terça-feira, novembro 11, 2008

Um texto do Manuel Rui que "gamei" por aí...


OBAMA E UM ACTO DE CULTURA UNIVERSAL


Manuel Rui Monteiro


poeta angolano

Eu sempre me confundi na realidade com a utopia. Ou na insatisfação constante como forma quase de fingir felicidade na busca, na procura e imitação de coisas muito simples como o voar dos pássaros, o declinar do sol, o brilho das estrelas e o mistério das conchas que aconteciam com os meus pés à beira mar na areia. Sempre não me conseguindo encontrar com o paraíso do infinitamente bom e infinitamente belo para todos, quase desinfinitando a morte que é o único lugar infinito mas parte da vida, o infinitamente belo que até poderia ser um contraste com o infinitamente bom que sempre para mim ficaram sem ser, iguais à inexistência ou à infelicidade de não procurar mais nada, muito antes da nostalgia ou depois da saudade da morte.
Afinal viver é também não imaginar aquilo que pode acontecer enquanto estamos vivos. Só que eu nunca pensei que em vida, para além de tanta coisa que estava, ainda que muito longe, mas no horizonte por detrás da noite e da nuvem, pudesse ainda ter vivido sonhos, porque a minha geração viveu sonhos depois de os ter sonhado no passa-palavra de muitos silêncios. E também viveu a morte de muita alegria triste.
Mas agora era demais. Numa data e hora em que um grande amigo meu fazia anos. Quatro de Novembro. Eu a telefonar-lhe e ele quase ou mesmo esquecido do seu aniversário por causa de OBAMA.
Era algo que nos tocava e falámos ao telefone. Porque era uma coisa que estava impensada no nosso tempo. A utopia tinha ultrapassado a nossa imaginação. Já não era tanto uma eleição ou uma vitória. Fazia semanas que vivíamos a novidade. Principalmente porque OBAMA falara mais ou menos que se mudarmos a sala podemos mudar a casa; e se mudarmos a casa podemos mudar a rua; e se mudarmos a rua podemos mudar a cidade; e se mudarmos a cidade podemos mudar o estado; e se mudarmos o estado podemos mudar o País; e se mudarmos o País podemos mudar o mundo. OBAMA, em gesto de sagrado, no discurso de Filadélfia, tirou o pé do tiro do reverendo Jeremiah Wright. Embora o reverendo tivesse razão mas era uma razão da memória e da injustiça. Uma razão sobre os que haviam sido negados como pessoas, deixando suor e sangue nas plantações de tabaco e açúcar. Uma razão que podia ser entendida como rancor.
Nesse discurso, OBAMA trouxe uma utopia ligando a jovem Ashley e um mais velho que estava ali por Ashley estar.
No dia e hora em que escrevo este texto ainda não sei se OBAMA ganhou. Mas não é tanto por isso que estou a escrever. É mais por causa do outro que nunca percebeu que eu existo e ele só pode ser também se deixar de estar assim para podermos ser todos.
OBAMA tem um significado do maior acto de cultura universal do início deste século. No século passado, quem tinha televisão ficou uma noite inteira à espera que um homem pisasse a lua.
Neste princípio de século, OBAMA conseguiu criar uma energia, um astral de muitas mãos inteiras pelo pensamento de pessoas de todas as partes do mundo, numa corrente parecida com uma constelação de paz sem fronteiras. E Isso é um acto de cultura que vai ficar.
Não importa que este Messias traga milagres. Importa é o milagre cultural de pôr uma boa parte do mundo inteiro a olhar para ele como um salvador e perder uma noite só a olhar para um televisor como se OBAMA fosse uma madrugada.
No século passado, foram à lua. Agora OBAMA parece que desceu da lua e chegou à terra.
No século passado foi Mandela.
Mas antes de Mandela, o reverendo Luter King já tinha orado que tinha um sonho. O reverendo foi assassinado por causa do sonho.
Mandela tornou realidade um bocado do sonho do reverendo. Por cima de tanta memória que sobrou para os blues.
OBAMA acrescenta mais um bocado de realidade ao sonho do reverendo.
Como Agostinho Neto deixou escrito:
E DO DRAMA INTENSO


DUMA VIDA IMENSA E ÚTIL


RESULTOU CERTEZA
AS MINHAS MÃOS COLOCARAM PEDRAS


NOS ALICERCES DO MUNDO


MEREÇO O MEU PEDAÇO DE PÃO.
manuel rui

sábado, novembro 08, 2008

Martin Luther King



"Hoje, na noite do mundo e na esperança da Boa Nova, eu afirmo com audácia minha fé no futuro da humanidade. Recuso crer que as circunstâncias actuais tornem os homens incapazes de fazer uma terra melhor. Recuso crer que o ser humano não seja mais do que um boneco de palha agitado pela corrente da vida, sem ter a possibilidade de influir minimamente no curso dos acontecimentos. Recuso-me a partilhar a opinião dos que pretendem que o homem está de tal maneira prisioneiro da noite sem estrelas, da guerra e do racismo, que a aurora luminosa da paz e da fraternidade não possa nunca tornar-se realidade. Recuso fazer minha a predição cínica daqueles que dizem que os povos mergulharão, um após outro, no turbilhão do militarismo, até o inferno da destruição termonuclear. Eu creio que a verdade e o amor incondicionais terão efectivamente a última palavra. A vida, ainda que provisoriamente derrotada, é sempre mais forte que a morte. Eu creio firmemente que, mesmo no meio das bombas que explodem e dos canhões que troam, permanece a esperança de um amanhã radioso. Ouso crer que, um dia, todos os habitantes da terra poderão receber três refeições por dia para a vida de seu corpo, a educação e a cultura para a saúde de seu espírito, a igualdade e a liberdade para a vida de seus corações. Creio, igualmente, que um dia toda a humanidade reconhecerá em Deus a fonte do seu amor. Creio que a bondade salvadora e pacífica um dia será lei. O lobo e o cordeiro poderão repousar juntos, todo homem poderá sentar-se sob a sua figueira, na sua vinha e ninguém terá motivo para ter medo. Creio firmemente que triunfaremos." (Martin Luther King)

segunda-feira, outubro 27, 2008

Faltava aqui uma fotocópia do Pacheco Pereira na lusofonia!

Na minha biblioteca, que nem sequer é particularmente valiosa, há muitíssimo mais títulos do que em todas as livravrias angolanas juntas"- José Eduardo Agualusa
Angolense (original)

quinta-feira, setembro 11, 2008

Pela boca morre o peixe!





Angola/Eleições: Resultados são "assustadores para a democracia", diz José Eduardo Agualusa
10 de Setembro de 2008, 16:31

Lisboa, 10 Set (Lusa) - O jornalista e escritor angolano José Eduardo Agualusa defendeu hoje que os resultados das eleições legislativas de sexta-feira em Angola são "assustadores para a democracia", com o espectro de um "pensamento político único" nos próximos anos.

Em declarações por telefone à Agência Lusa, Agualusa considerou que os resultados, apontando para uma vitória do MPLA com mais de 80 por cento, representam "um regresso ao partido único", com a desvantagem de, agora, ser legitimado pelo voto.

"Os resultados são assustadores e preocupantes. É um regresso ao partido único, só que através do voto. Não há democracia sem oposição. Não há correntes de pensamento no Parlamento, por excelência, a casa da discussão democrática", sublinhou Agualusa desde Bruxelas, onde participa, quinta-feira de manhã, num evento promovido pelo Parlamento Europeu.

Sobre esta questão, o porta voz do MPLA recusou hoje a possibilidade de a esmagadora vitória alcançada nas eleições legislativas de sexta-feira poder levar a um sistema virtual de partido único em Angola.

Respondendo aos jornalistas depois da declaração de vitória nas legislativas, o porta voz do MPLA, Norberto dos Santos "Kawata Kanawa", fez a comparação com a Europa, "onde as vitórias alargadas não conduzem a regressos dos partidos únicos", garantindo que "em Angola também será assim".

José Eduardo Agualusa, mostrando-se também "extremamente preocupado" com a pressa do reconhecimento da validade dos resultados, comparou, sem os pôr em causa, com uma eventual situação idêntica registada em Portugal ou noutro qualquer país europeu.

"Não acredito que ninguém ficasse preocupado. Os comentadores e jornalistas debateriam tudo até à exaustão. Só que é Angola... O resultado das eleições é um revés para a democracia e um pouco assustador. A grandeza da democracia está na diversidade de opinião e não na pobreza de pensamento", sustentou, aludindo ao facto de o futuro Parlamento angolano perder várias forças políticas.

Nesse sentido, Agualusa não deu qualquer importância ao facto de as principais forças da oposição ao MPLA não se terem unido em torno de um só objectivo, derrubar o partido no poder desde a independência, em 1975, defendendo que cada partido "tem a sua visão política".

"A oposição não tinha de se juntar, uma vez que cada partido tem a sua visão. Não concordo com essa ideia" de unificação da oposição para combater o poder do MPLA, explicou o jornalista e escritor angolano, lembrando que o Parlamento saído das eleições de 1992, as primeiras, era mais equilibrado.

De acordo com os últimos resultados, ainda provisórios, o MPLA tem mais de 80 por cento dos votos, enquanto a UNITA, principal partido da oposição, aparece em segundo lugar mas apenas com pouco mais de dez por cento dos votos.

sábado, agosto 16, 2008

A um poeta menor

1361 - A un Poeta Menor de 1899



Dejar un verso para la hora triste
que en el confin del día nos acecha,
ligar tu nombre a su doliente fecha
de oro y de vaga sombra. Eso quisiste.
!Con qué pasión, al declinar el día,
trabajarías el extraño verso
que, hasta la dispersión del universo,
la hora de extraño azul confirmaría!
No sé si lo lograste ni siquiera,
vago hermano mayor, si has existido,
pero estoy solo y quiero que el olvido
restituya a los días tu ligera
sombra para este ya cansado alarde
de unas palabras en que esté la tarde.

(Jorge Luis Borges)

domingo, julho 27, 2008

Maysa no Dundo





Esta foto foi tirada no Dundo, na Casa do Pessoal. O Dundo era a capital administrativa da Companhia de Diamantes de Angola, no leste de Angola.

Periodicamente, iam lá actuar as estrelas do momento. Esta foto será do início da década de 60.

O Rueda já tinha saído do Thilo's Combo, não sei, não conheço os outros músicos. A cantora é a Maysa Mataraso, que, como deves saber, era um must na época. Cantava coisas do tipo "A Noite de Meu Bem"... da Dolores Duran, por aí fora.

Cortesia de ViCky em :
http://guedelhudos.blogspot.com/