quinta-feira, setembro 10, 2015

SEGUNDO NASCIMENTO

SEGUNDO NASCIMENTO Depois que se romperam os sapatos, e deixei a gravata pior que uma rodilha no caixote do lixo, é que vi bem o céu. Um homem levantou a vista dos torrões e olhou para cima. Mil cadeias inúteis se quebraram. Mil caras, mil sorrisos, mil atitudes passaram. Mil crenças se apagaram. E dentro de mim mesmo surgi eu. Enquanto se perdeu a última falripa da sola do sapato e se esgarçou o fio de seda da gravata, saltei a outro mundo. Já não entendo as velhas relações nem amo as minhas velhas amizades. Tudo o que é dantes me aparece inodoro, insípido, incolor, sem significação. Já não tenho a noção de caminhar no meio de maltrapilhos. Não há mais eu e eles porque passou a haver unicamente nós. Os doutores, as madames e as meninas em série nunca mais me viram porque passam por mim sem me reconhecerem e eu não consigo distingui-los bem na galeria imensa do friso dos fantoches. Tenho a alma repleta de alegria e os braços cheios de força e o coração a transbordar amor. Bendita a miséria que rompeu os sapatos e esgarçou a gravata que abandonei no lixo e me fez ver o céu. Livre. Agora que deitei fora as lentes emprestadas, e mandei ao diabo as crenças emprestadas, e cuspi no altar das coisas consagradas, agora, sim: sou eu. Mário Dionísio de Anunciação em Novo Cancioneiro