distinções, reservas, hierarquizações, e acode o «mesmismo», boçal e espesso, a nivelar as dunas. Interesse público? Todos querem o interesse público. O bem geral? Todos querem o bem geral. Generosidade? Tão distribuidinha como o bom senso cartesiano. Desinteresse? Há lá alguém mais benemérito que um banqueiro? Mais pundonoroso que um C.E.O? Mais honrado que um especulador? A opinião imposta é previsível, vocábulo a vocábulo. Nem por isso menos eficaz. Desvaloriza e desmonta tudo o que seja diferente, generoso, elevado, desinteressado ou, até heróico. Mas a defesa contra o sectarismo semântico implica um mínimo de espírito crítico. Supõe familiaridade com a linguagem, distinção dos matizes, memória histórica, termos de comparação. Os interesses reinantes têm beneficiado do colapso dos instrumentos críticos. Da miniaturização da linguagem. Da ablação da memória. Da unicidade de critérios. Da tirania das escolhas. Do condicionamento das atitudes. Do emparedamento do gosto. Qualquer negociante de secos e molhados ou vendedor de electrodomésticos profere impunemente a sua galegada. Desde que seja riquíssimo. Os ricos não se contentam só com o acatamento. Querem servilismo. Exigem veneração. Chão lambido. Têm-no garantido. Meia dúzia de economistas oficiosos – sempre os mesmos – aprestam-se ao culto público de «os Mercados» com o fervor genuflectido duma adoração ao Espírito Santo. Tenho gente que estimo na chamada «comunicação social». Uns são amigos. Outros, às vezes sem os conhecer, merecem-me respeito e, até, admiração. E nisto conta pouco a posição política. Creio que posso não apenas exceptuá-los, mas chamá-los a mim, ao dizer que uma boa parte da informação redesenha o anúncio da voz do dono. Tem vindo a preparar sistematicamente as consciências para o presente festival do patronato. As opiniões correntes nos jornais são cada vez mais as opiniões dos proprietários e administradores dos jornais. Instruções dadas pelo telefone? Em encontros misteriosos? Nem tanto. Antes o instinto de captação do comprimento de onda. Afinação dos registos. Querença. Qualquer desvio táctico é calculado, como a deriva dos navios ancorados no fundo. Os resultados da propaganda avaliam-se no médio prazo. As contas fazem-se no final do ano. Trata-se de manter o populacho resignado, ou orientar-lhe as efusões para os pontos em que se esfumem. Tudo são apelos ao conformismo e à submissão, convites à obediência e ao redil. O povo, quando presente é constituído em populaça. A ralé sempre fez o jeito às contra-revoluções. Chegamos a esta maravilha paradoxal de serem os carneiros a eleger os lobos, os coelhos a eleger os furões, os pintos a eleger as raposas, as carpas a votar no lúcio, o melro a votar na cobra. Com os da ralé pode a ganhuça bem. É travesti-los de consumidores. O consumidor por natureza é dócil. «Para ver já a seguir. Não saia daí». Já o cidadão tende a complicar. É antipático e incómodo. Toma distâncias e faz escolhas. Há que silenciá-lo, ridicularizá-lo ou desacreditá-lo. Como se fez, em tempos, aos «abolicionistas». Como pode uma economia colonial saudável funcionar sem escravos? Coisa de otários. Propuseram-se cintilantes modelos sociais. Emergiram criaturas desenvoltas, de lábia expedita e olho para o negócio. Onzeneiros e agiotas, azes da tranquibérnia e chatinagem. Abocanharam recursos. Aviltaram as instituições. Tornaram o país inabitável. Foram aduladíssimos. Alguns confiaram em excesso na protecção mediática, nas virtudes da desregulação, na negligência dos aparelhos democráticos. Uma vez processados, aplicaram narizes redondos de plástico vermelho em todos os magistrados da República Portuguesa e continuam nas mesmas vidas. A desvalorização do confronto esquerda e direita continuará enquanto a direita tiver mais voz. Mas por pequenos sinais se mostra uma diferença indelével. Num debate, nunca ninguém de esquerda dirá: «vocês não têm o monopólio da generosidade (da sensibilidade, da humanidade, ou da cultura…». Está assente que não precisa de afirmar isso. Outro sinal diferenciador do interveniente de esquerda é ser ele, por sistema, interrompido pelos locutores, com um «mas» malcriado ou zeloso. Pelos mesmos que nunca ousam interromper os comerciantes de secos e molhados ou outros patrões, por mais repulsivos que se mostrem.

segunda-feira, julho 02, 2012

Nunca ninguém perdeu dinheiro apostando na desonestidade. (Millor Fernandes)

A bem do progresso!!!!

Ayer, 6 de junio de 2012, mientras los banqueros y los especuladores de España y Europa se frotaban las manos ante el anuncio de mayores recortes sociales y laborales, la policía cargó contra los mineros asturianos, y una vez más el escritor se quedó fuera de mi cuerpo, como una piel molesta en la que el teclado o la simbólica pluma sobra, está de más, no sirve, no la quiero. Las manos se van solas hacia la recia piedra, y sirven para levantar la barricada cuya fortaleza es la mejor de las novelas, el más sentido poema que se pueda escribir. Luis Sepùlveda

Fotos do "Carnaval da Vitória" / 1985-Angola

domingo, maio 20, 2012

JOÃO BAPTISTA DE CASTRO VIEIRA LOPES

Elaborado pela família de JOÃO BAPTISTA DE CASTRO VIEIRA LOPES Como assumiu em vida, JOÃO VIEIRA LOPES, viveu 80 anos. Nascido a 8 de Maio de 1932 faleceu a 10 de Maio de 2012. Filho de José Vieira Lopes e de Eugénia de Castro, concluiu os seus estudos secundários no então Liceu Salvador Correia, hoje, Mutu Ya Kevela, em 1951, ano em que segue para Portugal para ingressar na Faculdade de Medicina em Coimbra, em Setembro de 1952. Joãozinho, como foi tratado desde a infância e nos tempos das lides futebolísticas, emergiu duma família de rigor e de princípios e transformou-se num vulto da nossa terra, transpirando humanidade em todos os campos em que se dedicou. Sua vida se destaca como nacionalista, médico, intelectual, chefe de família, patriarca de família, activista cívico, parlamentar, democrata, futebolista e dirigente associativo. Suas características impressionam pela coerência de princípios, pela modéstia, capacidade de harmonização, coragem e liderança. Sua actividade esteve eivada de actos de profunda análise reflexiva e visionária, como de estoicismo e heroísmo, de capacidade de adaptação a várias circunstâncias e, sobretudo, de sobrevivência em situações difíceis, mas igualmente, ilustrada com profunda intuição. Muito cedo construiu os alicerces de seu pensamento nacionalista e progressista. A situação colonial fascista entrava em choque com seus valores de liberdade e justiça social. Para dar expressão a sua inteligência e ao seu coração, no contexto do colonial fascismo português, participou orgânica e formalmente, a partir de 1954, em várias organizações cívicas e políticas. Assim, foi Tesoureiro da Direcção da Casa do Estudantes do Império, militante do MUD Juvenil (Movimento de unidade Democrática) e é co-fundador do Clube Marítimo Africano Em consequência da sua ampla actividade política e social foi preso pela polícia política portuguesa em 1955, havendo permanecido nas masmorras da PIDE ao longo de 2 meses. Nesse mesmo ano, e apesar de já estar referenciado pela PIDE, não teme em ser testemunha de defesa de Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola, no Tribunal de Relação do Porto, acusado de actividades contra a segurança do estado. Convém realçar que é o único Angolano que se dispõe a fazê-lo, demonstrando sua coragem sempre que em jogo estivessem valores a defender e vidas humanas a preservar. Sua actividade política, enquanto se formava superiormente, é intensa. Assume em 1958 a liderança da Casa dos Estudantes do Império. Na mesma altura integra as células clandestinas do MAC – Movimento Anti Colonial e no ano seguinte faz-se, na mesma base, militante do FRAIN – Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional. Sua filiação ao MPLA - Movimento Popular pela Libertação de Angola - data desde 1960, também na clandestinidade. João Vieira Lopes conceptualiza, organiza e realiza, sob bandeira das Organizações africanas em que militava, juntamente com outros nacionalistas, em 1961, a grande fuga de Portugal de cerca de 120 estudantes das Colónias. Tal acto, que envergonhou, por se sentirem ludibriadas, as polícias secretas portuguesa e francesa, mostra não só capacidade de organização, como o necessário espírito conspirativo, prenhe igualmente de coragem e determinação. Essa fuga de cérebros juntava-se ao movimento de massas que entretanto emergia com os acontecimentos libertadores de 4 de Fevereiro e 15 de Março em Angola e contribuía para completar o xadrez humano indispensável para o derradeiro progresso da causa nacionalista. Mostra ainda o espírito de desprendimento e de entrega a causa nacional de intelectuais que poderiam ter permanecido na Europa fazendo uma vida normal. É, na realidade, o corolário da dignidade e do dar sentido à vida, cujo ideal patriótico, era um rasgo indelével do seu carácter. Rumo ao continente berço, João Vieira Lopes, agora, o nosso BAVI, passa por ACRA e CONACRY, fixando-se na então cidade de Leopoldeville, hoje, Kinshasa. Na sua chegada a Leopoldeville assume vários cargos, funções e missões no contexto organizacional do MPLA. Assim, - Integra a partir de Agosto, a estrutura de direcção máxima do MPLA, denominada Comité Director - É nessa qualidade indigitado responsável da Juventude, havendo recebido o actual Presidente da República de Angola no seio da respectiva organização juvenil; - É membro da Direcção do CVAAR – Corpo de Voluntários Angolanos para Ajuda aos Refugiados – com funções no campo da saúde. JOÃO Vieira Lopes enquanto representante da Juventude encabeça as negociações com a juventude da UPA (União das Populações de Angola) e com o PDA (Partido Democrático de Angola) para unificação da juventude angolana. Em face de contradições internas no MPLA João Vieira Lopes sai em 1963 da sua Direcção. Dá a sua contribuição na então República da Argélia, integrando o seu Serviço Nacional de Saúde. Prossegue a sua formação médica iniciando a especialidade em Obstetricia-Genecologia na Faculdade de Medicina de Argel. Ainda nesse ano é co-fundador do Centro de Estudos Angolanos em Argel, importante célula de reflexão para a luta libertadora. Em 1964, entretanto, mantém a sua posição de não assumir cargos políticos de chefia e integra a guerrilha do MPLA, na Frente Norte, 2ª Região Político-Militar, como médico, e, durante 4 anos consecutivos, nessa qualidade, teve grande impacto a sua posição de organizador contribuindo, para; - Construção do primeiro Hospital de Retaguarda do MPLA em Matsende - Criação do primeiro Centro de Formação para Auxiliar de Enfermagem - Edição da Primeira Cartilha para Enfermeiros Auxiliares Em 1966 é Chefe dos SAMM – Serviços de Assistência Médica Militar – da 2ª Região e procede a reabertura de Postos Médicos. Usando a sua capacidade clandestina e conspirativa participa, em 1967, no ingresso para as zonas da 1ª região do Mpla, juntamente com o comandante Benedito e outros, de dois esquadrões de guerrilha, bem como munições e armamento, que estavam na zona de Leopoldeville (para onde se deslocara clandestinamente). Missões espinhosas e de heroísmo, que contavam com a colaboração de camaradas seus que tombaram durante o seu percurso e desenvolvimento. De 1969 a 1973 estagia em cirurgia no Hospital Geral de Brazzaville, montando a rede de assistência médica a todos os militantes evacuados das frentes de combate. Em 1974 adere a facção do MPLA Revolta Activa, juntamente com Joaquim Pinto de Andrade, Gentil Viana, Adolfo Maria, Maria do Céu Carmo Reis, Amélia Mingas e outros e formula o Apelo dos uma base crítica a condução da luta com novas propostas para enfrentar os desafios de Angola. No Congresso de união de tendências do MPLA, em Setembro de 1974, é eleito Presidente do evento por consenso entre as diversas alas (Ala da Direcção, da Revolta Activa e da Revolta do Leste o que traduz bem a sua capacidade de formular consensos e do respeito por parte dos seus camaradas. João Vieira Lopes, pese embora a sua imensa actividade social, política e militar foi um exímio e exemplar pai de família. Casado em 1958 com Gina Mendes de Carvalho, teve um casal de filhos. Sempre que estivesse a arrumar a caixa verde os filhos já sabiam que se ia ausentar para uma missão militar. Terno e disciplinador, mas com uma educação que permitiu sempre aos filhos escolherem as suas opções, soube conciliar a sua opção política, a sua exigente carreira profissional, com a dedicação e orientação que seus filhos precisavam. Lygia e Johnny nascendo em espaços diferentes devido as contingências da vida, já recordam com saudades a extrema dedicação e profunda amizade de seu pai a eles, seus conjugues e filhos. Têm-no como um exemplo. Érik, Karine, Stefane, Yane e Joãozinho bem como os restantes netos beneficiaram bastante do seu amor, da transmissão de afabilidade, da histórias da vida. Seus netos eram a sua grande alegria, o que ficava bem plasmado nas festas de família. Sua companheira das últimas décadas Hermínia Clinton não se conforma com sua partida. Não há duvida que para a toda a família João Vieira Lopes - o irmão, o primo, o tio - sem nunca o demonstrar ou pretender sê-lo, acabou por se afirmar como o patriarca da família. O seu gesto mais sublime era a preocupação que nutria por todos, a forma como acompanhava a evolução da saúde, a instrução e o círculo de interesses de todos quanto o procuravam. Sua profunda amizade com o comandante Ingo Vieira Lopes é um referencial forte para todos nós: um modelo inspirador de relação familiar. Nunca utilizando um sentido discriminatório soube aqui dedicar uma atenção particular a diversas situações difíceis porque passaram muitos familiares. As estórias abundam. João Vieira Lopes sabia conviver com tendências diferentes e jamais abandonou amigos de peito por divergências políticas. Apenas um caso entre vários, sua amizade com o colega Sílvio de Almeida. Profissionalmente, temos um Dr João Vieira Lopes que assegurou os serviços de Ginecologia com dedicação ímpar, contribui para a organização dos serviços de forma engenhosa adaptando-o sempre as precárias condições, soube estabelecer laços humanos com todos os seus colegas e sobretudo reconhecia o mérito daqueles que mostravam qualidade e dedicação. Muitos colegas tinham-no como segundo pai. Desde 1978 O Professor Doutor João Vieira Lopes passou a condição de Titular da universidade Agostinho Neto. A sua experiência médica foi um grande auxiliar de ensino para seus estudantes. Rigor científico coadjuvado com fina intuição, centrada no extremo respeito pelo doente e na responsabilidade da missão, permitiram-lhe ganhar a confiança docente dos seus estudantes. O carinho pela socialização do saber era tanto que mesmo enfermo seleccionava livros pessoais e fazia questão de pessoalmente ir oferecer a biblioteca da Universidade. João Vieira Lopes tinha um espírito irreverente, mas calmo. Na medida das suas forças desejava corrigir o mundo para trilhar novos caminhos. Por isto, foi um homem de rupturas e nunca de status quo que não se reconhecia na sua consciência. Por isto, mesmo depois de 1974 continuou a trilhar caminhos e rompendo com o ideário mono partidário assumiu com coragem uma das Vice-presidências da ACA (Associação Cívica Angolana) juntamente com Germano Gomes, Milá Melo e Godfrey Nangonya. Joaquim Pinto de Andrade era o Presidente. A ACA pugnava pela paz, pluralismo e intervenção da sociedade civil nos assuntos públicos. Abriu caminho a democratização do país do ponto de vista político e aceitou ser deputado independente da FpD – Frente para a Democracia – eleito pela Coligação AD (Angola Democrática), nas primeiras eleições de Angola em 1992 (17 anos depois da proclamação da independência). Nessa qualidade integrou durante 16 anos a Assembleia Nacional, contribuindo para o debate legislativo. Integrou, como Secretário, a 1ª Comissão Parlamentar para a elaboração da Constituição Revista de Angola e participou em várias missões parlamentares. Contribuiu com a sua assinatura para a legalização do BD - Bloco Democrático, cuja relação com seus dirigentes permitiu oferecer muitos conselhos a organização. Soube, com outros concidadãos, protestar, há menos de dois meses, contra a vaga de repressão que se vem abatendo sobre manifestantes no país, opondo a sua assinatura num abaixo assinado dirigido ao Presidente da República. Um acto de elevada cidadania, de lucidez, de persistência democrática e humanistica, de apoio e orientação para a juventude, apesar do seu estado de saúde. Ao morrer deixa vagas a Presidencia da Assembleia Geral da Liga Africana e do Clube “Vila”. Fundador da Liga Africana, legítima herdeira da Liga Nacional Africana, foi seu Presidente de Direcção até há dois anos. Soube assim honrar seus antepassados que se esforçaram por elevar a dignidade do povo angolano com acção cívica, percursora da luta de libertação nacional. João Baptista de Castro Vieira Lopes não deu apenas a sua Juventude, deu toda a sua vida a causa da humanidade. Sabemos que o país não está ainda em condições objectivas de avaliar pessoas da sua magnitude. O tempo encarregar-se-á disso e estamos certos que este vazio que hoje sentimos, será preenchido por seus ensinamentos de vida, sua coerência e vontade de viver. Paz a sua Alma! Cemitério do Alto das Cruzes, em luanda, aos 12 de Maio de 2012

domingo, abril 08, 2012

Elogio póstumo da sobrinha Constança Gomes ao tio Maurício

Elogio póstumo da sobrinha Constança Gomes ao tio Maurício

Glória eterna a Maurício de Almeida Gomes (1920‐2012)

"Mas onde estão os filhos de Angola, se os não ouço cantar e exaltar tanta beleza e
tanta tristeza, tanta dor e tanta ânsia desta terra e desta gente?"
Por estes dias estamos todos muito tristes, o luto bateu‐nos à porta, morreu,
anteontem (dia 2), em Lisboa, aos 92 anos de idade, o nosso tio Maurício de Almeida
Gomes. Ele era o patriarca da família porque era o mais‐velho sobrevivo dos 8 filhos de
Mário José Gomes (dos quais 6 com Ema de Lemos Rodrigues de Almeida Gomes).
Agora ficam connosco apenas os tios Vicente (Portugal) e Abílio (Angola).
O ti "Mau", como carinhosamente o chamávamos, sempre foi um homem exemplar e
uma referência para todos nós. Inteligente, dedicado e trabalhador alcandorou‐se aos
níveis mais altos socio‐profissionais da Angola da sua época, numa sociedade onde a
discriminação social e racial eram prática quotidiana. Com serenidade, determinação e
sem revanchismo, soube ultrapassar todos os obstáculos e subiu, degrau a degrau, por
mérito próprio, em concurso público, em que normalmente era o primeiro classificado,
até ao escalão máximo dos Serviços das Alfândegas de Angola, tendo sido reformado
como Director Geral. Para ele os valores mais importantes eram resumidos por
"palavras basilares, edificantes: trabalho, instrução, educação", como ele próprio dizia
na sua poesia.
Maurício de Almeida Gomes (o tio Mau) foi também um grande poeta e articulista
interventivo. Desde cedo, ainda estudante, começou a publicar artigos temáticos, no
"Estandarte", o órgão literário do Liceu Salvador Correia, onde era estudante. Mais
tarde, escreveu para o Farolim e para as revistas "Cultura", da Associação Cultural de
Angola, encabeçada por Eugenio Ferreira, e "Angola", da Liga Nacional Africana,
associação de que foi membro dos seus órgãos directivos, ao lado de "sô Botelho", o
digníssimo mais‐velho Botelho de Vasconcelos.
Foi um poeta visionário, de tom messiânico que chamou, no início dos anos 1950, os
seus compatriotas a construir a sua identidade literária. Na sua escrita de ressonância
"estilística de tradição popular" (Manuel Ferreira) exalta a terra e as suas gentes,mas
denuncia também a dor e ânsia dos angolanos de serem eles próprios. Algumas das
suas inquietações são ainda, infelizmente, actuais. Senão vejamos os poemas Bandeira
e Exortação que escolhemos como exemplos.
(eb)

segunda-feira, janeiro 30, 2012

Uma publicação do CITA, em que a segregação racial era evidente!

Se tivermos em conta que são festas de fim de ano, estas fotos valem mais que mil palavras.

quarta-feira, outubro 05, 2011

sábado, setembro 17, 2011

As impossíveis renúncias de Agostinho Neto e Eliane Potiguara

REDE GRUMIN DE MULHERES INDÍGENAS/BRASIL


As impossíveis renúncias de Agostinho Neto e Eliane Potiguara
(Carta para Eliane)
LEONEL COSME
Escritor e Ensaísta de Portugal


Tenho de começar por dizer que a minha memória não regista, depois da Renúncia Impossível, do maior poeta negro angolano Agostinho Neto, outro livro tão perturbador como é "Metade cara, metade máscara", da escritora e poeta índia brasileira Eliane Potiguara, a cuja apresentação assisti, na cidade do Porto, a 13 de Novembro de 2010, em Portugal. Perturbador, a todos os títulos, mas logo pelas epígrafes escolhidas para introduzir a sua mensagem de autora índia vinda do Brasil, face a uma audiência expectante porque, na generalidade, distanciada, física e culturalmente, de uma mensageira talvez só (mal) imaginada no recôndito das selvas brasileiras, onde, segundo raras notícias veiculadas pela comunicação social, os fazendeiros latifundiários continuam a não deixar os nativos em paz. na terra-mãe que lhes pertence desde a Criação.
Começando por uma significativa advertência recolhida do poema O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa,
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo.
adianta:
No dia que eu conseguir abrir as páginas de minh’alma e contar essas linhas de meu inconsciente coletivo – com alegrias ou dores, com prazeres ou desprazeres, com amores ou ódios, no céu ou na terra – aí sim, aí sim, vou soltar a minha voz num grito estrangulado, sufocado há cinco séculos. Quinhentos anos, de pretenso reconhecimento de nossa cidadania, não pagam o sangue derramado pelas bisavós, avós, mães e filhas indígenas deste país. Este dia certamente chegará, mesmo que eu esteja em outros planos.
Penso: que outra voz igual, vinda de África, ressoando a uma impossível renúncia e à crença numa sagrada esperança, ecoava na minha memória?
Ah!
Faça-se luz no meu espírito
LUZ!
Calem-se as frases loucas
desta renúncia impossível.
Eu-todos nunca me negarei
nunca coincidirei com o nada
não me deitarei nunca debaixo dos comboios.
………………………………………………….
Sou um valor positivo
da Humanidade
e não abdico,
nunca abdicarei!

Seguirei com os homens livres
o meu caminho
para a Liberdade e para a Vida.

A minha memória ia direita à voz de Agostinho Neto, o poeta revolucionário angolano, que depois da Renúncia Impossível escrevera Sagrada Esperança, para transmitir ao seu o povo a força motora

Nós somos
Mussunda amigo
Nós somos!

da mensagem conclusiva:

Do caos para o reinício do mundo
para o começo progressivo da vida
e entrar no concerto harmonioso do universal
digno e livre
povo independente com voz igual
a partir deste amanhecer vital sobre a nossa esperança.

Não é uma voz igual, esta, também épica, a de Eliane Potiguara?

Nós, povos indígenas
Queremos brilhar no cenário da História
Resgatar nossa memória
E ver os frutos de nosso país, sendo dividido
Radicalmente
Entre milhares de aldeados e “desplazados”
Como nós.

Ah, a História, lembrando-nos sempre que começa com o que vem de trás! Faço minhas estas palavras de Graça Graúna, no prefácio:

Em verso ou em contação de histórias, a visão dos povos indígenas em Potiguara é fruto da somatória de saberes ancestrais e dos chamados tempos modernos. Não é à toa que ela questiona a representação da mulher indígena na sociedade não-índia, mostrando que desde a colonização essa mulher foi e continua sendo tratada com requintes de malícia, discriminação, brutalidade, preconceito. Basta um olhar nas cartas que falam do “Descobrimento” das Américas, ou no antidiálogo de jesuístas para aquilatar a imagem da mulher indígena: pecado em carne e espírito, perversão, encarnação do mal.

E em poema, o retrato feito pela própria Eliane é ainda mais trágico:

Que faço com a minha cara de índia?

E meu sangue
E minha consciência
E minha luta
E nossos filhos?

Brasil, o que faço com a minha cara de índia?

Não sou violência
Ou estupro
Eu sou história
Eu sou cunhã
Barriga brasileira
Ventre sagrado
Povo brasileiro

Ventre que gerou
O povo brasileiro
Hoje está só…
A barriga da mãe fecunda
E os cânticos que outrora cantavam
Hoje são gritos de guerra
Contra o massacre imundo.

E regresso a um segundo prefácio, de Daniel Munduruku:

Houve um tempo que pertencer a um povo indígena era quase uma maldição. Falava-se destes povos como atrasados, selvagens, inoportunos para o progresso, sem razões e sem convicções. Havia quem falasse que desapareceriam à mercê do capitalismo selvagem, já que não teriam como resistir ao impacto da “civilização”. Havia, porém, quem ousasse defendê-los, encorajá-los, informá-los sobre o seu real papel dentro da sociedade envolvente. Estes amigos acreditaram na verdade destes povos, acreditaram em sua índole, acreditaram no seu futuro.

Tendo eu vivido quase metade da minha vida, a partir dos dezasseis anos, em Angola, - como o Brasil, país com minorias tidas como “inoportunas para o progresso” – cedo me ocorreram as vozes amigas de escritores e antropólogos, já falecidos, como Henrique Abranches, Alfredo Margarido e Ruy Duarte de Carvalho (estes dois últimos tendo lecionado em Universidades brasileiras), que, sendo portugueses de origem, consagraram a sua vida e obra à defesa dos indígenas angolanos “inoportunos para o progresso” porque resistindo aos “impactos da civilização e do capitalismo selvagem, dentro e fora da sociedade envolvente”.
No mesmo contexto sociológico, não deixarei de juntar àqueles estudiosos das identidades primigénias angolanas o nome de A.F.Nogueira, que em 1880 deu à estampa um livro básico para o estudo da colonização de Angola: A RAÇA NEGRA – Sob o ponto de vista da civilização da África – Usos e costumes de alguns povos gentílicos do interior de Moçâmedes – As colónias portuguesas.
Diga-se que António Francisco Nogueira, de seu nome completo, foi um dos primeiros colonos portugueses, entre duas centenas, saídos em 1849/50 de Pernambuco, fugindo à Revolução Praieira, para o território namibiano, pouco povoado, do sul de Angola, onde viveu um quarto de século. Etnólogo autodidacta, levava do Brasil uma visão realista que o levou a prever, como inevitável, a independência dos povos colonizados. E – surpresa, hoje! – apresentava a independência do Haiti como um paradigma da libertação. No Brasil, ele aprendera o que era visível da escravidão africana, certamente lamentando que os missionários jesuítas só tivessem investido o seu humanismo na preservação das almas índias, conferindo-lhes um direito de cidadania que porém só acabaria por ser exercido, como que silenciosamente, à margem dos colonizadores, no recôndito das florestas. Zumbi e Palmares viriam por acréscimo…
Nogueira não se deixou iludir pelo “acertos naturais” dos Camurus e Paraguaçus, que já não tinham entusiasmado o clássico Gregório de Matos, - apesar de também ter casado com uma mulher de cor e vivido um ano de desterro em Angola, por ser “Boca do Inferno” - como se calcula partindo da primeira quadra de um “multirracial” verso oferecido “Aos principais da Bahia chamados os Caramurus”:

Há cousa como ver um Paiaiá
Mui prezado de ser Caramuru,
Descendente de sangue de Tatu,
Cujo torpe idioma é cobé pá.

Gilberto Freyre ainda não existia para pregar as virtudes da miscigenação e da multiculturalidade, ele que, no relato da Vida Social no Brasil do Século XIX, já não registara a presença de índios entre os escravos negros amansados ao serviço da Casa-Grande, que vestiam de preto durante meses, em sinal de luto pelos seus ioiôs e iaiás…
Sempre houve muitos “brasis”, antes e depois de Cabral. Como houve muitas outras “américas”, antes e depois de Colombo, e muitas “áfricas”, antes e depois de Diogo Cão. E todas consignando, distintamente, a brancos, negros e pardos, o direito à preservação da identidade primária, uns por meio da posse, outros pela resistência à posse. Também foi, e continua a ser assim, em África, onde o otimismo do académico e então diplomata brasileiro na Nigéria, nos anos 60, Antônio Olinto, podia ainda levá-lo a escrever, em Brasileiros na África:

Nos meus primeiros tempos de África, em Dacar, Freetown, Acrá, Porto Novo (Daomé) e Lagos, os jovens negros de Abidjan, lendo sob os postes, eram o signo de uma verdade nova no mundo, de um modo diferente de fazer democracia e buscar o socialismo, de formas ainda não muito conhecidas de reestruturar as bases da administração pública, no esforço de “africanização” que, em maior ou menor grau, ocorre em qualquer parte do continente negro. Que as Africas são muitas, mas todas caminham para uma unidade.

Era uma época propiciadora de muitas “sagradas esperanças”, em que os negros de todo o mundo, falando a língua do colonizador, chamassem-se Agostinho Neto, Abdias do Nascimento, Frantz Fanon ou Thiongo wa Ngugi, subscreveriam o ditame de Sécou Touré:

Como cada um de nós traz em si uma parte de educação saída do regime colonial, e por isso mesmo um pouco de “complexo” herdado desse regime, devemos impor-nos a nossa própria e completa reabilitação, isto é, que cada um de nós regresse às fontes culturais e morais de África, que se reintegre na sua própria consciência e que se reconverta, em pensamentos e acções, aos valores, às condições e aos interesses de África.

Mas, o tempora! o mores!, a sede e/ou a necessidade de poder, que começaram para assegurar, por razões de sobrevivência, as conquistas das terras ricas de flora e fauna, dividiriam os povos entre conquistadores e conquistados, mostrando, afinal, que conforme a sua força e representação étnica, homo homini lúpus, em vez de homo sum, humani nihil a me alienum puto. Ou entre os kimbundus, kala nguvulu ni utuminu uê, kala nvula ni maloua mê, que o cronista angolano Óscar Ribas traduziu por “cada governador com o seu administrar, cada chuvada com os seus lamaçais”. Hoje, se fosse vivo na sua pátria (morreu triste em Portugal), aquele sábio mestiço, que exaltara a independência da sua terra-mãe, não deixaria de reflectir sobre os caminhos ínvios perspectivados pelo escritor guerrilheiro Pepetela nos seus perturbadores romances Mayombe, de 1980, e A Geração da Utopia, de 1992.
Era, pois, preciso escapar aos “lamaçais” endógenos e exógenos e retomar o “caminho” do regressso à “terra sem males”, no dizer de Eliane falando da “ancestralidade histórica” dos Guaranis, “uma terra que lhes permita viver com dignidade, sem interferências paternalistas, enfim, um paraíso mítico de sua ascendência.” O líder guineense de origem cabo-verdiana, Amílcar Cabral, sendo mais específico, corroborava:

A nossa resistência cultural consiste no seguinte: enquanto liquidamos a cultura colonial e os aspectos negativos da nossa própria cultura no nosso espírito, no nosso meio, temos que criar uma cultura nova, baseada nas nossas tradições também, mas respeitando tudo quanto o mundo tem hoje de conquista para servir o homem.

Por sua vez, Agostinho Neto, nacionalista pragmático, reiterava, quando Angola acabava de conquistar a independência:

Nós somos uma encruzilhada de civilizações, ambientes culturais, e não podemos fugir a isso de maneira nenhuma, mas da mesma maneira que nós pretendemos manter a nossa personalidade política, também é preciso que nós mantenhamos a nossa personalidade cultural.

Tratava-se, simplesmente, de defender as identidades nacionais, preservando a “ancestralidade histórica”. Todavia, como observava em 1986 o então jovem ensaísta angolano Luís Kandjimbo, em Apuros de Vigília,

É forçoso considerar que existindo nos nossos países várias ex-nações, existem concomitantemente vários níveis de desenvolvimento sócio-económico e cultural. Dito de outro modo: existem concomitantemente diversos modos de produção social. A identidade nacional terá a sua verdadeira dimensão quando às solicitações da humanidade, em circunstâncias necessárias, a nação responder através da sua harmónica unidade. É dizer através de um desenvolvimento económico, social, cultural, político, jurídico e ideológico de unidade.
(…) Se as resistências dos povos africanos ao colonialismo, durante todo o processo colonizador para a recuperação de uma personalidade anteriormente existente, são uma premissa para o processo prospectivo de unidade nacional dos povos africanos, a verdade é que só com o surgimento dos movimentos de libertação nacional e nas condições do desenvolvimento histórico mundial a identidade se torna um projecto real e efectivo.

Todavia, os movimentos de libertação, civis ou militares, tiveram de partir para uma construção nacional prefigurada pelos colonialistas, que mapearam num determinado espaço geográfico uma artificial entidade territorial, sem atender à identidade dos autóctones. Na verdade, a maioria dos países reconhecidos como Estados-Nações foram “construções” arbitrárias dos conquistadores que os invadiram.
Há dois séculos, no país chamado Brasil, ainda se contavam duas centenas de etnias falando mais de cem línguas e dialectos.. Povos que, não reconhecendo as fronteiras administrativas mapeadas pelo invasor estrangeiro, se disseminavam por paízes vizinhos. Em Angola, a situação, tomada por cerca de metade da brasileira, era similar: as “nações” identificavam-se pelo espaço territorial em que grupos da mesma língua, tradições e práticas exerciam, pacificanente ou em transe de guerras de ocupação, o “direito” de sobrevivência em acordo com a sua natureza. O suposto resto do Mundo envolvente, a sua cosmogonia, cabia bem na epígrafe pessoana escolhida por Eliane Potiguara: Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo.
Só que a “aldeia” da Poeta e do seu povo originário foi submersa pelos avatares de uma história que, vindo de trás, era fatalmente dialéctica, restando numa “sagrada esperança” de salvação da alma:

Ah! Já não tenho a minha aldeia/ Minha aldeia é meu Coração ardente! É a casa dos meus antepassados! E do topo dela eu vejo o mundo! Com o olhar mais solidário que nunca! Onde eu possa jorrar! Milhares de luzes! Que brotarão mentes! Despossuídas de racismo e preconceito.

Lembro-me de que nesses avatares também mingua o espaço para as utopias. Que pensar se um poeta angolano, de raiz bochímane (de que resta, hoje, um povo que se conta por escassos milhares nos territórios semidesérticos de Angola e do Sudoeste namibiano) exclamasse num grito de desesperança:

Os nossos irmãos-vizinhos bantus pensam-nos como não-gente! Porque temos diferenças anatómicas na cor da pele e no tamanho! Porque falamos numa língua de cliques, vivemos de caça, pastorícia e raízes e enganamos a fome e restauramos energias comendo um certo cacto do deserto (hudya)!

Defrontando as inclemências ou indiferenças dos vizinhos-homens e as perturbações climáticas por estes também provocadas, em razão de outro “direito” de sobrevivência, dir-se-á que a dialética se consome na salvação da alma. Di-lo a ameríndia Eliane Potiguara e o português-angolano Ruy Duarte de Carvalho, estudioso do ethos do povo herero, - que subsiste, ainda autonomamente, no sul de Angola - ao qual consagrou a sua vasta obra de escritor-antropólogo, até ser sepultado, depois de correr o mundo, conforme a sua vontade, no deserto de Moçâmedes:.

Ainda quererás saber qual é a minha posição no meio de tudo isto? Campanhas, de qualquer forma, não. Estou pronto a esclarecer no que puder mas não me peçam nem que ajude a domesticá-los nem que pugne pela causa da preservação dos seus modelos e sistemas, que de qualquer maneira não seria a deles.(…) Estou a investir-me numa teoria pessoal dos horizontes onde cabe tudo. (…) Não é só a salvação dos Kuvale que está em causa, é a minha também…

Viajante por natureza assumida (Carvalho saíra de Portugal, para Moçâmedes, com treze anos de idade), entre os hereros aprendeu vivendo o pleno sentido da máxima de Terêncio: “Sou homem e nada do que é humano considero estranho a mim.”
Aqui me dei, aqui me fiz
Desfiz, refiz amores.
Aqui me embebedei e vomitei o espanto.

Daqui abalo hoje, parido para o nada
apalpo a água
afago um bicho
ordeno qualquer coisa
e vou.

Sempre indo, ele faria coro, certamente, com o grande poeta espanhol António Machado - “Caminante, no hay camino,/se hace camino al andar”- e o poeta colombiano Manuel Vejia Vallejo: “Si camino siempre hacia adelante/Un dia llegaré/Al punto de partida./Asi he sabido que todo/camino del hombre/ es camino de regresso.”
Esta será porventura a mensagem do livro de Eliane, a caminhante.

LEONEL COSME
Escritor - Ensaísta Português





BIBLIOGRAFIA BÁSICA

CARVALHO, Ruy Duarte de - Vou lá visitar pastores, Edições Cotovia Lda., Lisboa, 1999.
COSME, Leonel - Agostinho Neto e o seu tempo, Campo das Letras Editores, Porto, 2004. Muitas são as Africas, Edições Novo Imbondeiro, Lisboa, 2006.
KANDJIMBO, Luís – Apuros de Vigília, União dos Escritores Angolanos, Luanda, 1988.
NETO, Agostinho – Sagrada Esperança, Sá da Costa, Lisboa, 1974.
A Renúncia Impossível, INALD, Luanda, 1982.
NOGUEIRA, A.F. – A Raça Negra, Lisboa, 1880.
OLINTO, Antônio – Brasileiros na África, 2ªed.., GRD, São Paulo, 1980.
POTIGUARA, Eliane – Metade cara, metade máscara, Global Editora, São Paulo, 2004.





ELIANE POTIGUARA
Tel: 55-21-9335-5551

Embaixadora da Paz
Poetas del Mundo
Fellow da Ashoka
Observatório da Mulher Indígena
INBRAPI/Inst.Indíg.Bras.Propriedade Intelectual
Comitê Intertribal
Membro Fundadora del Enlace Continental de Mujeres Indígenas
Associação Mulheres pela Paz
Rebra ( Rede de Escritoras Brasileiras)
Moína Produções Artísticas
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http://www.elianepotiguara.org.br (site oficial da escritora)
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domingo, junho 26, 2011

Lançamento do livro de Fragata de Morais




Lançamento
Dia 30 em Lisboa, no Parque das Nações, sob os auspícios da Casa de Angola em Lisboa, acto celebrativo dos seus 40 anos de criação.
Antologia da prosa angolana - O Fantástico na Prosa Angolana
*Autor: Fragata de Morais
*Prefácio:António Fonseca
*Colecção: Mayamba Antologia
*Formato: 15,5 x 23,0 cm*
*Número de páginas: 382
*ISBN 978-989-8370-02-0*
*Preço: Kz 3.500,00* Euros: 27,00


Sobre o livro, na óptica do prefaciador, Dr. António Fonseca, escritor e ensaísta, director do Instituto Nacional das Indústrias Culturais do Ministério da Cultura:

... desde o alvor da Independência Nacional e mesmo no período imediatamente anterior, assistimos a um grande movimento em torno da ideia de recuperação e valorização do imaginário ou dos imaginários angolanos através da literatura. Muitos títulos foram publicados com esta perspectiva, porém, até à saída da presente obra, não se tinha uma ideia de conjunto sobre o que efectivamente havia acontecido no domínio do fantástico na Literatura Angolana, isto desde Cordeiro da Matta aos nossos dias. Com efeito, até à edição desta Antologia, a questão do fantástico que, no nosso ver, não se limita apenas às práticas mágicas, mas estende-se também à aparição de factos inexplicados e teoricamente inexplicáveis não foi tratado, quer de forma sincrónica, quer de forma diacrónica.
António Fonseca
in Prefácio
... me preocupei mais com os aspectos do estranho, do maravilhoso, talvez mesmo até do insólito, na recolha que levei a cabo, deixando o fantástico maioritariamente para a literatura tradicional e para a literartura infantil, narrativas em que o narrador ou o escritor mais se preocupa com a mensagem, com a valorização moral e com um fim que transmita uma postura considerada de funcional na sociedade
O autor

Sobre o autor:
Fragata de Morais nasceu no Uíge a 16 de Novembro de 1941. Fez estudos de teatro na Universidade Internacional de Teatro em Paris, e cinema na Academia Holandesa de Cinema em Amsterdão.

Para além de colunista de vários jornais e revistas, tem várias obras publicadas por diversas editoras nacionais e estrangeiras, entre elas Jindunguices, premiada com o Prémio Sagrada Esperança e Inkuna Minha Terra, Menção Honrosa do Prémio Sonangol de Literatura. Ex-Presidente da Comissão Directiva da União dos Escritores Angolanos, e ex-Vice-Ministro da Educação e Cultura, este Embaixador de carreira dedica-se actualmente à política.

ÍNDICE
[Autores e textos antologiados por ordem alfabética]

Prefácio 11
O IMAGINÁRIO NO TEXTO ANGOLANO 13
ALFREDO TRO NY
NGA MUTURI 15
ANTÓNIO DE ASSIS JÚNIOR
UMA SOMBRA 25
ANTÓNIO JACINTO
VÔVÔ BARTOLOMEU 41
ANTÓNIO SETAS
OS FILHOS DE PAPÁ DYA KOTA 45
O Kakulu 50
ARNALDO SANTOS
OS CALUNDUS DA JOANA 53
A LIBERTAÇÃO DOS HOMENS–JINZÉU 55
BOAVENTURA CARDOSO
A ÁRVORE QUE TINHA BATUCADA 59
CHIKAKATA MBALUNDU
CIPEMBUWA 65
COSTA ANDRADE
A PRO FECIA 71
DYA KASEMBE
TUMUKA 81
FILIPE CORREIA DE SÁ
ESTAMOS JUNTOS NO REINO ANTIGO 85
MBOA, LELA E PENSAL NO SONHO DO REI 87
ESTAMOS JUNTOS COM OS TRÊS ARAUTOS 91
O CAOS NOS QUIMBOS 92
FRAGATA DE MORAIS
O FILHO 97
DESALMAR 100
HENRIQUE ABRANCHES
A KAPUNDA GRANDE 103
O MENSAGEIRO DA TRAGÉDIA 107
MERLIM DAS FALÉSIAS 113
ISAQUIEL CORI
O ÚLTIMO FEITICEIRO 123
JACINTO LEMOS
A DÍVIDA DA PEIXEIRA 127
8
JACQUES ARLINDO DOS SANTOS
KASAKAS & CARDEAIS 139
JOÃO MELO
O PATO REVOLUCIONÁRIO E O PATO CONTRA-REVOLUCIONÁRIO 147
O FATO AZUL ESCURO 151
JOÃO TALA
GEORGINA 155
MARQUITA TEM UM RO MANCE 159
JOFRE ROC HA
DE COMO NGA PALASSA DIÁ MBAXI, KITANDEIRA
DO XÁ-MAVU E DEVOTA CONHECIDA DESDE
SANTA’ANA ATÉ À SENHORA DA MUXIMA, RENEGOU
TODOS SEUS SANTOS E ORAÇÕES 163
JOSÉ MENA ABRANTES
CAMINHOS DESENCANTADOS 169
O PIÃO 170
O PREDADOR 172
KUNDUMA
A CALAMIDADE 175
LUANDINO VIEIRA
À ESPERA DO LUAR 183
O NASCER DO SOL 187
LUÍS FERNANDO
A SAÚDE DO MORTO 193
LUÍS KANDJIMBO
O ARTESÃO DE FOGAREIRO S 199
O AUDIDACTA QUE SONHAVA 202
LUÍS RO SA LOPES
MU UKULU, KI TUEXILÉ88 KU MAYOMBOLA89 205
MANUEL RUI
ALICE NO PAÍS DELA! 215
O TELEFONE CELULAR 217
NDÁ LUSSOLO
PRECIPITAÇÃO ESTRELAR 223
ONDJAKI
A LIBÉLULA
[palavras para o Dr. Carvalho] 237
O AUTOCLISMO DA TIA FATUCHA 241
AMARELA 244
Oscar Bento Ribas
FESTA DE NÚCPCIAS 249
A QUIANDA 252
RO DERICK NEHONE
O ANO DO CÃO 261
SÍLVIO PEIXOTO
A RIVAL 271
O ABRAÇO DA GUILHOTINA 273
TIMÓTEO ULIKA
KANDUNDU 279
UANHENGA XITU
O PARTO 285
A BOLA COM FEITIÇO 292
RECOLHA TRADICIONAL 303
ANTÓNIO FONSECA
O CABELO E A FOME 305
A SEIXA E O LEOPARDO 307
MONI A MAMBU 309
NE MPETELO MPTELO E SUAS MULHERES 311
ÓSCAR RIBAS
O LOBO E O CÃO 315
A BANZA DAS FÊMEAS 316
MBANGU A MUSUNGU 318
RAÚL DAVID
O CANDIMBA E O ELEFANTE 325
RO SÁRIO MARCE LINO
A ONÇA, O VEADO E O MACACO 327
A SANGRIA 329
JOSÉ SAMUÍLA CACUEJI
O HOMEM DO FUSO E ROC A 333
SECRETARIADO PASTORAL DA DIOCESE DE MENONGUE 339
O CUCO DO MEL E A ABELHA 341
AS GALINHAS E OS GATOS BRAVOS 342
LITERATURA JUVENIL 345
DARIO DE MELO
QUITUBO A TERRA DO ARCO –ÍRIS 347
FRAGATA DE MORAIS
O CACIMBO 353
PEPETELA
A MONTANHA 359
OS LUPIS 359
A ÁGUA LILÁS 360
AS DESCOBERTAS CIENTÍFICAS 361
DISPUTA E ACORDO 363
10
LITERATURA INFANTIL 367
MARIA CELESTINA FERNANDES
KALIMBA 369
MARIA EUGÉNIA NETO
E NAS FLORESTAS OS BICHOS FALARAM... 373
GABRIELA ANTUNES
KIBALA, O REI LEÃO 377
OCTAVIANO CORREIA
O REI QUE NÃO TINHA REINO 379
CREMILDA DE LIMA
TAMBARINO DOURADO 381