sábado, julho 17, 2010

O MPLA está de luto / Faleceu Manuel Agostinho Salvador Ribeiro

A Direcção do Comité de Acção de Bruxelas, envia a presente
menssagem para conhecimento, de todos os militantes e amigos do MPLA,
sobre o desaparecimento fìsico de um dos mais antigos militantes do MPLA
residente na Bélgica.
Queiram ler a Biografia, em baixo anexa, do camarada Salvador Ribeiro
que também foi Adido para a Cultura e a Imprensa da nossa Embaixada sediada
em Bruxelas.




BIOGRAFIA

MANUEL AGOSTINHO SALVADOR RIBEIRO


Militante do MPLA desde 1959

Em Junho de 1961 recebeu instruçoes do MPLA para sair de Portugal, onde era estudante, juntando-se a outros Camaradas que se refugiaram em França, tendo assim feito parte do histórico “grupo dos cem”.

Seguiu depois para a Alemanha e em seguida para Acra no Gana. De regresso à Alemanha foi recebido pelo Camarada Desidério Costa que lhe obteve uma bolsa de estudos para a Itália, onde se doutorou em Medecina Veterinária, em 1964, na Universidade de Perúgia.

Foi assistente do Instituto Zooprofilático da Úmbria, Itália, de Setembro de 1964 a Junho de 1965

Em Junho de 1965 foi para a Argélia onde ingressou no Instituto Pasteur, tendo aí exercido sucessivamente os cargos de Assistente, Chefe de Laboratório e Chefe de Serviço.

Entre outros trabalhos publicados, elaborou uma nova vacina contra a varíola do carneiro, aperfeiçoou uma outra vacina contra a raiva a uso veterinário e ofereceu ao Instituto Pasteur uma vacina a uso humano contra a raiva, para a qual foi obtido um brevet.

Entre 1967 e 1968 diplomou-se em Microbiologia e em Imunologia no Instituto Pasteur em Paris, onde foi colaborador científico.

Regressado a Alger, continuou as suas actividades na Delegaçao do MPLA, que dirigiu no ano de 1974.

Em Outubro de 1974 recebeu ordens escritas do falecido Camarada Presidente Agostinho Neto para seguir para Lusaka.

Em fins de Dezembro de 1974 foi para Luanda, integrado no primeiro grupo de Militantes do MPLA que partiu de Lusaka.

De Janeiro a Agosto de 1975, e sempre sob orientaçao superior, trabalhou no Huambo, no Instituto de Investigaçao Veterinária (IIVA).

Em fins de Agosto de 1975 foi nomeado, em Benguela, pelo falecido Camarada Saydi Mingas, Coordenador do Gabinete de Planeamento da Zona Centro, exercendo ao mesmo tempo o cargo de Director Regional da Agricultura.

Em fins de Outubro e princípios de Novembro de 1975 tomou parte na batalha de Katengue contra os invasores sul-africanos.


Foi membro do Grupo de Trabalho de Restruturaçao do Ministério da Agricultura, em Luanda, de Dezembro 1975 a Fevereiro de 1976.

Em Fevereiro de 1976 regressa a Benguela como Dirigente da Comissao de Emergência da Província de Benguela e Director Provincial da Agricultura.

Solicitado pelo Ministério da Educaçao vai para o Huambo, em Abril de 1977, como professor agregado e responsável pela Direcçao da Faculdade de Ciências Agrárias.

A 28 de Janeiro de 1978, foi vítima duma emboscada montada por elementos da UNITA, quando seguia para Luanda, em serviço da Universidade, na sua qualidade de Director da Faculdade de Ciências Agrárias, ficando entao inválido (tetraplégico).

Graças à intervençao do falecido Camarada Presidente Agostinho Neto foi enviado de urgência para a Holanda, para tratamento.

Após diversas operaçoes cirúrgicas e meses de tratamento na Holanda, regressa ao País.

Em 1981, o seu estado de saúde estando a degradar-se progressivamente, um grupo de Camaradas, por iniciativa do Camarada Garcia Bires, entao Vice-Reitor da Universidade Agostinho Neto, achou melhor mandá-lo para a Embaixada de Bruxelas, para estar perto da Holanda onde podia continuar os tratamentos clínicos.

Na Embaixada da República de Angola em Bruxelas ocupou os cargos de Adido de Imprensa e Assuntos Culturais.

Foi também Coordenador da Célula do MPLA/PT na Embaixada de Bruxelas, desde 1983 até à data da extinçao desta Célula.

Teve a honra de ser condecorado pelo Camarada Presidente José Eduardo dos Santos com a Medalha de Combatente da Luta Clandestina.

quarta-feira, julho 14, 2010

A Origem dos Ovimbundu: a hipotese mais proxima da realidade

Mbela Issó






A origem dos ovimbundu tem sido motivo de estudos apaixonados por parte de vários historiadores. Uma das razões para que isso aconteça, tem a ver com o fato de se tratar de um grupo étnico que marcou (e continua a marcar), de modo profundo, a história econômica, social, política e cultural da porção de território que hoje se chama Angola.



Na verdade, este grupo étnico, destacou-se muito cedo. Assim, temos, em primeiro lugar, a enfatizar a resistência tenaz que manifestou contra o invasor colonialista; em segundo lugar, a sabedoria de alguns dos seus reis, que lhes permitiu estender as suas relações comerciais até ao Zanzibar (Oceano Índico); em terceiro lugar, a exploração desenfreada a que foi vítima durante o regime colonial (roças, pescarias, fazendas de algodão, café,etc.) que levou muitos ovimbundu a emigrarem para os países vizinhos. Por último, e na história mais recente, o fato de ter surgido, no seio deste grupo étnico, uma rebelião armada, cujas conseqüências ainda estão para ser descritas.
A origem dos Ovimbundu é, de acordo com os historiadores, sempre vista dentro dos processos migratórios Bantu (Os ovimbundu, tal como a maior parte da população que vive a sul do equador é Bantu, por pertencerem a um grupo lingüístico que utiliza a raiz ntu para se referir ao homem. O acréscimo do prefixo Ba (plural)- Bantu surge, assim, para designar esta população no seu todo). Recorde-se que alguns investigadores têm avançado hipóteses segundo as quais os Bantu teriam vindo da Ásia ou da região de Bahar-el-Ghazal e que se teriam fixado nos grandes lagos. Muito para além das formulações hipotéticas é um fato comummente aceite entre os investigadores de que os Bantu devem, provavelmente, ter vindo das mesetas de Bauchi (Nigéria) e dos Camarões. Mas tudo aponta no sentido de serem originários do Noroeste da floresta equatorial (vale de Benué) e que durante milhares de anos se foram fixando em vários pontos da África. As migrações, como são óbvias, tiveram várias causas entre as quais podemos apontar as de caráter político (defesa e luta pela sobrevivência de um grupo face ao outro); econômico (ligadas às catástrofes naturais que faziam com que os Bantu procurassem terrenos mais férteis). São os problemas que Basil Davidson designou como sendo de caráter físico. Por último, podem apontar-se os desentendimentos dentro dos vários clãs (problemas ligados à sucessão ao trono).





Ekuikui II :Artífice da estratégia "vergar o adversário pela economia"


Relativamente a Angola é de referir que os Bantu angolanos, são originários do que se tem designado por 2º Centro Bantófono (Baixo Congo e Planalto Luba).Os ovimbundu seriam, assim, descendentes dos Bantu que se fixaram no planalto central. No entanto, as hipóteses acerca da origem dos ovimbundu são várias e nem sempre consensuais. As referidas hipóteses dividem-se entre aquelas que afirmam que os Ovimbundu teriam vindo de Benué (um vale situado numa região a leste da Nigéria); as que defendem a idéia de que seriam resultado de uma miscigenação de outros grupos e as que os consideram como descendentes dos autores das pinturas rupestres de Caninguiri (Kañilili).
De acordo com a primeira hipótese os ovimbundu, conforme os seus autores, teriam passado pela faixa Atlântica, fixando-se em Benguela. E dado o fato de serem agricultores dirigiram-se ao planalto do Huambo e Bié, cujas terras eram as mais férteis. Esses autores sustentam esta hipótese com dados provenientes da lingüística. Assim, segundo ele, alguns dos termos utilizados pelos Ovimbundu, ao invés de se aproximarem aos usados pelos Bantu mais próximos assemelham-se mais aos do povo Igbo da Nigéria. É o caso do termo "Suku" (deus) "omunu" (pessoa,) "twendi" (vamos). Os kimbundu por, exemplo, utilizam o termo Nzambi para designar Deus.
Os defensores da segunda hipótese afirmam que os Ovimbundu são uma síntese de vários grupos étnicos. E, consequentemente, defendem a idéia de que este grupo não tem um caráter homogêneo. Estão à vista os aproveitamentos políticos que se podem fazer desta interpretação. Uma vez que se pretende, com este ponto de vista, provar que os Ovimbundu não são um grupo étnico unitário, e muito menos têm uma especificidade cultural e étnico-linguística próprias.
Os estudiosos, defensores desta hipótese, apegando-se em aspectos lingüísticos, afirmam que os Ovimbundu seriam descendentes dos Bakongo, uma vez que, segundo eles, a língua umbundu é uma síntese do Bantu-Kongo e do Bantu-Lunda. Na verdade, esta hipótese, possui uma certa evidência científica, pois os Ovimbundu, pela posição que ocupam no planalto central, teriam ligações com os Ambundu da baixa de Kasanji; com os Cokwe e os Lunda. E mesmo a sua grande versatilidade, a sua impressionante capacidade de adaptação aos diversos habitat, poderia ser explicada a partir desta simbiose; desta miscigenação que não se cingiu apenas a aspectos lingüísticos e biológicos;mas também à adoção de saberes, técnicas, formas coletivas de luta contra a adversidade da natureza.
Esta hipótese, a mais aceite pelos vários historiados, viria a levar um rude golpe, criando assim, várias dúvidas, com a descoberta da estação arqueológica de Kaniniguiri (Kaniñili). É de referir que esta se situa nas áreas do Mungo e do Bailundo e remonta a milhares de anos (9600 anos ou 9670 anos em idade absoluta). O que mostra que, paralelamente, as comunidades pré-bantu (Bosquímanos,os Vátuas e outros) existia, na região do planalto, uma comunidade, de onde saíram os autores das famosas e impressionantes pinturas ruprestes de Kaninguiri. E, se para além das evidências arqueológicas, nos ativermos à tradição oral, que apresentaremos quando falarmos da história de cada subgrupo étnico em particular, podemos tirar a seguinte conclusão: existem evidências claras que apontam no sentido de os Ovimbundu serem descendentes diretos dos autores das pinturas de Kaninguiri e que foram sofrendo, num processo de "osmose", influência dos grupos Bantu que se iam fixando nas proximidades. Saliente-se que, de acordo com alguns historiadores, as migrações dos Bantu, em Angola, devem ter iniciado no século XII com a entrada dos Kikongo; dos va-Nyaneka no séc XVI, dos Ngangeula, no século XVII, dos Ovambo e dos Cokwe, no século XVIII e dos Ovakwangali no século XIX.
O grupo étnico dos ovimbundu é, atualmente, formado por vários subgrupos :va-mbalundu, va-vihé, va-wambu, va-ngalangui, va-kimbulu, va-ndulu, va-kingolo, va-kaluquembe, os va-sambu), va-ekekete), va-kakonda), va-kitatu, va-sele, va-mbui, va-hanha, va-nganda va-chikuma, va-dombe e va-lumbu). Estes subgrupos vivem na região que compreende o Huambo, zona de solo fértil e onde se pode cultivar cereais, pomicultura, horticultura, etc. Para além disso, possui boas condições para o gado, especialmente bovino; é de referir que algumas províncias como a Huíla possuem regiões onde a população é majoritariamente Ovimbundu (Caluquembe e Caconda); o Bié, igualmente uma zona fértil e de clima saudável; Benguela, região igualmente com terrenos muito férteis e onde existem minérios de cobre,ferro,enxofre, sulfato de sal,etc.e numa parte do Cuanza sul.
Por fim resta-nos apenas dizer que os futuros estudos a efetuar querem ao nível da lingüística, quer da arqueologia,quer ainda da tradição poderão aportar outros dados importantes para o conhecimento relativo a origem dos Ovimbundu.

quarta-feira, julho 07, 2010

OSCAR MONTEIRO - Paulo jorge, de mensageiro a meu heroi

Paulo Jorge do MPLA: De mensageiro a meu herói
ERA Maio em Paris de 1963. A viagem de fim de curso dos quintanistas de Direito da Universidade de Coimbra oferecia-me uma oportunidade inesperada de fazer algum contacto com os meus colegas que entretanto se haviam juntado aos movimentos de libertação, alguns cabo-verdianos, na maior parte angolanos. Eu vivia em Coimbra numa república de estudantes anticoloniais, de onde regularmente se fugia ou se era preso.

Maputo, Terça-Feira, 29 de Junho de 2010:: Notícias

Parto armado dos endereços de Saint Aubin, que como o nome não indica era cabo-verdiano, brilhante matemático e o contacto fornecido pelo núcleo de estudantes do PAIGC em Portugal de cujo relatório eu era portador. Em Paris, Saint Aubin recebe o relatório e com António Avidago, um angolano branco, que tinha sido meu co-repúblico, informam Marcelino dos Santos que era em Rabat Secretário-Geral do órgão de coordenação dos movimentos de libertação das colónias portuguesas, a CONCP, que eu estava nas paragens. No Quartier Latin vou ao ponto de encontro dos estudantes nacionalistas no Café Odeon onde me encontro com Sérgio Vieira que era dirigente da UNEMO, União de Estudantes Moçambicanos e muito brevemente com Joaquim Chissano, colega do liceu, que já era Secretário do Presidente Mondlane em Dar es Salaam e que havia chegado essa manhã mesmo de uma viagem aos Estados Unidos. A nossa viagem prossegue para a Alemanha (Koln e Bonn) e para a Dinamarca.
No regresso, passo de novo por Paris onde me aguarda Paulo Jorge. Paulo tinha a missão de estabelecer ligação com Portugal e Angola. Trabalhava numa empresa gráfica e com o seu salário apoiava a representação do MPLA que era a casa de Inocêncio Câmara Pires. Câmara Pires era um personagem de lenda. Descendente das grandes famílias mestiças de Angola, dono de considerável fortuna ao que diziam, havia entregado o que tinha ao MPLA e agia em Paris como representante do MPLA. Um homem formoso de tez morena, e quando o conheci já com uma farta cabeleira e barba branca, um Hemingway bem penteado e bem parecido, deveria ter sido famoso entre as mulheres. Casara com a Viscondessa de Caumont de quem enviuvara. Câmara Pires era um Compagnon de la Résistance medalhado, havia participado na resistência contra os nazis. Por isso numa França aliada de Portugal, as suas actividades eram toleradas. A sua casa era modestíssima, na Rua Hippolyte Maindron no 14ªeme arrondissement (bairro), na altura um quarteirão menos considerado em Paris.
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Paulo Jorge transmite-me a mensagem com o acordo ou orientações que havia recebido de Marcelino: que constituíssemos um órgão de coordenação dos estudantes com MPLA, PAIGC e FRELIMO e indica-me os contactos do chefe clandestino do MPLA, Álvaro Santos, que me descreve como um mulato cafuso conhecido por Zefo e Jorge Querido, estudante de engenharia do PAIGC. Remete-me ainda um calhamaço de boletins e comunicados dos movimentos de libertação entre os quais os primeiros documentos da FRELIMO que havia sido fundada no ano anterior, publicações obviamente proibidas que eu não sabia como esconder no comboio na passagem das fronteiras, mas que não tenho coragem de recusar com receio de passar por medroso logo à primeira.
Em Portugal o grupo devidamente constituído inicia em colaboração com um colega de liceu, natural da Zambézia, Álvaro Mateus, “Dallas”, a publicação do “Anti Colonial”, uma publicação regular clandestina, escrito por nós mas editado nas imprensas do Partido Comunista, em papel bíblia ou papel de mortalha de cigarro. Temos na altura uma divergência sobre a difusão das notícias de fonte UPA-GRAE que o Partido Comunista achava que se devia difundir de qualquer modo. Outra história. Só releva aqui porque é no decurso da distribuição desse boletim que venho a ter que atravessar a fronteira para chegar a França. Depois de detido em Poitiers, sigo para Paris. O 7 Hippolyte Maindron estava na minha cabeça porque era para lá que eu enviava os relatórios do trabalho em Portugal – parece que só foi um e encontrei-o nos arquivos do Marcelino com o pseudónimo demasiado óbvio de Fernando Santos. Para lá me dirigi a pé ao sair da Gare de Austerlitz. Estão lá Câmara Pires, Paulo Jorge e a jantar nessa noite os Margaridos, Alfredo e Manuela. Aí sou acolhido aos abraços, tomo o primeiro banho depois de quatro dias, como e durmo num colchão no chão, sob os olhares solícitos dos angolanos. No dia seguinte, os meus camaradas João Ferreira e Jacinto Veloso, que se haviam juntado à Frente de Libertação pilotando um avião da Força Aérea Portuguesa tomam conta de mim.
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No tempo de Paris frequento bastante Paulo Jorge, aprecio a sua simplicidade e o seu método. Mas é na Argélia que se cimenta a nossa amizade e – palavra essa que figura no museu das antiguidades da revolução – a nossa camaradagem. Somos ambos representantes dos nossos movimentos. Estando eu sozinho, pedi e passei a comer em casa dos angolanos, onde viviam o Adolfo Maria e esposa, Pepetela e Maria do Céu Reis e onde comiam também Hélder Neto, que perece na intentona nitista, o artista e etnólogo Henrique Abranches, Zé dos Kalos, meu antigo com repúblico de Coimbra e economista e Jorge Pires que como general dirigiu a logística das FAPLAs. Paulo Jorge concertava com mestria este conjunto de pessoas tão complexas, basta ver os conflitos que irromperam depois de ele sair e a que só o Presidente Neto conseguiu pôr cobro.
As funções das representações eram de difusão de informação na Argélia e nos países de expressão francesa para que os argelinos contribuíam com um subsídio mensal de dois mil e quinhentos dinares e no período final quatro mil dinares. Outras funções eram o relacionamento com as autoridades argelinas, nomeadamente pedidos de ajuda financeira directa, coordenação da acção diplomática na OUA e organizações internacionais e outras questões administrativas como passaportes, trânsito de militantes, bilhetes.
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Mas havia um forte engulho. Nesses anos sessenta, o Governo argelino sob a influência de Franz Fanon, com as suas teses legitimadoras da violência dos oprimidos, havia reconhecido o GRAE de Holden Roberto. A sua viúva Josie, colega de Aquino de Bragança no jornal “Révolution Africaine”, velava sobre esse património como vestal do templo, até já aos anos setenta. Tínhamos que mudar a situação: Aquino fez muito por isso ao nível do jornal e da opinião. Mas faltava fazê-lo ao nível institucional. Com Paulo Jorge, aproveitámos uma convocação de todos os movimentos de libertação para concertar uma revolta daqueles que se auto-intitulavam os movimentos de libertação autênticos – e que éramos nós, claro! – MPLA, FRELIMO, PAIGC, ANC, ZAPU, SWAPO contra a “Unholly Alliance” (a aliança ímpia) que eram os outros. Fizemos o representante do GRAE sair da sala.
Mais tarde volto a encontrar Paulo Jorge como Chefe das Relações Exteriores da Presidência com o Presidente Neto. Estamos juntos com Samora e Chissano, Nyerere e Garba na grande batalha diplomática pelo reconhecimento do Governo do MPLA, na OUA em Addis-Abeba, onde a nossa vitória foi conseguir um empate de 22 a 22. Mais tarde como Ministro das Relações Exteriores estamos juntos na batalha da Namíbia e da SWAPO. Em 1978 vamos ambos às Nações Unidas. Andrew Young, o primeiro negro na Administração americana e seu representante nas Nações Unidas, convoca-nos para o seu escritório em frente das Nações Unidas a dois passos do nosso hotel, o UN Plaza, para trocar ideias. Os Ministros da Linha da Frente dos países anglófonos vão ao encontro. Paulo Jorge e eu decidimos que o encontro não é ao nosso nível. Vão os nossos colegas de delegação. Éramos assim em 1970...
No dia seguinte, domingo, alertado por Andrew Young, Cyrus Vance, Secretário de Estado de Jimmy Carter, homem de delicado trato, vem ao nosso hotel, hospeda-se numa suite onde nos recebe, a começar por Paulo Jorge. Os nossos colegas anglófonos estão estupefactos.
Paulo Jorge deixa nome na diplomacia africana pela sua defesa apaixonada da posição de Angola e pelo seu reconhecimento no mundo. Chissano contou-me da troca de argumentos entre Senghor e Paulo Jorge na OUA. Quando Senghor, excelente pessoa de resto e poeta que agora redescubro, começa com as suas divagações sobre a política, “on parle beaucoup d’imperialisme, mais qu´est-ce l´impérialisme” ? ou seja estamos aqui a falar muito de imperialismo, mas o que é esse imperialismo, Paulo Jorge levanta-se e diz: “L´impérialisme, Mr. Le Président, est le stade suprême du capitalisme. C´est écrit sur la couverture !”( O imperialismo, Senhor Presidente, é o estádio supremo do capitalismo. Está escrito na capa!) aludindo a um famoso panfleto muito lido entre os políticos na época, da autoria de Lénine, Éditions Sociales, Paris.
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Conheço a sua vida e a sua casa. Conheci também os seus Gabinetes e Residências como Ministro e Governador de Benguela. Agora que está em Moçambique para participar em nome do seu Partido no simpósio sobre o legado de Samora Machel – que bem o MPLA soube escolher! – quis que viesse conhecer a minha família, a minha mulher e filhos, na terra onde nasci. O meu país, diferente por aquilo que a sua geração fez e à qual naquele dia de Maio de 63 em Paris, com Marcelino me fez pertencer. Riqueza e sentido que jamais poderei reconhecer à justa medida.
Mas Paulo Jorge é para mim e para muitos mais do que as recordações comuns. Haverá outros Ministros e outros dirigentes melhores. O que caracteriza Paulo Jorge é a sua constância. Em tudo o que é essencial, em tudo o que comanda a vida, Paulo Jorge permaneceu igual a si próprio. Nas amizades, na família – o que nos tempos que passam reconheça-se é um recorde absoluto, só por si merecedor de uma estátua –, nas convicções e na sua coragem. Fala quando é preciso, sem querer nada para ele. É um homem sem medo. Por isso ele é venerado.
É um puro. É um dos meus heróis.
Oscar 8 de Outubro 2003 em Maputo, Avenida do Zimbabwe.
Este texto foi lido e entregue a Paulo Jorge. E publicado hoje pela primeira vez.
• ÓSCAR MONTEIRO - O texto é uma homenagem ao nacionalista e deputado da Assembleia Nacional de Angola, Paulo Teixeira Jorge, falecido sábado passado, em Luanda.

quinta-feira, julho 01, 2010

MEU TEMPO ESTÁ-SE ESFUMANDO / Arnaldo Santos



Observatório do Balão



MEU TEMPO ESTÁ-SE ESFUMANDO
Arnaldo Santos

Daqui, não tenho outra forma de encarar o falecimento do Paulo Jorge, senão olhando para mim e para a minha relação estrábica com o tempo.
Os dias correm e é certo que muitas coisas se vão ganhando nessa sua progressão. Nossa Pátria hoje, já não dá tantas dores de cabeça ao nosso Ministro das Relações Exteriores, como deu ao camarada Paulo Jorge quando nessa condição, ele porfiava pelos nossos interesses nos areópagos da diplomacia mundial; ou, como antes disso, se infiltrava pelos fóruns, chancelarias e gabinetes conspirativos terceiro-mundistas.
No porém, com a mesma cadência ou porventura, num ritmo cada vez mais acentuado, o que se vai perdendo no tempo que passa, é mais significativo do que se ganha. É pelo menos o que eu vou sentindo.
Dessa sensação pessoal de perda tem gente que se imuniza, mas à custa de algum depauperamento espiritual. O poder, seja de que natureza for, político ou económico, ajuda muito a encouraçar as sensibilidades. A nossa juventude, dada a sua pouca experiência de vida, ainda se pode dar conta do que representa o desaparecimento dos nossos valores vivos.
Por isso, estou consciente de que o falecimento do Paulo Jorge, é mais meu mambo pessoal do que uma questão nacional. Eu mesmo se tivesse um bocadinho mais decoro ficaria com estas considerações só para mim, conjuntamente com minhas outras maleitas privadas. Mas teimo em retirar do tempo passado o que para mim dá conteúdo real ao presente e ouso pensar que haja quem queira relembrar o Paulo Jorge, nosso caminheiro diplomático. Mas desse papel que o Paulo desempenhou concretamente, eu não vou longe. A sua biografia política é obra para Historiadores.
Estou muito aquém daquilo que no essencial foi a atribulada vida do Paulo Jorge, enquanto combatente da liberdade, desde os anos de 1959 em que lhe conheci, Presidente; mas da Casa dos Estudantes do Império, não se vá fabular em equívocos maquiavélicos.
Nesta minha saudade minhas pretensões são modestas. Infinitamente. Devia limitar-me ao que reputo de essencial. E hesito em denunciá-lo. Vão-me criticar, se calhar com toda a razão, ainda mais nesta hora de tão grande transcendência. Receio demais as reacções das pessoas desafectas às questões simples e vulgares.
No entanto, tenho que ser coerente. A minha confissão é simples e comezinha e sei que pode levar as pessoas sérias a sentirem-se defraudadas. Mas confesso que esta é a minha única verdade. Era através dela que nos últimos tempos me reencontrava regularmente com o Paulo Jorge. – “Continua… estou a ler.” – Este Observatório perdeu o seu mais fiel leitor, ou, melhor, e parafraseando o malogrado Paulo, uma das suas mais fiéis “vitimas.”

Obviamente que as pessoas perceberão que esta é a minha razão aparente. A real, decididamente, é outra. Paulo Jorge, era meu kamba ria mute ibatu. Para quem não gosta de quimbundar, ele era, um aliado para a vida. Observávamos a vida através dos mesmos dirigíveis.

Massamá, 28 de Junho de 2010.